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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


29.08.21

O que faz esta janela encerrada na minha mão?

Pergunta-se ele, pensando que alguém o ouve. Sempre que puxa de um livro, a poesia nasce,

Dorme,

Morre,

Nas palavras que escreve.

É tarde, meu amor, ouvem-se os apitos gemidos do teu corpo e, dentro dos gonzos da solidão, oiço os pássaros rio acima.

O corpo sofrido, amar-te antes que adormeça o dia, morra a noite

E,

Se escreva na tua mão o esplendor da inocência adormecida. Pensando melhor, amanhã, deixarei de semear as palavras da saudade,

Nunca.

Esquecerei aquele rio embriagado,

Cansado,

Triste de mim.

Há na tua sombra, o retracto da menina envenenada pelo desejo, num qualquer quarto de hotel, de terra em terra, de circo em circo, de mar em mar,

Amar-te; depois das doze horas,

O lençol espreguiça-se contra nós e, sentimos o peso das carícias que só os poetas sentem e, percebem. O palhaço rico, o palhaço pobre e o defunto, todos aos gritos de encontro à enxada da vaidade. Esqueço-me de acordar, levanto e vou de encontro ao cortinado ainda sonâmbulo e, aos nocturnos esqueletos, a luz que apaga a imagem que durante a noite,

Ela,

À noite o que é da noite.

As sílabas estonteantes, os gritos deste palhaço à muito embebido no éter málico das tempestades de Agosto,

Sinto-o,

Diz-me ela.

Tem quatro relógios, nenhum deles escreve as horas, faltam-lhes a fome que antes tinham e sentiam e, que hoje quase nada podem comer. Segundo a lâmpada do escritório deverão ser qualquer coisa como depois das vinte e três,

Horas,

Minutos,

Segundos de vida.

(Se escreva na tua mão o esplendor da inocência adormecida. Pensando melhor, amanhã, deixarei de semear as palavras da saudade,

Nunca.

Esquecerei aquele rio embriagado,

Cansado,

Triste de mim).

Os barcos, meu senhor, são para venda?

Para comer não serão eles, responde-lhe,

E muito bem, quem neste reino se alimenta de barcos?

O velho, o macaco e a tia.

O velho pensava que fodia,

O macaco,

Da tia,

Abram-se os alicerces da memória, escrevam-se as escrituras da terra adormecida, levantem-se os esqueletos da prefeitura,

E

Não!

Ninguém sobrevirá a este tremendo castigo; escrever

Depois da morte

E, viver.

Vive-se de quê?

Da sorte.

Envenenado pelo silêncio, ou

Sempre que quero

Foge.

Amanhã,

Hoje,

As cinco pedras do destino.

 

--------------

À noite o que é da noite.

As sílabas estonteantes, os gritos deste palhaço à muito embebido no éter málico das tempestades de Agosto,

Sinto-o,

 

Neste Agosto perdido.

Neste Agosto sofrido.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/08/2021


11.03.20

O tempo silencia os teus lábios de cereja adormecida,


Quando a nuvem da manhã,


Poisa docemente no teu sorriso;


Há palavras na tua boca,


Que absorvo com saudade,


E, nada me diz, que amanhã será uma manhã enfurecida pela tempestade.


Subo à sombra do teu olhar,


E, meu amor,


O cansaço da solidão deixou de acordar todas as manhãs.


Fumamos cigarros à janela,


Dentro de nós um volante de desejo,


Virado para a clarabóia entre muitas janelas,


Portas de entrada,


Escadas de acesso ao céu,


E, no entanto, o fumo alimenta-nos a saudade,


Porque lá longe,


Um barco de sofrimento, ruma em direcção ao mar.


É tarde,


A noite desce,


O holofote do silêncio, quase imparável, minúsculo, visto lá de cima,


Ruas, caminhos sem transeuntes, mendigos apressados,


Vagueando na memória.


STOP. O encarnado semáforo, cansado dos automóveis em fúria,


Correm apressadamente para Leste,


Nós, caminhamos para Oeste,


E, nunca percebemos as palavras que as gaivotas pronunciam,


Em voz baixa,


Com os filhos ao colo,


Sabes, meu amor?


Não.


Amanhã há palavras com mel para o almoço,


Dieta para o jantar,


E beijos ao pequeno-almoço;


Gostas?


Das nuvens da manhã?


Ou… dos pilares de areia que assombram a clarabóia?


Nunca percebi o silêncio quando passeia de mão dada com a ternura,


De uma tarde junto ao rio,


Ele, folheia um livro,


Ela, tira retractos aos pássaros,


E, porque te amo,


Também vagueio,


Junto ao rio,


Sem perceber o meu nome,


Que a noite me apelidou,


Depois do jantar,


Numa esplanada de gelo.


O ácido come-me, a mim, às palavras, como a Primavera,


Num pequeno quarto de hote,


Entre vidros,


Livros,


Palavras,


E, desenhos.


(aos depois)


Nada.


Brutal.


Os comprimidos ao pequeno-almoço.


Fim.


Amanhã, novo dia, nova morada, beijos,


Cansaços,


Abraços,


E, portas de entrada.


O amor é luz.


O amor são flores, árvores e, pássaros.


E pássaros disfarçados de beijos.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/03/2020


20.12.15

Neste porto onde me encontro fundeado pareço um pergaminho desgovernado,


As palavras fugindo para o Cais dos Afogados


Como se houvesse um silêncio em cada palavra escrita,


Deixei de pertencer ao meu corpo,


Deixei de ter corpo,


Para alimentar o desassossego da solidão,


Neste porto


Um infeliz marinheiro sem Pátria,


Em busca da sua embarcação…


Fundeada nos meus braços,


Carrego nos ombros a morte,


O infeliz destino de ser menino,


 


Carrego nos ombros a forca


Dos telhados de vidro…


E o triste destino.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 20 de Dezembro de 2015


20.11.15

Este triste rio


Que desabraça as suas margens


Que troca o silêncio da noite


Por gaivotas em papel


E barcos de sombra


Agacha-se quando a solidão brinca no vento


Sorri quando a melancolia voa sobre os coqueiros


Este triste rio


Que habita no meu peito


Não dorme


Não come…


Mas ama


E sofre


Como eu


Uma caravela sem destino


No estrelar do desejo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sexta-feira, 20 de Novembro de 2015


08.11.15

não sei quem és


porque me desejas


o que queres


aspiras


inspiras


deste meu corpo desajeitado


desassossegado


triste


abandonado


não sei quem és meu amor


não sei se és uma árvore


uma flor


não sei quem és


meu amor


quando o dia se alicerça nos teus lábios


os beijos


a boca semeada na seara distante


o infinito


longínquo


distante


de mim


de ti


meu amor


senti


sem ti


o infinito


desgosto


da madrugada ente soníferas equações


e seios desnudos


camuflados na espelunca cânfora manhã indivisa


o sono


a brisa


em ti


e de mim


um abraço…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 8 de Novembro de 2015


08.10.15

Invento as lágrimas da solidão


Sobre o papel amarrotado da paixão,


O significado da morte esvaece-se no corpo de um sonâmbulo,


O mar que desenhei no teu olhar…


Não existe mais,


Nem o mar,


Não existe mais,


Nem o teu olhar,


 


Invento as lágrimas da solidão


Antes do regresso da noite vestida de canção,


Perdeu-se nas palavras adversas, perdeu-se nas planícies submersas…


Dos jardins suspensos da madrugada,


 


Visivelmente cansado…


 


Inventar objectos estranhos como as lágrimas da solidão


Em combustão,


Sobre o papel amarrotado da paixão,


Visivelmente cansado,


Sem destino,


Sem uma mão,


Caneta…


Para escrever no coração da tristeza…


 


Este menino,


Visivelmente cansado,


Sem destino…


Dorme docemente na sombra do abismo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 8 de Outubro de 2015


29.08.15

desenho_30_08_2015.jpg


(desenho Francisco Luís Fontinha – Agosto/2015)


 


Deixou de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,


Deixaram de escrever as palavras do vento estas mãos esfarrapadas,


Longínquas do olhar da madrugada,


O medo alicerça-se ao peito, as facas do silêncio grunham como as serpentes envenenadas pela noite,


O tédio quando esqueço a solidão e construo círculos de luz nos teus seios…


O teu corpo desabitado, encurralado nas cordas de nylon dos Oceanos mendigados,


E não consigo perceber o amor das flores desenhadas nos teus lábios perfumados,


Como nunca percebi o desejo em mim do estranho luar…


E este mar, meu amor,


Crucificado nas espingardas do coração abandonado,


Semeado nas searas do cansaço…


É triste, meu amor…


Deixar de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,


É triste, meu amor…


Cair sobre mim o tecto do sofrimento junto ao Tejo,


E os Cacilheiros na minha boca… sufocando-me com o relógio enforcado nas pontes do Cacimbo fugindo do pôr-do-sol…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Agosto de 2015


 


31.05.15

Este negro espelho


Abraçado à solidão do cansaço


O sonho embainhado nos alicerces da noite


Como se a noite fosse o cobertor


Protector


Da alegria


Não sentida


A vida a escoar-se montanha abaixo


E o rio enforcado no socalco esquecido pelo homem


Dos sonhos


Entre sonhos


A poeira das fotografias,


 


Abandonadas


E perdidas,


 


Este negro espelho


Sem coração


Que o dia entristece


E aquece


Na lareira da dor,


 


E há uma fogueira no meu peito


E há um esconderijo nos meus braços


Prateados


Das doces pálpebras do destino,


 


O menino,


 


Este negro espelho


Espantalho do sofrimento


Que só o sono consegue alimentar


E na lareira da dor


As cinzas parcas dos eléctricos


A cidade ignora-me


Mas não me importo com as cidades


Os rios


O mar


Os barcos


O menino…


Perdido na esperança de acordar.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 31 de Maio de 2015


16.03.15

A melodia nocturna da aventura


os esteios do silêncio abraçados ao cansaço


desespero


e espero


que acorde o dia


sem amargura


sem... sem cortinados de penumbra


baloiçando no pescoço da saudade


os cigarros entre as estrelas


os dedos mergulhados nos teus seios


acesos


em espuma


palavras


números


portas


e ruas


despidas


nuas


e sinto do outro lado do rio


os guindastes da solidão


voando como gaivotas


livres


como os barcos


sem marinheiros


sem...


acesos


os ossos em papel


das migalhas invisíveis do voo


o infinito


destino


das mãos


quando alguém desiste do luar


e sem... acesos


os ossos


o infinito destino


das mãos no leito do sono...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 16 de Março de 2015


31.01.15

Pintura_55_A1_Nova.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Roubaste-me o sorriso nocturno dos beijos em flor


pegaste nas minhas palavras e transformaste-as em solitárias andorinhas


depois


trouxeste a Primavera


e o amor


do poema


de amar o poema


e sentir no peito as equações do destino...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Janeiro de 2015


 

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