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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.03.20

O tempo que passa,


Desassossega o desespero,


Finto a vaidade,


Perco o emprego,


Vagueio na distância,


Ilumino-me,


E, perco-me no cansaço dia.


Tenho pena,


Daqueles que por lá passaram,


E, desavergonhadamente,


Lá continuam,


Esperando as pedras que caiem do silêncio,


Aos poucos,


Em cio,


Os pássaros loucos,


No desvaneio da solidão.


O tempo passa,


A fome aperta,


Neste desespero acontecimento,


Dos novos marinheiros,


Entre sexos e chapas de zinco,


O rio, comem-me,


Quando a maré se abraça ao cansaço.


Todas as vezes, algumas, o tempo passa,


O mar envaidece-se de sonolências madrugadas,


Calcárias manhãs de Primavera,


Ao deitar,


Sobre o travesseiro da insónia,


Esqueço-me de acordar,


Tomo café, todos os dias,


E, vejo no jornal, a minha foto,


Necrologia,


Perdidos e achados,


Despeço-me,


Até logo,


Abraços.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


28/03/2020


12.01.20

(lavar a loiça, coisa e tal, arrumar a cozinha… decididamente, não tenho muito jeito para isto; sou melhor na poesia)


 


 


As cobras que habitam o meu jardim,


São silêncios de solidão,


São palavras suspensas na minha mão,


Dos livros absorvidos por mim.


As cobras que habitam o meu jardim,


São nuvens de espuma,


Brancura da vida,


No mar da despedida.


São transeuntes embriagados,


Ninhos de pássaro abandonados,


As cobras que habitam o meu jardim,


São a esperança de viver,


Estar calado,


Quando a Primavera acordar,


Sorrir,


E caminhar sobre os parêntesis do cansaço.


As cobras,


Que habitam o meu jardim,


São flores amestradas,


Papoilas envenenadas,


Pela geada,


Pela sombra da calçada.


As cobras,


Que habitam,


O meu jardim,


São lágrimas.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


12-01-2020


30.07.17

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Um raio de luz desce e poisa-lhe na mão amachucada pela alvorada,


O silêncio frio da despedida…


Quando o Tejo se esconde na madrugada,


Os barcos da solidão, cansados de esperar pela partida,


Uma casa abandonada, recheada de flores adormecidas,


Canções de amor, palavras esquecidas…


Não mão do escritor,


Sempre tive sonhos,


Viver sobre o mar da esperança,


Levantar bem alto o levante sofrido da escuridão…


Quando criança,


Pegava num pedaço de papel…


E escrevia-te, não percebendo que não existias…


Amanhã nova caminhada,


Amanhã nova estória…


Ensanguentada,


Liberta da memória,


E dos pilares de areia da saudade,


Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Vive-se vivendo na tentativa de partir…


E nada deixar sobre a mesa… sobre a mesa sofrida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Julho de 2017


11.07.17

A casa descalça no sombrio destino da pele camuflada pelo capim da saudade,


O cacimbo poisa docemente no teu sorriso, como uma gaivota de vento enrolada na árvore da solidão,


Foge de mim e abraça-se à liberdade…


Até que a noite se veste de negro…. E no chão


Queimado pelo suor do teu cabelo, levita na imensidão do Universo…


Escrevo-te este pobre verso,


Sem saber se saberás ler,


Ou escrever,


 


Um tentáculo de papel absorve-te na ribeira da montanha adormecida,


Sinto o levante amante que sou nas tuas lágrimas,


Como uma pedra ressequida…


Do velho xisto exposto ao Sol da manhã embainhada na espada da serpente envenenada pelo silêncio,


E dou-me conta que sou apenas eu neste inferno…


 


Viver é passar os dias aqui sentado a olhar o mar suicidado numa tarde de Verão,


Viver é passear-me com o teu caderno debaixo do braço esquerdo,


Onde guardo a tua carta de despedida…


E o teu pedido de partir,


 


E a fuga é uma miragem com vista para o mar…


 


Assombrado,


 


Reconheço que da tua ausência nasceu um poema parvo,


Tão parvo que tenho vergonha de o transcrever para o papel…


 


Encerro docemente o caderno na minha mão e escondo-me de ti.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Julho de 2017


26.06.17

Percorro este caminho de pedras envenenadas,


Cada palavra escrita é um novo suicídio…


A aldeia de chocolate evapora-se ao pôr-do-sol,


O teu corpo permanece impávido com a minha presença,


Aventuro-me no teu cabelo…


Fresco ao nascer do sol,


Um livro poisa nos teus lábios recheados de poemas e beijos abstractos,


Sinto-o…, sinto-o quando acordo e apenas vejo a tua sombra


Na penumbra dos meus aposentos empoeirados,


Não me vês, não pertences aos esqueletos de prata


Que brincam na minha biblioteca,


E, no entanto, sei que existe em mim a tua pobre sombra,


Ao fundo do horizonte um rio que chora a tua partida,


Apenas cruzo os braços e deixo-te partir como uma gaivota sobrevoando o mar…


Deixo-te ir…


E canto uma canção para alegrar os arbustos em teu redor,


O Tejo é o Tejo…


A ponte que te iluminava nas noites inquietas,


Os cacilheiros apressados e tu indiferente aos seus anseios…


Não tenho pena nem sinto tristeza,


Já tive e vi muitos barcos…


Reais, de papel… e de esferovite,


Desenhei-te pela última vez de costas para a cidade,


Sentias-te cansada das minhas mãos…


E das minhas palavras,


Percorro este caminho…


De pedras…


Envenenadas pelo silêncio.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 26 de Junho de 2017


29.11.14

A astronomia loucura do profeta


as paredes encarceradas do guerreiro desconhecido


à força e pela força


o cansaço espaço de luz nos confins rochedos da melancolia


a astronomia


embriagada pelos momentos sem pressa


numa carta de despedida


sem palavras


ou... ou remetente


uma aventura na escuridão da cama do sonambulismo


os cigarros absorvidos pela morte do fumo colorido...


e um caixão de espuma poisado nos alicerces da canção de revolta


 


cessem este destino


e o silêncio


da atmosfera encarnada em comestíveis soluços de desejo


a astronomia loucura do profeta


sentado em frente ao espelho da agonia


sem sentido


sem... sem melodia


antes de acordar o dia


 


o vento sofrido


o corpo mordido pelos meus dedos


o odor embalsamado do prazer


em finíssimos gemidos


e uivos...


e no entanto


não existem ruas na minha mão


casas


flores


nada


apenas... um rio adormecido numa fotografia


e um Domingo desorganizado e despido...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Novembro de 2014


22.11.14

Queima o filme negro da tua vida,


ensina aos teus ossos as boas práticas de comer,


sem nunca mencionares o nome da despedida,


nem na rua invisível do teu corpo,


imagina o vento fatiado abraçando-se aos teus seios,


escrevendo neles...


Amo-te...


sem gaguejares,


sem medo de chorar,


os abutres cardumes da insónia


que se alicerçam aos teus cabelos de luar,


queima o filme negro da tua vida... como quem pronuncia pela última vez a palavra amar!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 22 de Novembro de 2014


06.04.14

Desenhava a tua voz no meu cansaço, sentia as tuas palavras amorfas nos meus braços, e tínhamos a consciência do término do dia, as horas para nós apenas significavam sombras, dispersos espinhos de uma rosa em decomposição, e havia dentro de nós o abismo disfarçado de melancolia, acordávamos tristes, dormíamos embrulhados em pequenas lâminas de prazer, sabia que o teu corpo flutuava numa janela envidraçada, virada para o Tejo, desenhava nas paredes do teu cabelo o afago da despedida, partias, voltavas, partias..., como os barcos a vapor procurando marinheiros, como lareiras acesas quando o doce Inverno invadia a cidade recheada de estrelas com sabor a embriaguez, lá fora


Preciso de ti, meu amor, ouvia-te enquanto te olhavas no espelho da saudade,


Pertencíamos às fogueiras imaginárias do quarto penumbra que nos servia de esconderijo, habitávamos no exíguo refúgio da literatura barata, pobre, esfomeada, e tu


Preciso de ti, meu amor,


Havia arbustos escondidos nas tuas mãos, pedaços de chuva miudinha nas tuas nobre pálpebras e


Preciso...


E quando percebíamos que a noite tinha sido engolida pela boca do caranguejo de mil patas..., tu, tu


Preciso de ti, meu amor, eu, eu ouvia-te do outro lado a caverna iluminada por morcegos, alguns vultos que nunca cheguei a conhecer, e claro, pelos teus beijos disfarçados de desejo, sentia-me perfeitamente feliz, quando não o era, sentia-me perfeitamente humano, quando não o era, e desenhava na tua voz as palavras que nunca escrevi, dizia-te que te amava... e não te amava, dizia-te que te desejava...


Preciso,


E...,


Preciso meu amor,


E nunca te desejei, e nunca foste a âncora que aprisionava o meu corpo ao cais das Colunas, eu regressava, sentia o peso dos caixotes em madeira, lá dentro quase nada, lá dentro... apenas, apenas objectos e memórias, e dor, e sofrimento com tentáculos,


E,


Preciso de ti, meu amor,


Um cigarro, um cigarro cor de amendoim sobre a mesa do café, ouvia um CD com os poemas de “AL Berto na Casa Fernando Pessoa”..., e


Preci...


E esperava que o mar entrasse em mim, que nunca entrou, que nunca me levou, apenas...


Te trouxe?


Regressei como um sonâmbulo amachucado, um menino que trazia na algibeira sonhos, calções e que acreditava no silêncio da gaivota pergaminho que dormia todos os dias na mesa da sala de jantar, perguntava


Precisam de mim?


E o amor respondia que sim, que precisava, que


Te trouxe?


Era meia-noite e o horizonte encerrou-se como os cortinados no Teatro, fim da peça, as personagens evaporavam-se à medida que tu


Precisas de mim, meu amor?


E eu, e eu...


Não, não quero regressar, não, não preciso de ti, meu amor, porque desenhei a tua voz no meu cansaço...





Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 6 de Março de 2014


24.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Despeço-me da vida inventando uma outra forma de viver, despeço-me dos barcos reais e com âncoras e com correntes e com pulmões e com mãos e com lábios e com beijos, e no entanto a vida gira como uma roda dentada, fria, escura... despeço-me das árvores levando a saudade dos pássaros, despeço-me dos cigarros levando a saudade dos cigarros, despeço-me do amor levando na algibeira o verdadeiro amor,


O medo de dizer


Amo-te,


De dizer que dentro dos corações de xisto vivem mulheres que desejam palavras, beijos... carinhos... sombras e marés, cortinados, bebés, de dizer


Amo-te,


Palavra difícil, a palavra mais difícil de pronunciar, engasgo-me e não o consigo, escrevo-a como castigo cem vezes na ardósia da escuridão,


(Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te...)


E depois como o magala que não sabe qual é a sua mão direita


(o senhor trocou-mas)


Finjo que os bonecos são pessoas, finjo que as pessoas são corações apaixonados, finjo que sou feliz não sendo e nunca percebendo o que é a felicidade, o orgasmo literário das palavras em suspensão dilacerem-se nas cordas do estendal que habita no quintal, e alicerçam-se a mim mil e quinhentas garrafas de uísque reserva de quinze anos, apaixonei-me por uma trapezista pobre, quis fugir com ela e amava-a...


Os meus amigos desejam-me bom Natal, eu detesto o Natal e o Bom Natal, finjo que gosto e retribuo... mas confesso que não tenho alegria para pensar no Natal, no ano novo que se aproxima, um ano de merda como este final de ano, a vida de que me despeço deixa de fazer sentido, as palavras não existem, os desenhos são monstros comparados com a dor de quem sofre, chora e sinto lágrimas no quarto ao lado do meu, oiço-os cochicharem como gaivotas envenenadas, doces, medos despertam passados enterrados, lápides escondem-se na minha algibeira com três tristes chocolates... finjo fugir e covardemente... choro em silêncio,


(o senhor trocou-mas)


Sou transportado para o recreio da escola primária, desastradamente parto um dos vidro da janela da sala de aula com a bola de futebol do meu amigo que tem noção que eu sou um nabo em termos futebolísticos, nada percebo e tudo transformo em... cacos, pedaços de vidro...


(nos grupos de poesia onde publico dizem que os meus poemas são belos, tirando isso... acham-nos uma merda)


Troco de vida, de fingimento, de dor... agora... já consigo chorar, sofrer, sentir os pregos da desgraçada a penetrarem-se em mim...


(Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te...)


Troco de vida, de fingimento, de dor... agora... já consigo chorar, sofrer, sentir os pregos da desgraçada a penetrarem-se em mim... nos grupos de poesia onde publico os meus poemas... adoram-me, sinto-me um sobretudo pendurado num cabide dentro de um guarda-fato, oiço a minha sombra sobre a sombra dela, são apenas um corpo e deslizam como rolamentos calçada abaixo,


O Tejo,


Havia prostitutos à procura de engate, sentava-me numa esplanada, lia o “Doutor Jivago – Boris Pasternak”, e escrevia num caderno de capa dura e negra as palavras doces das bocas doiradas dos transeuntes e de vez em quando


O Alfredo colocava nos cornos da rena as lâmpadas de Natal, piscavam, alimentavam vozes embriagadas com o uísque de quinze anos, recordo-me hoje da morte dos livros que deixei ficar na prateleira por pobreza, insónia, toques de campainha a pedirem-me


O vizinho tem uma pitada de sal que me empreste?


E eu respondo-lhe


O vizinho nada tem,


O Tejo,


Tu toda nua, nos teus seios coloco os enfeites da árvore de Natal, danças, saltitas sobre os trapézios da infância, desejas-me boa noite e as melhoras do meu pai...


Não percebo a cor dos teus olhos,


(Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te...)


Despeço-me da vida inventando uma outra forma de viver, despeço-me dos barcos reais e com âncoras e com correntes e com pulmões e com mãos e com asas e com plumas e com mini-saia e com rímel e com... e com um metro de superfície a martelar-me no olhar as sílabas estonteantes dos dúcteis talheres de prata,


Covarde,


sinto-o quando a olho,


Neste momento bebo sem perceber que amanhã o livro pode arder na lareira do sofrimento, sem perceber


Porquê?


Despeço-me da vida inventando uma outra forma de viver, despeço-me dos barcos reais e com âncoras e com correntes e com pulmões e com mãos...


(Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te, Eu amo-te...)


Antes que seja noite e todos os que eu amo...


Morram.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013



02.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


eu me confesso aos teus secretos desejos


oiço em ti a sinfonia melancólica da paixão louca que acorda as palavras poucas


eu me confesso aos teus olhos de espiga solitária


no infinito cereal pergaminho


vejo e sinto os animais vadios


e os pássaros mendigos


eu me confesso sabendo que tens em ti a diurna estória sem sombras


ou os pequenos laços no pescoço da morte


ou da lápide o sofrimento ensanguentado beijo da despedida


a partida é uma forma de viver


ser feliz


e sonhar com as madrugadas de alecrim


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 2 de Outubro de 2013


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