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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.10.11

A minha irmã Teresa sentava-se no sofá e esquecia-se que existia, e pela janela vinham as lágrimas das roseiras que choravam no canteiro junto à porta de entrada,


A minha irmã Teresa ancorada à almofada que a minha avó Margarida levou noites de insónia e horas de inferno agarrada à agulha do croché e a um finíssimos fio de lã enrolado nos dedos,


Batiam à porta e ela cerrava os olhos e com meia dúzia de palavras suspensas nos lábios,


- Se vens pedir-me desculpa é melhor dares meia volta e descres a calçada, e continuava com o mesmo discurso de sempre que não admitia traições e que era mulher de amar um só homem, e era sempre assim que batiam à porta,


Truz truz truz,


- Deixa-me em paz e vai-te embora,


E do lado de fora junto às roseiras que choravam o senhor Alberto e carteiro de profissão admirado com as palavras que lhe chegavam de dentro da casa seminua e caquética virada para o rio,


- Se vens pedir-me desculpa é melhor regressares e desceres a calçada e mergulhares no rio, cansei-me das tuas mentiras esfarrapadas como silêncios de árvore quando a geada lhes poisa no inverno, cansei-me do sofá que coxeia durante a noite, cansei-me das roseiras que choram e não me deixam adormecer, e cansei-me de quando bates à porta no meio da noite,


A minha irmã Teresa uma parvalhona e menina mimada,


- Sou eu menina Teresa o Alberto,


E ela numa busca rápida a todos os momentos passados nos quartos de pensão nenhum Alberto, lembrava-se do Rui e do João e do Pedro,


- Alberto qual Alberto?


Tinha saudades do Manuel e trazia junto ao seio esquerdo uma tatuagem do Carlos mas Alberto… nenhum Alberto na sua vida,


- Alberto qual Alberto?


Ela cansada do sofá e cansada da vida e cansada da almofada da avó Margarida, ela cansada do sofá que todos os dias encolhia e adormecia debaixo da mesinha onde brincava um crocodilo,


- O carteiro menina Teresa,


E o crocodilo lançava bolinhas de sabão contra as sombras do rodapé,


- Ai… desculpe,


E o crocodilo com os dentes de marfim saltitando entre as bolinhas de sabão e a minha irmã Teresa sentava-se no sofá e esquecia-se que existia, e pela janela vinham as lágrimas das roseiras que choravam no canteiro junto à porta de entrada,


- Não faz mal respondia com voz amorfa o carteiro,


Ai… desculpe mas cansei-me do sofá coxo e das fendas da parede da sala que me olham como se fossem o espelho do meu guarda-fato e quando passo por ele cerro os olhos, e quando passo por ele sinto que me acaricia nas lágrimas das roseiras que choram no canteiro junto à porta de entrada,


- A minha irmã é uma parvalhona desabafava o crocodilo antes de baixar as persianas da noite e deitar a cabecinha sobre uma almofada de penas de avestruz,


- Não faz mal menina Teresa, não faz mal,


E cansei-me da vida e cansei-me do sofá coxo e cansei-me do crocodilo e cansei-me,


- Cansei-me de mim,


E cansei-me das palavras que saem das minhas mãos,


A minha irmã Teresa levanta-se e ouve-se um estalinho que saltava da garganta do sofá e abre a porta e o Alberto diz-lhe,


- Tenho carta para si menina Teresa,


Ela agacha-se e com um lenço de seda limpa as lágrimas do rosto das roseiras que viviam no canteiro junto à porta de entrada,


E cansei-me das palavras que saem das minhas mãos,


- Cansada das tuas mentiras esfarrapadas,


Cansei-me de mim e do crocodilo com dentes de marfim.


 


(texto de ficção)


01.08.11

O caos entra-lhe pela janela e os objetos levitam no compasso de espera entre o cortinado e a sombra na parede, uma abelha poisa-lhe na mão e avisa-o que notícia grave está para chegar, ele encolhe os ombros, dá uma palmada na abelha e esta some-se pela claridade da casa de banho, da sanita começam a emergir moedas de cinco cêntimos e ele na espectativa que brevemente surjam notas de quinhentos euros, diamantes e chã da pérsia, ou quem sabe um poço de petróleo,


Sonhou que dentro do crocodilo em pau-preto existia um fundo falso onde habitavam diamantes, pega no bicho, deita-o sobre a mesa de pernas para o ar e de martelo e formão começa a esquartejar o animal em pedacinhos, a autopsia a meio quando o animal subtrai-se em ais, um pano embebido em clorofórmio resolve-lhe o problema e o bicho volta a deitar a cabeça sobre a mesa da sala e fica em silêncio, e ele pensava onde diabo estará o fundo falso com os diamantes, e quanto mais procurava mais buraquinhos o bicho ficava e quando percebe o bicho desfeito em faúlha e cinza, os dentes de marfim poisados no cinzeiro e quanto a diamantes, quanto a diamantes nem de fantasia,


Mas eu sonhei, lamentava-se ele, espera aí, não seriam as conchas que trouxemos de S. Tomé e príncipe?, a tentar trazer o sonho à realidade, mas aos poucos desistia porque dentro de conchas não se podem esconder diamantes e estas só servem para ouvir o mar,


Vai à cozinha, procura a piaçaba e a pá do lixo e num abrir e fechar de olhos esconde os restos mortais do animal, embrulha-os em flanela cor de uva apodrecida e lança-os ao mar onde se passeiam barcos com remela nos olhos e pingos no nariz, e queria a deus que eles não descubram que esquartejei o bicho com mais de sessenta anos, segredava ele aos barcos,


Entra em casa e corre para a casa de banho, monta guarda à sanita não vá aparecer alguma nota de quinhentos euros e ninguém para a receber, e depois de tanto refletir muda-se de armas e bagagem para a casa de banho; onde come, onde dorme, e onde passa o dia.


Uma semana depois ainda nenhuma deu à costa, e os barcos continuam a passear de remela nos olhos e pingo no nariz, e de vez em quando um submarino sai da sanita, vai à janela e deita um sorriso às nuvens estacionadas sobre o mar,


O caos entra-lhe pela janela e os objetos levitam no compasso de espera entre o cortinado e a sombra na parede,


E das notas nem sinal.


02.05.11

 



 


Jacarandá-africano ou mpingo, e o bicho empanturrado de bolachas com três dentes de marfim partidos, e o menino dá, o menino dá, e o menino à espera no portão pela chegada do avô Domingos, e o bicho preso por um cordel encostado às mangueiras, empanturrado, cansado de dar voltas ao quintal, o menino a contar os carros em direcção ao Grafanil, e o Grafanil já ali, com os bracinhos suspensos no pescoço do avô Domingos, o menino dá comida ao bicho, e o bicho acenava com a cabeça que não, não mais comida, e o menino teimoso a enfiar bolachas e restos de pão.


O avô Domingos estafado, cansado, o avô Domingos com um machimbombo preso às mãos a passear as ruas de Luanda, e todos os dias as mesmas ruas, e todos os dias o menino ao portão à espera de um abraço e a contar os carros em direcção ao Grafanil, e todos os dias o crocodilo em Jacarandá-africano com a boca recheada de bolachas, o menino dá, o menino dá comida ao bicho, e o bicho escondia-se na sombra do fim de tarde.


Jacarandá-africano ou mpingo, e o bicho empanturrado de bolachas com três dentes de marfim partidos, e o menino dá, o menino dá, e o menino à espera no portão pela chegada do avô Domingos, e o bicho vivo, hoje não bolachas nem restos de pão, o bicho hoje vivo, à espera da chegada do avô Domingos, e o avô Domingos ausente, deixou de entrar pelo portão, hoje não avô Domingos, hoje não carros em direcção ao Grafanil, hoje apenas um crocodilo em Jacarandá-africano que todos os dias diz ter saudades do menino e do avô Domingos.


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


2 de Maio de 2011


Alijó

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