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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.05.22

Percebíamos que o fogo iluminava

Os nossos corpos embriagados,

Percebíamos que o prazer,

De estarmos vivos,

Não eram sonhos sonhados…

Eram palavras de escrever,

Era a tua mão que voava

No meu silêncio sombreado,

 

Era a madrugada enforcada

Na manhã adormecida.

Percebíamos que dentro dos nossos corpos envenenados,

Saltitava o poema em desejo

Na noite assassinada.

Percebíamos que os nossos corpos envergonhados

Eram a água cansada,

Ou uma flor que acaba de morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/05/2022


28.10.15

Esqueci-me de amar-te


No esconderijo da noite


Dormias nos meus braços


Como dormiam os vampiros das searas envenenadas


Pegava na tua mão


Alicerçava-me a ela como se fosse uma âncora invisível


Para me aprisionar


Sempre


Eternamente sempre


E esqueci-me


Do esconderijo


Que habitava a noite


Amava-te sem o saber


Sabendo que te amava


E dormias


E pegavas na minha mão…


E sempre


Amanhã


Depois de amanhã…


O amor encastrado na montanha da solidão


Tinhas as pálpebras em combustão


Tinhas o silêncio suspenso nos teus lábios


E um beijo acordava na claridade do desejo


Sou um pedinte diplomado


Que não se cansa de encontrar o amor na madrugada


Quando há madrugada


Quando há o amor


O amor da madrugada


Sentias, acredito que sentias os meus olhos nos teus olhos,


Cegos


Esperando o regresso do alpendre abandonado


O mar


O mar, meu amor, dançando nas tuas coxas,


Saltando os muros de xisto da paixão


Que divide o prazer da ilusão


Amanhã


Depois de amanhã…


O amor ancorado aos insignificantes corpos de desilusão


O mar


E o amar


No sono da lentidão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 28 de Outubro de 2015


18.07.15

ipo_05_07_2015.png


 Desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó


 


Não me conheço neste espelho desventrado pela dor,


Não mereço o teu sorriso,


Misturado nos orgasmos em delírio com a minha ausência,


Com a minha dor,


Pertences ao silêncio das rochas apaixonadas,


Suspendo-me nos teus lábios,


Galgo as montanhas dos marinheiros sonolentos,


Sem rumo,


No espelho…


Impostor


Amor


Sem pertencer aos Oceanos de medusas desenhadas nos teus seios,


 


É tarde,


Não te pertenço,


Não me pertenço,


Sou um palhaço sem dono,


Um circo arruinado,


A arte…


Arde no meu peito de cerâmica envenenada,


E sem rumo,


 


Sou um falhado.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 18 de Julho de 2015


08.12.14

Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra


sem alma


sem coração


sem... sem barcos ao anoitecer,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


sem corpo


sem sombra...


 


não sabia que o teu nome


era apenas um silêncio


sem imagens


sons


ou... ou fotografias


em constante mutação,


 


não sabia


não sabia que o teu nome


era apenas uma assombração


uma cidade esquelética voando no pôr-do-sol,


 


(Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra)


 


como as pálpebras do poema antes de ser o poema,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


um soluço mastigado nas sílabas do Diabo...


não sabia


que... que o teu nome


é como a areia húmida


e o mar apaga todos os seus desenhos


como a morte... apaga todos os seus corpos...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014


16.07.14

A terra que te prometi, existirá?


o chão lapidado onde rolavam dois corpos de arame, como era o seu nome...


esqueci o significado de noite,


esqueci o horário nocturno das avenidas em flor,


a terra, a terra que te prometi... não, nunca, nunca mais a observei,


antes brincávamos como duas crianças em frente ao mar,


e hoje,


e hoje o chão lapidado onde habitavam os nossos corpos deixou de existir,


havia uma cama fictícia com duas lanternas de silêncio...


havia um apito que assinalava a nossa partida,


partir,


não regressar, nunca, e nunca mais a observei.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 16 de Julho de 2014


15.12.13



Foto de: A&M ART and Photos


 


Desprendem-se das nuvens os pregos negros da cidade dos cães, tinham-me dito que na rua dos Prazeres habitava uma janela com cortinados de areia, havia uma menina de cabelo doirado e no pulso..., sentíamos o vento dançar sobre a neblina madrugada,


No pulso as pulseiras das feridas cansadas,


A madrugada entretinha-se com um baralho de cartas, meia dúzia de azeitonas e algumas rodelas de linguiça..., havia chouriço assado e pão de centeio, música desgovernada que a menina com pulseiras das feridas cansadas deliciava-se a ouvir, encerrava os olhos e


Voava...


Sobre os plátanos maternos dos dias nublados o mar da saudade entrava-nos dentro da cabana com telhado de colmo, nunca vi a chuva dentro do corpo dela quando a roupa desaparecia do estendal e um emagrecido esqueleto de desejo deambulava em cima do cobertor de lã que alguém nos tinha oferecido, ainda muito antes de ela ser ela, ainda mesmo quando não tínhamos, ainda mesmo quando não usávamos...


Beijos, e margaridas nas jarras em porcelana,


E


Voava o cretino calendário com a fotografia do espantalho de palha, junto à eira uma pequena fogueira alimentava a canção dos grilos aflitos dentro da cratera terra onde brincavam espigas de milho, feijão e aqui e além...


O centeio vivia sufocado com as auroras boreais das latidas palavras caninas, o burro culminava a exuberante letra do poema abandonado, fotografias infinitas zurravam nas labaredas da fogueira que a eira gritava


São minhas, são minhas... são minhas as tontas palavras,


Ninguém se mexia, ninguém acreditava em fogueiras, círios e desenhos inscritos na docas árvores com espelhos de prata


Eu + Tu,


Dois parvos,


Amor de...


Outra parvoíce... amo-te... nunca mais...


(desprendem-se das nuvens os pregos negros da cidade dos cães, tinham-me dito que na rua dos Prazeres habitava uma janela com cortinados de areia, havia uma menina de cabelo doirado e no pulso)


Eu + Ele,


E


voava, e são minhas, são minhas... são minhas as tontas palavras, aquelas que escrevia no corpo dele enquanto o tempo morno


Morno?


Não, não morno...


Morto, matávamos o tempo escrevendo versos no corpo um do outro, ela dizia que as árvores estavam agoniadas com tantas


Tontas?


Não, não tontas, com tantas velhas inscrições...


Eu + Tu,


Será, não será, e uma seta aproveitava a esplanada da paixão e alojava-se no coração desenhado do velho tronco, a navalha entrava corpo adentro, a navalha recheava os telhados amaldiçoados das ruas com janelas...


E


Os cortinados


Da cidade


Da cidade dos cães, latidos, uivos, suspiros...


A paixão?


O amor morto depois de assassinado pela canção da menina com pulseiras... no pulso as pulseiras das feridas cansadas, e cansadas elas percebiam que éramos sombras à espera do desarrumado relógio de pulso, o mesmo que esteve presente na noite de núpcias, o mesmo que presenciou o primeiro “charro”, aquele que assistiu à primeira “chinesa”... aquele que acreditava na menina com pulseiras


Parvas,


Monas,


Tolices em palavras depois de mortas.


 


 


(não revisto - ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Dezembro de 2013



16.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer


não sendo eu um homem como os homens das bandeiras embriagadas


porque me procuram nas entranhas manhãs de cacimbo


eu escondido no zinco telhado do musseque alvorado


porque sou assim


um casebre sem esqueleto e ignorado


um imbecil que em tudo acredita


e que procuram como se fosse um objecto para reciclagem


usa-se


deita-se fora


e nasce em ti o dia ensanguentado das tristezas noites junto ao Mussulo


porque sou um um monstro vestido de negro


 


(como o dizem quando me chamam


e acordam


em todos os silêncios do medo...)


 


porque finjo que sou amado


porque acredito eu no amor


quando o amor é uma caravela à deriva no triste Oceano


porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer


porque sou um canino disfarçado de desenho animado


porque me dizem que sou um poema odiado


palavras da merda escritas por um gajo de merda


porque acredito


se nunca deveria acreditar nas manhãs sem nuvens


porque são falsas


e logo em seguida


ejaculam as gotinhas amargas da chuvinha colorida...


 


(como o dizem quando me chamam


e acordam


em todos os silêncios do medo...)


 


sou um gajo porreiro como o são todos os cadáveres da morgue do púbis amanhecer


porque sou um imbecil sentado num banco de jardim


espero as ripas madres em madeira apodrecida


finjo que sou amado


e todos o sabemos que não o sou


porque apenas pertenço aos corpos dilacerados


dos musseques adormecidos


doridos


mórbidos entre as espadas dos livros em poesia


e as palavras semeadas nas tuas coxas de terra fértil...


esperam as sementes da alegria


como se fossemos apenas vozes entrelaçadas como dedos em vaginas acorrentadas às sílabas inanimadas...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 16 de Novembro de 2013



14.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


prometidas equações de prata nos olhos da cidade agoniada


da boca os sinceros mergulhos de solidão


como simples quadrados traçados no térreo pavimento do desejo


há nela uma janela com vidros de sémen


que caminham


e vivem no Mosteiro da insónia


prometidas coisas


sem sentido sem sentido...


simples


simples anexos de chita


sobre o nu travesti que as coxas do silêncio absorvem antes de terminar o dia


e prometidas linhas de fino ouro que atravessam as ruelas dos sonhos


e infestam de palavras as mãos ensanguentadas das mulheres-sombra


alimentam-se de pedaços papel e singelas migalhas de areia da algibeira da agonia


sentíamos os velozes corpos transatlânticos vestidos de aço como líquido esquelético dos alicerces de vidro


e amávamos-nos quando nos embrulhávamos nas montanhas das gaivotas em cio


prometidas equações que o teu corpo seduz como a Professora quando do aluno fantasma


ossos e pregos e madeira ressequida saltitam no recreio da escola


há árvores sobre os diques do prazer quando ejaculam as searas os palhaços de trapos de cetim


e amávamos-nos sobre quatro rodas em movimento curvilíneo


um pêndulo e um cordel


e tudo o que nos restou da tempestade de zinco aos telhados engrenados no teu ventre


chovia enquanto desenhávamos sexo nas frestas do gesso


às paredes argamassadas das esquinas iluminadas pelo teu olhar de manteiga...


 


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013



27.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


dois pontos de ténue nua luz


esperando pela abertura da triste janela


dois corpos vestidos de onda


caminhando nas tuas costas de porcelana


voando sobre a doce cama


onde se escondem os homens de palha com palavras inaudíveis


fracas


terríveis


 


dois pontos teus hoje na roda da fortuna


rodando como milagres indefinidos no altar das Marias adormecidas


vaiadas


cansadas


correndo ruas despidas


descendo e subindo calçadas


como tu


como eu


 


à sombra


dois pontos de ténue nua luz


comendo sílabas enlatadas


e bebendo


chá de ervas enraivecidas


sumarentas


na caverna da Dona Joaninha...


e uma ferradura pendurada à porta


 


e um velho letreiro recordando


barbas e cabelo


barbeiro


oficina de beleza


pintor de jóias roubadas...


barbeiro feiticeiro


barbeiro literário... poeta


dois... dois pontos de ténue nua luz


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 27 de Agosto de2013



08.07.13



foto: A&M ART and Photos


 


Inventava cavernas na tua garganta


percorria as entranhas rochosas da tua pele de cogumelo acabado de nascer


via na tua língua as migalhas de incenso


trazidas pela insónia


inventava barcos no teu púbis como os desenhos das gaivotas sobre os teus seios de silêncio


ao cair a noite sobre o Castelo da Solidão,


 


Inventava um divã semi-nu em busca de corpos crucificados pelo suor da noite


e das pedras as encarnadas palavras copiando veias e artérias dentro do medo


vinha até nós a escuridão dos areais cinzentos com plumas adormecidas


vinhas-me do espelho e dizias que eu parecia uma lanterna poisada sobre um pedaço de espuma


que o teu nobre corpo degolava como sílabas num texto embriagado


pela minha triste mão,


 


Sabias-me a neblina quando palmilhava o teu corpo com os meus lábios


escrevia meros poemas em poucas palavras de argamassa orvalhada


sentia-me entre dedos e marés


como ventos ciclónicos depois de partir o último comboio para o Castelo da Solidão


puxava o último cigarro


e agarrando o último suspiro... cerrava os olhos até adormecer eternamente só... dentro do teu peito...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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