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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.03.15

Tenho no corpo


o sentido proibido do silêncio


os ossos choram todas as madrugadas


das lágrimas


as palavras


e nas mãos o feitiço do amanhecer


querer


não quero


ser


sem o saber


a leveza insignificante dos meus braços


suspensos no sorriso do luar


não acredito


acreditar


nas nefastas sentinelas da noite


o amor camuflado


caminhando no capim


as pálpebras cinzentas


misturadas nos cigarros embriagados


que só o fumo consegue desenhar


no triste pavimento da sanzala


oiço a sombra da paixão


voando sobre os coqueiros


o papel colorido


inventando poemas


nas nuvens cortinas do meu aposento


os livros


os livros são como homens em cio


cansados


cansados das sílabas em flor


e do rio


onde adormece a ponte do desejo


não desejando


desejar


não desejando


desejar o perfume do mar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 27 de Março de 2015


16.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Da tua janela sentia o pulsar inconstante das tuas veias, do oitavo andar eu conseguia, não, aprendi a perceber as árvores em movimento, aprendi a ouvir os teus lamentos, aprendi a sentir a tua minha dor, contava a vezes que o metro de superfície passava em frente aos teus olhos cerrados, perdi-lhe a conta, desisti de contar, mudei repentinamente para os automóveis sonolentos que enteavam no parque de estacionamento, eram tantos, meu Deus, tantos, tantos que... voltei a desistir,


Percebi o significado do medo, aprendi a esperar pelas palavras do invisível, e confesso que não rezei, confesso que mentalmente colocava a hipótese de te perder, e ainda não tenho a certeza se te vou perder, enquanto dormias, enquanto eu olhava os teus sonhos impregnados no cortinado de fumo, eu, eu sabia que tu me esperavas quando acordasses, acordaste,


Então, chegaram bem?


Não te respondi, sentia-me agoniado, com fome, sem palavras para responder aos teus anseios..., pegava nos cigarros amorfos, acendia um e depois outro e mais outro... até que percebi que no corredor de acesso ao teu quarto, até que entendi a solidão, o amor enquanto esperava as lânguidas manhãs de Janeiro,


Então, chegaram bem?


Muita neve, chuva, vento, e perdemos-nos na tua sonolência de cadáver inventado por um louco, perguntava-te se estavas bem, e respondias-me


Então, chegaram bem?


Que sim, que tudo não passava de um sonho, que tudo nunca tinha existido, que tudo


Então, chegaram bem?


Que tudo acorda quando os silêncios dos teus lábios me diziam


Estou mal, tenho dores, não consigo adormecer,


Me diziam, me obrigavam a acreditar nas palavras escritas na tua cama, oitocentos e trinta e cinco, para os matemáticos um belíssimo número, mas


Então, chegaram bem?


Mas para um poeta esse número significava uma perda, uma ausência de ti para comigo, imagino-te subir as escadas do sótão da saudade, imagino-te a pegar na minha mão e ir-mos ver os barcos ao porto de Luanda...


Então, chegaram bem?


(não te respondi, sentia-me agoniado, com fome, sem palavras para responder aos teus anseios..., pegava nos cigarros amorfos, acendia um e depois outro e mais outro... até que percebi que no corredor de acesso ao teu quarto, até que entendi a solidão, o amor enquanto esperava as lânguidas manhãs de Janeiro...)


E víamos os paquetes abraçados aos longínquos marinheiros com fardas de embriagados esqueletos procurando sexo, álcool... e drogas,


Os coqueiros, os treinos de Hóquei em patins, e sempre, e sempre a tua mão entrelaçada na minha mão de criança, da tua janela sentia o pulsar inconstante das tuas veias, do oitavo andar eu conseguia, não, aprendi a perceber as árvores em movimento, aprendi a ouvir os teus lamentos, aprendi a sentir a tua minha dor, contava a vezes que o metro de superfície,


Então, chegaram bem?


E olhavas-nos, e sei que choravas...








(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha- Alijó


Domingo, 16 de Fevereiro de 2014



22.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


As suas siglas perfumadas subindo as escadas do desejo


abraçando as singelas sílabas abandonadas que espreitam a madrugada entre o cortinado e a alvorada


sinto o bater das pérolas negras que caminham corredor abaixo... e na paragem do eléctrico


junto à porta que dá acesso à biblioteca


os teus seios mergulhados na argila manhã de triste neblina


criança ainda


perfumada


a sigla de ti acompanha as outras siglas deles até que acorde o Pôr-do-Sol


que venha a noite e traga muitos amigos


feiticeiros e feiticeiras


janelas e abrigos


bandeiras... portas e luares sem Janeiro...


 


As suas siglas perfumadas subindo... coitadas as derreadas canções de Abril


(Ora aí está... que acorde então a madrugada, que se abram todas as janelas, e que o dia finja ser um belo domingo, sol, muito sol... e ao longe... ao longe a praia, os coqueiros...)


os silêncios de mim entranhados nas tuas mãos


sentia-te saltitar sobre as finas areias da Baía...


os barcos nossos lançavam-se nos teus seios... e sabia-te sentada sobre as mangueiras do amanhecer...


 


O fogo permanece na tua alma inconstante


o fogo alicerça-se nos teus olhos de sincelo... e sem o saberes uma flor quadriculada dança nas pálpebras húmidas da paixão


dormes sem mim porque o infinito acontece todas as noites depois dos dispersos horários se debruçarem no varandim com telhados de prata


a tua pele fervilha e arde


e o fogo em ti é como as palavras em mim


nada de especial


o papel simples e informal...


sem gravata


sem... sem as apaixonadas mulheres nas borboletas de veludo que a luz ilumina


quero gritar não consigo


consigo gatinhar sobre a geada Aurora e não o quero


quero... e não percebo porque morrem todas as siglas perfumadas subindo as escadas do desejo.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014



24.08.11

E ainda não tinhas nascido, e o céu de Luanda tão azul e tão límpido, e as nuvens pareciam pedacinhos de algodão, e ainda não tinhas nascido, e o mar calmo do Mussulo, os coqueiros, as mangueiras e bananeiras, e ainda não tinhas nascido, e a minha primeira entrada numa tenda de circo, e não, não foram os palhaços que me alegraram, e não, não foram os trapezistas que me contentaram, e não, não foram os animais que me fascinaram, e ainda não tinhas nascido, e foram a luzes, sim, precisamente as luzes que me despertaram interesse,


 


Tinha, e tenho, deixei de ter, não sei, medo da noite, não por ser escuro, mas porque no teto do meu quarto não tem, e ainda não tinhas nascido, e nunca teve estrelas, e pergunto-te Imaginas-te num quarto sem estrelas?, claro que não dizes-me tu, e ainda não tinhas nascido e perdia-me nas tarde a olhar os aviões, e os pássaros, e o infinito, e ainda não tinhas nascido, tinha medo da noite, e não sei porquê mas a noite parecia-me maior que o dia,


 


E ainda não tinhas nascido, e o céu de Luanda tão azul e tão límpido, e as nuvens pareciam pedacinhos de algodão, a ainda não tinhas nascido quando vi pela primeira vez um barco, fiquei incrédulo Não vai ao fundo…, e é tão grande!, e o meu pai, e ainda não tinhas nascido, todos os domingos me levava a ver os barcos, os treinos de hóquei nos Coqueiros, e ainda não tinhas nascido, e olhava a estátua da Maria da Fonte, e depois do circo, ainda não tinhas nascido, sentava-me na esplanada do Baleizão, olhava o céu e tinha estrelas, e comia um gelado, e ainda não tinhas nascido, regressava a casa, e olhava o teto, e não estrelas e não barcos e não estátua da Maria da Fonte, e ainda não tinhas nascido,


 


Descobri que eu sou apenas um sonho, e ainda não tinhas nascido, e deixaram a criança em Luanda e trouxeram outra coisa qualquer, e ainda não tinhas nascido, e percebo agora que eu não sou e nunca fui a criança que, e ainda não tinhas nascido, olhava o céu azul e límpido de Luanda, os barcos, o circo, a estátua da Maria da Fonte, o Mussulo, o estádio dos coqueiros,


 


E ainda não tinhas nascido, e possivelmente na confusão trouxeram outro miúdo que não eu, e ainda não tinhas nascido, quando pela primeira vez vi um papagaio de papel a brincar no céu azul e límpido de Luanda,


 


E ainda não tinhas nascido,


 


As gotinhas ténues da chuva poisavam na minha mão e no meu quintal voava um triciclo com acento de madeira, e as pombas corriam, e ainda não tinhas nascido, eu adormeci a olhar as nuvens de algodão.

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