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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


26.04.19

Sou filho da noite.


Sempre adorei a noite, onde vivem as palavras e os amores proibidos,


Ou impossíveis,


Ou amores inanimados.


 


Quando criança, brincava com aviões em papel,


Papagaios em papel,


Barcos de esferovite,


Com motor.


 


Sempre me lembro desalinhado com os momentos passados,


Tristes, alguns,


Alegres, outros,


E adorava, adoro, o circo.


 


Hoje, temos cá o circo,


Sempre foi o meu sonho fugir com um circo,


Viver de noite,


Andar de terra em terra.


 


Apaixonado pelas árvores.


Pelos palhaços,


Trapezistas


E outros malabaristas.


 


Os últimos já existem na política,


Temos malabaristas a mais,


Todos formavam uma grande companhia de circo…


O circo da merda.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/04/2019

...


22.03.19

O sorriso. O silêncio que habita o sorriso, camuflado na montanha da solidão, o abismo da tristeza embainhada no clitóris da paixão, quatro paredes em suspenso, o sofá com o desenho do meu corpo, ele, dorme,


Hoje é um dia triste, diz ele em frente ao espelho do sofrimento, da horta regressam os pássaros moribundos, capazes de fazer amizades em qualquer situação,


Não.


Não o encontro, abro as janelas, abro todas as portas e todos os telhados da minha pobre casa, mas ele não está, dorme


Hoje há tripas.


Dorme como o silêncio que habita o sorriso, e as estátuas parecem o meu corpo antes de acordar, mórbido, cansado de sonhar, triste, também ele,


Hoje,


Não.


Pego num livro, folheio-o e encontro finalmente a amizade, três palhaços, uma pequena tenda de circo e uma contorcionista escreve poesia nos lábios dos espectadores impávidos, ciumentos, capazes de gritos histéricos ao cair a noite,


Hoje?


Hoje, não, meu amor…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


22/03/2019


09.04.17

Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Assim avança a vida do poeta…


Sobre a janela da solidão,


Desamados,


Triângulos de prata no papel amachucado


Correndo pela paixão na juventude das pirâmides sonolentas,


Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Enigmáticos circos de terra em terra,


Palhaços,


Candidatos a palhaços…


Num empobrecido poste de iluminação,


A forca miserável do inventor


Entre círculos e cubos de sombra…


A inquietude neblina que assombra a mão


Do palhaço candidato a palhaço,


As bocas de esperma descendo a calçada


Até se sentar junto ao rio,


Ouvem-se os socalcos do amanhecer


Quando as enxadas do prazer batem no xisto esfarrapado,


O circo não tem fim,


O fogo adormece as almas dos condenados,


E sobre o papel amachucado…


A casa dos espirros,


Os vampiros telhados das cidades em chamas…


Tudo arde no teu olhar


Como arderam as minhas palavras nas náuseas do sono…


Ergo-me,


Faço-me vagabundo como eles…


E vivo apaixonadamente no cubículo da idade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 9 de Abril de 2017


04.03.15

Esboço os teus olhos na carlinga nocturna do prazer


finjo caminhar sobre as pedras íngremes do silêncio


em vulcão


as palavras desalmadas do caderno negro


as imagens da melancolia


no espelho secreto dos teus seios


fujo


e sem regresso...


imagino os rochedos da insónia


mergulhando na constelação do adeus


o plágio mágico de uma fotografia


e a simplicidade dos sentidos embainhados nas florestas em solidão


canso-me


e fujo


dos lábios em desejo


como as formigas procurando alimento


nas esplanadas da dor


esboço os teus olhos


o esquisso em desassossego dentro da caixa de madeira


janelas


portas


o segredo


quando os dardos envenenados atingem mortalmente o peito do artista


o circo ofegante


em murmúrios e pequenos gestos pincelados de sangue


os aplausos falsos


e os falsos sorrisos


na aldeia


entre ventos e tempestades de areia


sinto em mim o mar


e todas as marés do amor


o poeta adormece junto ao rio


escreve na espuma tingida de saudade


e canso-me


das palavras


e dos olhares em beijos de luar...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 4 de Março de 2015


10.11.14

Meninos


meninas


senhoras e senhores...


o grandioso espectáculo vai começar,


malabaristas,


trapezistas...


cobras amestradas e homens de vidro,


canções, poesia e melódicas palavras...


(em tesão)


grandioso espectáculo...


bonecos em barro,


borboletas em papel rebuçado,


loucos, loucas e vampiros em chocolate,


casas sem janelas,


moças donzelas...


e...


e... e... e gaivotas em porcelana,


hoje,


só hoje...


o grandioso espectáculo da neblina matinal,


oito,


apenas oito bilhetes para o inferno...


o espectáculo de Inverno,


e as crianças não pagam,


mas... mas também não entram!


em cinco, em quatro, em... um... e zero...


as sete charruas do mendigo,


os três forquilhas da Andorinha,


o palco em vibração,


a cabeça em abraçados cansaços de xadrez,


oito,


três,


o amor que não vê,


nem sabe... que este circo,


circoooooooooooooooooooooooo...


chegou hoje à cidade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014


18.09.14

O palhaço da roulote emagrecida,


na porta de entrada está crucificado o número vinte e três,


sem vizinhos para conversar,


o palhaço morre em pedacinhos...


e era feliz se morresse de vez,


silenciavam-se as vozes dos espectadores anónimos,


um punhado de palmas ficavam alegres,


e contentes,


e o circo transformava-se num círculo com anéis de prata falsificada,


há nos seus olhos a desilusão de um tardio amanhecer...


depois do espectáculo, entra na roulote, e acende a lareira da solidão,


e espera, e desespera... o regresso do novo dia,


o palhaço com botas de cansaço,


sonha subir até às estrelas que estão suspensas no tecto da dor,


um poeta também vestido de palhaço... inventa jardins de arame,


e locomotivas em cartão,


sofre,


sofre ele porque dentro da roulote nada mais existe do que a lareira da solidão,


chora,


e ele percebe que a vida é um espectáculo sem abrigo,


um homem desiludido com o circo das tempestades.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014


28.08.14

Este xisto onde me deito


E confesso os meus sonhos invisíveis,


Esta caverna sideral com clarabóias sombreadas,


Este medo de me perder na floresta dos bichos…


E este rio…!


Este rio com sabor a saudade,


Esta vida mergulhada numa cidade


Inventada,


Este xisto,


Esta montanha recheada de vaidades,


Estes pássaros que se alimentam dos meus ossos…


E me transformam em cadáver,


 


 


Este xisto e este cansaço


Que me suspendem nos rochedos do amanhecer,


As ondas que não cessam de brincar


No meu peito de sofrer,


 


 


E este abraço,


E este xisto rosado nas pálpebras da madrugada,


Esta estrada sem saída,


Esta rua deserta com palhaços,


Este xisto onde me deito


E um trapezista louco se abraça aos meus cabelos,


Este circo,


Este circo sofrido voando nos lábios dos socalcos envenenados…


Estes homens enforcados,


Este xisto,


Este xisto derretido em bocados,


Que se alicerçam aos meus segredos…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014


20.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Preciso dos teus beijos,


Dizes-me tu,


E não percebes, e não entendes, e


Nunca tive beijos para dar, que nunca tive beijos para oferecer, vender... que sou um imbecil desgovernado caminhando sobre os carris da solidão, não percebo, não entendo, como tu


Para que precisamos de beijos?


Tudo à minha volta estremece, a imagem do meu portátil enlouqueceu, treme... treme como varas verdes depois do vento entrar pela janela, treme como tu, quando ouves, ou ouvias, ou sei lá o quê


A minha voz?


A tua voz parece um esconderijo em papel, as vogais mal pronunciadas, as sílabas amedrontadas com os meus olhos escondem-se nas clandestinas palavras que um muro da cidade acolhe como quem acolhe o mendigo do rés-do-chão


Oiço-os


(Nunca tivemos sorte nenhuma)


Oiço-os balançar como esqueletos de vidro pendurados nas árvores com cavernas de granito e as vozes que se entranham nas algibeiras da ganga gasta e desgasta nas Primaveras em construção são-o e talvez não o pareçam


(Orgasmos sonolentos de velhos recheados com artroses e reumático)


Preciso dos teus beijos,


Dizes-me tu,


E não percebes, e não entendes, e desconheces que em mim nada de bom existe, sou uma nuvem pintada com tinta acrílica negra, esponjoso o meu coro absorve todas as lágrimas dos jardins sem capitão, ao leme um vulto que todos apelidam de O Senhor Das Montanhas Do Sol Adormecido, e assim vamos correndo entre o aço paralelo, e assim vamos


Vivendo?


Diz-me tu, se isto é vida? Os veados encurralados nas ardósias da tarde, começam a voar e daqui a nada estão novamente junto dos alegres dias com chuva e uma lareira na sala de estar a derreter livros, palavras e afins...


Vivendo, como?


Diz-me tu como é o outro lado da muralha, se há árvores, pássaros, se há rios e gaivotas e barcos e ilhas e mulheres bonitas


Gajas?


Diz-me tu porque tombaram os versos das crateras de centeio nos campos de Carvalhais? E oiço-os como se eles estivem à minha frente


Quem são eles?


Voilá... POP DEL ARTE... e voláteis pasteis de Belém nas catacumbas da solidão adormecem como cadáveres de silicone,


(o rabo, as mamas, a cabeça... a massa encefálica... tudo é em silicone... e coitadas)


Dançam como ventoinhas na pinta de dança, as meninas não pagam...


Mas... Também não bebem,


Voilá... Le POP DEL ARTE, e La Maisom quiçá, também ela em


Silicone?


Não aguento mais estes carris em aço, sempre paralelos, sempre abraçados, sempre...


Diz-me tu como é o outro lado da muralha, se há árvores, pássaros, se há rios e gaivotas e barcos e ilhas e mulheres bonitas


Gajas?


Bonitas, moças donzelas, meninas e meninos... O CIRCO TERMINOU...


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 20 de Outubro de 2013



02.09.13



foto de: A&M ART andPhotos


 


Balanço-me das tuas tristes três palavras escondidas no disperso xisto que jazem nas tuas mãos como pigmentos coloridos de pequenos animais, balanço-me e esqueço-me, percebo-o agora, não o sabendo, das tuas outras vozes que alimentas o piano de cauda que vive no hospício com janelas gradeadas viradas para o jardim dos doces colares de pérolas, vejo-te passar sobre o alegre relvado onde brincam árvores, pássaros e crianças que ainda não lhes é permitido visitarem os pais, as mães... os amantes as amante, que amam, que vivem, que comem drageias como quem saboreia os gelados do Baleizão, sentava-me, via-te sobre saias curtas e sandálias com tiras finas de couro adormecido, passavas, olhavas-me e eu, indiferente


Saboreava-o como se ele fosse um botão de rosa descoberto no interior de um velho livro de poemas, havia junto dele uma fotografia, uma imagem estática, triste e com olhos mergulhados em água salgada, olhavas-me, olhas-me... e nada consegues dizer


Apenas


Talvez,


Que o dia terminou, que alguém correu o cortinado da tarde... e o Baleizão mergulha nas sombras dos barcos encalhados perto da Maria da Fonte, de longe chegava o som do Grafanil, cheirava a naftalina e a calções recheados de urina, e ouviam-se os teus suspiros depois de terminar o espectáculo de circo onde passeavas sobre um arame invisível, olhavas-me e vias-me...


Apenas


Talvez,


As mesas e as cadeiras metálicas, o chão em pequenos cubos de açúcar, e eu sabia que nunca mais regressaria aos teus abraços de menina vestida de branco passeando na companhia de um belo e monstruoso cavalo, pungente, e de olhar triangular como as estrelas do Mussulo, e apenas


Talvez,


Não, nunca percebi porque prendiam os barcos com cordas se eles de tão velhos quase não se movimentavam, viviam encaixotados em andares sem elevador, escadas, escadas, a cadeira de rodas mal conseguia mover-se no interior do caixote de vidro, e eles, os barcos, e eles os barcos enferrujados gritavam


Somos felizes aqui,


Perguntava-me


Felizes?


Não, nunca percebi porque prendiam os barcos com cordas se eles de tão velhos quase não se movimentavam, viviam encaixotados em andares sem elevador, escadas, escadas, a cadeira de rodas mal conseguia mover-se no interior do caixote de vidro, e eles, os barcos, e eles os barcos enferrujados gritavam como meninos antes do lanche, tristes, e no entanto, alguém os amarrava às cadeiras e às camas... como medo que eles


Navegassem...


Que eles


Fugissem...


Que eles


Que eles fossem fumar cigarros para Cais do Sodré, entrassem no Texas, pegassem numa das meninas cinzentas, e


Dançassem,


Dançassem até que o comandante com o apito embebido misturado com vodka... os mandasse regressar ao cais, ao cais do caixote de vidro, escadas, escadas, escadas... até que morriam, hoje um, amanhã outro...


E deixavam de ser barcos


E deixavam de ser as três tristes palavras.





(Não revisto – Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013



20.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Dir-me-ás que a vida é um número de magia, conheci um ilusionista (confesso que não é ficção, conheci e conheço e tenho amizade por ele – Didier Ferreira – e quanto mais olhava os seus números de magia, confesso, confesso que mais dúvidas ficavam em mim, e menos percebia do que se passava à minha volta), e a vida não é mais do que um lindo e belo número de ilusionismo, um espelho gigante, olho-a e percebo que é tudo uma mentira, a imagens é ma mentira, os olhos, os olhos... são uma pegada mentira vestida com tecidos verdes, e os braços, e os braços também eles, eles


Mentiras,


Caixotes vindo de lá, trazíamos o muito que tínhamos, que era nada,


Mentiras,


(muitas das vezes servi de cobaia dele na preparação de alguns dos seus números, e parecendo aos olhos que quem nos via, eu, eu um parvalhão nas mãos de um verdadeiro artista, confesso que nunca me senti como tal, mas que me irritava o facto de eu não perceber como aconteciam as coisas... lá isso era verdade)


Os caixotes magoados, desdentados, meio adoentados, e vertendo um líquido esquisito, que mais tarde fomos informados que era o líquido da saudade


E coisa eu nunca tinha ouvido na minha curta vida,


“Líquido da saudade?”


És parvalhão, ouvia-o. E hoje percebo que ele tinha razão,


Eu era mesmo um verdadeiro parvalhão aos olhos do meu pai, porque como era possível existir um líquido chamado... “Líquido da Saudade”...


Eu, negro, nasci e cresci negro, eu uma árvore a que chamavam de mangueira, que às vezes sentia-a chorar, que às vezes... também eu chorava, quando da sua sombra renasciam os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na


“Líquido da saudade?”


Os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na minha algibeira, ela sempre, ou quase sempre, vazia, e lá estava ela, assinada por mim


Pode lá isso ser possível, menino?


Verdade verdadinha... Senhor Anacleto, verdade....


Acredito mesmo, menino Francisco, “Líquido da Saudade”..., e ainda por cima aparecer na sua algibeira e assinada por si, consegue prová-lo?


Claro que sim, claro que sim Senhor Anacleto... ainda a guardo na prateleira juntamente com os meus livros, os caixotes babavam-se como se fossem caracóis acabados de confeccionar, e afinal não eram caracóis, e afinal


Quitetas,


E o molho, Senhor Anacleto, Ai nem me fale no molho... menino Francisco, que saudades..., e um líquido estranho pingava dos três tristes caixotes que trouxemos, pouca coisa, coisa nenhuma, e afinal, afinal era mesmo o “Líquido da Saudade”,


Em finas fatias sobre o pão quente de Favaios, e que coisa, que coisa... Senhor Anacleto, um Líquido verde com sabor a manga..., talvez pedaços de sombra, talvez... as chuvas quando adormeciam a terra queimada e ressequida pelo abrasador Sol... e sabe, sabe Senhor Anacleto?


Não, não o sei menino Francisco, não o sei,


As cartas, as cartas voavam durante a noite e de manhã apareciam na minha algibeira, vazia, ou... quase vazia, como sempre, ou com quase nada,


Quitetas.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Terça-feira, 20 de Agosto de 2013


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