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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.12.17

Fumo este pobre cigarro que me há-de matar,
Mas a morte é apenas o THE END do filme da minha vida,
Alguns farrapos, um par de sapatos e uma caixa em madeira,
Sempre adorei o cheiro da madeira, logo pela manhã, ao acordar,
Fumo este pobre cigarro porque me dá prazer, e me alimenta de madrugada,
Não, não penso na morte, porque no fundo, ela é bela, como as palavras que não consigo escrever,
Fumo este pobre cigarro sabendo que vou morrer…
Mas quem não morre?
Todos morremos, até o próprio saber, até as cidades a arder e o prazer.



Francisco Luís Fontinha


31.07.17

Pergunto aos defuntos cigarros meus onde está o vazio,


Esta simples forma de viver acorrentado à cidade adormecida,


A doença aproxima-se,


Esconde-se no fumo,


E desaparece na madrugada,


 


O corpo range,


Evapora-se na tridimensional poesia da tarde,


O livro morre,


De tanto viver a saudade,


 


Pergunto-me… porquê?


 


Naves espaciais poisadas no meu quintal,


Homens pequenos,


Fumam cigarros emagrecidos pela geada,


Apetece-me fugir com eles,


Libertar-me destas correntes de aço,


E nunca mais regressar aos teus braços.


 


Defuntos cigarros,


Nas mãos calejadas pela caneta…


 


Palavras enroladas no vento…


 


Palavras mortas na noite.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 31 de Julho de 2017


24.02.15

Desenho_A1_056.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


quando as palavras semeadas no papel envelhecido


morrem


aquele que as escreve


despede-se


entre lágrimas e falsos sorrisos


um desenho insignificante


poisa docemente no vulcão da madrugada


sem mágoa


ou... ou paixão


abraça-se à noite dos tristes aconchegos


grita pelos sonhos


e... e em vão...


 


percebe que a vida é um triângulo de luz


voando nas ruas húmidas do desejo


tenho medo do silêncio


e do cansaço dos dias junto ao rio...


aquele que as escreve


despede-se


e parece um vadio


esmiuçando ossos e cigarros


ou... ou talvez não...


porque tem no corpo um vazio


um buraco negro recheado de insónias e imagens sem nome


como têm os pássaros nos prismas imaginados por uma árvore doente...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015


 

...


19.02.15

Desenho_A1_104.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Sinto-me um caixote em madeira, um socalco lágrima descendo até ao Douro, uma eira, imaginada em Carvalhais – S. Pedro do Sul, sinto-me a noite vestida de negro, abraçada aos meus sonhos, sem poder mais,


Amanhã, meu amor!


O circo, os palhaços narcisados nas palavras escritas pelo fantasma do silêncio, a minha vida uma “merda” comparada com a vida dos meus vizinhos, hoje sonhei que a pobreza tinha morrido... como se a pobreza tenha morte... este momento embriagado em poemas de amor,


Poder mais...


Os sorrisos, a mentira do soneto sobre os ombros vergados de uma enxada, o cristal opaco que sobressai nas fotografias de infância, a dor, e a doença


Sinto-me


E a doença sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,


Sinto-me... um suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata, e sapatos de ponta delgada,


Um café Doutor?


Café...


Faltam-me os cigarros...


 


 


 


(texto de ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015


15.01.15

Pintura_61_A1_Nova.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


A mentira dos homens


mergulhada na falsa memória,


a solidão das palavras,


escritas e semeadas,


nos longínquos corredores da insónia,


o imperfeito corpo do espelho que alimenta a paixão...


em pedaços,


tão pequeninos... como grãos de areia em pleno voo matinal,


as telas amordaçadas que habitam a minha casa, ardem,


sinto o fumo de néon quando pego numa caneta,


tenho uma carta para escrever...


mas,


 


mas mergulho na falsa memória,


sem destinatário,


sem remetente...


tão sós...


o subscrito,


e a folha de papel oferecida por um pindérico pássaro de cigarro nos lábios...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015


 


06.11.14

Sombreados lábios


no pincelado amanhecer


tristes searas de incenso


sem vontade de crescer


imenso Oceano mergulhado na minha mão


concubina solidão vagueando na ruela sem saída


é esta a minha vida?


duzentos e seis ossos sem comida,


oiço os teus seios na escuridão do meu silêncio


brinco sob as mangueiras de um País distante


cheiro o orgasmo do poema vencido


é esta a minha vida?


um emaranhado farrapo esquecido na espingarda do soldado...


um... um cigarro apagado...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014


29.08.14

Um coração mal apagado


poisa suavemente num cigarro apaixonado,


apelidam-no de “amor simplificado”,


o “amor simplificado” é um gajo porreiro,


escreve poesia,


vai todas as semanas ao barbeiro...


e ao deitar, reza,


um cadeado de palavras cerra-lhe a janela do quarto,


tem um espelho na garganta que transforma fome em alegria,


não sente ele o nascer do dia,


não quer saber ele da literatura,


nem dos rochedos com sabor a melancia...


 


O “amor simplificado” vive numa esplanada,


entre o mar e o “mercado”,


o “amor simplificado” tem escadas nas sobrancelhas,


domesticado e formatado como as abelhas,


nem dos rochedos com sabor a melancia...


ele tem medo,


 


Um coração mal apaixonado,


de mão dada com um cachimbo de prata,


o latir do cão que as trevas viu nascer...


faz com que ele invente bonecas de trapos,


e praias com areia de porcelana,


jazigos em lata,


nasce o sol e ele parece cansado de viver,


detesta os livros de farrapos...


tal como não aguenta os uivos das “madames” passeando na calçada,


o “amor simplificado” tem na testa um letreiro,


vendem-se poemas congelados


com odor a marmeleiro...


 


O tal,


o grandioso...


 


O “amor simplificado” é um gajo porreiro!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014


10.08.14

Esta cidade de mendigos,


sem porto para aportar,


estes esqueletos vivos...


sem corpo para transportar,


esta nudez das árvores silenciosas,


que brincam na areia límpida dos cigarros de arder,


esta lua, este luar... esperando o amanhecer,


esta cidade de mendigos,


estes rochedos que servem de abrigos...


sem porto para aportar,


esta noite ventosa,


fria..., amarga... sem lábios para beijar,


 


Esta cidade moribunda,


quando o poeta espera o regresso do amor,


estas correntes de luz sem sabor...


que me aprisionam ao teu olhar,


este cansaço, estas montanhas de abraçar...


que se escondem nos teus seios de triste madrugada,


esta cidade,


esta cidade amaldiçoada...


vestida de rosa sem odor,


triste, febril... esta cidade imunda,


onde passeiam os peixes, e as algas... e os corações sem cor,


esta cidade, esta cidade que vive nas lâminas da saudade.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 10 de Agosto de 2014


27.07.14

Feliz aquele que tem alguém para amar,


feliz aquele que tem um livro para ler,


escrever, tão feliz... tão feliz aquele que sente a noite adormecer,


adormecer... nos braços do luar,


 


Feliz aquele que tem lábios para beijar,


que habita numa boca com sorriso de amor,


feliz aquele que inventa cabelos na planície do amanhecer,


e sem querer... e sem querer começa a chorar,


 


Felizes os barcos que têm marinheiros de papel,


corpos nus, corpos com sabor a mel...


feliz aquele que tem seios para pintar,


segredos para desvendar, quando o calendário da solidão... desaparece no mar,


feliz, eu?


talvez venha um dia a acreditar,


que há sanzalas com odor a chocolate,


que existem nuvens plantadas nos socalcos das coxas cinzentas dos pinheiros bravios...


feliz aquele que morre sem o perceber,


feliz..., tão felizes os cigarros de fumar,


tão felizes os cigarros de viver,


… quando há uma mulher embrulhada numa folha amarrotada,


 


Feliz aquele que tem alguém para amar,


feliz aquele que tem um livro para ler,


feliz..., tão feliz aquele que tem um poema a crescer...


a crescer... no verbo desejar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 27 de Julho de 2014


30.04.14

havia em ti pérolas de naftalina


eu pensava que o mar era só meu


e o egoísmo alimentava-me e fazia com que as minhas asas de amanhecer...


ardessem


como o cigarro que fumo e suspenso na janela com vista para os patamares do Douro


o rio entranhava-se em pedacinhos de dor


sofrimento


e algumas lágrimas invisíveis... poucas... voavam como gaivotas sem nome


descubro o amor numa solitária videira


a paixão numa triste pedra em granito... perdida na rua


à espera do silêncio na esquina sem transeuntes


e oiço as palmeiras com sombras de doirado anoitecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

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