Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


12.12.21

Um dia

Regressará o sono,

A luz,

E todos seremos apenas imagens,

Poeira,

E pequenos nadas.

 

Um dia

As palavras serão sombras,

E das imagens que eramos,

Seremos novamente, nadas;

Pequenas migalhas de pão,

 

Pedras,

Calçadas de espuma,

Em guerra na cidade,

Um dia seremos apenas chuva,

E pedacinhos de lágrima.

 

Um dia seremos nadas,

Ou outra coisa semelhante,

Um dia seremos geada,

Luz…

Ou fogueira ardente.

 

Um dia seremos nadas,

No outro dia,

Gente.

Um dia seremos pó,

No outro dia, dor, corpo ausente.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/12/2021


16.01.20

A fragilidade do corpo embrulhada no sono,


O cansaço das palavras, inertes, mortas,


Nas páginas sonâmbulas da tristeza,


O vento chora,


Traz a chuva,


Vai embora.


 


Todo o silêncio é pouco,


Quando os farrapos da saudade,


Envelhecem na escuridão,


 


A metáfora,


O sorriso das plantas,


Junto ao mar,


 


E inventam-se rosas em papel,


Comestíveis, às vezes, quando a fome é invisível,


Descendo o rio,


Saltando a ponte metálica,


Em direcção ao Sol,


Em direcção ao abismo.


 


Não quero pertencer a este conflito de interesses,


Caixas em cartão,


Revoltadas contra a geada,


A chuva, miudinha, perde-se na calçada.


E, no entanto,


Estou aqui,


Esperando o regresso das lâminas lágrimas,


Como se fossem balas de raiva, contra as paredes de xisto.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/01/2020


13.04.19

Menina do meu saber,


Endiabrada e a correr,


Menina do Douro encurvado,


Que chora sem querer…


Menina mimada, menina das tardes a chover,


Menina cansada,


A chorar,


Neste rio deitada,


A correr para o mar.


Menina da ribeira,


Dançando sobre o amor,


Palavras escritas no vento,


Deste corpo suicidado,


Menina das flores e do amar…


No pensamento,


A mão lançando a espada,


Dos livros, de nada…


Menina em flor,


Meninada apaixonada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


13/04/2019


03.07.14

Um fino lençol de areia embrulhava a triste caligrafia,


nas minhas pálpebras de papel um poema crescia,


e sentia-me absorvido pelo silêncio do algodão vestido de chuva,


uma vezes sentia o cansaço disfarçado de melodia,


outras... outras eu sofria,


cantava,


chorava,


inventava beijos de alegria,


e de alegria não tinha nada,


a caligrafia derramava-se nas encostas íngremes da montanha adormecida,


e o papel onde eu escrevia...


amarrotava-se... e... e ardia...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 3 de Julho de 2014


31.05.14

O abstracto,


quando o sorriso se transforma em chuva,


o abstracto silêncio das tuas palavras,


desfasadas,


misturadas nas pálpebras de um fio de luz,


 


O abstracto meu corpo, laminado pelas garras do amor,


o sítio negro do teu peito,


o cofre das tuas flores de papel,


o abstracto mar que corre no teu abdómen,


como neblina sobre o rio da saudade,


 


O abstracto...


o dia morre,


o relógio nocturno das tuas coxas..., abstractas, mergulham em mim como a âncora de madeira cansada,


e tudo parece adormecer em nós...


a cidade, a rua onde existe um quiosque de algodão e arde,


 


O abstracto facalhão que traveste a solidão em paixão,


a ressaca do esqueleto em módicas trinta e seis prestações,


o abstracto corpo sem alicerces,


dançando na copa da árvore das tuas tristes lágrimas...


e um barco entra em ti,


 


Vives no abstracto espelho,


suspenso nas gaivotas cinzentas das searas envenenadas,


uma fotografia diz-me que tu deixaste de ser menina,


hoje és uma pedra, abstracta e sem nome,


que desce a montanha do meu olhar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Maio de 2014


24.03.14

Verdes pergaminhos do amanhecer amargurado,


cintilantes madrugadas com sabor a desejo,


vagabundas manhãs infestadas de corações de mel,


viajo dentro de ti como os pássaros quando regressa a chuva miudinha,


verdes cansados beijos,


verdes lábios,


… boca dispersa na Primavera das flores campestres,


verdes olhos, verdes... verdes pergaminhos do amanhecer amargurado,


viajante solitário procurando abrigo, e um abraço se levanta do chão,


e dou-me conta que é noite,


cortinados cerrados...


e da tua janela... e da tua janela apenas uma sombra de silêncio.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 24 de Março de 2014


21.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


a chuva de mim às palavras poucas


entranhado eu nos cinzentos cobertores da solidão


desenho nos lábios da paixão


o beijo


escrevo nas paredes da insónia o eterno desejado prometido abraço...


… e em vão... permaneço obcecado pelas bolas de naftalina do teu olhar


em vão... adormeço pensando nas ranhuras castanhas dos holofotes de cianeto...


as derradeiras gavetas depois do sexo nuas mãos embrulhadas em toalhas de saudade


a chuva de mim às palavras poucas


deambulando loucamente nos pulmões da velha cidade


sem idade


o corpo submerge de um quarto de pensão,


 


há carícias


há amor...


há... gemidos confundidos com uma triste/alegre canção...


e Adeus


Adeus a ti de mim às palavras poucas...


das palavras sem coração.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014



26.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, a maré eleva-o, a maré come-o, e o navio da sede submerge nas rochas negras da noite, o que é desejar, se não querer e não o ter, suspenso, absorto, iluminado pela mão de quem o acaricia... e ouvem-se os gemidos sons da tempestade do silêncio,


O corpo transforma-se em fantasma, o corpo transcreve os invisíveis carris da solidão e desaparece entre os moinhos de vento espalhados pela montanha dos sonhos,


O medo,


A tristeza de um corpo deitado na penumbra descendo das árvores envenenadas pelo desejo, desejar um o corpo proibido, o corpo prisioneiro das mãos do moribundo cambaleante mendigo das trevas, hoje


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, o marinheiro engana-se no navio e quando acorda está fundeado em Cais do Sodré, um cavalo de areia corre junto ao rio, saltita de banco de jardim em banco de jardim, a chuva molha-te e do desejar-te não desejo, a sede esconde-se nas clandestinas janelas com cortinados de chita, e a mão de quem o acaricia... covardemente troca o teu corpo por meia dúzia de cigarros, enrolas-te no Inverno cobertor que cobre o teu cabelo, pareces uma cobra recheada com chocolate e torrões de açúcar, amanhã não o sei, mas hoje, hoje queria ser o dito fantasma vestido de chuva, todo molhado, húmido como o teu, e ao longe, ao longe sentirmos os apitos com doirados sons de fim de tarde,


Não sei quem sou...


Desisto de desejar o que não pode ser desejado,


(dizer que te amo sabendo que o medo transverso do esforço alimenta-se de mim, faz-me fraco, covardemente troco o teu corpo por meia dúzia de cigarros... e quando dou a ordem definitiva ao interruptor para acender o candeeiro da mesa-de-cabeceira... não estás... e diluíste-te com a chuva)


Não sei quem sou...


Desisto de desejar o que não pode ser desejado, os trapos, os farrapos de nós como livros molhados, sujos e imundos, o corpo em imagens tridimensionais... que esperam o meu regresso e curiosamente ainda não sei onde me encontro, preciso de descobrir o caminho para regressar, e se regressar... que seja de noite, que esteja a chover... e que o teu corpo permaneça sobre o divã do desejo


Desejo?


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso... desejar um corpo sem nome.


 


 


(ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013



25.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Um pequeno charco cobria-lhe o rosto desorganizado como um texto escrito com palavras tontas, a chuva cambaleava sobre o olhar dele, ele provavelmente dormia, não dormia, sonhava... ou... talvez nem conseguisse sonhar, os sonhos são caros e raros, o preço é elevado para o comum dos mortais como ele, talvez sentisse o peso das estrelas, talvez adivinhasse que hoje,


Ontem viajava até ao dilúvio sentido da esperança, tinha na algibeira vinte euros e pouco mais do que isso, tinha perdido a caneta de tinta permanente, tinha-me perdido na penumbra melancolia dos versos de AL Berto, e na mão direita um pedaço de lama enterrada até ao mais profundo dos ossos engasgados como vómitos cintilantes das pálpebras encobertas pelo murmurado ronco da nuvem de papel, choravas, o corpo ia aos poucos minguando até evaporar-se na adrenalina folha de papel que me cobria, pensei que estava morto, acreditei ser um imbecil esqueleto que esperava o ressonar da madrugada, o relógio iluminava-me e marcava três horas, e eu ouvia solenemente os rosnar dos ponteiros contra as roseiras,


Talvez adivinhasse que hoje um pequeno versos se escrevesse no pequeno charco de lama onde tinha escondido os meus sonhos, havia-os de todas as cores, tamanhos e feitios, mas um deles pertencia aos arbustos suicidados dos ventos de Belém, dormia e sentia no rosto os medos de uma Lisboa a entranhar-se-me como uma lâmina


As roseiras brincavam sobre o meu peito,


Uma lâmina fina e escura de saudade descia dos cobertores do céu, um homem poisou a mão no meu rosto e beijou-me, eu sinceramente não me apetecia levantar da miudinha chuva, sentia-os e imaginava-me sentado numa esplanada de granito


Aquela onde me sentava a fumar junto ao Padrão dos Descobrimentos e inventava barcos em papel,


O granito era frio, o homem tinha nos lábios o bravio musgo do Presépio de porcelana e eu sentia-lhe a mão rodopiando sobre os meus olhos, queria acordar, não acordava, sonhava e não sonhava, lia e não lia..., deixei de escrever nos teus seios quando a tempestade entrou dentro de mim, o homem beijava-me como um louco e eu, eu como um louco também... escrevia no corpo dela, sentia-a percebendo que ela morreu há mais de vinte e cinco anos, o homem parou de beijar-me, a chuva abrandou... a mulher dos seios despidos... fugiu, também ela morta, também ela em esqueleto de vaidade numa qualquer montra da cidade,


As roseiras brincavam sobre o meu peito,


O relógio silenciou-se, perdi-me no tempo, perdi-me no corpo dele, e pedi ao Outono que regressasse com as sonâmbulas palavras que um pequeno charco cobria-lhe o rosto desorganizado como um texto escrito, a chuva cambaleava sobre o olhar dele, ele provavelmente dormia, não dormia, sonhava... ou... talvez nem conseguisse sonhar, os sonhos são caros e raros, o preço é elevado para o comum dos mortais como ele, talvez sentisse o peso das estrelas, talvez adivinhasse que hoje, que hoje... que hoje


As roseiras brincavam sobre o meu peito,


E lá fora um Oceano espera-me, tal como me espera a guilhotina das paixões não correspondidas, vadias até, sofrer, viver, sentir-lhe dos lábios o odor dos cigarros incinerados, e a poeira de ti sobre mim... e que hoje


As roseiras brincavam sobre o meu peito,


E... e acordei.


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013



25.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada


o livro da colegial dorme como uma criança cansada


o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo


e este


às vezes como um poço sem fundo


também como a colegial


sem nome


voa sobre as praças com candeeiros de prata,


 


Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada


e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva


dos orgasmos fingidos


que a colegial também esconde


não na madrugada


não no corredor da morte...


mas... mas esconde-os na alma do Diabo


como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,


 


A colegial é transparente


é imóvel


saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou


ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer


despe-se para o espelho...


a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco


perplexa


descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013


Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub