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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.11.20

As cerejas serão sempre cerejas na tua boca.

Os lábios das cerejas, na tua boca, teus lábios, serão sempre o nascer do sol.

Das palavras, às cerejas, há sempre um poema envenenado,

Uma canção de espuma,

Na mão sardenta de um condenado.

Há sempre um drogado,

Entre poemas e textos de escrever,

As cerejas, quando doces, são frutos de querer,

São melodias do narciso,

Voando em direcção ao mar.

Depois, no final da tarde, todas as palavras se suicidam,

Dormem na boca das cerejas,

Depois, o beijo, das cerejas,

Parecendo o acordar dos pássaros embainhados pelo sono da Primavera.

Tenho em mim, na minha mão, as cerejas de beijar,

Tenho na minha boca as cerejas do desejo,

Quando no oceano todas as cerejas, entre palavras, se agitam como moças parvas,

Cidades entre esquinas,

Luzes de caminhar de encontro às esplanadas de brincar e,

As outras cerejas,

As cerejas de acariciar,

Pintam na clarabóia da insónia,

As planícies de amar.

Amam-se as cerejas.

Brotam da terra as cerejas mortas,

Caducas,

Velhas,

Onde alguém desenha hortas,

Árvores em papel… e,

Janelas abertas.

As cerejas, meu amor,

São o silêncio da bruma,

São barcaças,

São pingos de espuma;

Um telegrama,

Que não me grama,

Coça os tomates,

Puxa de um cigarro invisível,

Lê na tua mão, meu amor,

Que todos os restaurantes faliram,

Morreram de sono,

Pumba.

Fim.

Incrível,

As aldeias de xisto,

Cansadas,

Cansadas de tudo e de nada,

Visto.

Está visto.

Porta cerrada,

Número de polícia trocado,

O velho,

O farrapo,

O vagabundo.

Atravesso a calçada,

Limito-me a observar,

Os pombos que cagam,

Os homens que cagam nos pombos e,

Meu amor, as cerejas que esqueci na tua boca.

Alimento-me.

Sou um sem-abrigo com ordem de recolher;

Mas nunca, nunca serei um homem de obedecer.

Ponto.

Vivam as cerejas,

Porque de tão belas,

São doces,

São mulheres,

São donzelas.

E as abelhas?

Que se fodam as abelhas.

E as cerejas de comer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 09/11/2020


14.07.14

Há um olhar suspenso nas cerejas do amanhecer,


não existem em mim palavras para o descrever, desenhar…


observar como se ele fosse o silêncio do luar,


mas esse terno olhar... existe, tem um corpo, tem uma alma… e tem asas de voar,


sinto-o todas as manhãs, todas as noites quando habitadas pela insónia,


ele grita pela solidão, e ela, e ela aparece-me vestida de branco,


sei que a loucura não só pertence aos humanos,


conheço árvores loucas, pedras ainda mais loucas, e flores… tão loucas como eu…


sinceramente, este olhar, o olhar que está suspenso nas cerejas do amanhecer…, não,


nunca me pertencerá,


talvez…


talvez seja a ténue luz do desejo, talvez tenha um nome, um apelido,


 


Um beijo para me presentear,


 


Talvez,


gritar por ele,


gritarei, gritarei sem o saber,


e talvez, e talvez o venha a desejar…


o querer,


 


Há um olhar que pertence aos sonhos de sonhar,


um círculo, um quadrado… um triângulo no rosto da música mais bela da floresta…


talvez,


talvez esse olhar, o olhar suspenso nas cerejas do amanhecer…


me diga,


me diga o que fazer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 14 de Julho de 2014


11.05.14

O corpo é de espuma verde,


cintilam nela as cerejas de papel,


o corpo incendeia-se quando cresce a noite nas mãos do desejo,


e ouve-se o beijo,


deambulando nas orgias marés de Inverno,


o corpo em chamas, o corpo Inferno,


como lábios de mel...


a cidade desamarra-se do cais da liberdade,


 


O corpo é de espuma verde,


erva daninha nas encostas da montanha sem amanhecer,


o corpo brinca na lareira inventada dos olhos em verniz envelhecer,


o corpo ginga como uma moeda a morrer,


sei que vês os Oceanos marginais que a cidade embarca,


o corpo diminui, o corpo procura a sílaba tonta com perfume de naftalina, e há uma arca,


e há uma sombra, apenas com uma palavra e que não quero escrever...


o corpo é uma bala com nome de cidade,


 


A cidade a arder.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 11 de Maio de 2014


18.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não oiço a tua voz desde que terminaram as manhãs de orvalho


abríamos a janela do sonho


e víamos as acrobacias tontas dos pássaros embriagados pelas nuvens de cerâmica encarnada


havia na nossa mão pedaços de desejo


beijos


e réstias dentadas no teu pescoço deliciosamente belo e doce


como as cerejas


não oiço a tua voz fotocopiada desde que percebi ser um ultraleve magoado


uma jangada envidraçada


uma porta mal fechada


não te oiço desde que tínhamos pequenos sons melódicos em vasos de cristal


e brincávamos como crianças à volta de uma lareira esfomeada


 


dizíamos que o Sol era nosso depois de fazermos amor debaixo do candeeiro abandonado


beijos


como as cerejas


os vidros


e as paredes


caquécticas


e às vezes


lá tínhamos de correr em direcção ao mar


 


versos ancorados


quando no cais de desembarque o murcho sexo do marinheiro escapulia-se pelas frestas da madrugada doentia


em cio


corríamos como loucos vestidos de versos


e palavras sobrepostas como posições de embarque


fodíamos sem saber que o fazíamos


em cio


versos camuflados depois das tempestades de areia


tombarem sobre o teu corpo húmido de alvorada


e beijos


e caquécticas amêndoas brilhavam no teu púbis de Segunda-feira à noite...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013



01.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


As cerejas de Deus que nos teus lábios comem as minhas palavras


que das tuas mãos Deus colocou sobre o meu rosto de pergaminho


as sílabas transparentes dos degraus impossíveis de transpor


pelos teus sonhos em silêncios azuis


como as pétalas da rosa esquecida no muro em frente à tua alegre casa,


 


Tínhamos um telhado


onde nos escondíamos nas tardes de solidão


e depois de alicerçares nos teus braços os cadernos de nós


ficávamos assim livres a olhar as nuvens


e a inventar histórias que um jornal de província nos comprava,


 


Tínhamos dinheiro para o pão


e para comprarmos novos cadernos


tinta


e às vezes


sobrava-nos algumas moedas para fingirmos que fumávamos flores enroladas em marés de Inverno,


 


Víamos os barcos a morrer como gente desesperada


cansada de trabalhar


cansada... de viver


as cerejas de Deus... comem as minhas palavras


e deixam os caroços sobre a terra semeada,


 


Víamos os barcos em círculo na janela da solidão


barcos que escreviam histórias


nos corpos amarrotados como o papel higiénico da pastelaria


entre migalhas de torradas e o cheiro a chá de hortelã...


vivíamos felizes sem percebermos que éramos miseráveis.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



12.06.11

O cansaço da noite


Abraça-se ao meu peito


Milímetros de sol poisam na minha mão


E sou observado pelo sorriso das cerejas,


 


O perfume alicerça-se-me nas narinas entupidas pelos cigarros


Retiro-a desajeitadamente da árvore suspensa na manhã


E nos meus lábios sinto a sua pele gostosa e macia


Perco-me em minutos, saboreio-a na minha boca,


 


Trinco-a e atiro o caroço contra as nuvens


Penso no rio quando me sentava a contar petroleiros na tarde


E agora percebo que o meu quintal


É um silêncio de navios rumo ao mar…


 


 


Luís Fontinha


12 de Junho de 2011


Alijó


05.06.11

Mãe, as dálias emagrecem, porquê mãe, e o senhor cansado de olho no rapaz que se pendurava na cerejeira, espreitava-o pelos buraquinhos dos ramos, o miúdo mais parecido com um primata, galgava até ao céu os braços da árvore aprisionada ao chão do quintal. Um cão corpulento suspirava na sombra de uma bananeira, e o senhor cansado de enxada na mão gritava com o miúdo, a professora de cana-da-índia em vergastas nas orelhas dos desatentos, o miúdo empoleirado no telhado, e das cerejas acordavam silêncios, tremiam-lhe as pernas, as mãos começavam a descansar e os ramos aos poucos ficavam esquecidos, o miúdo na rua da frente e os ramos na retaguarda, o senhor cansado enfurecido com os óculos e de cigarro ao canto do lábio,


 


- Desce já malvado


 


Malvado seja Deus, e o miúdo em dois passos a trás, toma balanço, e num salto de lince começa a voar e aterra precisamente junto ao cão corpulento, estou safo diz ele, aqui o velho nunca me vai fazer mal,


 


- E agora apanhei-te seu malandro


 


Era o apanhas, deu corda às sapatilhas e nunca mais ninguém o viu, as dálias emagrecem, e porquê mãe, e o velho enraivecido começa a perseguir a sombra do miúdo, mas a distância começa a envolver-se com a tarde, as calças começam a descer-lhe até aos tornozelos, e a enxada agarra-se aos torrões espalhados pelo quintal, suspira,


 


- Desisto… não consigo correr mais


 


O cigarro desfaz-se e um dos dentes sorrateiramente trinca o lábio, as dálias olham-no e conforme o movimento dos ponteiros do relógio de braços abertos na parede da cozinha, as dálias diminuem e tornam-se invisíveis, escondem-se nos calções do miúdo em fuga, e porquê mãe, porque emagrecem as dálias, o corpulento cão faz troça da figura do velho, calças descidas e pernas a afagar o senhor cansado, e pensava, maldito miúdo, grande malandro,


 


- A terra é de quem a trabalha, mas o fruto, o fruto é de quem o colhe,


 


Maldito miúdo.


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


5 de Junho de 2011


Alijó

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