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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.11.22

Uma casa

Sem casa

A minha mão na tua mão

Um quadro sem nome

Que arde nesta fogueira em brasa,

 

Um nome

Sem corpo

O meu corpo

Entre as cerejas do teu olhar

Uma casa que morre,

 

Na casa sem morar

Uma casa

Sem casa

Um poema sem palavras

Nas palavras de amar,

 

Uma casa

Sem casa

Doente

Envenenada

Com tudo e com nada,

 

Uma casa contente

Uma casa

Sem casa

Uma casa revoltada

Nesta casa sem gente.

 

 

 

 

Alijó, 27/11/2022

Francisco Luís Fontinha


25.10.22

Esta casa

Nesta casa infestada

De livros

De nada

À casa

Esta casa vadia

Que chora

Que sorria

Desta casa

Sem casa

Chove

Quando o sol dorme

Dos livros

Infestada

A minha casa

E parece uma lápide de luz

Ai esta casa

Onde poisam os meus ossos

Seus grandes ossos

Que nesta casa viveram e morreram

 

 

25/10/2022

Francisco Luís Fontinha


31.12.20

Uma casa cansada despede-se da saudade.

Todas as portas e,

Todas as janelas,

Dormem docemente na umbria da tarde.

O beijo louco das árvores,

Quando o louco amor,

Desce a calçada,

Quando a boca, da casa, beija a tarde em despedida.

E essa mesma casa,

Cansada,

Dorme docemente na tua mão.

Sabes, amor? Todas as flores do teu jardim e,

Todas as árvores do teu jardim,

Alimentam-me quando o sono desaparece na alvorada,

Uma pomba, voa entre pedaços de papel,

Até à claridade do dia,

Uma casa,

O amor da casa pelo pobre jardineiro,

Uma carta escrita entre parênteses e,

Fica sempre aquém um simples ponto final.

O rio foge das suas margens,

Os peixes agradecem todos os rochedos que encontram,

Todos os dias,

Ao meio-dia.

O café encerrado,

A esplanada entre pontas de cigarro e,

Lâmpadas de néon…

Tristes, como a aldeia dos chocolates.

Sabes, amor?

O beijo é uma fotografia,

Como a casa,

Cansada da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 31/12/2020


21.03.20

Conheci a puta de uma laranja assassina.


O gesto de coçar os testículos,


Quando o Rossio entre orgasmos e gemidos,


Traz o cansaço,


Os berros,


E, os cubículos.


O restaurante, encerrado.


As putas em delírio,


Sem clientes,


Passam fome,


Deveras,


Quando a aldeia acorda.


E eu, aqui sentado,


Fumando cigarros de haxixe, toco clarinete,


Bombo,


Punhetas a grilos,


E, afins.


Se te podes revoltar, revolta-te,


Come tremoços,


Mija contra os postes de electricidade,


Vem-te,


Vai-te,


E fode-te,


Ao pequeno almoço.


As laranjas assassinas,


Na marmita do tesão,


O foda-se,


Então?


Ai Senhor,


As putas em delírio,


O cansaço delas,


Nas mãos calejadas do centro de massa…


A equação do caralho,


Lacrimejado,


Entre paredes,


E dias de desassossego.


Por isso não esqueço,


A maldade,


O sumo da laranja,


Quando assassina o sexo.


Morre o tesão;


Fodam, fodam, que agora é de graça,


E não digam a ninguém,


Contra os rochedos,


Marchar, marchar…


E, depois,


Não se esqueçam de encerrar a janela,


A fechadura,


Porque às vezes, parece,


Mas não o é,


Sempre, às escuras.


Faltou a luz,


Esqueci-me de pagar a electricidade,


Foda-se,


Vou mijar contra o poste,


E se não gostarem,


Acabou.


Fim.


Fodi-me.


Fui assassinado por uma laranja.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


21/03/2020


29.07.18

Nesta casa não conheço a tua pessoa,


Nesta casa despede-se a paixão das estrelas sem nome…


Como um relógio abandonado,


 


Nesta casa deixou de haver alegria,


E todas as janelas se transformaram em grandes,


Revoltadas,


Cinzentas,


 


Nesta casa habita a saudade,


Da tua pessoa,


 


Em cada final de tarde,


 


Nesta casa não conheço a tua pessoa,


Apenas sombras de papel suspensas nas paredes,


E um sorriso submerso na minha infância…


 


Em cada dia,


 


Em cada tristeza.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 29/07/18


28.06.17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,


Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,


Palavras soltas,


Palavras mortas,


Vivas palavras rompendo a madrugada,


Sem nada,


O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,


Escrevo no chão,


Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,


Vomito poesia sobre a janela envidraçada,


E imagino a louca Calçada…


Ajuda, não ajuda,


O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,


O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,


E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,


Uma tragédia, meu amor,


A casa,


Desocupada e infestada,


De livros,


Quadros,


Esqueletos…


E restos de ossos,


Poeira,


Alvorada fora até ao nascer do Sol,


Bebedeira, o esqueleto cambaleia…


Saltita,


E volta a adormecer no meu peito,


Nada me resta,


Nada tenho para te oferecer, meu amor,


A não ser, a não ser… algumas velhas flores,


Pedres,


Envelhecidas como nós.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Junho de 2017


20.03.15

Esta casa em alvorada sinfonia


o som das palavras contra os cubos de xisto


que habitam as montanhas da insónia


o sono


em suspenso


GREVE


hoje


em alvorada sinfonia


esta casa


velha


desabitada


triste e cansada...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Março de 2015


27.12.14

Nunca percebi porque choravam os pássaros da minha terra,


nunca entendi porque em determinados momentos...


se abraçavam as árvores da minha terra,


 


desenhava o sol na velha parede da casa que me recebeu,


havia frestas de engano e vidros partidos,


lá fora o frio parecia um rochedo intransponível,


tão alto como a montanha da saudade,


nunca percebi porque era tão fria a minha terra,


esta...


que amo,


mas é tão fria... meu amor...!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 27 de Dezembro de 2014


31.08.14

Esta casa que não cessa de chorar,


estas janelas com bocas de inferno e línguas de fogo...


para me atormentarem,


me enganam,


me sufocam,


alimentam-me as mãos depois do jantar,


e me tocam,


saciando a sede do rochedo sobre o telhado da saudade,


salpicando de sangue o meu corpo de pano...


esta casa que vi enlouquecer,


onde cresci,


onde morri... morri de sofrer,


 


Esta casa de engano,


estes livros mortos, cansados de viver,


esta casa com paredes de vidro e tecto de colmo...


o circo,


o circo regressa à minha terra,


eu, o palhaço das palavras,


o trapezista dos silêncios...


o que tem esta casa?


que me acorrenta ao soalho emagrecido pelo veneno do sofrimento,


esta casa... esta casa não existe, e eu, o palhaço das palavras...


olho esta casa de frestas e donzelas e crucifixos falsificados,


que o circo transporta nos finados...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 31 de Agosto de 2014


04.05.14

esta casa sem mãos


esta casa com paredes de papel


esta casa sem janelas


porta de entrada


sem música


ou... palavras,


 


esta casa disfarçada de corpo


o teu corpo vestido de granito


esta casa


este grito,


 


esta casa sem amor


nem luz


nem... nem flores


esta casa vadia


escondida nas árvores do quintal imaginário


coitada desta casa apaixonada


que sofre


que vive...


esta casa


uma casa embrulhada em poesia


esta casa sem paixão...


esta casa... uma casa sem coração.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 4 de Maio de 2014

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