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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.12.20

Uma casa cansada despede-se da saudade.

Todas as portas e,

Todas as janelas,

Dormem docemente na umbria da tarde.

O beijo louco das árvores,

Quando o louco amor,

Desce a calçada,

Quando a boca, da casa, beija a tarde em despedida.

E essa mesma casa,

Cansada,

Dorme docemente na tua mão.

Sabes, amor? Todas as flores do teu jardim e,

Todas as árvores do teu jardim,

Alimentam-me quando o sono desaparece na alvorada,

Uma pomba, voa entre pedaços de papel,

Até à claridade do dia,

Uma casa,

O amor da casa pelo pobre jardineiro,

Uma carta escrita entre parênteses e,

Fica sempre aquém um simples ponto final.

O rio foge das suas margens,

Os peixes agradecem todos os rochedos que encontram,

Todos os dias,

Ao meio-dia.

O café encerrado,

A esplanada entre pontas de cigarro e,

Lâmpadas de néon…

Tristes, como a aldeia dos chocolates.

Sabes, amor?

O beijo é uma fotografia,

Como a casa,

Cansada da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 31/12/2020


21.03.20

Conheci a puta de uma laranja assassina.


O gesto de coçar os testículos,


Quando o Rossio entre orgasmos e gemidos,


Traz o cansaço,


Os berros,


E, os cubículos.


O restaurante, encerrado.


As putas em delírio,


Sem clientes,


Passam fome,


Deveras,


Quando a aldeia acorda.


E eu, aqui sentado,


Fumando cigarros de haxixe, toco clarinete,


Bombo,


Punhetas a grilos,


E, afins.


Se te podes revoltar, revolta-te,


Come tremoços,


Mija contra os postes de electricidade,


Vem-te,


Vai-te,


E fode-te,


Ao pequeno almoço.


As laranjas assassinas,


Na marmita do tesão,


O foda-se,


Então?


Ai Senhor,


As putas em delírio,


O cansaço delas,


Nas mãos calejadas do centro de massa…


A equação do caralho,


Lacrimejado,


Entre paredes,


E dias de desassossego.


Por isso não esqueço,


A maldade,


O sumo da laranja,


Quando assassina o sexo.


Morre o tesão;


Fodam, fodam, que agora é de graça,


E não digam a ninguém,


Contra os rochedos,


Marchar, marchar…


E, depois,


Não se esqueçam de encerrar a janela,


A fechadura,


Porque às vezes, parece,


Mas não o é,


Sempre, às escuras.


Faltou a luz,


Esqueci-me de pagar a electricidade,


Foda-se,


Vou mijar contra o poste,


E se não gostarem,


Acabou.


Fim.


Fodi-me.


Fui assassinado por uma laranja.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


21/03/2020


29.07.18

Nesta casa não conheço a tua pessoa,


Nesta casa despede-se a paixão das estrelas sem nome…


Como um relógio abandonado,


 


Nesta casa deixou de haver alegria,


E todas as janelas se transformaram em grandes,


Revoltadas,


Cinzentas,


 


Nesta casa habita a saudade,


Da tua pessoa,


 


Em cada final de tarde,


 


Nesta casa não conheço a tua pessoa,


Apenas sombras de papel suspensas nas paredes,


E um sorriso submerso na minha infância…


 


Em cada dia,


 


Em cada tristeza.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 29/07/18


28.06.17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,


Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,


Palavras soltas,


Palavras mortas,


Vivas palavras rompendo a madrugada,


Sem nada,


O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,


Escrevo no chão,


Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,


Vomito poesia sobre a janela envidraçada,


E imagino a louca Calçada…


Ajuda, não ajuda,


O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,


O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,


E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,


Uma tragédia, meu amor,


A casa,


Desocupada e infestada,


De livros,


Quadros,


Esqueletos…


E restos de ossos,


Poeira,


Alvorada fora até ao nascer do Sol,


Bebedeira, o esqueleto cambaleia…


Saltita,


E volta a adormecer no meu peito,


Nada me resta,


Nada tenho para te oferecer, meu amor,


A não ser, a não ser… algumas velhas flores,


Pedres,


Envelhecidas como nós.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Junho de 2017


20.03.15

Esta casa em alvorada sinfonia


o som das palavras contra os cubos de xisto


que habitam as montanhas da insónia


o sono


em suspenso


GREVE


hoje


em alvorada sinfonia


esta casa


velha


desabitada


triste e cansada...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Março de 2015


27.12.14

Nunca percebi porque choravam os pássaros da minha terra,


nunca entendi porque em determinados momentos...


se abraçavam as árvores da minha terra,


 


desenhava o sol na velha parede da casa que me recebeu,


havia frestas de engano e vidros partidos,


lá fora o frio parecia um rochedo intransponível,


tão alto como a montanha da saudade,


nunca percebi porque era tão fria a minha terra,


esta...


que amo,


mas é tão fria... meu amor...!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 27 de Dezembro de 2014


31.08.14

Esta casa que não cessa de chorar,


estas janelas com bocas de inferno e línguas de fogo...


para me atormentarem,


me enganam,


me sufocam,


alimentam-me as mãos depois do jantar,


e me tocam,


saciando a sede do rochedo sobre o telhado da saudade,


salpicando de sangue o meu corpo de pano...


esta casa que vi enlouquecer,


onde cresci,


onde morri... morri de sofrer,


 


Esta casa de engano,


estes livros mortos, cansados de viver,


esta casa com paredes de vidro e tecto de colmo...


o circo,


o circo regressa à minha terra,


eu, o palhaço das palavras,


o trapezista dos silêncios...


o que tem esta casa?


que me acorrenta ao soalho emagrecido pelo veneno do sofrimento,


esta casa... esta casa não existe, e eu, o palhaço das palavras...


olho esta casa de frestas e donzelas e crucifixos falsificados,


que o circo transporta nos finados...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 31 de Agosto de 2014


04.05.14

esta casa sem mãos


esta casa com paredes de papel


esta casa sem janelas


porta de entrada


sem música


ou... palavras,


 


esta casa disfarçada de corpo


o teu corpo vestido de granito


esta casa


este grito,


 


esta casa sem amor


nem luz


nem... nem flores


esta casa vadia


escondida nas árvores do quintal imaginário


coitada desta casa apaixonada


que sofre


que vive...


esta casa


uma casa embrulhada em poesia


esta casa sem paixão...


esta casa... uma casa sem coração.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 4 de Maio de 2014


04.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Uma casa,


pensava que o teu corpo se ausentava das tardes de Primavera,


uma casa em ruínas cansada das ruas sem saída,


uma casa em solidão, uma casa acorrentada a esqueletos de insónia,


uma casa em desejo, que o desejo se perdeu...


pensa eu,


uma casa só, triste, uma casa que se entranhava nas frestas da madrugada,


uma casa de sorriso cor-de-rosa com flores de papel,


e mesmo assim, tínhamos uma varanda com acesso às estrelas,


sentávamos-nos sobre a mesa granítica da paixão...


e sonhávamos... e, e dormíamos pensava eu,


(pensava que o teu corpo se ausentava das tardes de Primavera),


 


E esta casa sou eu,


um corpo flutuante no Oceano do sofrimento, pinto nos teus olhos... pinto a dor,


e desenho no teu corpo, um outro corpo, um corpo com fatias de xisto para te encobrir as pálpebras dos nocturnos sótãos como melódicas sandálias de prata,


uma casa em forma de homem, uma casa, eu,


pensava,


acreditava que a cidade era linda quando acordava a noite,


descia a calçada, corria em direcção a Cais do Sodré, e via o meu corpo, o meu corpo em formato de casa, desabitada, límpida... com braços entrelaçados no luar,


com corredores mais longos do que a própria morte,


uma casa, esta casa, a casa que sobejou da tempestade,


sentada,


à mesa dispersa nos confinados corações de espuma...


a casa que o meu corpo construiu nas ardósia manhãs que o Inverno levou...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 4 de Março de 2014



03.07.13



foto: A&M ART and Photos


 


Oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Gostava da disposição das mesas, do alinhamento dos talheres, da preciosidade dos prato, uns sobre os outros, fazendo-me recordar as fatias de espuma sobre a crista das ondas, gargalhando como pequenos soluços, ouviam-se horrores transformados em montanhas desavergonhadas, olhávamos os céu, e víamos o cansaço dos anos em pequenas travessuras de crianças, doidos, correndo na peugada de uma sandes de marmelada, ouvíamos, e nada dizíamos, porque éramos pobres, porque éramos melancólicos, porque


Oiça,


E é tão bom, saber que sobre nós, voa uma voz de silêncio, vestida de noite, e ouvir sem perceber porquê... o bater de asas em papel crepe, oiça


Oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Todos loucos, porque os pássaros deixaram de voar, porque as flores nunca mais senti que sorrissem para mim, para os outros é uma coisa... agora, para mim? Eu, o único solitário que lhes pegava com todo o cuidado, acariciava-lhes as pétalas doiradas de olhar envergonhado, eu, eu que me sentava em frente a elas, eu que cruzava os braços, e sorria


Inventava-lhes abraços,


Oiça,


E é


Oiça o que eu lhe digo,


Diz lá, Carlitos,


E é tão bom quando chegamos a casa, abrimos a porta, nada lá dentro, e tudo cá fora, entramos, deixamos as roupas transpiradas no cabide exposto no Hall de entrada, ficar nu, cá dentro nada existe, apenas um espaço vazio, sem vozes, sem livros, e palavras


Oiça o que eu lhe digo,


Diz lá, Carlitos,


E é tão bom, percebermos, que ninguém nos espera, e é tão bom, tão bom, e palavras voando pela janela até desaparecerem entre as roseiras do quintal da Augusta, parecem borboletas vagueando os sonhos do meu corpo desnudo, ósseo, filho de um esqueleto de vidro, finas partículas de areia, um alto-forno a temperaturas elevadíssimas, eu, no centro do forno, borbulhas de azoto, películas de pele levadas pelo vento, panfletos a anunciarem uma greve geral que nunca chegou a acontecer, um dia, de um País que nunca existiu, e morreu dentro do alto-forno... todos lá dentro, o meu esqueleto, a areia, e eles, claro,


Oiça o que eu lhe digo,


Diz lá, Carlitos,


(isto está fodido!)


Isto, isto o quê?


Isto, isto tudo!


Tudo não, porra, porra não, quase tudo, mas nós ainda estamos de boa saúde, pensa Carlitos, pensa que ainda existem pessoas em pior situação do que a nossa


A nossa, qual nossa?


A minha e a tua, porra, porra não, é que...


Oiça o que eu lhe digo,


É que ainda estamos vivos, percebes? E nos tempos que correm... estar vivo é a maior vitória, depois da águia, claro, claro, claro, não porra, porra não, claro, ah...


E é


É o quê?


Tão linda, ela, mais bela que o mar, mais leve que o vento... e voa, voa como as gaivotas, e navega, e navega como os barcos quando entram na barra


Nos teus braços?


E é


É o quê?


Tão linda e tão bela, como ela, como ela quando entra em casa, tudo vazio, as vozes ofegantes das minhas personagens, todas elas, dormem, digamos que


Talvez não durmam todas, mas tenho a certeza que algumas delas, dormem, oiço-as, oiça, olhe o que eu lhe digo, está a ouvir-me? Gostava da disposição das mesas, do alinhamento dos talheres, da preciosidade dos prato, uns sobre os outros, fazendo-me recordar as fatias de espuma sobre a crista das ondas, gargalhando como pequenos soluços, ouviam-se horrores transformados em montanhas desavergonhadas,


Tão linda e tão bela, ela...


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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