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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.12.19

Francisco Luís Fontinha


 


Lisboa, 87/88


Alijó / S. Pedro do Sul – Carvalhais, 89


Parte I


Pensamentos de um homem morto


 1


Hoje pude olhar o nascer do sol!


Seus raios são luz que iluminam a esperança,


Não de viver, mas de sonhar.


Tudo o que me rodeia, acorda de um sonho adormecido,


A Primavera finalmente encontrou o renascer


De um amor incompreendido.


Tenho medo…, não de morrer, mas… de sonhar!


2


Estou só e todo o silêncio é pouco.


Entre estas paredes de quem sou prisioneiro,


Recordo-me dos mais loucos e distantes pensamentos,


As pedras que me escutam, olham o transformar


Da minha sombra na escuridão, e que é testemunha


Do meu processo de destruição…


O insignificante a que pertence o meu pensamento,


De nada compreende o meu passado…


3


Em cada segundo de silêncio, o meu pobre corpo


Descansa entre o sonho adormecido,


E todo o meu sofrimento é constante,


Vertical, horizontal, é dor,


E tu nunca compreendeste o que me espera,


Eles dizem-me que o fim está próximo,


Não da morte,


Mas de tudo aquilo que não compreendo…


4


As palavras,


Gritam-me constantemente o silêncio da morte.


A alegria que existe dentro de mim


Não é real, é apenas uma vontade sem vontade


De viver um futuro denegrido, hipotecado ao diabo.


A tua sombra faz com que o meu caminho


Seja projectado num passado distante da minha verdade,


E o teu futuro encalha no meu presente.


Ao longe, olho a tua sombra, e o teu sorriso é lindo!


5


Adeus liberdade solitária!


Tu compreendes-me?


É essa a razão que faz o meu destino


Parecer e ser incompreendido.


Há momentos e não momentos que imagino a separação,


E outros, fico só e o meu corpo adormece.


Em breve vou morrer…, e então serei feliz!


6


Tudo parece impossível!


Viver, sonhar e amar…


Até adormecer é impossível.


Serei diferente?


Olho na luz que me ilumina, e duvido da sua presença,


E da minha existência.


Não compreendo a verdade,


E permaneço rebelde além da destruição…, fico contente.


7


A alma que chora no meu infinito,


Faz de mim solitário,


E o meu coração esconde-se no desconhecido.


No presente, não penso o futuro,


E..., momentaneamente esqueço o passado,


Mas tudo parece impossível…


Não me preocupo quem sou,


E gostava de saber quem serei mais tarde…


 


Parte II


O acordar de uma mulher


1


Vou caminhando rua acima


Fugindo do meu ideal,


Ao longe recordo o mar,


E compreendo não ser eu real.


 


Seu olhar olha-me constantemente


E recordo minha sombra,


E um dia…, se voltares a ser minha amante,


Certamente não serei feliz como a pomba.


 


Maldita escuridão!


Serei eu um sonhador?


E pergunto ao meu coração


A razão de tanta dor…


2


Estou perdido


Numa canção onde posso recordar-te,


E não imaginas o que tenho sofrido


Não ser eu capaz de amar-te.


 


Gostava de dizer-te alguma coisa…


E por minha culpa


O sol no horizonte pousa,


E transporta-me para tão grande luta.


 


Conquistei o teu sofrimento


Numa noite em Setembro,


Com os teus cabelos soltos no vento,


Que já esqueci e não me lembro.


3


As folhas caídas


Repousam eternamente neste lugar,


Olho ao longe, as árvores despidas


À espera de um novo luar.


Sozinho e triste


Caminho sobre casas ruídas,


Mas…, o meu amor não resiste


Às folhas caídas.


4


Alem recordo o teu rosto


Repartido pelos movimentos vividos,


Brilhante como Sol-Posto


Imagino horizontes denegridos…


Alem ouço a tua voz


Que me tira as forças para continuar;


E alguém chama por nós


Na razão de amar.


Alem recordo o teu sorriso


Tal como se tratasse de uma estrela cintilante,


Alguém perde o juízo,


E eu, eternamente,


Adormeço no mar…


5


As flores acordam ao amanhecer


Caminhando em distantes mágoas,


Em pensamentos que me fazem reviver


A pureza de suas águas.


 


Recordarei sempre o teu olhar


Tal como o teu corpo,


Sabendo que não te posso amar


Porque brevemente estarei morto.


 


Sofro por tua causa


E desconheço se vou resistir;


Em mim apodera-se uma pausa


E logo me leva a partir.


6


As estrelas deixaram de brilhar


E o mar fica distante!


A noite, transparente, parece reconhecer


Sombras encalhadas na ruela,


E ao fundo, a luz cansada de acender,


Apresenta-me uma mulher muito bela.


As estrelas deixaram de brilhar


E o mar fica distante!


Olhei o meu amor


Escondido na cabana,


Escondia sua voz no tambor


E iluminava objectos de porcelana.


As estrelas deixaram de brilhar


E o mar fica distante!


O caos do meu pensamento


Transporta-me para o final,


E todo o meu sofrimento


Esconde-se como um animal.


As estrelas deixaram de brilhar


E o mar fica distante!


 


 


Para publicação


19.04.15

A casa amarela


Dos segredos invisíveis


A impossibilidade de amar


Quando o vulcão da esperança


Em línguas de fogo


A aventura de cessar


Todos os prazeres da vida


Deixar de viver


Meu amor


Estando vivo


Deixarei de pertencer aos sábados melancólicos


Se me abraçares no espelho da paixão


 


Deixei de perceber o amor


E perdi-me no tempo


Não sei o que é amar


Quando amado fui


E amado não serei mais


As mãos


As tuas mãos pinceladas no meu corpo


A atmosfera embriagada das cancelas do amanhecer


O amor imperfeito


Ingénuo


Ambíguo…


Amanhã


 


Meu amor


Domingo


Sem sentido


Perdido


Eu


Nas tuas sombras de incenso


Pego nas tuas asas de papel


Escrevo uma mensagem


E voas


Como corpos em cinza


Levados pelo vento


Das tristes insígnias


 


Tenho medo


Meu amor


De amar-te


Quando percebi


Que não sei amar


Sou um imbecil


Um… um vulto de nada


À janela


Olhando a tua alegre beleza


Na escondida esplanada


Sentados


Brincamos às escondidas


 


Eu escondo-me


Tu escondes-te


… e ele


Eu


Escondido no teu peito


A masturbada cintilação


Das palavras em flor


Os livros comprados


Meu amor


As palavras penhoradas


Por ti


Quando a minha vida


 


Valia quase nada


Não tenho preço


Nem idade


Nem fotografia


Sou um triângulo apaixonado


Pelas janelas das equações diferenciais


O caderno


Em quadrados


O teu corpo


O meu corpo


Em pedaços de rectas


Sem destino


 


Tu


Ao acordar


A carta de despedida


Envidada


Do cansaço


Atravessava a eira


Sentava-me


Meu amor


Ouvia o sino de Carvalhais


Meu amor


Oito horas da noite


Vejo-a


 


Sinto-a


Quando a janela em liberdade


Me trazia o som das cigarras


Pensava em ti


Pensava na Teoria da Relatividade


Ai…


Meu amor


A saudade


Caminhava sobre o teu corpo de gesso


A iluminação da alegria


Hoje


Não


 


Meu amor


Hoje eu não te mereço…


Tenho em mim a tua morte


Sílaba apaixonada


Das pedreiras abandonadas


Vou


Não regresso


Meu amor


Aos teus braços


Sei que a noite me mantém vivo


Porque cerro os olhos


Pego numa tela vazia


 


E desenho o teu sorriso de granito…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 19 de Abril de 2015


31.03.15

As línguas abraçadas no céu-da-boca


A chuva argamassada contra o silêncio nocturno


Em redor de dois corpos invisíveis


O prazer nas palavras


Saltitam enquanto folheamos um livro sofrido


Em lágrimas


Da morte inanimada


O Sol embrulhado dentro de quatro paredes


O tecto desce


Desce…


E tomba no pavimento lamacento de um dos corpos


O fim da tarde evapora-se


Nos lábios de um cigarro


Negro


Noite


Sombrio


Como os pássaros da minha aldeia


Subo aos teus cabelos


E sento-me nas avenidas envernizadas da madrugada


A cidade cresce


Os automóveis enfurecidos


Em raiva


Como os cães selvagens


Montanha abaixo


A ribeira espera-os


Como visitantes insignificantes


O sexo suspenso nos cortinados do desejo


Os gemidos


E as sílabas da saudade


Há no teu corpo


Vapor de água


E cristais de prata


A imagem das tuas coxas em finas lâminas de desassossego


O mar


O mar dentro de ti


Construindo marés de esferovite


E alguns sorrisos apaixonados pelo sono


Perdi-me neste tempo infinito


Quando ainda existiam equações de areia


No quadriculado olhar


Hoje


Sou uma caneta avariada


Que deixou de escrever palavras


Que…


Que tem uma lápide sobre a secretária


E uma fotografia


Húmidas vogais


Agarradas às escadas da paixão


Sem saberem que a morte


Não é a morte


Que o medo


Não é… o medo


Voar


Sofrer enquanto caminho sobre um arame


(sempre quis ser trapezista)


Artista de circo


Palhaço


Andante…


Sem nome


Quando acordo e sinto que estou vivo


A praia parece a eira de Carvalhais


Graníticas espigas de cio


Nas frestas do sonho


Oiço o sino da Igreja


Quase a desfalecer


Tensão alta


(dizem)


E nos teus cabelos


As luas de Saturno


Envergonhadas


E Titã…


Entre beijos e poeira…


  


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 31 de Março de 2015


01.08.14

Tenho no meu peito um fóssil,


uma lâmina de aço laminado,


tenho no meu peito uma cidade, uma mulher que habita nessa cidade, uma lâmina...


que me estrangula, que me absorve,


e engole,


nas noites de Sexta-feira...


 


Há um triste olhar que me acompanha desde as ruas de Luanda,


olhava as sanzalas, inventava grãos de areia no Mussulo,


desenhava peixes nos machimbombos com coração de granito,


ouvia, às vezes, um grito...


e engole,


nas noites de Sexta-feira,


 


Há um apito quando oiço a voz do silêncio,


uma criança com mãos de sisal,


deitada na eira de Carvalhais,


tenho no meu peito um fóssil,


um lâmina de aço laminado,


uma luz esculpida na calçada do abismo...


havia entre nós um muro amarelo,


havia ao longe um rio embriagado,


eu, eu sorria,


eu, eu descia... até que os tentáculos do desejo me levavam,


e quando regressava,


o apito... apitava...


 


O vício vomitava sílabas com sabor a alumínio,


e eu, eu dançava sobre uma nuvem de nada,


que me estrangulava, que me absorvia,


e engolia,


nas noites de Sexta-feira...


… e percebia o significado de liberdade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014


07.06.14

Hoje, quero fugir,


esconder-me na sanzala da minha infância,


com os meus frágeis bracinhos, chapinhar nos charcos de areia,


hoje, hoje a noite parece um cortinado de incenso, ténue silêncio nos teus dedos,


faltam-me as palavras, faltam-me corpos para escrever as palavras,


de neblina, de pólen... corpos, de cera, de nada, apenas corpos sem significado,


hoje, quero fugir,


hoje, hoje pareço uma locomotiva galgando os campos de milho de Carvalhais,


apitos,


e gritos,


hoje,


hoje, os teus olhos incendiaram os meus lábios,


 


(palpita-me que hoje vais descobrir o texto invisível que esconde o meu peito)


 


Hoje, quero-te,


fugir,


alegrar-me com o teu sorriso de bambu,


afagar o mabeco desgostoso, cansado da vida, cansado... cansado destas palavras...


 


(Cansado da tua ausência, e não estás ausente, e não... e não hoje, por favor, hoje não, hoje não sonhos nos teus cabelos)


 


Hoje, quero fugir,


desenhar-te na minha boca,


hoje, esconder-me em ti,


como uma criança amedrontada,


triste,


com medo,


medo que do mar venha a sanzala da minha infância,


e me traga,


paciência...


porque hoje, hoje quero fugir,


e hoje quero-te em mim,


construindo círculos de preia-mar,


 


Hoje, quero-te,


fugir,


alegrar-me com o teu sorriso de bambu,


afagar o mabeco desgostoso, cansado da vida, cansado... cansado destas palavras...


 


(searas, margaridas, hoje todos me pedem as palavras que nunca escrevi)


 


E hoje, e hoje escrevo porque te vi,


e sem ti,


senti o luar poisar nos meus ombros,


senti o xisto dos muros caindo dos socalcos imaginários,


como os barcos de papel,


como os marinheiros de sisal,


enfeitados com plumas encarnadas e sorrisos de vodka,


e hoje, e hoje quero fugir,


aterrar num bar sem conhecer ninguém,


sem palavras,


sem... sem ti,


sentir o machimbombo da paixão em pequenos soluços,


 


(e nada como uma bebida com sabor a amar)


 


Um shot de AMOR!


Porque hoje quero fugir,


um shot de saudade,


porque hoje sem ti,


senti a tua fotografia na montra de uma livraria,


raios...


outra vez a poesia,


um shot, por favor,


um shot de alegria,


um shot para me recordar,


como eram lindos os teus seios de madrugada,


e hoje, hoje quero fugir,


 


(sem me preocupar com o amanhecer, sem me preocupar com nada).


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 7 de Junho de 2014


03.05.14



foto de: A&M ART and Photos


 


embainhas-te no meu corpo como uma bala perdida


há na tua mão a espingarda do desejo


oiço entre as sombras e os sons metálicos


pigmentos do teu olhar envidraçado na cidade do feitiço


às tuas pálpebras de pergaminho


vêm a mim as insignificantes flores da paixão


das tuas palavras


as lágrimas da solidão


sem medo


rompem a montanha das árvores de papel


há luz na cabana


e uma cama que nos espera...


 


(estarás vivo, meu poema de ninguém!)


 


há dentro de ti uma janela


um telheiro com odores de Carvalhais


um velho espigueiro aproxima-se do teu coração


e entre as frestas das ripas em madeira cansada...


os teus beijos


como nuvens de espuma


saltando


e brincando na eira


cruzo os braços


e espero o regresso do paquete teu corpo


há âncoras de sémen nas palavras da madrugada


e uma flor deita-se nos teus seios de silêncio.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Maio de 2014



26.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sentíamos os pinheiros de papel voando nas planícies pinceladas em vermelho inventado,


havia um pulmão de Inverno nos teus olhos de disco voador,


gaivota sonhadora, havia em ti um tímido silêncio de dor,


uma travestida mágoa conversando nas eiras com palheiros de granito,


ouvíamos, às vezes, o ranger das ripas entre os pregos ao aço dorido,


e sentíamos os triângulos isósceles quando ainda existia em nós... a dita tranquila paixão...


 


Ainda sinto as tuas tristes mãos onde habitavam palavras com medo,


segredos sem sentido,


amores proibidos... beijos que nunca conheceram o diáfano cansaço da noite,


sentíamos os alforges engolindo pedras e outras coisas sem nome,


e ainda sinto,


e ainda tenho... a dita tranquila paixão...


 


Sabíamos que a saudade era apenas uma palavra perdida no meio da seara envenenada,


sabíamos... sentíamos... sabíamos que os nossos corpos jamais se separariam das janelas com grades em vidro,


e no entanto... deixamos adormecer todas as imagens a preto-e-branco que tínhamos encerrado dentro dos nossos corações de manteiga,


o amor desperdiçado em voláteis vozes em fumo e banho-Maria,


e... e nós... a dita tranquila paixão...


em poderosos parquímetros com paquetes em dóceis apitos do desejo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 26 de Janeiro de 2014



11.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Inspiração quanto baste, três desejos e um sonho, o mar sumarento e sensível como a pele límpida da alvorada, quatro árvores desajeitadas e sem sono, uma drageia ao pequeno-almoço e outra...


Ao deitar?


E a outra e mais outra, a inspiração, o orvalho, o soalho e o espelho, a cama em lágrimas e o sofrimento impregnado nas lâminas transversais do gesso embriagado, quatro árvores em decadência, um corpo suspenso na madrugada, a chuva, as nuvens apaixonadas pelo triste cacimbo... e nada mais, e apenas um menino


Ao deitar?


Quatro drageias, três árvores em desejo misturado em cinco quintos de sonho, uma


Merda?


Ao deitar?


As fotografias em constante transbordo, a locomotiva da paixão descarrilou, ravina abaixo, ravina acima, a mini-saia encarnada e as meias com bolinhas brancas, no joelho a nódoa negra, a pedra em granito que caiu do silêncio camafeu em robe e velho pijama, o corredor, a espera, a derradeira espera, uma janela, cigarros na mão, ao longe, ao longe o metro de superfície parecendo uma lesma sobre os muros em xisto do Douro Vinhateiro, socalcos de pano, lanternas na cabeça, e a burra... tropeçando, e a burra...


Ao deitar?


Desesperado eu, a inspiração em drageias, quatro, cinco... ou nenhuma... as janelas embebidas na dor e eu sentado, braços cruzados, braços descruzados, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, e eu... desesperando, pensando, pensando


O que será de nós?


E ao deitar,


Não sei se a imaginação vive dentro de mim ou se eu, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, cruzo os braços, descruzo e enrolo-me à dor dos presentes, fumo, não fumo, abro a janela, não abro a janela... apetece-me saltar, aterrar do outro lado da rua, cair sobre os carris do metro, deitar-me de barriga para o céu... e gritar, e... e chorar..., e


Ao deitar tomo as drageias da saudade, meio copo com água, um copo com uísque, dissolvidas todas como sementes junto à eira em Carvalhais, irrita-me


Ao deitar?


O metro de superfície correndo como um louco, e dizem que o louco sou eu, cruzo, descruzo, invento desenhos nas paredes incolores da tristeza, oiço-os em conversas desalinhadas, finjo não os ouvir, eu não os quero ouvir,


Ao deitar? E ao deitar a sonolenta voz das palavras, a neve sobre os telhados que a dor deixa nos malditos ossos, frágil – cuidado, cuidado com o cão, cuidado com as carruagens do metro de superfície engasgadas, tosse e rouquidão, não sei se fume, não fume ou fume, comprar cigarros, saltar a janela, saltar o gradeamento, saltar os carris... e eu... e eu imaginando cigarros nas paredes coloridas da cela, a porta abre-se...


E?


O que será de nós?


E ao deitar, o perfume da Cinderela passeando junto aos carris...


(desesperado eu, a inspiração em drageias, quatro, cinco... ou nenhuma... as janelas embebidas na dor e eu sentado, braços cruzados, braços descruzados, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, e eu... desesperando, pensando, pensando


o que será de nós?)


Inspiração quanto baste, três desejos e um sonho, o mar sumarento e sensível como a pele límpida da alvorada, quatro árvores desajeitadas e sem sono, uma drageia ao pequeno-almoço e outra...


Ao deitar?


Ao deitar as drageias, os silabados imaginados por um louco que depois da felicidade deseja voar como gaivotas sobre os petroleiros vampiros que habitam os rios dos velhos sonhos de infância,


Não sei, não... sei... não sei se ele conseguirá...!


Talvez,


Ao deitar?


Talvez... talvez ao deitar.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Janeiro de 2014



26.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Vinte e uma horas e as ratazanas azuis deambulam no corredor da insónia


sou invadido por um sonho em tons de branco


e um tecido opaco ofusca-me o olhar


a cegueira entranha-se na minha mão


passo-a pelo teu rosto e verifico que não tens rosto...


… vinte e uma horas e tu não existes


e tu


tu pareces uma rosa desgovernada na paisagem sem moldura


uma tela em branco


uma janela...


janela sem caixilho... quando sinto o vento entrar e nada posso fazer


e nada me apetece fazer...


 


Deixo a caneta sobre a secretária


deixo um dos livros em pausa perto da mesa-de-cabeceira


desligo o interruptor da saudade


dos sonhos


e percebo que a lâmpada do desejo nunca mais se acenderá na minha vida...


anticongelante corre-me nas veias tristes e sonolentas


agrestes


precoces como os primeiros passos em sandálias de couro


os calções voavam sobre as mangueiras sem bandeira


e a apátrida criança nunca mais quis olhar o mar...


desistiu


desistiu dos sonhos com bonecos de peluche


 


Desistiu dos velhos pinheiros de Carvalhais


da eira


do espigueiro...


vinte e uma horas em Portugal Continental


e um miúdo perde-se na imensidão das ruas com os espelhos das velhas secretárias


com velhos papeis


em velhos edifícios atulhados em reumatismo e bicos de papagaio...


o tempo acabou


e os calões hoje são gaivotas com sandálias de couro


que brincam no Baleizão


ou...


ou... ou talvez... não.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Dezembro de2013



05.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Tristemente invadido pelas análises clínicas dos perfumados jardins das jangadas embebidas em cianeto e outras


Escadas?


Palavras, não o sei, não o consigo perceber, talvez este verso alimentado pela inveja encontre dos triângulos dos dias tristes as algas masturbadas dos rios envenenados pelo doce odor da paixão, do cinismo...


As escadas...


Nunca tive Sábados, e à Sexta-feira tínhamos Açorda de Marisco, pão, vinho e sobremesa,


A sério?


Tristemente invadido pelos machimbombos da insónia, escondia-me de ti, debaixo da mesa no quintal das bananeiras, mangueiras e outras … eiras


Carvalhais,


Sexta-feira,


Eles não sabiam que tínhamos almoçado, traziam-nos coisas estranhas, comíamos tardíssimo porque acreditávamos que havia fantasmas que roubavam a comida dos pobre, e as tuas mãos abraçavam-se à minha cintura rechuxuda, hirta... fria como a geada de hoje à noite, e dizias-me que todas as árvores são como os pássaros quando são velhos...


Não voam, não voam mas também não andam, não bebem... e também não pagam, e também,


As escadas?


Sexta-feira,


Tristemente...


Aquele beijo que ficou esquecido sobre a mesa-de-cabeceira, aquele sorriso impregnado na vidraça estilhaçada da janela com fotografia para o quelho, aquele abraço perdido dentro dos cobertores da inocência, aquele beijo, aqueles teus lábios em pétalas que o desejo sobejou das tardes perdidas, aqueles livros poeirentos abandonados na estante do corredor, aquele teu alicerçado seio sobre a minha solidão, claro... imortal na cama em tardes de neblina, imortal no jardim dos clandestinos Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


Aquele beijo, aquela melodia adormecida sobre os abajures da melancolia, aquele dia com palavras de luar, aquela madrugada com talheres em prata, e corpos, corpos de nata...


E ouvíamos o beijo esquecido das gaivotas em cio, e ouvíamos os tristes carris da liberdade mergulharem nas montanhas de papel como lagartas e outros bichos, coitados


Procurando,


Coitados...


Caminhando..., o beijo esquecido das gaivotas em cio, procurando as cinzas do casebre abandonado depois de partirem todas as árvores do destino que acompanhavam as alegres palavras comedidas pelas mãos de giz... aquele divã onde te deitavas, e eu, eu sobre ti entranhava-me nos teus gemidos invisíveis dos xistos borboletas em voos de andorinha, coitados...


De nós...


Deles...


O beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro... imortal no jardim dos clandestinos


Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


E não bebem, e não pagam, não dormem mas... também não sonham,


As escadas?


Tristemente tristes, tristemente... sós, sós, talvez só às vezes tristemente sós...


O beijo dilacerava-se, o beijo derretia-se como chocolate, a Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo pela módica quantia de


Os beijos pareciam migalhas de pão abandonadas sobre a mesa de ébano, cheirava a naftalina, a toalha pertencia aos objectos escondidos como as pratas que deixaram de existir desde eu criança, como as porcelanas e todo o marfim, tínhamos falido, e vivíamos como Príncipes imperfeitos vestidos de carrancudos criados sem ofensa para vossemecê meu grande amigo


As escadas?


E pela módica quantia de dois beijos e uma sexta-feira...


Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo a estrear, excepto o vinho, que esse, esse já era em quarta ou quinta mão,


Sexta-feira, amanhã, a estrear, o beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro, e eu, eu inventado Açordas de Marisco, sopa, pão... e o vinho, e o vinho parecendo água depois das tempestades de...


Sexta-feira, Sábado, e Sexta-feira temos


Açorda de Marisco... e vinho, e vinho, tristemente... só. Só.


(onde está a sobremesa, raios?)


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013


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