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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.07.23

Antigamente escrevia cartas, hoje, escrevo silêncios.

Sempre quis ser artista; a minha mãe talvez acreditasse que eu um dia fosse estilista, pois passava tardes inteiras, em Luanda, a desenhar e a costurar vestidos para um parvalhão de um boneco, que ainda hoje desconheço a razão de o ter baptizado com o nome de chapelhudo, e sendo eu contra os nomes das coisas e das pessoas, pergunto-me

Porquê?

Porquê chapelhudo…

Não o sei.

Como deixei de saber tanta coisas,

A tarde fugia, e eu corria e conseguia apanhá-la junto à capelinha, metia-a no bolso, e sorria, e foi aí que aprendi a desenhar.

Antigamente escrevia cartas, hoje, hoje queimo cartas e lanço-as ao vento, e o vento as leva para o mar.

O meu pai nunca duvidou que eu um dia viesse a ser artista, e não se enganou, de arte em arte, fui artista maior da parvoíce e estupidez, graças a Deus e à insistência da minha mãe com ele, cá estou eu,

Noutras artes.

Antigamente escrevia cartas, hoje, procuro a tarde que fugia e eu corria, corria…

E agarrava-a junto à capelinha.

E voavam, voavam,

Como silêncios envenenados.

Quase fui trapezista, sim, trapezista, não fosse a minha paixão pela cachopa trapezista, e que queria que eu a acompanhasse de terra em terra, num qualquer circo ambulante,

Não fosse essa minha paixão, desfalecer, quando olhei para o céu,

E ela,

Ela voava, voava…

E pensei,

E voa, e voa…

E prefiro ser poeta.

Antigamente escrevia cartas, hoje, hoje pinto trapezistas nas telas, desenhos os papagaios que a minha mãe me ensinou, escrevo, escrevo para o vento, e para o mar.

Antigamente escrevia cartas, hoje, hoje não escrevo cartas, mas sinto raiva, das cartas escritas.

Antigamente escrevia cartas, hoje, hoje conto as cartas que escrevi.

 

 

 

21/07/2023


12.04.23

Já ninguém escreve cartas. Já ninguém escreve cartas de amor, cartas perfumadas… papel com corações, janelas que se abriam e só se encerravam depois da alvorada.

E enquanto escrevia cartas, sentia no rosto os pingos da ausência, sentia no rosto as lágrimas embalsamadas das cartas que escrevia, das cartas que guardava, já ninguém escreve cartas, já ninguém… me envia cartas.

E às vezes, muitas vezes, pergunto-me se recebesse cartas… o que faria eu?

Provavelmente, não as abria.

Enterrava-as junto ao mar, ou muito mais simples, queimava-as antes de abrir.

Uma vez por semana, esperava o regresso do carteiro, que me trazia uma carta perfumada, uma carta escrita na alvorada, hoje, hoje já ninguém escreve cartas, já ninguém escreve cartas de amor.

Cartas perfumadas. Papel com corações desenhados, fotografias a preto e branco, um telefonema de dois em dois dias… e claro, uma vez por semana, o amigo carteiro trazia-me cartas, cartas perfumadas, cartas de uma ausência, a minha, quase sempre não as lia, quase sempre as guardava na gaveta dos sonhos, por abrir; depois, dias depois, quando eu regressava das minhas viagens à lua, abria-as todas, uma por uma, e enganava a ressaca com as palavras de amor que recebia.

Ai as cartas, as cartas perfumadas, as cartas da ausência, nas cartas onde me escondia, nas cartas onde eu sabia que tinha um abraço, um beijo, um… quase nada.

Cartas.

As ausentes e as remetidas, as cartas recebidas e expelidas contra o sono, e durante toda a noite ouvia o ranger dos meus ossos, e durante a noite

Cartas, recebia cartas.

Aos ausentes, aos mortos que ainda hoje, alguns, me enviam cartas.

Cartas perfumadas, cartas de uma ausência enquanto a noite entrava em mim e sentia no meu corpo as amarras do cansaço, e sentia no meu corpo o brotar das flores de aço e dos pregos que aos poucos,

Das cartas em sono,

O meu regresso da lua.

Coitadas das cartas, coitadas…

Hoje, hoje já ninguém escreve cartas;

Cartas de amor.

Cartas perfumadas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

12/04/2023


18.12.22

Já ninguém escreve cartas.

Há muito tempo que não recebo cartas

E as poucas que recebo

Ou são pagamentos

Ou notificações,

 

Também deixei de escrever cartas,

Antigamente escrevia-as

Hoje

Hoje não escrevo cartas.

 

E tenho saudades de escrever cartas,

E tenho saudades de receber cartas,

 

Cartas de amor,

Cartas de ódio,

Cartas invisíveis

E visíveis…

 

Cartas,

 

Cartas com destinatário,

Cartas com remetente,

Cartas anónimas,

 

Cartas.

 

 

 

 

 

Alijó, 18/12/2022

Francisco Luís Fontinha


19.10.21

Certa noite, enquanto o poema sedução lia o poema em desejo, junto à lareira, o Rei mais desajeitado do reino entra na sala e rapta o coração do poema sedução. O Rei desajeitado era manco da sílaba esquerda e, enquanto deambulava pela sala em gritos histéricos

- Queimem a noite, queimem a noite,

O poema em desejo abraçou-se ao coração do poema sedução e segredou-lhe baixinho

- Não, não tenhas medo, não, não tenhas medo,

O Rei desajeitado só consegui ser Rei porque seu pai, também ele Rei, desajeitado, trocou o seu irmão gémeo, uma hora mais velho, enquanto foi defecar, regressado, pensando que pegava no seu primogénito, não

- Estamos fartos e a fome é muita,

Batem à porta. O Rei e seus compinchas ameaçaram o poema sedução e, caso não obedecesse, nunca mais tinha o seu coração de volta,

- Queimem a noite, queimem a noite,

Mas o coração do poema sedução pertencia em palavras e versos ao poema Beijar, este, percebendo que a sua amada poema sedução corria perigo, organizou um exército de poetas e, todos juntos, construíram o livro e, fizeram frente ao Rei manco da sílaba esquerda e dos seus compinchas,

- Amigos poetas, todos juntos vamos salvar o coração do poema sedução,

E assim, todos em conversa, combinaram a melhor estratégia para actuarem frente a tal assassino,

- Entramos na sala e declamamos o poema,

Diz um,

- E se o Rei gostar de poesia?

Argumenta outro,

- Tenho uma ideia,

- Sim, diz,

Escrevemos o poema e, enquanto o declamamos, um de nós apaga a sílaba direita do Rei desajeitado,

- Que acham?

Combinado.

 

Rei desajeitado

Deste Reinado

Malvado,

És Rei de nome

Pai da fome,

És Rei sem Nação;

Vai malvado e deixa o coração do poema sedução.

 

Achas que vai funcionar?

Talvez!

- Queimem a noite, queimem a noite,

Em gritos histéricos o Rei desajeitado,

Tinham de actuar com toda a rapidez, pois o coração do poema sedução corria grande perigo.

Entraram na sala aos gritos, declamando o poema:

 

“Rei desajeitado

Deste Reinado

Malvado,

És Rei de nome

Pai da fome,

És Rei sem Nação;

Vai malvado e deixa o coração do poema sedução.”

 

Enquanto o Rei desajeitado, muito assustado, porque nunca tinha enfrentado uma batalha de poesia na sua vida, um dos poetas deita por terra a sílaba direita e, coitado do Rei desajeitado, cai no soalho, neste caso, na página argamassa do poema.

O poema sedução ficou com o seu coração e, o Rei malvado e desajeitado desapareceu do reino para dar lugar a uma República a sério;

- Queimem a noite, queimem a noite,

E nunca mais foi noite.

 

Parabéns, meu amor!

 

 

Alijó, 19/10/2021

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


01.12.18

A navalha suspensa no pescoço da saudade, o terrível ausentado sentado na cadeira do barbeiro, o silêncio da espuma de barbear esvoaçando pelos jardins do sofrimento, adoro o Outono, diz ele reflectindo os lábios em suspiros no espelho,


- É o penúltimo andar do edifício do amor,


O ouro liquefeito escorrendo-lhe entre os dedos queimados pelo cigarro, não dorme, e, em lágrimas, recorda a solidão das tardes perdidas, lá fora está frio, o sussurro da alma descendo a montanha, velozmente, sente, na garganta,


- Ai Sr. José, cuidado com a navalha,


O Sr. José, diplomado desde 1835 em navalhas,


- Sabe, tenho fome, sede, saudade das sombras e dos pinheiros mansos, e, mesmo assim, deixei de escrever,


Navalhas duplas, triplas, circulares, quadrangulares e outras,


- Já faço isto à muito tempo, Sr. Francisco…


A noite é fria, a casa está escura, e, quando abro os olhos vejo as pirâmides do Egipto flutuando no tecto da sala, corro, desço as escadas até ao rés-do-chão, e, nada, absolutamente nada,


- É o que faz ser poeta, Sr. Francisco,


Os poemas matam-me, sofro, e, choro, escrevo cartas que nunca envio, tristezas e desabafos alucinados pelo luar,


- Vamos cortar o cabelo?


Pelo luar, o eterno abraço, o beijo enfeitiçado, como as velhas folhas de papel amarrotado onde escrevia, respondo-lhe que não, cabelo não,


- O Sr. É que sabe,


Abro a janela, um lenço de suicídio desce à velocidade de nove virgula oito segundo quadrados, aterra no pavimento, e, nada, deixou de respira, está moribundo, e tem na mão o esqueleto da insónia,


- Está novo, Sr. Francisco,


E depois da insónia regressam as lágrimas, e depois das lágrimas regressam as madrugadas sem ninguém…


- Tenha uma feliz noite, Sr. Francisco,


Dou um aperto de mão ao Sr. José pelo poema que me desenhou no rosto, e, vou jantar…


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Dezembro de 2018


07.01.18

Recebo cartas de amigos que não as leio,


Não me apetece ler cartas,


Desgraças,


Ambientes fumegantes nas ruas desertas do meu corpo,


Recebo cartas,


Lembranças,


Livros,


Papéis e velharias,


Cartas,


Cartas de amigos sonolentos,


Recebo cartas de amigos que não as leio,


Esqueletos de prata,


Póstumo o meu nome na tua mão,


As palavras que ardem na lareira,


Como todas as cartas,


Como todos os nomes da minha infância,


Recordações,


Recordações das cartas que recebo…


E não leio…


Não,


Não me apetece ler cartas,


Por favor…


Não me enviem cartas.


Cartas, não.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 7 de Janeiro de 2018


21.08.15

Partirei sem desenhar o meu nome na alvorada fantasma da vida,


Partirei sem deixar uma sombra deitada na manhã,


Partirei sem vontade de regressar,


Partirei como um sonâmbulo ambulante pernoitando de festa em festa,


Nos lábios do luar,


Partirei descendo a avenida


Que me levará até ao esconderijo da agonia,


Partirei apaticamente para o outro lado da rua,


Sentar-me-ei até que o meu corpo desfaleça,


Tudo esqueça,


A doença,


A amargura


E a tristeza,


Partirei deixando um prato de sopa dormindo em cima da mesa,


Falarei baixinho,


Dócil…


Para ele não me ouvir,


Só me faltava a mim


Levar comigo um prato de sopa,


Uma colher…


E um pedaço de pão


Para alimentar a solidão,


Assim… não saberei partir…


Partirei sem levar os livros,


As músicas mais desejadas,


Partirei deixando na fogueira todas as cartas,


Todas as palavras,


Que nunca deveria ter escrito…


Partirei,


Partirei vestido de pedinte,


Cambaleando contra os candeeiros da saudade,


Não, não vou levar comigo a felicidade…


Porque partirei de livre vontade,


Ao amanhecer,


Sem ninguém saber,


Partirei,


Partirei e deixar-me-ei envelhecer…


Até morrer.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 21 de Agosto de 2015

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