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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.08.18

O que eu estranho na tua voz,


Os musseques de Luanda, ao longe, a praia e o mar…


Sinto o velho capim embrulhado nos meus braços,


Assobios,


Abraços,


Sinto no meu corpo o sorriso dos mabecos, enfurecidos pela tempestade,


Chove, a água alicerça-se no meu peito,


Estou morto, nesta terra sem fim,


Dilacerada como um cancro de chumbo poisado no meu sorriso…


A morte é bela,


E passeia-se pela minhas mãos.


 


Ouves-me? Camarada das noites perdidas…


 


O que eu estranho na tua voz,


O silêncio das flores,


As raízes do cansaço em frente ao espelho, sinto e vejo… o susto,


O medo de adormecer no teu colo,


Meu cadáver de lata,


Recheado de lâmpadas encarnadas…


 


Ouves-me? Camarada das noites perdidas…


 


A jangada laminada,


O sorriso de uma pomba, correndo a Calçada,


E no final da tarde,


Antes da alvorada,


Uma pedra se parte, arde na minha mão, como uma faca de sombra…


Cravada no corpo.


 


Assobios,


Abraços,


 


Enquanto eu o que estranho na tua voz,


São as sílabas do desespero.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 19/08/2018


11.06.17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,


Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,


Entre livros e papelada,


Entre copos e corpos sofridos na madrugada,


Tenho nas veias o teu nome,


E na algibeira as réstias da fome…


Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,


O Domingo termina na sanzala…


No capim brincam as minhas mãos de fada…


Que um papagaio de papel inventou na alvorada,


Sinto neste meu corpo desajustado da realidade


O vício sintético da falsidade…


O orvalho clandestino,


O sorriso do menino…


Na praia do Mussulo,


Só e abandonado,


Só e amedrontado,


Só nos rochedos pincelados de palavras mortas


Pela caneta do poeta,


Fracassado,


Pateta…


O delírio fantasma


Dos arraiais da felicidade,


Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,


Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…


Sangrando as avenidas


Desta cidade perdida,


Um diário disperso, um livro desassossegado,


O vazio buraco negro do desgraçado…


Mendigo da multidão,


Haja alegria e pão na eira,


Que no corpo da feiticeira


Argamassam os lábios da solidão,


Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…


E passo a horas a desenhar,


No teu corpo, meu amor,


O delírio fantasma da paixão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Junho de 2017


12.10.15

desenho_12_10_2015.png


Fontinha – Outubro/2015


 


Ouvi-los… nunca,


Estes loucos pássaros envergonhados e tristes,


Estes homens sem fronteira


Galgando a sombra de outros homens,


Na fome, na miséria beleza


Quando o mar se aproxima, e mata, e eles fingem morrer,


Junto à ribeira,


Com o medo de tudo perder,


Eles, os pássaros, eles, os homens sem fronteira,


Agachados nos riachos envenenados pelo dinheiro,


Rastejando no capim outrora fértil de palavras…


E hoje, e hoje Oceanos de lágrimas laminadas.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015


 


27.03.15

Tenho no corpo


o sentido proibido do silêncio


os ossos choram todas as madrugadas


das lágrimas


as palavras


e nas mãos o feitiço do amanhecer


querer


não quero


ser


sem o saber


a leveza insignificante dos meus braços


suspensos no sorriso do luar


não acredito


acreditar


nas nefastas sentinelas da noite


o amor camuflado


caminhando no capim


as pálpebras cinzentas


misturadas nos cigarros embriagados


que só o fumo consegue desenhar


no triste pavimento da sanzala


oiço a sombra da paixão


voando sobre os coqueiros


o papel colorido


inventando poemas


nas nuvens cortinas do meu aposento


os livros


os livros são como homens em cio


cansados


cansados das sílabas em flor


e do rio


onde adormece a ponte do desejo


não desejando


desejar


não desejando


desejar o perfume do mar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 27 de Março de 2015


13.01.15




(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


A cidade camuflada pela espingarda das palavras,


o homem vestido de madrugada


esconde-se entre os candeeiros sem nome,


no cais,


encontra a solidão


e alguns cigarros de triste olhar,


há sobre ele o cheiro da saudade


e dos machimbombos puxados pelo cordel invisível do capim,


ouvem-se canções no musseque,


e dançam


e dançam


e dançam...


dançam em redor dos mabecos em fúria,


dançam imaginando pequenos charcos de água


como se o dia não tivesse acordado,


a cidade,


acorrentada,


o homem,


sufocado,


ele,


ela...


e não há poesia nos triciclos de madeira apodrecida, e não há poesia nos papagaios de papel,


esta cidade está infestada de sombras


e de lágrimas cor-de-rosa...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015




19.12.14

Vadios soníferos da vaidade


que deambulam nas clandestinas ruas da saudade,


olhares prisioneiros da escuridão,


pincelados tentáculos de gelo descendo o teu corpo pérfido...


e às minhas mãos


o teu cabelo incendiado pelo desejo,


e às minhas mãos o odor censurado do teu coração,


voando sem rumo,


voando... voando embrulhado em lápis de cera que o tempo engole,


e não sabe que em mim habitam os cinzeiros de chita,


os cigarros de papel aromático desenhando lábios de medo na alvorada,


vadios soníferos da vaidade... vadios monstros da madrugada,


vadios meninos de Luanda,


sanzalas encalhadas no cacimbo zincado,


capim em luta pelo sexo,


sem horários como os calendários nocturnos dos mabecos em cio...


o rio se abraça ao barco náufrago que transporta a felicidade,


e a ponte se alicerça aos seios do amanhecer,


vadios os meus poemas


em meninos de Luanda,


a infância lapidada numa avenida sem estória,


como uma fotografia inseminada num estúdio negro,


assombrado,


sem número de polícia... ou paragem de machimbombo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014


15.04.14

nos teus lábios habita o solstício da paixão


sinto o odor cansado do teu cabelo voando sobre as sombras da solidão


há lágrimas no teu sorriso


há insónia na tua noite construída de trapos e cortinados negros


e dos teus olhos


o silêncio das caricias desenhadas pela mão de um coração


sinto-o


e oiço-o


como os sonhos que vivem dentro de mim


nos teus lábios habita o sofrimento envenenado


e lá fora alguém grita o teu nome


sons metálicos cambaleando sobre a dor


traços


triângulos


círculos com olhos verdes


nos teus lábios a imagem da criança em pequenas viagens


espera pelo machimbombo


um homem puxa-o com um cordel imaginário


e de rua em rua


e de casa em casa


leva mangas e cacimbo e capim


tem nas mãos a dócil fotografia de uma cidade perdida


o mar alicerça-se às pernas do menino...


a criança vê nos zincos telhados outros meninos


meninas


e sonhos como os dele...


sonhos com sabor a papel...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 15 de Abril de 2014


27.02.14



Foto de: A&M ART and Photos


 


(aos meus pais que fazem hoje 49 anos de casados)


 


 


As tuas mãos gélidas nas minhas pálpebras de insónia,


oiço-te sorrir junto ao tanque da agonia,


ao longe os gemidos trémulos do sino da Igreja...


percebo que nos teus olhos habitam lágrimas de papel colorido,


e sobre os teus ombros,


o peso,


o peso imensurável das sombras do abismo,


o peso... o peso da saudade saboreando as nuvens de algodão da madrugada,


 


As tuas mãos são como pedaços de barro esquecido na parede da solidão,


há em ti cabelos perdidos e alguns silêncios intransponíveis, ocultos... mórbidos,


há dentro de ti o cansaço,


o triste cansaço da vida,


e das tuas mãos as doces carícias do amanhecer,


há uma janela com palavras de acordar...


e palavras de acordar nos cortinados que cobrem as tuas mãos gélidas,


as tuas mãos de mim, as tuas mãos de uma sanzala enrolada em capim...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014



25.02.14

Sento-me nas esferas anacrónicas dos beijos de papel,


sinto o perfume cansado de uma rosa embalsamada,


ela dorme dentro de um poeirento livro,


e chora e sofre... e sonha,


sento-me e percebo que sou um pedestal sem mágoa,


um triste infeliz construindo barcos de esferovite,


sinto-me aprisionado aos tanques de marfim onde mergulhavam os meus bonecos de criança,


e sei que lá fora, quando cai a noite sobre o capim...


chora,


a cobra de quatro cabeças,


a longa esferográfica perdidamente apaixonada por mim...


que loucamente inventa palavras, círculos... e quadrados com olhos de insónia.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014


09.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sentia-me surpreendentemente minúsculo no colo dele, sentia-lhe o medo na ponta dos dedos, sentia-lhe a ofegante madrugada a entranhar-se nos seus olhos castanhos, sentia-me


E ele percebia as minhas tristes pálpebras desde que acordei da noite e nunca mais adormeci, e nunca mais sonhei, e nunca mais..., amei, porque


Sentia-me envergonhado de ser um menino em papel colorido com cabeça a preto-e-branco, sentia-me envergonhado porque sabia que o vento me vinha buscar, e que eu, eu não tinha coragem de pronunciar a palavra “Obrigado”, porque, porque percebia-se nas telhas do casebre que mais tarde ou mais cedo algo de triste


Triste?


Que algo de triste ia acontecer, e aconteceu, e... senti-me ténue nas mãos garras da gaivota sem nome, pediram-me a certidão de nascimento, acanhadamente respondi-lhes que não a tinha, que nunca a tive, porque


Sou,


Sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu


Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos


Sou,


Pássaros como bolas de naftalina, como beijos prometidos e nunca dados, como beijos perdidos na avenida longínqua da saudade, e sentia-te sentir na minha mão os teus velhos lábios, os teus lábios inventados pelo batom encarnado, e de uma roulote ouviam-se-lhe os gritos da distância, no oitavo andar sentia-lhe os sons amorfos encurralados na janela de porcelana, ele chorava entre as linhas do velho, também ele, do velho


Caderno quadriculado?


Um lindo poema morre, e sou, sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu conversava com as também velhas sombras de Deus, e de nada percebia, queríamos conversar e não tínhamos todas as palavras necessárias, Deus imaginava-me um louco vestido de andaime suspenso num oitavo andar da memória, Deus queria-me e eu sentia-lhe os sonoros melódicos suspiros do velho piano de cauda, um livro estava com febre, uma mão agachada no capim, tristemente agoniada... mão, não tinha força para se levantar, para gritar, para chamar os velhos pássaros que viviam nas velhas árvores no velho quintal,


Caderno quadriculado?


Sou,


Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos meninos, e que vestiam velhos calções e calçavam velhas sandálias... e nas mãos


Nas mãos velhos papagaios em papel pardo,


E nas mãos sentia-lhe o nome “pai”, e ele percebia o meu choro, as minhas lágrimas, como percebeu muito mais tarde o meu sonho...


 


 


(ficção – não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 9 de Fevereiro de 2014


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