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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.06.23

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Quis Deus e o destino e o Diabo que eu tivesse assentado praça na Ajuda, que nada ajuda, e que quando ajudava, não ajudava nada.

Depois de ter sido expulso de vários quarteis, desde o Bairro Alto a Cais do Sodré, passando por Alcântara Mar,

Fui cair…

Na Ajuda,

E da ajuda,

Quis Deus e o Destino e o Diabo…

Que da ajuda,

À Ajuda,

E logo que olhava o primeiro cacilheiro da manhã,

Zás,

Tombava no pavimento sonolento das sombras da noite anterior, depois, depois…

Nada.

Quem vem lá faz alto,

Disparava dois tiros de sono, um pirolito…

E zás,

Mais um dia, mais uma noite, mais uma Primavera e mais um Verão que era mais teimoso que a prima da prima da Primavera,

Baixava a cabeça, peganhava na minha mão…

E ao longe o Tejo em aflitivos gemidos.

Quis Deus e o Destino e o Diabo e o raio que o parta…

Que eu assentasse praça na Ajuda,

Sem ajuda,

Que apenas o Tejo me compreendia.

Inventava doenças aos meus pais, um dos meus irmãos estava sempre com problemas,

Coitado dele,

Coitado

Tinha tantos problemas que nunca saiu dos testículos do meu pai,

Tudo servia de desculpa para regressar a casa. Um dia, qualquer dia junto ao Tejo, convenci uma amiga para ir falar com o meu chefe e dizer-lhe que era a minha namorada e que estava grávida e que não sabia como fazer e que eu estava mortinho para regressar a casa…

O chefe comoveu-se, trouxe quinze dias.

Quando disse em casa que ia ficar quinze dias,

Quinze dias, porquê?

Porque a minha mãe achava normal…

E claro, que iam ser avós e que já não iam,

Não perceberam,

Eu também não,

Mas…

Ajuda, da Calçada, quando os parêntesis do sono se abraçavam a nós, e nós e eles e elas e eles todos…

Nada,

Ninguém percebia, porquê.

Durante a noite desenhava círculos nos cornos da lua, depois,

Depois,

Nada,

Depois aparecia o coveiro, pegava em nós e sepultava-nos junto a um cacilheiro, já muito velhinho, já muito trôpego, já muito…

Caia a noite sobre a alvorada, a espingarda começava a disparar fotografias de antigamente…

E depois,

Depois nada.

 

 

 

Francisco

02/06/2023


25.03.23

Semeávamos as palavras nas lágrimas do Tejo, enquanto junto a nós, um velho cacilheiro se perdia de amores pelo primeiro raio de Sol da manhã, e em cada punhado de palavras que lançávamos ao rio, um pedacinho de silêncio partia em direcção ao mar,

Tínhamos dentro de nós todos os sonhos, tínhamos dentro de nós todas as brincadeiras de um novo dia que brevemente começaria, que brevemente partiria, também ele, como partiram todos os sorrisos que conhecíamos.

Abraçava-a, pegava-lhe no cabelo de Primavera e sabia que do outro lado do rio, que do outro lado do rio havia um barco com mãos de prata e lábios de sangue; era o barco que me trouxe do outro lado do Oceano.

Uma criança chorava. Uma criança desiludida com os dias e com as noites e com os machimbombos…

O Tejo sabia que um dia, que um dia o meu corpo seria absorvido pelas suas mãos, e desde então, procuram nas suas águas um esqueleto sem nome, um esqueleto com asas, um esqueleto de vidro…

Semeávamos as palavras nas lágrimas do Tejo, enquanto junto a nós, um velho cacilheiro se perdia de amores pelo primeiro raio de Sol da manhã, os cigarros entre pequenas pausas para o café, levitavam e desapareciam como pássaros depois da tempestade, e nunca soube o nome daquela tempestade; como deixei de saber o nome das coisas, de todas as coisas.

Bebíamos pequenos tragos de uísque, dançávamos sobre a relva de Belém, à nossa volta, outros esqueletos preenchiam a tarde com piqueniques e outras coisas banais, fumávamos e bebíamos, e voávamos sobre uma Lisboa em construção,

Porque me mataram os esqueletos de prata?

Os barcos de regresso, diziam-nos que amanhã era o futuro, pequenos sorrisos num espelhos com janela para a Calçada da Ajuda, e ela, e ela percebia, aos poucos, que o meu esqueleto nunca mais seria encontrado naquele rio, naquele lugar, naquela cidade.

Hoje, hoje sou procurado pelas sombras daquela cidade, daquelas ruas, hoje sou maias uma das sombras que habitam os jardins onde crescem os pequenos sorrisos da infância.

Ergui-me da cama, abri a janela, puxei por um cigarro e ouvi da boca dela:

Vou embora.

Continuei a fumar, continuei a olhar o Tejo… até que ouvi o som desengonçado e perro da porta do quarto a fechar-se, como se fosse o fecho da tampa do meu caixão.

Depois, depois fechei a janela, escondi-me debaixo do chuveiro, e algumas horas depois, quando já de saída do quarto e chegando à rua, percebi que durante a noite alguém tinha mudado o nome daquela rua; e fiquei sem saber onde estava.

Apenas fiquei com o perfume de um rio, de um rio que pouco a pouco… morre dentro de mim, como morrem todas as coisas em que toco.

 

 

 

 

Alijó, 25/03/2023

Francisco


09.01.23

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco. São uma merda os teus poemas, são uma merda os teus textos, os teus desenhos; tu és uma merda)

 

Todas as manhãs um barco de insónia descia a Calçada da Ajuda, no porão, carregado de ossos e outras bugigangas, um pequenote saltitava de feliz e contente; às vezes, as crianças são felizes e sorridentes, mesmo calçando e vestindo o espelho da pobreza.

E ser pobre não é defeito. Este pequenote, carregando uns calções e nada mais de que isso, brincava em cima dos três caixotes que sobejaram de uma longa viagem, viagem essa que ainda hoje não chegou ao seu destino.

(os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco)

No exterior do barco, um jovem soldado, de pistola na mão e apontando-a à cabeça, dispara: contra as paredes amarelas do muro da vergonha, um amontoado de miolos deu cor e brilho, obra de arte que durante semanas, mesmo depois da dita parede ser raspada e pintada, tornava-se assim atracção mundial.

(a arte de uma cabeça estoirada e lançada contra uma tela invisível)

À noite, o pequenote saía do porão, saltava do barco e em corrida descia toda a Calçada como se fosse à procura de um qualquer Cacilheiro que tinha ficado da tarde que já se tinha finado, e andasse por ali… ou por aí.

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco. São uma merda os teus poemas, são uma merda os teus textos, os teus desenhos; tu és uma merda)

Chegando ao rio, sentava-se junto à água e ficava horas a contar sombras e luzes que chegavam da outra margem, olhava o Cristo Rei e a Ponte que foi Prof. Dr. Oliveira Salazar e depois baptizada de vinte e cinco de Abril e acreditava que um dia, um dia todo aquele rio e todos aqueles barcos seriam só dele.

Horas depois e já o pequenote estando farto da Ponte, do Cristo Rei e de tantos barcos, zarpava e estacionava os calções em Cais do Sodré onde adormecia num qualquer quarto com janela para o inferno e sem casa de banho privativa.

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco)

E numa tarde de neblina o pequenote desapareceu sem deixar uma carta ou um poema…

Talvez um poema de merda, meu caro Francisco.

Um poema de merda.

 

 

 

 

 

Alijó, 09/01/2023

Francisco Luís Fontinha


03.01.23

De todas as minhas telas

Nenhuma tem nome

Para quê dar o nome a uma tela

Se ela é prisoneira de uma parede

(nunca irá sair da parede)

E mesmo as que tenho amontoadas

Encostadas à parede

Não possuem nome

(vou levá-las a passear ao parque infantil?),

 

Menina Primavera

Não corra com pressa

Pode cair,

 

Ou

 

Menino orvalho

Se faz favor

Coma a sopa toda,

 

Ou

 

Sabe, infinito?

Sim, pai…

E o infinito nada sabe,

 

Portanto

Todas as minhas telas não têm nome,

 

Eu

O artista

Que desenha

Que pinta

Que dou vida a todas estas telas

Também como elas

Não queria ter nome,

 

Poderiam ter-me apelidado

De zero três um seis seis nove oito sete (03166987)

RH mais

Nascido a dezoito de Maio de mil novecentos e oitenta e sete
E falecido a nove de Agosto de mil novecentos e oitenta e oito

Residente no primeiro esquerdo

Porque no primeiro direito vivia a velhinha

Que tinha dois cães

Três gatos

E a neta era trapezista

(par-time)

Num circo que costumava estar estacionado junto ao Castelo,

 

E o zero três um seis seis nove oito sete

Numa linda noite junto ao Tejo

Estávamos em Julho

Enquanto a neta da velhinha passeava um dos felinos

(penso que seria o Alfredo)

Sentou-se à minha beira

(Primeiro pedindo sua licença)

E pediu-me que lhe escrevesse um poema…

 

E disse-lhe

Olhe menina

Poemas não escrevo

Poemas leio-os

E quando estou empanturrado

(gosto de escrever cartas à lua)

(e quanto a poemas costumo beber os de AL Berto e fumar os poemas de Cesariny),

 

Ela sorriu

Disse que eu era louco

(pois quem é que escreve cartas à lua?)

 

E continuando a ser o zero três um seis seis nove oito sete

(até nove de Agosto de mil novecentos e oitenta e oito)

Comecei a vender os dias

Vendia-os na rua

Na feira da ladra

Por aí

Por aqui

Até que quando me dei conta

Já não tinha os dias

E quanto às noites

(já estava empenhados em algumas horas)

Quanto às noites foi um autêntico desastre

Hoje diria um desastre ecológico,

 

Sabe, infinito?

Sim, pai…

E o infinito nada sabe,

 

Porque o infinito nunca quis saber de mim…

E eu

Diga-se

Também não

(só penso nele quando fumo os poemas de Cesariny e bebo os poemas de AL Berto).

 

 

 

 

 

 

Alijó, 3/01/2023

Francisco Luís Fontinha

(zero três um seis seis nove oito sete)


03.01.23

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

 

Daquela árvore ensonada

Que poisou durante a noite

Junto à minha janela

Vêm a mim a insónia

E a insónia traz na algibeira o cofre dos sonhos

E não entendo porque a insónia me quer dar sonhos

Se de sonhos estou eu farto

E cansado

Cansado dos sonhos

Cansado do mar

E cansado do dia

Cansado dos pássaros,

 

Da minha janela

Já não vejo os barcos que me entretinham

Nem oiço o vento que levava as minhas palavras

E as semeava junto à lápide dos sonhos,

 

Porque os sonhos morreram

Como morreram as minhas árvores

Morreram as minhas fotografias

Morreram os meus barcos,

 

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

 

Mas este mar

O mar que vejo da minha janela

Está tão triste

Tão feio…

Tão

Tão sem ninguém

Deixou de ter peixes

Deixou de ter barcos

Deixou de ter sonhos…

E nem uma alma se suicida neste mar,

 

Ao menos

Aos menos alguém

Uma alma

Uma alma generosa que se suicide neste mar

Como se suicidavam as almas antigamente

Neste mar,

 

Deram-me um nome

Fui o resultado da resolução da equação do desejo

(dizem que fui muito desejado, talvez numa noite, dia, manhã, madrugada, de Março)

E fui o espermatozóide mais rápido

O mais inteligente

Mais…

O mais capaz de entre os milhões de espermatozóides do meu pai

E quando abracei o óvulo da minha mãe foi-me dada uma medalha

Fiquei em primeiro lugar na corrida

Como numa tarde qualquer

Numa corrida de cem metros no Pinhão (era eu puto),

 

Registaram-me no registo civil

Apelidaram de Francisco

Nome do meu avô paterno

Se tivessem escolhido o nome do meu avô materno

Hoje chamava-me de Domingos

(e aos Domingos estamos encerrados, descanso de pessoal)

E eu detestava chamar-me de Domingos

(desculpa avô, desculpa pai, desculpa mãe),

 

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

E ao longe

Os esqueletos da Calçada da Ajuda

Que de ajuda nada tinha

Em marcha acelerada num rectângulo de sono

A que chamaram de parada;

A parada das lágrimas do mar.

 

 

 

 

Alijó, 03/01/2023

Francisco Luís Fontinha


30.11.22

Minhas queridas ovelhas,

 

Lanço ao fogo estas minhas pobres palavras com o sofrimento alicerçado ao peito, que estas, se transformem em cinza, e vós, minhas queridas, nunca saibam o que vos escrevo.

Ontem, pela noite adentro, quase às três horas da madrugada, peguei num pequeno livro, abri-o e no final da página li – o leão é o Rei da selva. (de mão trémula, senti o medo disfarçado de luz)

Puxei de um cigarro, e sentado numa cadeira de vime, de perna cruzada, e de janela aberta com fotografia para o quinteiro, ouvi a (estrelada) em conversa cavaqueira com a ovelha da minha vizinha, a (tulipa), e a minha vizinha, a Joaninha, ao telefone com o namorado ou com a namorada ou com o Presidente Associação de Musas Inspiradoras (AMI), o que falavam, não o sei, mas pelo ar de exaltação dela, tudo se resumia a fotografias tiradas junto ao rio.

(o rio, sem saber porque choravam as ovelhas, também ele, desatou a chorar)

E ao longe, a ponte abraçada à neblina que a manhã semeava na sombra dos braços do luar, começava a erguer-se o silêncio que regressava da caçada da noite anterior.

Pela aparência do silêncio,

Caça nenhuma.

A (estrelada), que uma certa tarde foi atingida com uma pedra na pata, pedra lançada pelo rapazote Serafim, um rapaz, comunicador e com estrutura de artista, e já farto de levar a (estrelada) para o pasto; pimba. Uma pedra certeira na pata e acabaram-se as tardes no pasto. Esperto, este artista, Serafim, poeta, fadista, barbeiro, agricultor e sedutor.

À noite, enquanto a minha vizinha se encontrava na escuridão com o namorado, ou com a namorada ou com o Presidente da (AMI), a ovelha (tulipa), saltava do terceiro esquerdo e num ápice, fazia-se passear na minha varanda em pequenas provocações para fazer crer à minha ovelha (estrelada) a boa forma física com que estava; coisas de ovelhas. Vaidosas.

Serafim desconhecia que no futuro iria ter um sobrinho poeta e pastor de quatro ovelhas; mas também ele desconhecia que o leão era o Rei da Selva, tão pouco desconhecia onde encontrar a selva, e apenas sabia apontar no mapa a sua localização. Um dia, descobriu a paixão.

E sabem, minhas queridas, dá sempre jeito um poeta ser pastor, pois assim, ou talvez não, ou talvez sim, oiço do AL Berto que “o mar entra pela janela e que o soldado falha o degrau do eléctrico que vai para a Ajuda, e não sabe se ele fode ou se ele ajuda”,

E da Ajuda,

Uma carta de amor para a Província.

 

Minhas queridas quatro ovelhas,

 

Espero que estejam bem, quanto a mim, vou andando, uns dias bem, outros menos bem, e outros…

O soldado dispara a bala na cabeça.

Dizem que foi por amor.

Ignora o silêncio, escreve luar na vidraça, e deita-se sobre a cama à espera que o sabor do uísque desapareça da boca e depois, após algumas horas de sono, sair em busca de engate.

A loucura dos pássaros. A (estrelada) desmaiou quando percebeu que eu era um favo de mel e que dormia junto à Torre de Belém e que era procurado por homens, homens em busca de sexo; eu, apressadamente, fugia. Em passo apressado, em corrida desmedida que apenas a (estrelada) consegui imitar, até que entrava num bar junto ao Museu dos Coches e uma amiga me acolhia na casa de banho. Depois, voltava novamente a vaguear pela cidade.

Sabes, minhas queridas…

Deixei há muito tempo de ter notícias do Serafim, e agora que o recordo, com ternura e com paixão, de sobrinho para tio, digo-vos que o meu tio artista ainda hoje me escreve cartas; e actualmente, apenas ele me escreve e um qualquer parvalhão que deixa comentários no meu blog, que provavelmente não percebe de poesia, o que é a paixão e a insónia e que teima que eu, o poeta e pastor de quatro ovelhas, o traí. O sonho tomou conta dele.

Os ciúmes das minhas ovelhas quando vêem a ovelha da minha vizinha (tulipa) em passeios nada apressados na minha varanda. E se a deixassem, acredito que voava.

Voava como eu voei sobre a cidade que acabava de acordar, e quando metia a mão na algibeira, um pedaço do mar salta e começava a descer a calçada.

A Ajuda – quanto ao eléctrico, já não me lembro, mas que “o soldado falha o degrau do eléctrico que vai para a Ajuda, e não sabe se ele fode ou se ele ajuda”, esse sim, nem fode nem ajuda.

Ontem, depois de uma sessão de poesia, e depois de muitos uísques e algumas radiografias de sono, entramos num bar, no Bairro Alto, sentamo-nos, pedimos uísque e, homens beijavam-se apaixonadamente. Puxei de um cigarro e resolvi, quando regressasse ao quarto escrever-vos; e cá estou eu, minhas queridas. Ausente numa Lisboa que sempre me pertenceu e que hoje é apenas um sonho, um comboio para Cais do Sodré e pouco mais…

O suor entranhava-se no corpo como o cacimbo de outras latitudes, e uma abelha começou a poisar no meu favo de mel.

Afinal, não é o leão o Rei da selva.

Os Reis, os Reis são os papagaios em papel que a minha mãe construía e que hoje guarda junto ao peito, para quando tiver saudades minhas, recordar-me.

O poeta, pastor de um rebanho de quatro ovelhas, hoje, escreve cartas aos olhos do mar.

Até breve, minhas queridas ovelhas!

 

 

 

 

 

Alijó, 30/11/2022

Francisco Luís Fontinha


20.10.22

As paredes acordavam em nós o silêncio em pequenas sombras de insónia e os cadáveres de prata dançavam sobre a fina camada de geada que habitava o pavimento lamacento do quarto onde dormiam barcos, guindastes e outra sucata; e depois de regressarem os transeuntes da madrugada, ouvia-se o apito de partida para mais uma corrida entre os parêntesis da manhã que brevemente saltitava de rua em rua, de beco em beco, até que do segundo-andar, da varanda sobre a esplanada, um homem agreste e rude, gritava sem que percebêssemos a razão.

Há sempre uma mão que nos empurra ravina abaixo, e quando damos conta, somos pedras em revolução contra a lei da gravidade, acreditava ele.

O que sonhaste, meu amor?

Coisas, nada em especial.

A chuva poisava sobre os cadáveres de prata e um miúdo acreditava que um dia podíamos subir à montanha mais alta sem que ninguém nos empurrasse, coitado do miúdo, coitado dele, porque mais tarde percebeu que era tudo uma questão de sonho; e entre sonhos, morreu de fome.

Coisas, pequenos desertos que habitam as nossas mãos, e do húmido húmus da saudade, sem que ninguém soubesse porque tombavam os homens e mulheres que puxavam aqueles barcos e guindastes, sucumbiu ao quinto dia de trabalho. Foi fatal, ouvia-se junto ao cais.

O corpo não se mexia, sobe ele, um pequeno lençol cobria as partes íntimas que a manhã tinha esquecido do outro lado da ponte, e porque o miúdo acreditava nos sonhos, cismou que um dia, se subisse à torre de Belém e se se atirasse bem lá do alto, com sorte e com vento, poisaria do outro lado do Tejo. O vento esmoreceu e quando se deu conta já estava a meio da Calçada da Ajuda; partiu os cornos contra o muro de Lanceiros 2, e certamente não tinha sido o primeiro.

Coisas, nada em especial.

O que sonhaste, meu amor?

Com quatro pães saloios, dois chouriços, uma linguiça, um jarro de cerveja e um pequeno baralho de cartas, matava a fome a cinco gandulos que todas as noites apareciam para conversar, fumar cigarros de erva e encontrar a explicação porque um dos cadáveres de prata se ter atirado da Torre de Belém e aterrar na Calçada da Ajuda; mais tarde viemos a saber que os serviços do Exército o tinham notificado para pagar todas as despesas do maldito muro amarelo.

Olhou o papel que lhe tinham entregado depois da formatura das oito e cinquenta, e mentalmente deu-se conta que nunca teria os vinte contos que pretendiam para os respectivos arranjos do dito muro.

Podíamos ir a Cais do Sodré, líamos uns poemas e juntávamos uns trocos, dizia um dos cadáveres de prata.

Podíamos vender alguns dos livros, que dizem?

Também podíamos vender algumas das peças de roupa que não usamos, que tal?

Foda-se; sois todos loucos.

A sério, podíamos levar algumas das peças de roupa que não usamos e vendê-las na feira da Ladra…

Fizemos de tudo um pouco, mas apenas juntamos cerca de cinco contos; não chegava nem de perto nem de longe para a reparação do muro, mas sempre dava para bebermos uns copos na noite de Lisboa.

Éramos cinco cadáveres de prata, trazíamos no peito todos os sonhos do mundo, mas brevemente percebemos que tal como o miúdo, os sonhos são apenas sonhos; sonhos de miúdos.

Coisas, nada em especial.

E trocávamos um jerricã de gasóleo, uma grade de fruta e uma caixa de manteiga pela liberdade nocturna que durante a semana tínhamos e que nos permitia subir à Torre de Belém e voarmos até à outra margem, depois de aterrarmos, víamos uma Lisboa adormecida e mergulhada na lentidão das estrelas de papel.

Estes gajos são esquisitos, ouvíamos.

Pudera, voávamos sobre a cidade…

Sonhaste com quê, minha querida?

Sonhei que cinco cadáveres de prata voavam sobre a cidade, vê lá, se isto é possível!

Não sei, não sei…

São apenas sonhos.

As paredes acordavam em nós o silêncio em pequenas sombras de insónia e os cadáveres de prata dançavam sobre a fina camada de geada que habitava o pavimento lamacento do quarto onde dormiam barcos, guindastes e outra sucata; e depois ouviram-se as lágrimas dos cinco cadáveres que salpicavam de pequenas gotículas a Calçada da Ajuda.

São apenas sonhos.

Não sei, não sei…

O miúdo que o diga!

 

 

 

Alijó, 20/10/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)

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