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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.05.16

Os comboios só apitam durante a noite para assustarem as estrelas,


As rectas paralelas em aço estendem-se até ao infinito, chegando lá, o comboio desaparece, entranha-se na noite e morre.


Encurvado nos socalcos levo comigo as curvas do Douro, lanço-me à água… estou farto das palavras que escrevo, estou fartos dos meus desenhos, como a vida que gira e não se cansa de cessar, parar sobre a ponte e suicidar-se sobre os rochedos da insónia.


Oiço o grito da aranha no cansaço da madrugada,


Sei que habita um rosto no espelho do meu quarto e certamente que não é o meu, porque nunca o vi, apenas em pequenos tragos de saliva ao pôr-do-sol,


Quero expulsá-lo de lá…, mas não tenho força para tal; parto o espelho?


Quebro-o até que o rosto se transforme em mim? Ou este será o meu rosto depois da minha morte?


Os comboios só apitam durante a noite, fiz muitas viagens, muitas noites sem dormir, entre apitos e soluços, entre estações e apeadeiros desconhecidos, entre gritos e gemidos, até desaguar em Santa Apolónia pelas sete horas da manhã, as ruas acabavam de acordar, os sem-abrigo levantavam-se para o invisível pequeno-almoço, e eu, e eu fumando cigarros para não adormecer,


Mas acabava sempre por cerrar os olhos e passar o dia entre os cortinados da escuridão e os sons melódicos do trânsito, a loucura, cruzava os braços e punha-me a contar os automóveis que passavam por mim, depois separava os que eram homens e os que eram mulheres, as crianças à parte… e assim passava o dia.


Regressava a noite e eu tinha vendido o sono ao Diabo, saía na companhia de desconhecidos, entrava em todos os bares até adormecer sobre qualquer banco de jardim, e enquanto dormia, sentia, sentia os apitos do comboio…


Tudo isto está escrito e sepultado em três caixotes de cartão,


Confesso que nunca mais os abri, não tenho coragem para os abrir…


Papeis, fotografias, poemas, e fantasias…, mas para quê remexer o passado e este está morto, e enterrado no meu peito.


Os perfumes intactos, uma velha rosa dentro de um livro, intacta, e a minha vida pedaços de farrapos em construção, hoje uma pequena vitória, amanhã uma grande derrota…


 


Amanhã faz vinte e dois anos que deixei a heroína…


Uma grande vitória.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 8 de Maio de 2016


03.09.15

desenho_03_09_2015.jpg


(Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)


 


Habito numa cidade de abutres,


Manhã cedo, ao acordar, percebo que sou apenas uma sombra misturada com outras sombras como eu,


Não sei se dormi, não sei se estive toda a noite a sonhar,


Perdi o cheiro do mar,


E a paisagem dos Oceanos de vidro,


Olho, olho para o Céu…


E todas as estrelas de papel… voam em direcção ao Luar,


Peço às abelhas entranhadas no mel, ajuda,


Desço a Calçada,


E Ajuda, não ajuda…


A regressar a noite aos meus braços pincelados de ferrugem,


E Ajuda, não ajuda… sobe um Cacilheiro a dita Calçada.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 3 de Setembro de 2015


 


05.03.15

Está escuro


no exíguo espaço dos teus braços


mantenho-me aceso como uma fogueira invisível


no meio do campo


deserto


sem árvores


pássaros


ou... enforcados marinheiros


procuro a enxada do silêncio


e gemem as pedras xistosas dos lábios da alvorada


escuro


nada


 


como o transeunte sentado


na Calçada da Ajuda


procura


procura o carteiro


carta escrita


sem remetente


vem a morte


e leva-o para a biblioteca


abre um livro


folheia-o como se fosse o teu corpo adormecido sobre as lágrimas do veneno...


afugenta as palavras


e a tempestade alicerça-se-lhe no peito


 


começa a voar nos cortinados da noite


acende o seu último cigarro do dia...


e pergunta-se


quando?


quando terminará este dia...


a morte dos sonhos


envergonhados


lânguidos nas janelas sem vidros


o mar dança-lhe na algibeira da solidão


bebe um uísque...


e acredita que a poesia


habita no terceiro esquerdo dos teus seios...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 5 de Março de 2015


04.08.14

O vociferar do teu corpo de anémona-do-mar doirada,


sinto-o nos meus dedos, ele entrega-se às minhas mãos,


desvairado, aparece-me o silêncio mais longo da noite,


não há estrelas que adormeçam a tua pele...


se eu pudesse.... se eu pudesse embrulhava-te no meu olhar,


acendia a lareira dos meus braços...


e... e ficávamos prisioneiros a um livro,


líamos, líamos... líamos até que os cortinados do nosso quarto vomitassem os gemidos de granito dos orgasmos envenenados...


 


E o livro, e o livro ardia,


e a tua pele... e a tua pele... ardia,


 


O vociferar do teu corpo incandescente,


descendo a Calçada da Ajuda...


levavas contigo o rio,


e... e todas as gaivotas de papel,


 


E o livro, e o livro ardia,


e a tua pele... e a tua pele... ardia


num Domingo de cio,


 


Até que eu sentia o teu corpo de cinza na minha triste algibeira!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 4 de Agosto de 2014


07.07.14

O teu beijo amorfo,


clandestino do enclave da insónia,


cai a noite sem perceberes que a noite é uma mulher invisível,


uma amante cobiçada por todos,


suspensa nos tentáculos das estrelas sem nome,


o teu beijo silencia-se e morre...


o teu beijo deixa de ser beijo,


e transforma-se em desejo,


inverso, transverso esforço que alicerça o teu corpo à ponte metálica...


balança e não cai,


e levita depois de acordar a madrugada,


como se de um pôr-do-sol em decomposição se tratasse...


 


O teu beijo amorfo... evapora-se,


morde os lábios de cetim, e... e vai à janela da solidão procurar pedacinhos de papel colorido,


imagina-me uma sombra com pequenos ramos que partem na ferocidade do vento,


vergo-me, troço-me até palmilhar a terra húmida depois da chuva do fim de tarde,


e fico estendido como uma pedra entre o sacrifício e a vontade de correr...


beija-me, penso-o enquanto aos poucos esforço-me para me levantar,


 


Agarro o teu beijo amorfo,


acaricio-o na palma da minha mão de caduca folha,


sinto-me desgovernado quando imagino o mar a entrar no meu corpo,


penso que vou morrer,


penso que serei o primeiro a partir... por motivos de um beijo amorfo...


sei que a morte é natural... normal,


mas... tudo por um beijo?


o cansaço invade-me,


a força motriz que alimenta os eléctrodos do meu coração... começa a esvaziar-se,


os eléctrodos apaixonam-se por mim,


e fico sem jeito,


fico... impávido enquanto o teu beijo amorfo desce a Calçada da Ajuda...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 7 de Julho de 2014


15.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perceber o fogo do corpo em suspenso


aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas


escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo


não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda


perceber que o homem arde


fervilha


e dorme no colo de outro homem...


ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel


vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem


e fervilhas


como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...


porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.


 


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014



06.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


acreditava que habitavas as perfumadas flores de papel


tínhamos dentro de nós uma aldeia em combustão


sentíamos os impulsos das revistas sobejantes dos quiosques de cartão


líamos coisas desinteressantes


coisas... coisas supérfluas que depois de mortas


acreditavam


como eu acreditava


que habitam nas flores perfumadas de papel


os velhos espantalhos de vidro


com chapéu de palha


uma árvore rangia


e sentíamos-lhe o rosnar dos pulmões nas ardósias tardes dos cigarros em delírio...


livros com desenhos abstractos


e palavras inacessíveis à nossa voz


as mãos tuas traziam às minhas mãos de xisto esmigalhado as tristes sílabas da madrugada


acreditava


acredito?


não mais... que existem dias de tédio


horas de sofrimento


relógios de pulso cancerosos porque alguém os decretou como tal...


as horas passam


os dias afundam-se no cais transversal das salinas em pastel...


livros


com... abstractos desenhos e pedaços de pólvora seca para deitarmos na lareira das lágrimas encarnadas


o jornal acaba de morrer


no caixão poucas ou nenhumas fotografias a preto-e-branco para alicerçarem o esqueleto à madeira de mogno


eu acreditava


acreditava nas tuas minhas mãos de porcelana envenenada e no entanto o relógio...


o cabrão do relógio... também ele morre


também ele... foge de nós como todos os homens de pedra do jardim dos angustiados camafeus


a lareira recorda-nos as fogosas noites de neblina


embrulhados na vodka da Ajuda


descíamos a Calçada... e nada


gritávamos... e nada


e a ponte dilacerada... adormecia


e sonhava que... acreditava nas perfumadas flores de papel


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013



12.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Éramos dois barcos dentro da mão da tempestade, vivíamos sonhando como sonhavam os nossos antepassados, tínhamos luas sem luar, ouvíamos as lágrimas da noite e dormíamos acreditando que a noite era mãe das amendoeiras em flor, tínhamos sidos enganos, só não éramos nada, tu e eu, como a noite nunca existiu, só não éramos nada, como tu e eu, como os sonhos são uma mentira inventada pelas nuvens de prata, só não éramos anda, tu e eu, como a noite, sim, essa mesmo, como a noite nunca foi a mãe das amendoeiras em flor, porque estas


Nunca existiram?


Existiram, e existem, mas... deixaram de habitar a nossa aldeia depois dos incêndios que fizeram de nós, num verão incandescente, como uma lareira enfeitada com papel florido e pequenos desenhos em acrílico sobre tela, quanto vale


Nada,


Não vendo desenhos, não vendo vidas habitadas em telas sem sentido, nuas, escuras, telas minhas que acreditava serem também tuas, telas dela que eu acreditava serem dele... e nada lhes pertencia, a manhã, o frio, as flores dos vasos que quando o vento era mais forte os fazia estilhaçar na calçada, da varanda em queda livre


Ajuda!,


E AJUDA nenhuma, apenas paralelepípedos de tristeza mergulhados nas línguas dos magalas com gravatas em tecido desbravado das costureiras envelhecidas, ela trôpegamente subia as escadas, abria a porta de entrada e logo de seguida um velho gato infestado de reumático lhe poisava não mão esquerda, enquanto com a mãos direita afagava os colarinhos de uma gaivota tresmalhada, envenenada pelas insónias vodkas dos bares em Cais do Sodré, e putas de perfume inocência vagueavam a rua saboreando sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam


E AJUDA nada,


Descíamos pensando que subíamos,


Os braços da sombra Inglesa com rissóis de maré grelhada e molho de pôr-do-sol, éramos quatro barcos, éramos quatro vadios guindastes de marfim na boca de um crocodilo em pau-preto, e se a princípio éramos apenas dois barcos


Como quatro hoje?


Barcos em flores acreditando nas gaivotas de porcelana, como dois antes, os filhos dos filhos, e as putas de perfume inocência vagueavam a rua saboreando sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam


Até


E cresciam...


Até morrerem.





P.S.





o habitáculo do desejo


 


 


dentro do habitáculo do desejo


a bailarina Caliente voa sobre as gaivotas em flor


uma moeda insere-se na ranhura do piano embriagado


ouvem-se sons dispersos nas coxas dele


ele geme


ela sente cada milímetro quadrado dos gemidos dele


o piano enlouquece


o piano derrama a fina pauta de sémen sobre a geada da alvorada


sinto a lareira do ciume nas planícies do abismo coração solitário


e dentro do habitáculo


ela


ela ri-se e dos lábios sobejam as finas pétalas do prazer...








Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?


Não, não percebo,


Éramos dois barcos dentro da mão da tempestade, vivíamos sonhando como sonhavam os nossos antepassados, tínhamos luas sem luar, ouvíamos as lágrimas da noite e dormíamos acreditando que a noite era mãe das amendoeiras em flor, tínhamos sidos enganos pelo habitáculo do desejo, e dos vidros embaciados, nasceram mais dois barcos, filhos dos dos dois primeiros barcos,


Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?


Não, não percebo,


Tudo


Não percebes?


Tudo tão negro quando os gemidos da saudade se entranham nas frestas dos complexos números do quadriculado caderno, e de vez em quando


Poemas,


E de vez em quando


Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?


Não, não percebo,


Como nunca percebi porque chamam Calçada à AJUDA... quando ninguém é ajudado e o rio engole os sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam


E morriam.


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 12 de Novembro de 2013



12.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


imagino o amor envergonhado


aquele que procura nas palavras os abraços prometidos


o amor às vezes não desejado


que acontece como o granizo em plena tarde de Primavera


 


imagino e percebo


o desassossego dos olhos envenenados pela íris das sebentas


aos gemidos frios sonhos que inventavas


 


o amor


o raio do amor travestido e cansado


embrulhado num velho cobertor


entre palhas e silêncios


das janelas do abismo


os beijos


sem sentido


quando uma mão poisa sobre mim


sinto-a a argamassar-me como dentaduras em marfim


no meu pobre esqueleto de vidro


comendo-me ossos e sentimentos


e o amor zangado e perdido


 


o verdadeiro amor


de joelhos


junto ao mar


percebo das imagens reflectidas pelos espelhos do prazer


que zarpaste em direcção a uma ilha sem nome


idade


coração nem falar...


o amor


em ti


de ti


eu desejar


sonhar


 


o amor


fictício como lâminas de barbear


o amor sofrido sobre as árvores em flor


o amor...


aquele eterno amor


perdido numa calçada da Ajuda.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



20.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Deixamos de ouvir os murmúrios das garças, chegada a noite, sempre uma janela que se encerrava, uma porta com os gonzos empenados, talvez sofrendo de bicos de papagaio, espondilose lombar ou artrose, ou dobradiças enferrujadas, ou


de coração frágil


Ou porque ontem tínhamos onde nos sentar e hoje, hoje não cadeiras, hoje não bancos, hoje... que raio se passou hoje, que coisa, que nem um banco livre para poisarmos as pernas, descansarmos o rabiosque, nada, parece que nos abandonaram, como a elas, que as deixamos de ouvir, ou morreram, ou


e pior do que frágil, às vezes bate desmesuradamente, velozmente como um cavalo acabado de nascer, um inútil, ou


Ou uma triste mão como lágrimas de tempestade, que sem segundas intenções, pegava em nós, e acariciava-nos os nossos cabelos de enxofre, e sentíamos essas mesmas mãos, lisas, duchista, a percorrerem os nossos corpos acorrentados à baliza que ficava ao fundo do recreio, queriam que eu jogasse futebol, eu jogava mas inventava mentalmente personagens dentro de mim, e sabia que no futuro tu, olhavas-me no passado, como hoje, eu


olho-te no futuro,


Morreste já, como as estrelas que quando as vimos nascer, provavelmente, digo, quase de certeza, já morreram também como tu, perguntas-me


porquê?


Imagina a tua imagem longínqua de mim, sobre uma montanha de areia, imagina que essa imagem é reflectida e vem até mim, demorando milhões de anos luz, poderás concluir que quando a tua imagem me abraçar, tu, já não existirás, Certo?


olho-te no futuro, tens quatro filhos, já és avó, mal podes com as pernas, demoras uma infinidade a subir as escadas para o sótão da vaidade, quando atinges o patamar, abres a porta quase encharcada de bicho da madeira, ela range, e começa aos poucos a decompor-se como um corpo hirto mas morto, defunto, e de uma janela onde costumávamos ouvir as garças, é hoje uma parede de betão, sem acesso ao telhado, não temos divã, e os livros que tínhamos deixado ficar nas estantes, também eles, morreram, em pedaços, são agora poeiras voláteis em voos nocturnos,


Certo! E claro que não percebeste nada do que eu te disse, como sempre, imaginas-me louco, criança ainda, porque devido ao desfasamento entre o tempo e o espaço, eu vivo na infância, e tu, infelizmente, já ultrapassaste a velhice,


és defunta, vives num cemitério perto da Ajuda, e todas as noites, sempre que a neblina desce até à cidade, contas as gaivotas que entram e saem do cais de embarque, um dia, vou crescer, vou ser adulto, talvez, talvez um marinheiro salteando de cais em cais, os alicerces das tabernas com mesas e toalhas em plástico, serviam-nos pedaços de churrasco e bata frita, depois, sofríamos a azia, o cansaço, o delírio das distâncias, desde a montanha longínqua até mim,


Certo, sofro porque ainda sou pequeno, brinco num quintal imaginário com um triciclo imaginário, no quintal percebo que existem muitas árvores, são reais, porque lhes toco, e elas, falam comigo, segredam-me o futuro e choram o passado, há um portão em ferro onde Às vezes, quando me sinto cansado, prendo o cordel que me dá acesso a um papagaio de papel esquecido no céu quase nocturno, são cinco da tarde, o dia escoa-se-me por entre os meus finíssimos dedos, que não sei se algum dia crescerão, se algum dia, eu crescerei, se algum dia tu acordarás do teu sono eterno, tão pouco


és defunta, vives num cemitério perto da Ajuda, e ouvíamos os murmúrios das garças, chegada a noite, sempre uma janela que se encerrava, uma porta com os gonzos empenados, talvez sofrendo de bicos de papagaio, espondilose lombar ou artrose, ou dobradiças enferrujadas, ou


de coração frágil


E a tua imagem, anos luz depois, chegava até mim, e docemente, abraçava-me.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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