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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.05.22

Descia a calçada descalça

Dentro da sombra imanada da solidão,

Descia a calçada envenenada

Pelas rosas do meu jardim,

Descia a calçada descalça

Acompanhada pelo perfume do Verão,

Descia a calçada cansada,

Cansada de tanta paixão,

 

Descia a calçada das estrelas

Como se o sopro da manhã

Se levantasse do chão;

Descia a calçada madrugada

Enquanto o enforcado poeta

Escrevia na mão…

Enquanto a desgraçada calçada

Morria de paixão.

 

Descia a calçada descalça

A menina das planícies além-mar,

Trazia um barco suspenso na saia

E um marinheiro acorrentado aos lábios…

Descia a calçada descalça

A menina luar,

Sem perceber que esta calçada

É apenas um pássaro de voar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/05/2022


15.05.20

Sem ti, sou um pequeno ponto de luz nos braços da solidão.

Uma simples folha em papel,

Sem ti, sou um pedaço de terra, calcada pela desilusão,

Uma labareda de nada, entre sorrisos e abraços.

Sem ti, sou a cidade em combustão,

Crianças que guerreiam por um pedaço de chão.

Sem ti, os peixes cintilam dentro do aquário,

No leito cansado do pensamento.

Sem ti, sou um pequeno achado,

Palavra emagrecida, esplanada só, sem ninguém,

Sem ti,

Sou,

Aquele abraço aborrecido,

Dormindo na tarde.

Dormindo na esperança,

De um dia, sem ti,

Escrever nos teus lábios.

Sem ti, sou a personagem secreta da noite,

Sou lua enganada,

Sou luar das plantas inanimadas,

Sem ti, sou o jardim junto à calçada.

Sem ti, não sou nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/05/2020


26.01.20

As árvores deste jardim cansado,


Onde adormece o silêncio das palavras assassinadas por mim,


Há um luar desiludido,


Que grita às planícies do alecrim,


O poema desejado,


Entre versos e ossos embalsamados,


Vem a esta casa, o miúdo perdido,


Das montanhas húmidas,


A voz que alicerça a fome,


A rua que limita o olhar,


Sem nome,


Sem mar,


As árvores distintas dos pássaros, o medo de dormir,


Numa cama de pétalas encarnadas,


Nas veias, o orgasmo do cobalto,


A madeira envernizada,


Porque as lágrimas,


No rosto se perdem,


E fogem para o triste adormecer,


O vulcão quase a vomitar palavras de nada,


Sempre em alerta, sempre abandonada,


A casa,


O ódio madrugada da vida,


Entre correr,


Entre morrer,


Simples, assim,


Simples, simples, nada esquecer.


O mendigo que corre na calçada,


Desejado por uns, amaldiçoado pela namorada,


Escreve-me,


Oiço-o,


Na alvorada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/01/2020


25.01.20

Percorro estes montes de ninguém,


Na ausência do prometido poema,


Cansaço da madrugada,


Quando alguém me chama,


Me grita,


E me acena;


Triste é esta calçada,


Onde habito sem memória,


Sem história.


Na noite desgarrada,


Escrevo, pinto, o teu retracto,


Passeio-me pelo infinito amanhecer,


Sem perceber,


Que nas minhas palavras,


Vivem os esqueletos malvados,


Sem sono,


E, alicerçados,


Às palavras vãs,


No bosque,


As árvores, o silêncio da luz,


Que me traz a saudade.


Pinto,


Sinto,


Que todas as sílabas,


São balas assassinas,


Munições de esperança,


Quando acorda a noite.


Sabes?


Amanhã serão apenas sombras,


As tuas palavras,


Que alimentam a madrugada.


O silêncio da luz,


Nas mãos do poeta…


Perde-se,


Vive-se,


De quê…?


Sempre que amanhece,


Neste corpo zangado,


Filho e filha,


Passeando por aí…


Passeando ausente,


De mim,


E, de ti.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


25/01/2020


16.01.20

A fragilidade do corpo embrulhada no sono,


O cansaço das palavras, inertes, mortas,


Nas páginas sonâmbulas da tristeza,


O vento chora,


Traz a chuva,


Vai embora.


 


Todo o silêncio é pouco,


Quando os farrapos da saudade,


Envelhecem na escuridão,


 


A metáfora,


O sorriso das plantas,


Junto ao mar,


 


E inventam-se rosas em papel,


Comestíveis, às vezes, quando a fome é invisível,


Descendo o rio,


Saltando a ponte metálica,


Em direcção ao Sol,


Em direcção ao abismo.


 


Não quero pertencer a este conflito de interesses,


Caixas em cartão,


Revoltadas contra a geada,


A chuva, miudinha, perde-se na calçada.


E, no entanto,


Estou aqui,


Esperando o regresso das lâminas lágrimas,


Como se fossem balas de raiva, contra as paredes de xisto.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/01/2020


07.12.19

Não sei!


Não sei o que é adormecer,


Sorrir,


Sonhar,


Ou simplesmente viver.


Porque tu existes, e vais partir,


O Sol acordar,


Não sei que sei que chorei!


Ninguém quer saber,


Nem importa o que vamos fazer,


Se faz Sol ou está a chover,


Ou corremos sem correr…


És flor adormecida,


Muito bela e querida…,


Manhã submersa esquecida


Á procura da vida.


Pétala de ternura


Eterna brancura,


Olhar cansado com bravura,


Que se despedaça de grande altura…


Não sei!


Não sei o que é voar,


Viver,


O que são electrões,


Pensamentos metalúrgicos ao acordar,


Treliças que quero esquecer.


Fundem-se protões,


E de tanto te olhar…, me cansei!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Para publicação


01.12.19

Habito neste labirinto de lata.


Desta pobre sanzala abandonada.


Habito neste corpo de ossos,


Alicerçado às muralhas dessa pobre calçada.


Habito neste corpo de chapa,


Cansado da tristeza.


Vejo-me no espelho da beleza…


E apenas observo sombras, linhas rectas envergonhadas.


Habito neste poeirento cansaço,


Nas tardes infinitas,


Que os meus lábios vomitam…


Palavras malvadas.


Palavras bonitas.


Habito no teu cabelo desgovernado pela doença,


Entre gemidos e demência,


Habito na tua boca engasgada na madrugada,


Quando o silêncio não é nada,


Quando a vergonha,


Envenenada,


Dorme na tua mão calcinada.


Habito, meu amor, neste palácio assombrado,


Dentro de livros com personagens moribundas,


Entre xisto e calçado,


Nas montanhas fundas.


Habito.


Habito nos duzentos e seis ossos Outono,


Quando as árvores se despem, e o teu corpo, longe do mar,


Enaltece a maré de chorar.


Habito sem parar,


Neste labirinto do sono.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


01/12/2019


01.04.18

Viver nos teus olhos, não o quero.


Viver embrulhado no poema, não o quero.


Viver vivendo apenas para viver… também não o quero.


Viver saltitando,


Correndo,


Descendo,


Subindo a Calçada da Tristeza, não, não o quero.


Escrever no teu corpo, desenhar nos teus lábios, não, não o quero.


Não o quero.


Pertencer aos livros ardidos.


Trazer-te a Lua, quando a solidão amanhece em ti, e sinto na tua mão o silêncio do desespero.


Não, não o quero.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Abril de 2018


03.07.17

Uma criança de luz adormece no teu sorriso prateado,


Oiço o rosnar do fumo dos teus cigarros envenenados pela escuridão,


E o teu corpo é apenas um amontoado de ossos,


Morres-me nas mãos,


Suicidas-te com as palavras perdidas na Calçada do Adeus,


Pobre criança sem Pai,


Pobre luz sem Mãe,


E do mar regressam as cordas do teu sofrimento,


Alicerças-te a mim,


Pareço um rochedo ingrime perfurando o intestino do suicidado…


Nada mais posso desejar,


Que partas em breve….


E sejas feliz assim,


 


Assinado,


 


O homem suicidado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 3 de Julho de 2017


15.03.15

Árvore


que cai no lamacento pavimento do sorriso


se deita


e fica


imóvel


tranquila


na árvore


a conquista não conquistada


o fervoroso sono da alquimia


o centro


o ponto imaginado pela mão do regresso


e fica


 


árvore


caída na circunferência do amor


e a paixão


imóvel


corre


corre...


porque a terra é um poço invisível


porque há nas palavras pequenos silêncios


a humidade


dos corpos


no chão


o cheiro


 


que parte


e não volta


o teu perfume secreto


nas pálpebras da manhã


e fica


árvore


sofrida


perdida nas pedras da calçada


desce e sobe


e senta-se...


no chão


dos narcisos em putrefacto esqueleto da escuridão nocturna...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Março de 2015

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