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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.06.17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,


Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,


Palavras soltas,


Palavras mortas,


Vivas palavras rompendo a madrugada,


Sem nada,


O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,


Escrevo no chão,


Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,


Vomito poesia sobre a janela envidraçada,


E imagino a louca Calçada…


Ajuda, não ajuda,


O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,


O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,


E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,


Uma tragédia, meu amor,


A casa,


Desocupada e infestada,


De livros,


Quadros,


Esqueletos…


E restos de ossos,


Poeira,


Alvorada fora até ao nascer do Sol,


Bebedeira, o esqueleto cambaleia…


Saltita,


E volta a adormecer no meu peito,


Nada me resta,


Nada tenho para te oferecer, meu amor,


A não ser, a não ser… algumas velhas flores,


Pedres,


Envelhecidas como nós.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Junho de 2017


29.11.15

Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


Sento-me e espero o regresso do teu olhar


Que vem do outro lado do Oceano


Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados


Trazes-me a voz e o desejo


E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim


Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade


Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados


Espera-te junto a um portão imaginário


Entras


Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face


 


Não tenhas medo do mar


Nem dos barcos invisíveis


Não tenhas medo das árvores


Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras


Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria


Depois vais conhecer o amor


E a paixão de amar


E a solidão do amanhecer


Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…


Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


31.10.15

Tive um amigo que morreu de silêncio,


Paz à sua alma,


Tive um amigo que se cansou da melancolia dos dias, das noites, das noites sem noites depois das noites, vivia acorrentado a uma árvore, eu, acreditava na inocência dos seus lábios, encardidos pelo temporal, desgastos pela insignificante margem do rio onde brincavam gaivotas e marinheiros, e sucata de mim


Ontem fui a um bar em Cais do Sodré, sentei-me, viajei até mil novecentos e oitenta e sete, era dia, corríamos embriagados em direcção ao medo, havia conquilhas e cerveja à mistura, como sempre, este amigo, embriagado pelas minhas palavras,


Amo-te, dizia ele, quando percebia que a escuridão se entranhava nos meus ossos de veludo, que eu, semeado na seara do vento, tinha medo, sentia a solidão sobre o meu peito, havia noites de tortura, havia noites de desequilíbrio mental, a loucura, o Tejo no meu quintal,


E sucata de mim,


Que boiava nos teus cabelos, meu amor, e sucata de mim espalhada pelos sítios mais incógnitos da nossa casa, um palheiro, simples, e felizes, assim,


Acorrentado, tu, meu amor, nesta cidade de Cais sem destino, de barcos sem comandantes, ou cordas de nylon invisíveis, e mesmo assim, recordo-te, amar-te talvez, um dia, amanhã, depois de amanhã… ou ligo, talvez, talvez meu amor,


No meu quintal,


Uma sanduiche de sódio baloiçava nas minhas veias, sentia a morte, o fim, a despedida, não faz mal, meu amor, amanhã, talvez, no meu quintal, eu, em Cais do Sodré, abraçado a ti, sem ninguém, amanhã


Tive um amigo que morreu de silêncio, frequentava a minha poesia, uns dias aparecia outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro,


Se tu me amas, se tu, se tu me recordas como recordas as tristes alvoradas em frente ao Tejo,


Outros, e mais outros, não sabiam que o amor é um cubo de chocolate, só, triste e só, como eu


Tejo?


Outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro, um comboio em aço desgovernado subindo a Calçada da Ajuda, e


Ajuda nenhuma, sempre só, meu amor, sempre, sempre só nos teus braços, nos teus fantasmas, nas tuas coxas de silício mergulhadas na corrente eléctrica do sofrimento, Tejo?


Talvez, meu amor, talvez…


Tive um amigo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Outubro de 2015


24.06.15

Dançavas-me entre sombras de prata


E nuvens de silêncio,


Snifávamos o sorriso do rio,


Fumávamos os barcos aportados num qualquer coração sem alma,


E éramos felizes,


Como são felizes todas as marés curvilíneas da saudade,


Como éramos felizes embrulhados no fumo do “Texas”… meia-noite em ti,


Uma da manhã em mim,


Bebíamos todas as palavras poisadas em cada mesa,


Amávamos todos os abutres da noite


Que deambulavam sobre nós,


Dançavas-me…


E nuvens de silêncio,


E beijos,


Líamos e inventávamos círculos de papel,


Escrevíamos em todos os corpos dos corpos sem corpos.,


E não sabia que existiam beijos de esperança


E cabelos de infância,


À nossa volta,


Gajas,


Gajos como nós,


Voando em direcção ao mar,


Desenhávamos o abraço numa qualquer lápide,


Uma fotografia tua…


Olhos verdes,


Olhos castanhos,


Olhos… olhos enfeitados de naftalina,


Dançavas-me,


E eu não sabia que o amor se escrevia na margem esquerda do teu peito,


Ouvia-o…


O teu coração de pedra,


Ouvia-as…


As tuas coxas suspensas na mão de um qualquer gajo,


Como nós,


Gajos como nós,


E gajas,


E gajas como tu…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 24 de Junho de 2015


30.04.15

O significado da paixão


De todas as noites



Encerrado entre cinco paredes


Um pavimento


E tecto


Aluga-se


Meu amor


Barato


Farto das palavras


E do sindicato


Todos os Domingos


Feriados…


E… Domingos


Lembro-me de ti


Meu amor


Da carroça de bois


Penhorada ao silêncio


Das ervas


E


Dos cheiros


A morte alimenta-me


Sinto-a perto de mim


Como sentia o cheiro a “puta”


Quando…


Lisboa


Cais do Sodré


Fome


Não fome


E literatura


Farto-me


De ti


De mim


E deles


O significado da paixão


Pintado na parede da solidão


As palavras reduzias ao pó da insónia


Cresce


A


Noite


Em ti


Meu amor


Das palavras


E palavras


Limitada


Angola à vista


Apenas no mapa da infância


Meu amor


As sílabas apaixonadas do teu corpo


No meu corpo


O inferno


A chuva


Outra vez…


A paixão


O ódio das tristes tardes no jardim


Outra vez o jardim


E o beijo


Outra vez a vida


E o desejo


Em ti


Das minhas tristes palavras…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Abril de 2015


22.10.14

Vão morrendo as palavras de amar


quando desperta no amanhecer


o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar,


 


Faço-me à vida,


caminho sonâmbulo sobre a fogueira dos meus poemas


até que eles se transformem em nada,


olho-me no espelho da agonia, sinto na garganta a tempestade da paixão,


carrego nos ombros o peso do meu próprio caixão,


em vidro, e com fotografia a preto e branco para o mar,


saboreio o teu corpo nas pálpebras verdes dos livros não lidos,


perco-me em ti... sem saber se amo, sem saber se estou vivo nesta campânula de lágrimas,


e o desassossego inventa-me como se eu fosse um papagaio de papel,


de muitas cores,


como muitas cartas de amor


no tempo destruídas pelas suicidas lâminas da geometria,


 


Tenho saudades de ti...


minha Lisboa, meu amado Tejo... meu amante Cais do Sodré,


percebia nas paredes húmidas da noite um corpo em translação,


uma puta que procurava um ombro de gesso,


um gajo embriagado que cuspia finos fios de fogo...


e terminava quando a cidade acordava,


eu amava, eu não amava...


eu sentia nas amoreiras flores o beijo de ninguém,


o pavimento paralelepípedo da tristeza começava a transpirar,


ouviam-se os gemidos delas, ouviam-se os gemidos deles...


e ao longe,


um apito encurralado entre carris de aço em direcção a Belém,


 


(Vão morrendo as palavras de amar


quando desperta no amanhecer


o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar),


 


Esquecia as mãos na algibeira,


iluminava-me na fragrância madrugada quando um banco de jardim corria para o rio,


misturava-se com um velho Cacilheiro, às vezes... tossindo, às vezes... às vezes coxeando...


como um mendigo prisioneiro de um vão de escada,


como um marinheiro em busca de sexo, drogas... e um par de asas...


nunca voei,


e havia noites que sobrevoava a minha amada Lisboa,


como um louco,


como um prego de aço no barbear da manhã...


disfarçava-me de ponte metálica...


e desenhava sorrisos nos vidros pintados de negro embalsamado,


até morrerem todas as palavras de amar...!


 


 


Francisco Luís Fontinha


Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014


07.05.14

despertavas como um relógio sonolento


de ponteiros afiados


cansado


despertavas em mim a claridade do dia ainda por nascer


crescias


e... e desaparecias entre as velhas folhas da árvore do sótão envergonhado


despertavas e brincavas sobre o meu peito de Oceano anónimo


dizias-me que eu era uma rua sem saída


da cidade com néons de meninas coloridas


sentia-me um náufrago procurando lençóis de linho


sentia-me um sem-abrigo correndo para a tua cama...


desaparecias e despertavas,


 


eu sonhava com barquinhos em papel


papagaios de pálpebras dilatadas


pensava que o Luar era o teu olhar prisioneiro na calçada dos esqueletos de vidro


e...


despertavas


e...


desaparecias


a cidade misturava-se no meu corpo


absorvia-me


e apenas alguns pedaços de mim sobejaram em Cais do Sodré...


e tinha no meu coração uma caneta de tinta permanente


pronta para escrever nos alicerces dos teus beijos,


 


eu voava


enquanto um dos meus cachimbos se masturbava nos meus lábios


e sentia o fumo a invadir-me


e sentia-me foragido


perdido na montanha do amor


amava


era amado


e agora não sou nada...


desaparecias


e despertavas


e eu esquecido na calçada dos esqueletos de vidro...


eu... um transatlântico sem apito na boca.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 7 de Maio de 2014


27.04.14






no seu término o dia mistura-se com as sombras do prazer


o teu corpo mergulha sobre o meu peito flácido


quase a adormecer


lá fora há poemas por escrever


palavras vagabundas correndo junto ao Tejo


folheio as pequenas páginas dos teus seios


descubro o significado de “Amor”...


e sinto a paixão a entranhar-se nos meus ombros


 


há silêncios a descer a tua pele de doirado sémen


que acabam por morrer


semeiam-se nos límpidos lençóis de seda


como jangadas esquecidas em Cais do Sodré...


afinal... o sonho são as pequenas páginas dos teus seios


à janela do “Adeus”


simplesmente inventando soníferos de cartão


e livros a arder


 


há em ti um púbis construído de andorinhas


e flores de papel


e no seu término...


o dia... o dia cansado de viver


como se o teu corpo embrulhado nos meus braços de aço laminado


adormecesse vivesse amasse e morresse


e descubro o significado de “Amor”...


e de ser “amado”.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 27 de Abril de 2014



25.03.14

Aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,


aqui abraço o cansaço dos teus lábios,


aqui adormeço, aqui... aqui habito como um sonâmbulo embriagado,


uns dias olho o luar, outros... outros apetece-me chorar,


aqui não há mar,


gaivotas,


cacilheiros travestidos de neblina,


aqui, eu, percorro as cinzas do teu olhar,


e sonho, e penso, e quero partir como partem as andorinhas depois do término da Primavera,


aqui me esqueço, aqui...


aqui fundeio o meu cadáver de pano,


e grito, Aqui... Aqui a vida é um engano,


 


Aqui me amanho como um rebanho de desejo,


escondo-me na montanha do adeus, e nada, e nada,


aqui tenho livros que não quero ler,


odeio as palavras, odeio o querer...


querer que não tendo vou ter,


o quê?


 


Que aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,


os jardins sem flores,


as nuvens tão negras, tão negras... que é sempre noite,


sempre... sempre noite,


aqui não há Cais do Sodré,


machimbombos, mangueiras... papagaios em papel colorido,


aqui me enforco, aqui habito imaginando que tenho ossos, que tenho vida...


tecto com estrelas em chita, aqui... aqui nada me excita,


nem as palavras, nem as imagens das fotografias assassinadas,


aqui não há madrugada,


amanhecer,


aqui, aqui apenas existe dor, aqui, aqui apenas existe... engano.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Março de 2014


06.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


A insignificante maré de desejo que a palavra deixa sobre o corpo envelhecido da morte


a espuma translúcida do abismo camuflado nas noites em delírio


o cigarro mal apagado


caminhando ruas pouco iluminadas


cadentes


velhas...


calçadas permitindo o sexo sobre os fantasmas das cortinas de fogo que saltitam do circo em miniatura


a insignificante maré que eu sinto na minha algibeira


fundeada em Cais do Sodré...


sem eira nem beira...


a terra não prometida


o deserto que te absorve e alimenta


e come em pedaços de açúcar misturados com azedos olhares


as árvores que sombreiam as tuas mãos de pérola emagrecida...


tão triste


e... e tão querida.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014


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