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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.07.23

Habito,

Habito dentro deste cadáver emprestado,

Fingindo que este cadáver emprestado,

Me pertence,

Não,

Este cadáver emprestado,

Nunca,

Nunca me pertencerá,

 

Habito neste planeta de enganos,

De estrelas mortas

E de mortas

Palavras,

Não,

Este cadáver não me pertence…

E terei de o devolver…

E terei de desenhar na minha mão

Um outro cadáver

Com um outro nome,

 

Habito,

Habito dentro deste pequeno círculo,

Que me rouba o sono,

Que não me dá fome…

Habito,

Habito dentro deste livro que escrevo em segredo,

Sem palavras,

Sem medo…

Apenas desenhando silêncios…

E rochedos,

 

Habito,

Habito dentro deste cadáver,

Que não me pertence,

Que nunca me pertenceu…

E sofro,

Muito…

Porque preciso de o devolver…

E não sei a quem pertence.

 

 

 

01/07/2023

Francisco


26.03.14

Dizes-me que a noite é uma construção em néon adormecido,


vives pedindo-me palavras, vives... regateando silêncios entre carris de aço,


dizes-me que sou um cadáver embriagado,


triste... triste e sem cansaço,


sem o cansaço pedestal do azoto,


 


Dizes-me que amanhã não há paixão,


que todos os rios são solitários e casmurros, e... e sem mãos para as caricias do amanhecer,


sinto-te embalada no gatilho do incenso coração,


sem a espingarda neblina teu olhar, sem... sem flores a envelhecer,


e mesmo assim, dizes-me que sou um transeunte envenenado pela solidão,


 


Dizes-me que sou a tua nuvem colorida,


mas apenas o dizes quando te convém,


dizes-me que na madrugada nua...


não há nada, nada, nem ninguém,


porque me dizes ser eu uma estrela de algodão?


 


Dizes-me que não entendo os teus lábios em puro cristal,


que sou desastrado, ingénuo... que sou um falhado,


que sou o teu livro do mal...


como petroleiros da insónia esperando o marinheiro apaixonado,


como o triste vagabundo... no Inferno da cidade dos canibais,


 


Dizes-me que a noite é uma construção em néon adormecido,


pergunto-te se nos teus seios habitam jasmins, amoreiras... rosas encarnadas,


respondes-me que não, e dizes-me que há em ti o sorriso envelhecido,


como gelatina encaixotada nas janelas desalmadas,


e depois, depois... desapareces entre as rochas e os cadeados invisíveis do desejo.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 26 de Março de 2014


08.04.11

O cadáver de um poema


Exposto sobre a mesa


Nas paredes crucifixos arrogantes


Crucifixos com fome


 


Das palavras em decomposição


Apodrecidas sobre uma folha de papel


O cadáver


Aos poucos em pó


 


E do poema apenas a luz do dia


Repartida pelas clareiras da noite


O cadáver de um poema


Que se esconde nas frestas da solidão


 


Exposto sobre a mesa


Misturado com os óculos embaciados


O poema chora


E das lágrimas soltam-se palavras no fim da tarde


 


O poema sofre


O poema morre


O cadáver de um poema


Poisa na minha mão


 


E nas minhas costas


As palavras agarram-se-me nos ossos


Comem-nos ao pequeno-almoço


Fico cadáver como o poema…


 


 


FLRF


8 de Abril de 2011


Alijó

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