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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.04.19

Toquem os sinos e anunciem a minha partida.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Metáforas…


As palavras são pequenas gotículas do teu suor,


O alimento preferido da paixão,


E dos livros, e dos violinos, vomitam-se melódicos sons que abraçam socalcos.


Pareço um louco transeunte desorganizado, sem apeadeiro,


E, no entanto, atraco a minha barcaça às tuas mãos de fada.


(enquanto escrevo, oiço Doors)


Toquem, toquem todos os sinos que eu vou fugir,


Levo a minha barcaça,


E em terras longínquas vou procurar o amor…


Nada levo.


Apenas preciso de cigarros, cigarros e cachimbos.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Uma alma penada,


(como se eu acreditasse em almas, muto menos, penadas)


Palerma.


Palhaço.


O circo regressa sempre na Páscoa…


Espero-te, aqui, sentado, nesta pedra de xisto invisível.


E quando eu morrer, não quero fato e gravata e sapatos pontiagudos,


Não, não quero flores do teu jardim,


Não, não quero a presença do Senhor Abade…


Quero ir só.


Como sempre fui…


Só.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/04/2019


19.10.14

Há uma bala disfarçada de palavra


alojada no meu peito,


há uma jangada de geada voando sobre os teus seios,


Há um muro impossível de galgar,


Há no teu olhar a tristeza dos montes inanimados,


palavras,


balas de prata...


cachimbos despedaçados descendo a montanha,


Há uma bala amiga que me alimenta e adormece,


há uma cama clandestina prisioneira nas sanzalas com miúdos brincando,


cachimbos, e balas de prata...


me dizendo...


que há um jardim desenhado nas amoreiras da manhã,


enquanto eu fumando... me esqueço das teus lábios me beijando!


 


 


Francisco Luís Fontinha


Domingo, 19 de Outubro de 2014


30.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sacias-te na minha sede mergulhada em perfumados cachimbos de prata,


encontras em mim a doce corrente do aço clandestino da saudade,


sei que existo porque escrevo-te palavras, vãs palavras que o tempo come, e alimentam as tempestades da dor,


sacias-te em mim como se eu fosse um marinheiro escondido na escuridão da cidade,


procurando engate, procurando o prazer sem o prazer... no inanimado mundo da morte,


procurando mãos silenciosas para argamassarem o meu corpo aos cais do desgosto,


e sinto-me uma ténue folha de papel esquecida no teu ventre,


sacias-te nos meus olhos, e cerro-os para me ausentar de ti,


palavra, palavra do engano que sente o sofrimento,


e... dizes-me que todas elas são inconstantes equações trigonométricas,


cansadas,


tão cansadas como as tuas mãos poisadas no meu rosto de lata...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 30 de Março de 2014



17.02.13

Quando cai sobre mim o meteoro do teu desejo, e aos poucos, em pedaços de luz, vai desfragmentando-se em grãos de beijos com sabor a silêncio, com a janelas do jardim das imagens encerradas, limito-me a desenhar no tecto das tuas mãos os orgasmos de ruído que a própria desintegração provoca nas paredes frágeis deixadas pelos antepassados pais em gesso e ripas e no interior palha seca,


Sei que me odeias, pensas tu quando abres as minhas cartas encalhadas nos rochedos que o mar da saudade esconde, um submarino de dor entranha-se nas tuas finas pernas, e o torpedo do amor rebenta contra os cabelos desassossegados que sobre ti deambulam como as borboletas palavras dos tristes livros sem poemas,


Sinto-me, dizes tu, aparvalhadamente só,


Como eu,


Ontem,


Amanhã, quando uma resma de papel acordar sobre o meu peito, (pediste do reciclado por causa do ambiente), mas esqueceste-te dos meus olhos desde ontem, prisioneiros numa almofada de cartão recheada com pedaços de amêndoa, tiraste-me os candeeiros da mesa-de-cabeceira, e pintaste no espelho do guarda-fato em espantalho de aço


Pergunto-te


Achas isso normal?


Sinto-me, dizes tu, aparvalhadamente só,


Como eu,


Ontem,


Quando cai sobre mim o meteoro do teu desejo, e aos poucos, em pedaços de luz, vai desfragmentando-se em grãos de beijos com sabor a silêncio, coisas suicidam-se nas manhãs de segunda-feira, e amanhã uma coisa qualquer vai morrer, desintegrar-se como fizeste com os meus olhos,


O que fiz eu aos teus olhos aparvalhadamente?


Deixaste-os, sós, sobre uma almofada de cartão recheada com amêndoas...


E depois?


Tive medo dos muros de betão que estão a construir à volta das nossas recordações, cada dia que passa, mais longínquas, distantes, em cinza dizias tu quando o meu cachimbo se apagava, e a noite entrava em nós como abelhas com sonhos nas asas e amanheceres nos lábios,


E depois, depois o muro ergueu-se até ao céu, colocaram-lhe sobre ele um tecto de lona, a a nova vida tornou-se num circo ambulante com clarabóias de chocolate,


Sinto-me, dizes tu, aparvalhadamente só,


Como eu,


À procura das linhas interrompidas que o pavimento da vida vai deixando submersas como as acácias de luz nos vidros opacos das janelas do destino, acordei cedo, deixei de fumar os três cigarros que fumava todos os dias ao acordar, pensava que não ia conseguir sobreviver, acordar, andar, amar, ser o mar, a lua, o cristal da paixão nas mãos de ti quando me abraçavas em pensamento, e consegui, e estou vivo, mas há qualquer coisa sombria nas tuas queridas mãos de seda, mas há


Que faço aos meus trinta e seis cachimbos?


Há um texto por escrever, há duas personagens que precisam de viver, darmos-lhes vida, tarefas, imagens a preto e branco, quem sabe, um filho, um miúdo de calções ou uma menina de saia correndo em volta de um círculo de capim, ou


Que faço?


As árvores abandonadas pelas chamas desérticas que trazias do teu mar e deixavas-as espalhadas pela casa da aldeia, atiravas pedras aos pássaros, por engano, partiste a cabeça a um rapazola da escola, ou da tua rua, ou alguém invisível que às vezes te acompanhavam nas tuas loucas brincadeiras, Que faço?


São de madeira, ardem!,


E eu sabia que nas tuas pálpebras brancas viviam socalcos desde o cimo da montanha até à linha férrea que circunda o mais belo rio, não sei


(Se primeiro este ou o Tejo)


Talvez sejam os dois os mais belos, únicos, artistas de circo que Portugal tem, hoje, hoje tenho saudades do Tejo porque poucas vezes o olho, e quando o olho, vêm-me as distantes lágrimas das manhãs de areia, e o Douro olho-o todos os dias bem lá longe, como os seios de manteiga da menina Aurora que era telefonista na companhia de seguros, eu, um simples corredor com portas, e um tecto falso, e ela, uma secretária, em pura madeira virgem, louco, louca


(Pura lã virgem),


E


Há um texto por escrever, há duas personagens que precisam de viver, darmos-lhes vida, tarefas, imagens a preto e branco, quem sabe, um filho, um miúdo de calções ou uma menina de saia correndo em volta de um círculo de capim, ou


Que faço?


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


 


P.S.


“As árvores abandonadas pelas chamas desérticas que trazias do teu mar e deixavas-as espalhadas pela casa da aldeia, atiravas pedras aos pássaros, por engano, partiste a cabeça a um rapazola da escola, ou da tua rua, ou alguém invisível que às vezes te acompanhavam nas tuas loucas brincadeiras, Que faço?”


02.02.13

Um pedacinho de névoa


entranha-se na tua doce boca vestida de alecrim


e das algibeiras insónias madrugadas


acordam as imagens fictícias do orvalho incendiado pelo incenso doirado


olho-te vagarosamente no espelho mental das árvores danificadas


pelos ventos e tormentos que em ti navegam


perdidamente como uma gota de água


esquecida num banco de pedra debaixo de um plátano tresmalhado


e doente apaixonado


pelos orifícios indistintos do velho jardim


um pedacinho de névoa


entre os teus lábios narcisos e a tua língua rosa com pétalas de amor,


 


Oiço a tua mão voraz desenhando letras nocturnas


em nuvens de seda


oiço os teus gemidos transversais contra as paredes do velhíssimo relógio


suspenso no peito cansado e triste do homem das sete patas de madeira oca


oiço a voz rouca de um cachimbo de prata


saltitando


dançando


nas eiras graníticas das canções que a infância comeu


em pequenos torrões de açúcar


misturados com sílabas de céu estrelado


e sandes de marmelada


ao pequeno-almoço,


 


Pedia-te sossego e tu desaparecias de mim


dançando


saltitando


como um cachimbo de pedra adormecida pelas vagas contra os rochedos


dormíamos dentro dos ouvidos da praia


e antes de encerrarmos definitivamente os cortinados da Aurora Boreal


entrava em nós o Rossio vestido de gente


com mãos de noite


ouvíamos o rio nas catacumbas do amor


a pintar estrelas de luz


e luas de papel


e eu sabia que tu nunca mais irias regressar das salivas amargas do primeiro amor...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


18.12.12

Anoitecia, e eu sem saber onde te escondias, dormias às vezes debaixo dos beirais, outras, embrulhado em jornais, às vezes procurava-te em cada cama melancólica que a cidade coloca à disposição dos homens, das mulheres, que como tu, vivem, sofrem, amam, desejam ser amados, e dormem num pedaço de chão, às vezes, tantas vezes, da claridade do sono, a fome, o tilintar de esqueletos nas ruas perfumadas pelos bonecos de palha, espantalhos, que guardam as searas dos malvados e infernais pássaros pretos, anoitecia


 


e sabias que me escondia em pouquíssimos milímetros quadrados de espuma que o mar trazia do outro lado da montanha, o céu era azul, as árvores verdejantes com olhos castanhos, e os cabelos, nos cabelos uma flor encarnada e eram loiros como quando acorda o dia, e depois, redopiam silenciosamente as horas, os minutos, redopiam silenciosamente os segundos, até que um qualquer homem sem destino, acorda, cruza as mãos, e anoitecia, e eu


 


sem saber escrever,


 


e eu


 


sem saber ler,


 


e eu


 


sem saber que existias e dormias como os pardais,


 


e sabias desenhar nas ardósias da infância a liberdade, e voavas, e eu


 


sem saber fazer contas,


 


de somar, subtrair, dividir, ou quase sempre de multiplicar, pegava em dois pedacinhos de sofrimento, ela, a professora, multiplicava-os por três medidas de dor, e meu deus, sofrias


 


até que as malditas lágrimas de sangue desciam do primeiro andar vagabundo e desaguavam junto à ponte que me levava até ao cemitério, a morte é um complicado mistério, efémero destino suspenso pela associação clandestina dos fósforos depois de darem vida a um cachimbo de madeira, o fumo que escorre das tuas veias, e sofrimento, destino, sofrias


 


em pequeno menino,


 


sem saber escrever,


 


e eu


 


sem saber ler,


 


e eu


 


mergulhado nas vertigens que as gaivotas de papel provocam nas manhãs de chocolate, procurava-te


 


sem saber escrever,


 


 


e quase nunca te encontrava, e quase nunca sabia de ti, dias, noites perdidas, em lágrimas de sangue, cimento, a argamassa que crescia no meu rosto de vento encharcado de poeira, sofrimento, e lá fora corrias, dormias em sítios desconcertantes, e eu


 


sem saber desenhar,


 


e eu


 


sem perceber que as tuas mãos tremiam, e dos teus lábios ouviam-se os pingos finíssimos da chuva, as noites, as noite intermináveis, de sono, construídas em folhas de aço e arrebites de insónia, e mesmo assim, eu


 


esperava por ti.


 


(texto de ficção não revisto)


 


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


25.07.12

Cansado desta “merda” toda...


do jantar sobejaram as espinhas de miséria


e a varanda da insónia desdestrói-se sobre os socalcos do cansaço


e cresce em mim a vontade de desistir de todos os sonhos


e de todos os jardins onde me sentei e escrevi com o meu olhar


poemas de “merda” no troco das árvores com inércia e pedacinhos de musgo nos braços


ler


escrever


amar


(foder


nas palavras embriagadas da noite)


e das marés sem luar


 


(cansei-me das janelas isósceles


e das portas rectângulos sem memória


do seno de trinta graus


ou das tangentes fictícias à meia-noite)


 


oiço os apitos invisíveis


dos barcos imaginários


que galgam a seara da tristeza


mergulhada no vento da noite escura


 


cansado


cansado do jantar


cansado


cansado do amor das palavras


cansado


cansado dos livros que adormeço


cansado


cansado dos livros que leio


e dos cachimbos


cansado


cansado da vergonha


de ser um miserável ou um fantasma sem cabeça


 


quando os barcos de verdade


regressam do banco de jardim frente aos correios (já falecido)


e trazem nos olhos as cerejas da adolescência...


29.04.12

Um cachimbo com asas


abraçado a uma pomba tricolor


uma fogueira sem brasas


que beija as pétalas de uma flor


 


um cachimbo com asas


mergulhado no oceano do cansaço


um cachimbo rasca


à rasca


na sombra de um abraço


 


sem brasas


o cachimbo adormece sobre um livro doente


o cachimbo é eterno e infinitamente mente


com asas


 


um cachimbo prateado


cansado


moribundo


coitado do “Edmundo” (e não conheço nenhum)


chega a casa e sente


os gemidos do cachimbo doente


que infinitamente mente


que infinitamente com asas


em brasas


os lábios da sua amante


prateado


coitado


 


coitadinho do cachimbo


no limbo


sem sorte


à espera pacientemente da morte


coitado


deitado


 


com asas.


21.01.12


 


 


Tenho cachimbos


Para dar e vender


E pena minha


Não servirem os cachimbos para comer


 


Tenho cachimbos em madeira


E de espuma do mar


E se os cachimbos dessem para comer


Não precisava eu de mendigar


 


Tenho cachimbos


Para fumar


E cachimbos para acariciar


Para dar e vender


E pena minha


Não servirem os cachimbos para comer


30.03.11


 


 


Pego num livro de A. Lobo Antunes e suspendo a minha revolta nos cachimbos estacionados na estante dos livros. Pensando melhor, ninguém, nada, têm culpa da minha fúria, pego num livro e converso com as personagens, e enquanto me alimento de páginas deliciosas, esqueço-me das necessidades à minha volta.


Talvez amanhã seja outro dia, talvez amanhã o sol me ilumine, talvez amanhã o mar entre pela janela e se deite na minha cama.


Talvez amanhã, hoje, hoje não…


 


 


FLRF


30 de Março de 2011


Alijó

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