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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


25.12.12

Sentia-me confusa, tremiam-me as pernas, dos braços, meus, claro, um pedaço de raiva remexia-se convulsivamente, e olhavam-me pelo interior dos cortinados de noite, que forçosamente cerravam as janelas do castelo da senhora dos grandes milagres, onde, desde que me recordo, vivi, cresci às mãos de uma religiosa meio louca, surda, que tinha alguns tiques, um deles, enquanto falava comigo, metia as mãos nos bolsos do meu hábito encarnado com listras azuis, e quando me apercebia, já alguns do objectos que eu transportava jaziam nas mãos dela,


 


Desculpa-me minha filha, mas faço-o sem perceber,


 


Usava um lenço de papel pardo ao pescoço, fumava às escondidas, e tenho uma leve sensação que gostava de mim, não o gostar como quem gosta de uma filha, gostava no outro sentido, quando pela noite, descia a Almirante Reis e numa das pensões de hora e meia, entrava, despia-se, e no silêncio da noite convulsivamente, construía barcos de madeira prensada que posteriormente um velho marinheiro utilizava quando ia em sonhos até alto mar e cismava que tinha pescado uma menina loira com olhos verdes,


 


Tinha um amante o teu pai,


 


Fui literalmente pescada por um marinheiro em alto mar, numa noite de tempestade e no intervalo de puxarem as redes e de ele atafulhar o cachimbo de prata com ópio, e enquanto acendia, e enquanto não acendia, e apagava-se, e novamente acendia, o adjunto do mestre foi içando as redes, até que


 


Comandante, comandante, temos um grave problema, e enquanto ouvia o adjunto pensei logo que tivesse sido o Francisco que caísse à água, pois quase sempre andava embriagado, gritei, O que foi adjunto?


 


Um amante?


 


Temos na rede uma menina loira com olhos verdes, pensei, Está ele também bêbado, maldito vinho..., e olhei


 


E não queria acreditar, pensei que fosse do ópio, mas percebi que não, era mesmo uma linda menina, raios, e agora? Que vão dizer os meus amigos? Que fosse do ópio, não, era mesmo uma linda


 


Tinha um amante o meu pai?


 


Que era pintor e usava sandálias de couro e vestia calções com mesquinhas letras transversais, e lia Proust, e nunca


 


Lhe perguntei o significado do amor, sentia-me confusa, tremiam-me as pernas, dos braços, meus, claro, um pedaço de raiva remexia-se convulsivamente, e olhavam-me pelo interior dos cortinados de noite, que forçosamente cerravam as janelas do castelo da senhora dos grandes milagres, a irmã Margarida, pede um desejo


 


E eu sem hesitar, abraçar o meu pai, tocar-lhe no cabelo indefeso que a própria idade lhe desenhou na cabeça, pegar-lhe na mão, sentir o cheiro


 


Do cachimbo do teu pai adoptivo?


 


Que era pintor e usava sandálias de couro e vestia calções com mesquinhas letras transversais, e lia Proust, e nunca


 


Tinha um amante o meu pai?


 


E nunca me desejou


 


Até que o mar me levou.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


10.02.12

Há um cachimbo que chora


Há silêncio misturado no fumo


Do cachimbo que chora,


 


Batem à porta


E sei que é o mar para entrar


E o cachimbo que chora


Nas minhas mãos a chorar,


 


Há um homem só


Que conversa com o cachimbo que chora


Com o mar à espera para entrar


Há silêncio misturado no fumo


Quando as palavras desgovernadas


Rompem noite dentro


Como se fossem um cortinado pendurado na garganta do cachimbo…


Sem janela


Envelhece o homem só,


 


Há um cachimbo que chora


Há silêncio misturado no fumo


Do cachimbo que chora,


 


E tal como os sonhos


Como o amor


Há silêncio misturado no fumo


Do cachimbo que chora e tem dor,


 


Sou o homem só


Que conversa com o cachimbo que chora,


 


E o mar à minha espera


E a espuma do mar dentro da boca do cachimbo…


Há um homem que chora


Agarrado a um cachimbo só


Há silêncio misturado no fumo


E sei que é o mar para entrar.


12.11.11


 


 


O prazer,


Saborear o cachimbo de uma manhã de outono, e cruzar os braços, e não fazer nada, rigorosamente nada.


Não pensar, porque se penso, porque se penso lá se vai o prazer,


O prazer,


Saborear o cachimbo de uma manhã de outono, e hoje é sábado, e não vou pensar, porque se penso, lá se vai o prazer.


E dos poucos prazeres que tenho na vida é o prazer de sentir o cachimbo de uma manhã de outono e olhar pela janela o mar,


E o mar enrodilha-se nos meus lábios, e o mar mistura-se no fumo do meu cachimbo… e desaparecemos dentro da manhã de outono,


O prazer cerra os olhos, o cachimbo da manhã de outono longe e muito longe, e eu de braços cruzados não penso em nada,


Porque se penso, porque se penso lá se vai o prazer.


24.10.11

O silêncio inconfundível do meu cachimbo


Quando a tarde se esconde nas nuvens de algodão


E em pedacinhos de nada


Desce a noite à minha mão,


 


Abraço-me aos sorrisos do fumo dilacerante


Que se entranha nas minhas veias como um rio rebelde


Ausente


Que corre em direção ao mar,


 


Sento-me junto ao rio que corre em mim


E olho-o a extinguir-se na noite – O meu cachimbo –


O fumo em milhões de cores nos lábios do pôr-do-sol…


E à lua se abraça o silêncio do meu cachimbo.


31.03.11

Sentado


À direita de um cachimbo


De água, (que sobre a minha secretária


Adormece, sonha e alimenta-se


Das minhas lágrimas nocturnas…)


Eu, senhor do infinitamente só,


Só nas noites de inverno,


Só para os amigos,


 


Eu… ser nada ninguém,


 


Sentado


Dispersamente na tua sombra


Que no delírio da madrugada,


Também ela só,


Também ela infinitamente só…


Se despede de mim!


 


E num jardim de lírios


Os nossos delírios…


 


As nossas mãos


Separadas pela escuridão do teu olhar,


O teu olhar que me deseja,


E me aprisiona às tarde de inverno,


A tua boca, um inferno,


Um silêncio de medo…


 


Eu… ser nada ninguém,


Infinitamente só,


Só para os amigos;


 


Sentado


À direita de um cachimbo de água!


 


 


Luís Fontinha


Alijó

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