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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.12.22

(a todas e a todos que me foderam a cabeça durante este ano, desejo-lhes um ano de merda, aos outros, um feliz ano e que todos os seus sonhos se concretizem. E aos que falam de mim, que lhes nasça um pinheirinho no cu)

 

 

 

Levas-me ao céu, sabias?

Olha, do céu venho eu e não trago nada, subi, desci escadas, sentei-me junto à casa dos milagres, puxei de um cigarro, peguei num livro de Gogol e nem almas mortas eu vi.

Não digas isso, levas-me mesmo ao céu, e desenhas em mim o silêncio da noite, e quando estou nos teus braços sinto-me uma gaivota sem terra para poisar, um pedacinho de sono à espera do luar, ou uma gigantesca onde de mar, nos teus braços sou um barco sem vontade de aportar, pássaro, nos teus braços sou foguetão em direcção a Marte, Saturno, nos teus braços sou as luas de Júpiter, e se o tempo parasse, ou mesmo se a Terra deixasse de girar, eu, a tua eterna amada, era a criança mias feliz do Universo.

Olha, do céu venho eu e não trago nada. Nada. Tudo está caro, e até o dinheiro está caro. Por um grama de desejo, dois quilogramas de prazer e mil beijos, paguei uma noite de silêncio e dois orgasmos.

Ouvíamos Pink Floyd, lá fora, uma cascata de lágrimas que se desprendiam das tristes nuvens, poisava docemente sobre o pavimento faminto do sonho, as tuas mãos silenciadas pelas minhas, percorriam-me o corpo como se eu fosse uma lâmina de sono em pequenos voos sobre as alegres planícies de centeio que propositadamente deixamos ficar na fotografia da noite passada, e sim, levas-me ao céu, ergues-me sobre a meticulosa mediatriz do desejo, e quando sinto as tuas mãos no meu ventre sei que a manhã não acordará mais, como nunca mais acordaram as tílias do nosso jardim.

Escreves no meu corpo o mais belo poema de amor, e quando as tuas mãos em desejo abraçam o meu desejo, sim, levas-me ao céu, levas-me ao céu sem que eu precise de coisas complicadas, as simples chegam-me, não preciso de mais nada; tenho tudo.

Quero ser a tua tela, a tela onde deixas as tuas cores e os teus sonhos, a tela onde sei que habitam sóis, estrelas da tarde e todos os mares da tranquilidade, quero ser a música que ouves, ou o livro que pegas com todo o carinho, que manuseias sem qualquer pressa, e olha… podes fazer de mim o teu livro, o teu sono, podes…

Subi, desci escadas, sentei-me junto à casa dos milagres, puxei de um cigarro, peguei num livro de Gogol e nem almas mortas eu vi, ao menos se eu tivesse visto uma, uma só alma. E é do céu que eu venho e nada trago, nem consegui conversar com Deus, mas também para que eu queria conversar com Deus… eu que quase não converso com ninguém, eu que não acredito em Deus, no diabo, nas almas de Gogol, eu que apenas sou uma palavra disfarçada de insónia, que quase não come, que quase não voa… como posso eu, eu, levar-te ao céu?

Mas levas-me, meu querido.

Daqui oiço o silêncio, olho pela janela e vejo um gajo com uma bilha de gás às costas, como se a Terra esteja quase a deixar de ser Terra e passar a ser…

As tas mãos, meu amor?

Que têm as minhas mãos, minha querida?

Sei lá… têm tanta coisa…

Têm palavras, têm cor, têm todas as madrugadas e têm poesia…

Poesia, meu amor.

Poesia?

Poesia das tuas mãos…

 

 

 

 

 

Alijó, 30/12/2022

Francisco Luís Fontinha

...


24.11.18

Podia desenhar-te o Céu.


A vida é um suspiro, a casa vazia, triste e a tremer de frio…, o cansaço do amanhecer perdeu-se no teu olhar, respiras, sofres por mim, e não o queres demonstrar.


Sabes, tenho medo dos pássaros, que deixem de voar, que fiquem estonteantes, como eu, ao ver-te aí deitada, tenho medo da madrugada, porque amanhã não sei se vou ler nos teus olhos a palavra amo-te…


E é tão triste, e é tão belo, todo este silêncio que nos abraça.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Novembro de 2018


14.08.12

Este meu destino


de sobriamente abandonado pelas aves das trevas


quando do relógio das pálpebras


emergem as candeias e


e deus desce pelas escadas de cartão


e o meu corpo transforma-se em vento ensanguentado


entre papeis


e mulheres de porcelana


 


amores risíveis


mas não


ou então


 


das ruas miseráveis da plenitude madrugada


um homem sem cabeça


apaixonadamente ama


ama verdadeiramente o quê?


Se o céu é de fogo


e da terra


oiço as frestas cansadas das estrelas sem coração


o amor?


 


E da terra


se o céu é de fogo


ama verdadeiramente o quê?


o amor?


15.11.11

Subo as escadas


E desço as escadas


A minha vida são duzentos e cinquenta degraus


Um corrimão


E subo


E desço


As escadas


E subo até ao céu


 


Cansado


De subir até às nuvens


E à noite


E à noite regressar ao rés-do-chão


 


Abrir a porta


Fechar a porta


Corredor e corredor


Desvio-me dos petroleiros


 


Abrir a porta


Fechar a porta…


Abro os bracinhos


E zás… aterrar sobre os lençóis da noite


 


Duzentos e cinquenta degraus


Uma vida de merda


A subir escadas até ao céu…


E deus sempre ocupado ou ausente


 


E oiço a voz de deus


SÓ PARA A SEMANA!


E desço os degraus


Os malditos duzentos e cinquenta degraus…


 


E espero


E espero que o calendário pendurado na cozinha…


Que o calendário caminhe apressadamente uma semana


E que finalmente deus me receba


09.10.11

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,


Que o mar só tem ondas porque existe o vento, que se uma borboleta bater as asas na Indonésia um tufão nos Estados Unidos da América acorda e começa a cuspir silêncios de água suspensa nas manhã de solidão,


E que deus está sentado à direita do pai,


O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,


Que as nuvens são pedacinhos de algodão e as mulheres têm nos lábios sorrisos de mel,


- É tudo uma aldrabice pegada Confessava ele na esplanada do café onde quatro amigos invisíveis o acompanhavam,


O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam e que o amor quando verdadeiro é como as estrelas do céu, cintilam e prendem-se às janelas das árvores deitadas na praia,


- É tudo uma aldrabice pegada os quatro amigos invisíveis e a lua e Luanda e o mar,


Nunca existiram,


O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,


E que os beijos são o pôr-do-sol antes de cair a noite sobre o rio que corre apressadamente para o mar,


- E que nunca existiu,


Belém,


- E que nunca existiu,


Calçada da Ajuda,


- E que nunca existiram,


Putas a pedincharem cigarrinhos junto à estação de Cais de Sodré,


- E que nunca existiu,


Um menino debaixo das mangueiras a espetar pregos na sombra da tarde e sobre o triciclo o chapelhudo em queda livre até aterrar junto à capoeira, e as galinhas fingiam que acreditavam em tudo, dava-lhes grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo e elas que acreditavam em tudo agradeciam-me,


- O milho saboroso da madrugada,


Um menino que corria entre o néon dos musseques e as lágrimas do céu, um menino que acreditava em tudo,


- O milho saboroso da madrugada,


Que tombava como pétalas de dor das mãos do menino que acreditava que os barcos tinham mãos, e que os aviões quando lá no alto encolhiam e adormeciam junto a deus sentado à direita do pai,


- E que nunca existiu,


E que nunca existiram mangueiras no meu quintal,


- E que nunca existiu,


Calçada da Ajuda,


- E que nunca existiram,


Cacilheiros enrolados ao cacimbo,


Porque o parvo que acreditava em tudo o que lhe diziam,


Um dia,


Deixou de acreditar,


E as galinhas deixaram de comer os grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo,


- O milho saboroso da madrugada,


Nas ruas de Luanda.


 


(texto de ficção)

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