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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

...


11.11.18

(…)


 


Os sete orgasmos do Mussulo, a liberdade sobre as palmeiras invisíveis que me atormentavam, como campânulas de sofrimento, ao deitar, o caixão que dançava deixou de o fazer, dificuldades com o cachê, dispensa de artistas e cadáveres de cera, um altar recheado de almas, tantas almas como os versos do sem-abrigo quando sentado numa cadeira apodrecida de um circo ambulante,


Quero ser artista, mãe!


Nem penses..., nem... penses...


Filho meu não é artista!


Nunca,


Nunca, mãe?


Os sete, juntos, e sós, no Mussulo era mais barato, a saia descaída, o soutien desenhado no peito


E...


Nunca, mãe?


Nunca,


Nunca


No peito uma flecha de sémen rodopiando no gelo do ringue de patinagem... o belo, a dança... e o corpo em pequenas rotações...


Os teus lábios acorrentados aos meus beijos embriagados pelo desejo, não o sinto, o vulcão da tua pele, não vejo o sorriso da tua mão, em vulcão, mergulhada nas palavras que o silêncio desenha na melancolia,


É falso,


O dia disfarçado de lápide, os outros destinos rejeitados pelo cacimbo, há uma fogueira no corpo da sinfonia do amor,


É falso,


O falso prazer, a liberdade to TEXAS e Cais do Sodré gingavam na penumbra salgada do abismo,


O querido, dança?


 


 


(…)


 


 


Francisco Luís Fontinha


08.06.17

Nunca me encontrarás porque eu sou a sombra,


Nunca me encontrarás junto ao rio a escrever nos teus lábios de Belém,


Nunca me encontrarás nos jardins de Belém…


Nem nunca me encontrarás abraçado aos braços da maré,


Nunca me encontrarás sentado a pensar em ti… porque, porque deixei de pensar em ti,


Hoje, nunca me encontrarás a desenhar nos teus lençóis os meninos a brincar na praia,


Porque a praia morreu,


Porque os meninos morreram,


Nunca me encontrarás enamorado pelo teu olhar,


Debaixo das nuvens envergonhadas dos finais de tarde,


Nunca me encontrarás enrolado nas tuas mentiras…


E batem à porta…


E espero que não me encontres neste circo ambulante,


Observando as árvores assassinadas pelos teus dedos…


Nunca me encontrarás nesta casa desajeitada e sem porta de entrada,


Que nem uma simples caixa do correio tem para receber as tuas cartas perfumadas,


Nunca me encontrarás a olhar o Sol… porque odeio o Sol,


Detesto o Sol.


Nunca me encontrarás passeando na rua atropelando automóveis famintos,


Tristes…


Tristes desencontros das ancoradas em flor…


Nunca me encontrarás nas tuas cartas nem no interior dos teus livros,


Porque não o quero…


Não quero ser encontrado.


Nunca me encontrarás.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 8 de Junho de 2017


08.05.16

Os comboios só apitam durante a noite para assustarem as estrelas,


As rectas paralelas em aço estendem-se até ao infinito, chegando lá, o comboio desaparece, entranha-se na noite e morre.


Encurvado nos socalcos levo comigo as curvas do Douro, lanço-me à água… estou farto das palavras que escrevo, estou fartos dos meus desenhos, como a vida que gira e não se cansa de cessar, parar sobre a ponte e suicidar-se sobre os rochedos da insónia.


Oiço o grito da aranha no cansaço da madrugada,


Sei que habita um rosto no espelho do meu quarto e certamente que não é o meu, porque nunca o vi, apenas em pequenos tragos de saliva ao pôr-do-sol,


Quero expulsá-lo de lá…, mas não tenho força para tal; parto o espelho?


Quebro-o até que o rosto se transforme em mim? Ou este será o meu rosto depois da minha morte?


Os comboios só apitam durante a noite, fiz muitas viagens, muitas noites sem dormir, entre apitos e soluços, entre estações e apeadeiros desconhecidos, entre gritos e gemidos, até desaguar em Santa Apolónia pelas sete horas da manhã, as ruas acabavam de acordar, os sem-abrigo levantavam-se para o invisível pequeno-almoço, e eu, e eu fumando cigarros para não adormecer,


Mas acabava sempre por cerrar os olhos e passar o dia entre os cortinados da escuridão e os sons melódicos do trânsito, a loucura, cruzava os braços e punha-me a contar os automóveis que passavam por mim, depois separava os que eram homens e os que eram mulheres, as crianças à parte… e assim passava o dia.


Regressava a noite e eu tinha vendido o sono ao Diabo, saía na companhia de desconhecidos, entrava em todos os bares até adormecer sobre qualquer banco de jardim, e enquanto dormia, sentia, sentia os apitos do comboio…


Tudo isto está escrito e sepultado em três caixotes de cartão,


Confesso que nunca mais os abri, não tenho coragem para os abrir…


Papeis, fotografias, poemas, e fantasias…, mas para quê remexer o passado e este está morto, e enterrado no meu peito.


Os perfumes intactos, uma velha rosa dentro de um livro, intacta, e a minha vida pedaços de farrapos em construção, hoje uma pequena vitória, amanhã uma grande derrota…


 


Amanhã faz vinte e dois anos que deixei a heroína…


Uma grande vitória.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 8 de Maio de 2016


07.05.16

Era forçado pela pressa das coisas. O silêncio imaginário da manhã quando pegavas na minha mão ao desaparecer no meio dos transeuntes da cidade perdida,


Escondia-me das sombras dos aciprestes,


Porque assim, pensava eu, estaria mais protegido das estrelas, mas não estava.


A noite era uma aventura,


Eu preferia ler, e tu, e tu preferias passear, que confesso, que confesso não me apetece nada caminhar apenas por caminhar,


Se ao menos caminhasse em direcção ao Luar… era forçado pela pressa das coisas,


Tens de fazer isto, amanhã tens de fazer aquilo…


Chega. Detesto receber ordens de arbustos e munto menos de ti.


Sou feliz assim, confesso.


Não dou nem recebo ordens,


Sou livre, voo na companhia das gaivotas ao final da tarde junto ao Tejo,


Depois poiso em Belém,


Acorrento-me às amarras invisíveis da maré,


Olho os veleiros em atropelos sem que ninguém lhes valha…


Como a mim,


Nem palavras nem poesia,


Nem os livros me deixam adormecer quando tu, depois de caminhares em círculos, cansada, dormes, eu olho-te e finjo não te ouvir, prefiro ausentar-me na noite, e regressar quando já o dia bate na janela do nosso quarto,


Descerro a lápide do desassossego, não encontro nela o meu nome…


Deixei de pertencer aos humanos visíveis das avenidas laminadas pela escuridão,


Tenho no peito um fantasma, um falso coração que em vez de amar…


Bate, bate sem parar…


E um dia vai parar,


E nesse instante serei o homem mais feliz do Universo,


A minha morte; as coisas cessam, e deixam de ter pressa,


E deixam de ter graça.


E eu, e eu serei apenas eu…


Uma carcaça.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 7 de Maio de 2016


08.12.15

O tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Converso com um invisível copo de uísque


Recordamos os momentos passados junto ao Tejo


O embriagado soldado


Subindo a Calçada da Ajuda


Com o Doutor Vijago debaixo do braço


Não sei se o tempo me quer


Ou se eu quero o tempo


Estou só


Aqui


Neste convés sem janelas


Neste mísero abraço


Aqui


Estou só


Converso com todos os fantasmas da noite


Reparo que um deles odeia-me


É tão fácil odiarem-me


Aqui


Olhando o sonífero luar nos términos da insónia


Sou pobre


Nada telho para te oferecer…


Apenas beijos e livros


Coisas insignificantes


Sem destino


Quando menino dormindo na sombra das mangueiras


O musseque fervilhava de paixão


Havia sexo


Orgias


Orgasmos


E gemidos


África é um Paraíso


Sem nome


Sem morada física


Como eu


Aqui


E só


Escrevendo parvoíces


Coisas que ninguém lê


Palavras


Palavras


Palavras do Diabo


Sem dono


Sem ser amado


A felicidade acorda nos teus lábios


Framboesa das manhãs sonolentas


Dos castiçais amedrontados do templo do amor


As aventuras das crianças pretas meus irmãos também


A morte regressava-lhes de vez em quando


E sorriam


Cantavam


Beijavam-me como se beijam os Coqueiros nas fotografias


E o tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Só…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 8 de Novembro de 2015


03.09.15

desenho_03_09_2015.jpg


(Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)


 


Habito numa cidade de abutres,


Manhã cedo, ao acordar, percebo que sou apenas uma sombra misturada com outras sombras como eu,


Não sei se dormi, não sei se estive toda a noite a sonhar,


Perdi o cheiro do mar,


E a paisagem dos Oceanos de vidro,


Olho, olho para o Céu…


E todas as estrelas de papel… voam em direcção ao Luar,


Peço às abelhas entranhadas no mel, ajuda,


Desço a Calçada,


E Ajuda, não ajuda…


A regressar a noite aos meus braços pincelados de ferrugem,


E Ajuda, não ajuda… sobe um Cacilheiro a dita Calçada.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 3 de Setembro de 2015


 


18.08.15

Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos imaginários,


Venderam os ossos à escuridão


Trocaram a alegria pela tristeza…


E parecem tão felizes como eu,


Desenho-os na minha mão


Enquanto lá fora


Lágrimas em papel caiem sobre a calçada íngreme da solidão,


Sofro


E tenho medo da paixão,


Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos encalhados na fina insónia do corpo,


Saberei porque durmo nesta cama de água salgada…


Saberei porque vivo nesta roldana enferrujada pelas nuvens da manhã,


Ao acordar,


Não estás,


Pertences aos ventos do Tejo…


Entre um beijo de despedida


E petroleiros acorrentados aos jardins de Belém,


Voltarei


Um dia


E este porto…



Sem ninguém,


Voltarei


Um dia


Sem saber o significado de regressar aos teus braços,


Esqueci o odor do teu perfume,


Esqueci a fúria do teu ciúme…


E esqueci a janela do teu olhar


Diluída numa folha amarrotada pelas montanhas da saudade…


Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos...


Sem remetente,


Ausente de ti.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 18 de Agosto de 2015


16.04.15

O pecado que o amor confere à paixão


Impregnado numa imagem sem som


Dactilografada


Nos teus dedos


À tua boca


A minha boca


O barro incendiado pela alegria das campânulas de luz


Nu


O corpo


Seduz


O corpo seduz a alegria do poeta


Fugir não adianta


 


Não há sítio onde me possa esconder


Nu


O corpo


Seduz


Os homens


Tombando numa parada militar imaginada


Pelo silêncio da tua pele


O sangue fervilha na ribeira ardósia das cansadas sestas


Dentro de casa


O nome gravado na parede da sala


A falsidade manhã


Em despedida


 


Até mais… meu amor


O Tejo embriagado nas tuas sílabas de medo


Belém na minha algibeira


Tormentosa


E vazia


(as gajas não querem gajos tesos)


Eu sei


Meu amor


Que tínhamos encerrado as janelas do prazer


O café esperava-nos


E nunca percebi o teu cheiro


Cheiravas a incenso


 


Alguns livros


E àquele sorriso de inocência


Depois


A tempestade


A chuva disfarçada de má sorte


(as gajas não querem gajos tesos)


Eu sei


Meu amor


No eterno cemitério da fantasia


Sinto-o quando recordo a tua morte


E visito a tua lápide


Meu amor


 


Sem palavras


Fotografia


Esquecida entre uma cruz em madeira


Cabras


O pasto cinzento dos teus gemidos


Ele


Alicerçava-se aos carris do inferno


Beijavam-se


E extinguia-se o dia no sótão da literatura


Sabes


Meu amor?


Cansei-me das tuas cartas não escritas…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 16 de Abril de 2015


12.04.15

Sinto-te


Nesta jangada invisível


Do sofrimento


O cansaço


À palavra


Na tua mão


Entre cidades


Rios


Pontes


Os olhos


Fundeados nos rochedos da solidão


O prateado silêncio



Nas paredes do sono


O poema inventado


Pela árvore adormecida da tristeza


Sinto-te misturada nas ardósias tardes de Primavera


Não chove


Há nos teus lábios


O sorriso do luar


E os sonhos


Do mar


Lá longe


Perdido


Nos sofridos barcos de esferovite


Os peixes e as gaivotas


Poisadas no teu corpo


Alimentado pelo meu olhar


Voas


Foges


Levantas-te de madrugada


E regressas ao endereço desconhecido


Devolvida por endereço insuficiente


A noite


E


As estrelas de papel


Sinto-te


Nas arcadas manhãs em liberdade


Sinto-te nas sanzalas esquecidas


Sobrevoando o capim da memória


A casa distante dos teus braços


As janelas do teu cabelo


Sós


Nós


Entre socalcos


E


E marfim


Ao pequeno-almoço


Sinto-te


Nos horários ensanguentados do pêndulo amortecido


Uma lagarta de aço


Em curvilíneas convulsões


O medo


O amor aprisionado ao medo


De partir


Regressar


Sem bagagem


Sós


Numa eira sem asas


Esperando o acordar das estátuas


As lagartas da insónia


Os muros amarelos de um triste Calçada


O estuário dos teus seios contra as marés de prata


Sinto-te


E sinto-te nas páginas em branco


Do ciúme


Teu


Amanhã


Sinto-te


Sentir-te


Nos lençóis da paixão


Como sentia em criança os palhaços nas mangueiras do meu quintal…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 12 de Abril de 2015


12.04.15

Ouves-me


Meu amor?


Os pássaros e as flores


Têm sonhos…


Amam


São amados


Brincam nas calçadas de luz


Recheadas de flores


E promessas


A vida parece-me um cadáver


Ensanguentado


Tão frio


Meu amor


Tão frio…


O teu corpo imaginado


Que só o espelho do meu quarto


Consegue projectar


No teu olhar


Flácidas manhãs


Meu amor


Canções de cansaço


Descendo a Calçada da Ajuda


Tropeçava em ti


Meu amor


E caia junto ao rio


Completamente


Meu amor


Embriagado pelas palavras do teu silêncio


Adormecido


Tristes


Ausências


Sem


O destino


O menino


Dos calções


Galgando marés de inferno


Ao pequeno-almoço


Torradas


Leite


Café


O barco


Cambaleando na solidão do vazio


Demoradas veias de argamassa


As construções erguiam-se até a Céu


Sentia todas as manhãs


O cheiro das palavras


Tão frias


Como o teu corpo


Meu amor


Do mármore cancerígeno


O teu sorriso vestido de esperança


O dia estava tórrido


E


Tombava no pavimento das lágrimas


A parada


Uma velha espingarda


Meu amor


Os pássaros e as flores


Sonham?


Amam?


Se apaixonam


Como


Nós


Meu amor?


Como sei se me amas


Se ouves todos os dias os meus poemas


Embalsamados nas ruelas da Ajuda


O frio


Teu


Corpo


Em viagem


Em gravitação


Os lençóis impregnados de desejos


Rodas dentadas


E parafusos


Os moldes


E as equações


Embrulhadas no cemitério da vaidade


Meu amor


A vida


Depois


Da morte


A vida depois da morte?


Acreditas?


Meu amor…


Os guindastes das dores de cabeça


As guitarras brincando numa eira


Longe


De ti


Que


Não


Sei


Se


Existes


Existes


Meu amor?


Como será a alvorada em Marte


Meu amor!


Descia


Descia


E


Tu


Subias


Subias


Descia


Acordava em Cais do Sodré


Trazia uma lápide de sono


Na testa


Amo-te


Ouvia-se dos paralelepípedos da razão


Os uivos do cão


Havia sempre um gajo pronto a engatar


E outro


Meu amor


E outro sempre pronto para ser engatado


Os beijos


Meu amor


Subíamos a Calçada até às cinco da madrugada


Descíamos até ao Tejo


Tu


Suicidavas-te


Depois


Eu


A olhar-te


Como hoje


Sem ninguém…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 12 de Abril de 2015

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