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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.10.21

Tenho na mão

A mais bela flor do anoitecer,

 

Tenho na mão

A mais bela palavra para escrever,

 

Tenho na mão

A mais bela pintura de se ver,

 

Tenho na mão,

A tua mão de viver.

 

Tenho na mão

O mais belo poema de amor,

O mais belo silêncio em flor,

Tenho na mão a tua mão,

Na tua mão, meu amor.

 

Tenho na mão

A noite a crescer,

Enquanto na tua mão,

A minha mão não se cansa de dizer;

De dizer

Que na minha tua mão,

Existe um poema a crescer,

Existe um poema que adormece no chão.

 

Tenho na mão

Todos os beijos de beijar,

Todas as palavras de amar,

Tenho na mão,

Na minha tua mão,

Os olhos do mar.

 

Tenho na mão,

Na minha tua mão,

As palavras de amar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31/10/2021


07.08.21

Trazes nos lábios

O silêncio

Onde habitam os peixes da minha infância,

Das tuas mãos

Oiço

O baloiço

Dos meninos da minha infância,

E, desenho a saudade

Na sombra sonolenta

Das palavras

Da minha infância.

Capto o sorriso que de ti

Palmilha as montanhas da minha infância,

Porque ontem

Percebi

Que já brincavas nas sombras da minha infância.

Oiço-te quando do longínquo oceano

Regressam as flores da minha infância,

E, talvez seja a chuva

Que deixei na minha infância,

Te liberte das palavras minhas,

Quando escrevia na laranja

O poema da minha infância.

Sinto o teu corpo

Nas fotografias da minha infância,

Um esbranquiçado preto e branco no silêncio infinito,

Quando dentro da cidade,

A janela da minha infância…

Brincava na montanha.

Sinto os pássaros da minha infância

Desajeitados como a minha boca,

Escrevendo beijos

Beijos e coisa pouca.

E, o rio.

O rio da minha infância,

Descendo a sanzala,

Uma cubata aqui,

Palhota acolá,

Mas na minha infância

Já sabia que os teus lábios

Eram desejos,

Desejos

Todos beijos.

 

Trazes nos lábios

O silêncio

 

No olhar as minhas palavras,

 

Sinto-o

E, alimento-me de ti,

Sempre que nasce a madrugada.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/07-08-2021


14.02.21

Tínhamos nas mãos a paixão

Dos beijos.

A clorofila entre silêncios e insónias

Das palavras desertas,

Nos rochedos, oiço a voz da madrugada

Resiliente,

Cansada.

Tínhamos no olhar

O eterno clarão

Dos desejos,

Os poemas envenenados pela paixão

Começam a dormir,

Docemente,

Sobre a secretária da solidão.

Tínhamos nas mãos

O corpo molhado do mar,

Todas as marés e,

Todos os barcos em papel.

Tínhamos nas mãos o vento

Que trazia o Norte,

A fadiga

A má-sorte.

Tínhamos o cansaço dos abraços e,

Dos pincelados beijos sombreados

Uma fotografia tua,

Dançando nos meus lábios.

Tínhamos os dedos entrelaçados,

Como duas crianças a brincar,

Deitávamo-nos na areia envergonhada

Até que a noite nos vinha buscar.

Tínhamos tudo e,

Não sabíamos que o mar

É a nossa casa.

O amor escreve-se nos teus lábios,

Como uma cancela a boiar no rio…

Pego-te; amanhã saberás que as palavras

São poemas. Amanhã saberás que as palavras

São mãos absorvidas pela paixão.

E, mesmo assim, estas palavras, esta paixão,

São poemas que saem da minha mão.

Tínhamos o Sol,

As nuvens que governam a terra,

Tínhamos as palavras,

Nas palavras teus beijos.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 14/02/2021


12.02.21

Escrevo o teu nome

Nas arcadas do pensamento,

Grito. Fico com fome

Das palavras alimento.

 

Os beijos desenhados

Na tua perfeita mão,

São abraços cansados

Que ardem no coração.

 

Tenho nas palavras abençoadas

A insónia de viver;

Do medo às caminhadas,

 

Quando o teu perfume

Me obriga a escrever.

Meu amor! Salva-me deste maldito lume,

 

Onde eu tenho de adormecer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 12/02/2021


19.11.20

São doces, os lábios do poema.

São as palavras, nos lábios do poema,

Quando o mar entra pela janela.

Lá fora, gente dispersa, contínua, como a água,

A mesma água que jorra dos lábios do poema.

São estes beijos, meu amor,

Que travestidos de palavras,

Vivem nos teus lábios – o poema;

Escrevo-te enquanto tu, vestida de flor,

Danças na sombra, a mesma sombra, que beija os lábios do poema.

Percebo que as roldanas do amanhecer, antes de oleadas,

Estejam perras, doentes e cansadas,

Mas, durante a tarde, as roldanas que vivem nos lábios do poema,

Despem-se; vejo-as banharem-se no rio onde brincam os lábios do poema.

O ciúme. A paixão dos versos envenenados pelos lábios do maldito poema,

Dançam, como tu, nos lábios do poema.

Durmo docemente nas tuas asas, andorinha Primavera,

E, o amor,

E o amor nos lábios dela,

Os mesmos lábios que dançam nos lábios do poema.

É hoje, a derradeira manhã adormecida,

Despida,

Nua e envelhecida,

É hoje, meu amor,

Que todas as palavras são beijos,

Os beijos dos lábios do poema.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó, 19/11/2020


03.11.20

Sabes, meu amor, as rosas também se comem

(as de papel, as rosas de açúcar e as rosas de sombra).

As rosas são palavras que dormem no meu jardim imaginário,

Tem pássaros, o meu jardim, tem livros, o meu jardim e, tem roas, o meu jardim.

O meu jardim é a minha casa e,

A minha casa, são os teus lábios de amêndoa doirada,

Suspensos na infinita luz, das lágrimas, das rosas, do meu jardim.

Sabes, meu amor,

Hoje escrevi uma carta aos pássaros do meu jardim,

Os mesmos, que há pouco viviam abraçados às rosas, do meu jardim.

O meu jardim, meu amor, tem uma janela virada para o mar,

O mar, meu amor, que beijas antes de adormecer e,

Me envias em sonhos, todas as noites, debaixo das estrelas que cobrem o meu jardim.

Amanhã, não sei se tenho o meu jardim,

(porque as rosas podem não acordar) e,

A janela do meu jardim, virada para o mar,

Pode, no entanto, amanhã, também ela, não acordar.

E, e se eu não acordar, como as rosas do meu jardim?

Ai meu amor, com é bom ter um jardim,

Rosas para cheirar… e,

Os teus lábios para beijar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó, 03/11/2020


09.04.19

Desenho o círculo, o quadrado e o triângulo, nos teus lábios de papel quadriculado,


Escrevo-te enquanto brincas na chuva, como uma criança mimada,


Tenho pena dos jardins e das flores,


Quando me sinto abandonado,


Pela tempestade, quando acorda a madrugada,


Na sanzala dos amores.


Leio-te.


Todas as palavras escritas no teu corpo de cerâmica, e na tua pele, o perfume do silêncio amargurado,


Leio-te, como se fosses um livro de poesia,


Quando o poeta está triste,


Com heresia,


Na chuvinha que não resiste,


Ao beijo da alvorada.


Sinto a paixão das palavras no meu corpo cansado.


Desenho o círculo, o quadrado e o triângulo, nos teus lábios de papel quadriculado,


Percorro socalcos,


Pego no xisto,


Sei que existo,


Porque dos teus lábios, brotam a neblina da loucura,


Na cidade, encontro-me encurralado,


Como uma arma de fogo, uma navalha… apontada ao Sol,


E, no entanto, gosto das nuvens de algodão.


Tenho na mão o fogo do amor,


As luvas da paixão,


Tenho na mão a dor,


Quando a espada se entranha no chão.


O círculo,


O quadrado,


O triângulo…


Todos.


Apaixonados.


Todos.


Cansados.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


09/04/2019


27.02.16

Sentiria o corpo voar


Se não fossem as tuas mãos,


Chegou o momento de cortar todas as amarras,


Sentir a liberdade das palavras nos meus lábios…


Sentir a vontade dos beijos nos meus poemas,


Zarpar em direcção ao nada,


E com o nada digo tudo


Que com o tudo nada digo,


Inventar em mim os aviões da infância


E as coloridas paredes de uma casa abandonada,


Sentiria o corpo voar…


Se não fossem as tuas mãos,


A tua boca,


O teu perfume disfarçado de noite


Antes de regressar a morte,


Sentiria o corpo


Não sentindo o peso da atmosfera alicerçada nos meus ossos de papel,


Não sentido a madrugada suspensa no cortinado…


E lá fora


Os gemidos nocturnos dos incêndios de veludo,


Ir


Caminhar sobre as pedras esquecidas pela tempestade,


Comer os livros ainda não lidos


Porque estão mortos sobre a minha secretária,


Sentiria


Se não fossem as tuas mãos


O peso da lua,


Sentiria a claridade do sofrimento


A cada dia percorrido,


A momento desperdiçado escrevendo-te…


Sem sucesso,


Amar-te sem amar


Sentir sem sentir o esplendor do amanhecer,


Às vezes, pareço um menino em busca de uma praia


Com areia branca,


Às vezes, pareço um pedaço de aço atracado a um qualquer porto de mar…


E sentiria


As tuas mãos


No meu peito


Ao despedir-se a tarde.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 27 de Fevereiro de 2016


26.01.16

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,


Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?


E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…


Menos tabaco, amigo, menos tabaco,


Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes


Menos tabaco, menos,


Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,


Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho


Sim, pai?


Lembras-te do Mussulo?


Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,


Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,


Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,


Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,


E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…


Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,


Menos tabacos nesses cigarros, menos


Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos,


Os homens, os meus e os teus, quadriculados beijos entre equações de amor…


Só queria ter uma cabana no cimo do monte, uma mulher que falasse Russo e uma montanha embalsamada no meu corpo, a aventura, o silêncio na procura do abismo, o Natal, prendas, e que se “fodam” as prendas,


E o Natal!


Sabíamos que amanhã não haveria saudade, sabíamos que amanhã não gaivotas poisadas no Tejo, estou muito doente


E o Natal?


Tive um amigo que morreu de silêncio,


Paz à sua alma,


Tive um amigo que se cansou da melancolia dos dias, das noites, das noites sem noites depois das noites, vivia acorrentado a uma árvore, eu, acreditava na inocência dos seus lábios, encardidos pelo temporal, desgastos pela insignificante margem do rio onde brincavam gaivotas e marinheiros, e sucata de mim


Ontem fui a um bar em Cais do Sodré, sentei-me, viajei até mil novecentos e oitenta e sete, era dia, corríamos embriagados em direcção ao medo, havia conquilhas e cerveja à mistura, como sempre, este amigo, embriagado pelas minhas palavras,


Amo-te, dizia ele, quando percebia que a escuridão se entranhava nos meus ossos de veludo, que eu, semeado na seara do vento, tinha medo, sentia a solidão sobre o meu peito, havia noites de tortura, havia noites de desequilíbrio mental, a loucura, o Tejo no meu quintal,


E sucata de mim,


Que boiava nos teus cabelos, meu amor, e sucata de mim espalhada pelos sítios mais incógnitos da nossa casa, um palheiro, simples, e felizes, assim,


Acorrentado, tu, meu amor, nesta cidade de Cais sem destino, de barcos sem comandantes, ou cordas de nylon invisíveis, e mesmo assim, recordo-te, amar-te talvez, um dia, amanhã, depois de amanhã… ou ligo, talvez, talvez meu amor,


No meu quintal,


Uma sanduiche de sódio baloiçava nas minhas veias, sentia a morte, o fim, a despedida, não faz mal, meu amor, amanhã, talvez, no meu quintal, eu, em Cais do Sodré, abraçado a ti, sem ninguém, amanhã


Tive um amigo que morreu de silêncio, frequentava a minha poesia, uns dias aparecia outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro,


Se tu me amas, se tu, se tu me recordas como recordas as tristes alvoradas em frente ao Tejo,


Outros, e mais outros, não sabiam que o amor é um cubo de chocolate, só, triste e só, como eu


Tejo?


Outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro, um comboio em aço desgovernado subindo a Calçada da Ajuda, e


Ajuda nenhuma, sempre só, meu amor, sempre, sempre só nos teus braços, nos teus fantasmas, nas tuas coxas de silício mergulhadas na corrente eléctrica do sofrimento, Tejo?


Talvez, meu amor, talvez…


Tive um amigo.


Tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, isso é grave, Doutor? Que sim, que nunca mais vou ver o Rio nem as montanhas nem as prendas, nem…


O Natal?


Quero lá saber dele, nunca goitei dele, prendas, e que se “fodam” as prendas, e todos os dias vinte e cinco de cada mês… estou muito doente, tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, gravíssimo meu Caro, gravíssimo meu Caro, pronto, estou “fodido” a caminho dos cinquenta tudo aparece, é o Natal, é a Tara, é a porra da idade, e nem o Caracol me consegue valer, sobe, sobe… e puf… parede abaixo, capotou mesmo em cima da mulher que sabia falar Russo, tristeza, a Tara… e eu só queria ter uma cabana no cimo do monte, uma mulher que falasse Russo e uma montanha embalsamada no meu corpo, a aventura, o silêncio na procura do abismo, o Natal, prendas, e que se “fodam” as prendas, prendas,


Tínhamos prometido separarmo-nos naquela noite, inventamos partes da Teoria de Einstein para recordarmos o que era impossível de recordar, a separação, o fim, e o adeus


Ontem recebi carta dela, está tudo bem, os arrozais ainda dormem, os coqueiros soluçam entre os finos cortinados de tristeza e a claridade do fim de tarde,


Adeus, ontem recebi, a carta vinha amarrotada, cansada, e embalsamada como as rosas no interior de um livro, o parvalhão de um livro,


Se algum dia eu abraçava uma rosa embalsamada…


De um livro, muitos anos, Einstein para recordarmos o que era impossível de recordar, a separação, o fim, e o adeus das gaivotas a cada encerrar de uma janela que só a dor consegue fazer sobreviver,


Tínhamos,


Inventamos o amor “transtemporal” os catetos, a hipotenusa, a verruga, o cinzeiro a abarrotar de conversas sem nexo, nunca tive um sonho, morri sempre na praia, nunca, se algum dia eu abraçava uma rosa embalsamada…, nem eu, ouvia-a


Tínhamos, não sonhos, não sorrisos, não beijos, nem um simples calendário suspenso na cozinha, nunca sabíamos a quanto andávamos, se era terça-feira, sexta-feira… tanto faz, ouvia-a, irritava-me com a sua ausência, mas sempre que podia


Partia, levava todas as roupas e todos os livros, até as velhas cartas transportava na bagageira, e nunca me disse adeus,


Amanhã,


Me disse adeus, até amanhã, amo-te, nada, nada


Como hoje


Nada.


 


Francisco Luís Fontinha


in – “Amargos Lábios do Poema”


09.12.15

Entranhei as mãos no teu corpo de porcelana


Parecíamos dois pontos de luz em direcção à morte


Sem passaporte


Clandestinos destinos


Das madrugadas infelizes


Tínhamos no sorriso todas as fotografias da infância


Ai… ai meu amor


A tua partida


O abismo das tardes sem ouvir a tua voz


Que a janela da biblioteca absorvia


As coisas parvas que recordávamos


Sítios


Costumes


E palavras não ditas


Suspirava quando te via


Estranhava a palpitação do meu coração


Uma máquina absorta


Nas montras da velha cidade


Os apitos dos teus seios


Chamando-me para o desembarque


Os marinheiros aflitos


Embriagados


Sonolentos


Quando nos teus lábios acordavam beijos


E lamentos


Entranhei as mãos


Na caneta de tinta permanente


Escrevi no teu corpo todos os poemas da noite


(sempre te amei na noite)


Escrevia no teu corpo como se brincasse nas planícies do sofrimento


Deixei de estar presente no teu ventre


Desenhei pássaros na tua face rosada


E bebíamos como se o amanhã não existisse mais


Amava-te


Como amo as sombras desta casa


A lareira embriagada nos trilhos das montanhas da paixão


Novamente o abismo da escrita


O sexo suspenso na clarabóia do luar


Os gemidos invisíveis das noites com geada


Os términos suspiros das alvoradas


Amava-te


E tinha medo do teu cabelo


Como ainda hoje tenho medo do teu cabelo


Veio o sonho


Trouxe a morte


E acordaram todos os vampiros da madrugada


As motorizadas dos caquécticos transeuntes


Contra o medo dos dias


Tinha-me esquecido de acordar


Tinha no quarto uma fenda no espelho


Eu parecia um monstro


Uma ribeira em direcção ao púbis do Rio


Depois acordava o mar


Depois acordava o amor


A paixão


E a desilusão de não te amar


Os lençóis quase em brasa


O suor acorrentado à tua pele de cereja


Ai… ai meu amor


Que inveja


Que saudade


São dóceis as brincadeiras do teu olhar


São dóceis os sofridos orgasmos das tuas lágrimas


E tão longe


O mar


E tão longe


O mar de papel que habita nas tuas coxas…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015

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