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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.01.23

Hoje, não recebi o teu beijo ao acordar,

Hoje, às sete e trinta horas da manhã,

Percebi que mais um ano passou…

E deixaste de fazer escala no meu rosto,

 

Aos poucos,

Este corpo que transporto,

Transforma-se em barco nos braços da sucata,

 

E outro barco acordará,

E outro barco novamente sucata;

 

Somos sucata.

 

 

 

 

Alijó, 23/01/2023

Francisco Luís Fontinha


04.01.23

A vida

A minha vida

É uma tela

Uma tela que herdei das mãos de Deus

E que aos poucos

Fui pincelando,

 

Com cores,

Com riscos,

Com olhares

E cheiros,

Com o silêncio do mar,

 

(Deus, criador do céu e da terra, do mar e dos pássaros, das árvores e da paixão, tudo, dizem, Deus criou)

 

E a primeira paixão

De que me lembro

Foi a paixão dos barcos,

Barcos que o meu pai me levava a ver

Todos os fins-de-semana

Ao porto de Luanda,

 

Pequeno que eu era

E amedrontado com todo aquele tamanho

E esplendor

(a minha mão muito agarrada à mão dele)

Deliciava-me

Deliciava-me com os cheiros a Nafta

Deliciava-me com os olhos dos barcos

E com os braços dos barcos

Que quando regressava a casa

Sentava-me debaixo das mangueiras

E sonhava em beijar e abraçar

(todos aqueles barcos),

 

E da tela da minha vida

Que nunca consegui terminar

Porque está sempre em construção

Hoje mais parece um barco

(entre portos e marés, entre o ontem, o hoje e o amanhã)

Um barco que às vezes sorri

Outras

Outras vezes que chora

Um barco sem nome

Como a tela da vida

(porque todos os barcos têm um nome)

E corre calçada abaixo

E corre calçada acima,

 

Lembro-me muito bem

Em criança

De puxar um barco pelas ruas

E rua acima

E rua abaixo

Lá andava eu

O menino que trocou os calções

Por roupas muito pesadas

Por calçado muito pesado

E fartei-me deste mar

E fartei-me desta pobre maré…

 

E voltando à minha vida,

 

A vida

A minha vida

É uma tela

Uma tela que herdei das mãos de Deus

E que aos poucos

Fui pincelando,

 

Algumas vezes

Pincelei-a de alegria

Muitas mais vezes

Pincelei-a de tristeza

Mas como sou daltónico

Não importam as cores da tela da minha vida

(se são de cor alegria ou se são de cor tristeza),

 

(e voltando aos barcos porque a minha vida é pouco interessante)

 

E enquanto os olhava

Nunca imaginava

Nem sonhava

Um dia

Qualquer dia

Brincar dozes dias

Ou dormir doze noites

Nos braços de um barco,

 

Mas brinquei,

E dormi,

E hoje acredito se este enorme paquete tivesse naufragado

Isso sim

Hoje seria o menino dos calções mais alegre de todas as sanzalas de prata,

 

E a minha pobre mãe

Acreditava que Deus estava do nosso lado

Que era nosso aliado,

 

(como ela estava tão enganada)

 

Como ela estava enganada.

 

 

 

 

 

Alijó, 04/01/2023

Francisco Luís Fontinha


04.01.23

Vivíamos em cima das árvores. Umas eram baixas e atarracadas, outras, altas e esguias, e um dia quando acordo, manhã cedo, percebi que estava sentado numa cadeira de praia, e esta por sua vez, estava poisada sobre a árvore grande (centenário plátano de Alijó) e sem ajuda, fosse ela qual fosse, era impossível eu descer. E se caminhasse em frente, morria.

Ainda pensei atirar-me do plátano abaixo e em pequenas brincadeiras com o centro de massa do meu corpo, voar até que me estatelasse sobre o paralelepípedo da calçada, talvez fosse a maneira mais fácil de descer, mas em vez disso, gritei pela minha mãe,

Mãe…

Mãe…

Sim filho,

Preciso de descer,

E ela deixando tudo o que estava a fazer, vai na minha direcção, aos poucos, sobe o plátano e quando já estava em cima dele, colocou-me a mão na face, agachou-se sobre mim, pegou-me no colo e trouxe-me até ao rés-do-chão; a estrada.

Foi um processo longo e moroso, mas valeu a pena.

Aprendi a andar, aprendi a comer, aprendi a falar e a dormir e a amar.

Às vezes, muitas vezes, apeteceu-me subir novamente para o plátano centenário ou para cima de outra árvore qualquer, mas graças a Deus, não o fiz;

(Não invoques o nome de Deus, sou herege).

Tenho algumas horas de voo, cruzei o Oceano, andei doze dias sobre o mar, sentei-me, numa qualquer noite, sobre a linha do equador, adormeço estava ainda no hemisfério Sul e quando acordo e me dou conta, bem… já estava no hemisfério Norte.

Chegando aqui, nos primeiros dias, perdi-me numa qualquer rua. Depois comecei a passear barcos pela mão desde a farmácia do hospital até à Gricha, e desta até à farmácia do hospital; subia a rua, descia a rua, às vezes sentava-me em frente à casa dos Noura, quando estava cansado, quando da varanda, a minha mãe

Luisinho, cuidado com os carros.

(olhava-a e percebia que ela estava triste, talvez mais triste de que eu, e hoje penso por que razão a minha mãe se preocupava com os carros em Alijó de 1971; ainda hoje se vêem mais barcos pelas ruas e lixo de que automóveis, mas já sabemos que as mães são muito protectoras com os filhos).

Seis meses depois, fui passear barcos para o bairro do Hospital, casa número quinze, rés-do-chão. Anos mais tarde, eu e os barcos, assentámos arraias na avenida vinte e cinco de Abril, e aí, comecei, muito lentamente, a subir às árvores.

Até que sem perceber, vejo-me em cima do plátano centenário de Alijó, e por lá andei alguns anos.

Anos. Anos demais.

 

 

 

Alijó, 04/01/2023

Francisco Luís Fontinha


25.12.22

Ninguém sem dias

Uns com dias

E alguns com os dias dos outros.

 

Quando o dia é filho único

Um só dia

Pequenino dia

Ninguém apenas só

Quando o dia

Do outro dia

Ninguém sem dias

Nos dias de alguém.

 

Temos alguns dias

O dia em que nascemos

O dia em que morremos

O dia quando nasce um filho

Do dia de quando morre um filho

O dia primeiro do primeiro beijo desejado

No dia do primeiro orgasmo da manhã

Os dias de uns

Nos dias de outros

E outros dias mais.

 

O dia da morte do pai

O dia da morte da mãe

O dia do primeiro poema

Quando se olha o mar

O dia primeiro da primeira fotografia

O primeiro barco

O dia

Noutro dia

Quando o dia

Não passa de um dia.

 

O dia da primeira solidão

O primeiro desgosto do dia

O dia último

Do outro dia.

 

O dia da primeira comunhão

O dia do baptismo

(por acaso fui baptizado a 25/12/67)

O dia da primeira lágrima

No dia da primeira ejaculação

O dia

Do outro dia

No dia da primeira caricia

Quando o dia do primeiro dia no dia do serviço militar

O dia primeiro do último Tejo até Belém

O outro dia do primeiro dia de uma Calçada

Que de Ajuda nada tinha

A não ser

O dia

Quando o dia acordava embriagado

E todos os cacilheiros resolviam

Todos ao mesmo tempo

Num único dia

Assombrarem-me a cabeça.

 

O dia primeiro

Do dia em primeiro charro

No primeiro cigarro

Quando o último dia

Do dia da primeira castanha

No dia após a última branca

E da loucura do primeiro dia

Vem o último dia

Do primeiro filho

Sem dia

E em dia.

 

O dia do primeiro dia quando o dia não queria ser dia

O dia do primeiro uísque

No primeiro comboio do dia

E de Cais do Sodré até Belém levava um dia

Sem que o dia

Terminasse nas lágrimas do dia

Da primeira puta do dia.

 

O dia da primeira espingarda do dia

O dia no primeiro dia do primeiro canhão de areia

Na espuma do dia

Ao outro dia

Em dia

E de dia

Um cão que ladrava ao dia

E uma vaca comia a primeira erva do dia.

 

A ponte no primeiro dia

Ao dia de todos os defuntos

Em dia

Todos

Lá esperam que um dia

Deixe de ser este dia

E acorde um novo dia.

 

E se num dia eu sentia

No outro dia

Eu não sabia

Que do dia

No primeiro dia

O dia é apenas um dia…

 

E o que será um dia sem dia?

 

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25/12/2022


14.12.22

São tantos os barcos

Os barcos da minha meninice

Barcos que navegam nos meus braços

São tantos os barcos

Como os abraços

Que não terei na minha velhice.

 

Meu Deus!

 

Tantos barcos que olhei

Enquanto o mar voava na alvorada

Tantos

Tantos barcos na minha morada

Tantos barcos…

Que de os contar me cansei.

 

E já não sei

Se estes barcos são de verdade

Ou um pequeno sonho de sonhar…

Tantos são os barcos

Meu Deus

Que até pensei

Que todos estes barcos eram nuvens a voar

Nos lábios da saudade.

 

São tantos os barcos

Barcos em papel

Barcos em cartão…

São tantos os barcos;

Uns são de mel

Outros

Outros escondem-se no meu coração.

 

 

 

Alijó, 14/12/2022

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