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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.04.23

Ando às voltas

Com este barco que deixou sonhar,

Deste pobre barco de grandes revoltas…

Nas revoltas do mar.

 

São pequenos círculos de encarnado sorriso,

São marés e ventos,

São homens sem juízo,

São homens de poucos lamentos.

 

E este barco, este pobre barco… que a poesia quis amordaçar…

Este barco sem dia,

Este barco escondido no luar

 

Quando da noite acorda a lareira.

Deste pobre barco de triste melodia…

Nos olhos de uma singela ribeira.

 

 

 

Alijó, 20/04/2023

Francisco


01.01.23

Da prisão

À da alma quando a vendes ao diabo

Na prisão de ventre

Da prisão dos braços

E das palavras que brincam nos teus braços,

 

A prisão sem pão

À prisão com pão

Tudo é prisão

Tudo

Tudo é uma prisão

Da prisão ao salário

Do salário às nuvens

A prisão do mar

Na prisão de um barco

Um barco preso no mar

Do mar sem salário,

 

A prisão da chuva

E do vento que transporta a chuva

Depois temos a prisão da lua

Do luar

E do corpo que dorme no luar,

 

À prisão do corpo

Quando este corpo semeia no teu peito

Uma prisão de silêncio

Numa prisão de desejo

E se o desejas

Prende-te ao desejo

Acorrenta-te às sombras que a noite deixa nos seios dela,

 

A prisão vaginal das manhãs sem poesia

À prisão do poema

Quando o poema

Dorme na tua cama

Dorme em cada dia,

 

E se a tua cama for um livro

Um livro com um só poema

Um poema

Uma mão

Quando te masturbas na madrugada,

 

Tudo

Tudo é uma prisão

Ou uma não prisão

De nada

Ou com tudo

Que a prisão aprisiona o teu pensamento,

 

A prisão de uma lareira

Quando um pássaro vadio canta à tua janela

E o pássaro sem pão

Pede-te que o libertes

Libertes da prisão

Na prisão deste mar,

 

A prisão dos teus mortos

Em uma prisão de fotografias

Na prisão de um álbum

À prisão numa pequena caixa de sapatos

Na prisão de uma lápide

Quando a lápide é uma prisão

De quatro pedras graníticas

Sem sol

Sem nada;

Uma prisão enganada.

 

 

 

 

 

Alijó, 01/01/2023

Francisco Luís Fontinha


21.12.22

Se eu pudesse ser

Eu era

Barco ou caravela

Nuvem foguetão

Poeta sem escrever

Se pudesse

Eu ser

Que eu seria

Não sei bem o que queria ser

Mas nunca seria

Ser

Ser o que eu sentia.

 

Se eu pudesse

Meu Deus do mar envenenado

Eu queria ser

Ser árvore porta-aviões ou poeta desamado

Sendo não ser

Ser um esqueleto enforcado.

 

E se eu pudesse

Ser eu o vento

Aquele vento que levanta do chão

A pobre enxada

Do rico camponês…

E se eu ainda o quisesse

E pudesse ser

Ser sem saber

Que um pobre coração

Voa até à lua de ser

Porque não sendo o querer

Também não o serei querendo

Que ser

Ou não ser

Ser o poeta.

 

E sendo eu o vento

Ou uma pedra de adorno

Prefiro ser gente

Do que ser…

Do que ser (morno).

 

Se eu pudesse ser

Sabendo que depois o era

Sem perceber

Ou saber

Como se constroem as canções de Inverno,

 

E sendo hoje a lareira da noite

Onde já queimei os braços

Agora as pernas…

E mais logo o restante esqueleto

E à chegada do autocarro

O pobre viajante

Sem bagagem

Ou esperança de o ser

Porque não o sendo

E o querendo

O rio corre sempre para o mar

O mar que está a arder.

 

E depois vem a traineira

Do querer

E a do saber

Nunca sabendo

Sem o saber

Que querer

Se pudesse

Ser

Ou não ser…

Este vagabundo poeta do amanhecer.

 

 

 

 

 

 

Alijó, 21/12/2022

Francisco Luís Fontinha


01.08.17

Uma janela com vista para o mar,


O barco da despedida espera-me, e brevemente estarei nos teus braços,


Um livro recheado de imagens a preto-e-branco,


Renasce na tua mão. Posso manuseá-lo, mas perco os desenhos imaginados pelo louco autor das searas imaginárias,


Enquanto o trigo se despede da planície…


 


Eu brinco com o teu olhar escondido na sombra das árvores.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Agosto de 2017


07.03.15

P1010003.JPG


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


habito dentro deste livro inacabado


existo porque gritam as palavras


e os sonhos amargurados


não tenho tempo para olhar o mar


nem percebo o cheiro deste rio envenenado pelo silêncio


um cigarro


mal-educado


apagado


sessenta anos encurralado nestes socalcos sem nome


habito


dentro


do livro inacabado...


 


os tristes sorrisos das lanternas da solidão


vendo-me


vende-se


tudo


nada


coisas estranhas


esta calçada


viva


vivo


apagado


não tenho


o tempo


 


nem a vida


de marinheiro


sou um barco enferrujado


sou o aço triturado pelas mãos de um sábado...


apenas


outras coisas


como as simples janelas de uma prisão


prisão


a prisão


do meu falar...


habito


habitar no teu peito de livro encalhado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 7 de Março de 2015


 


 


 


13.07.14

Horrível,


este poema sem marinheiro,


feliz deste barco embrulhado no vento,


desgovernado,


só...


só... e em sofrimento,


faltam-lhe as palavras,


faltam-lhe... faltam-lhe os encantos dos murmúrios de Inverno,


este poema... filho do Inferno,


que arde na lareira do desejo,


horrível...


este poema com o nome de beijo!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 13 de Julho de 2014


02.04.14

Enquanto te absorves na banheira do prazer e te libertas das caricias minhas palavras,


eu, um incipiente nocturno das fábulas sem habitação, construo o teu corpo com a espuma imaginaria que poisa nos teus seios de marfim,


de escultor nada tenho,


e imagino-te pintada no poema cansado da madrugada,


enquanto te banhas e te absorves..., nada em ti eu desejo, porque a ténue luz do silêncio te come, e alimentas o olhar das personagens solitárias da cidade do caos...


a paixão embainha-se no cortinado que nos separa, eu de um lado, e tu... tu... mergulhada, molhada, à espera das minhas mãos sem rumo, como a geada quando esconde o sorriso dos loucos pássaros,


e eu, eu um incipiente nocturno das fábulas sem habitação,


 


Apaixonado?


talvez... talvez não,


porque sou um acorrentado ao cais dos sofridos beijos em noites de tristeza,


eu pregado à insónia?


talvez... talvez não,


porque não estando apaixonado, porque não sendo o perfume dos teus cabelos..., sou, sou um delinquente invisível do amor,


sou uma gaivota que levita quando desapareces do meu olhar e te transformas em rio,


e sei que o teu corpo fundeado na banheira do prazer... é um barco, um barco com nome de mulher...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 2 de Abril de 2014

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