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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.09.23

Neste livro

Onde escrevo todos os dias

Onde escondo o dia

E as tristezas da noite

Dentro deste livro

Uma mulher em suicídio

Sucumbe à deliria loucura

Nos olhos do mar

 

Deste livro

Sem olhos de mar

Neste livro onde escrevo todos os dias

Onde escondo o frio

De onde liberto aquele rio

Que se perdeu no nome

Que não dorme

Que tem fome

 

Este livro

Que ninguém lê e que ninguém percebe

Porque da janela deste quarto

Se vê o mar

E se ouve o mar

Com barcos de papel

E de brincar

 

Dentro deste livro

Uma mulher

Que grita

Chora

E se revolta com a vida

Com o poema

Com a poesia

E com o cabrão do poeta

Que sou eu

Aquele que escreve este livro

 

Aquele que finge gostar do dia

Este livro

Este pequenino livro

(o vinil termina, levanto-me e continuo mergulhado em Mão Morta)

Que se faz tarde

Dentro deste livro

Pequenino

Para a menina e para o menino

Neste livro

Onde escrevo

E escondo

O que escrevo

 

Vénus do Fogo

Livro das pérolas de ninguém

Este livro que todos o têm

Menos eu

Que sou fidalgo

Que o escrevo

E que nunca o vou ter

Neste livro

Onde habita a Vénus do Fogo

E os monstros de querer

Um dia

Talvez

Que este livro seja gente

Talvez esta cidade seja este livro

E aquela gente

Filhos deste livro

Nas mãos de Deus

Ou nas mãos de um outro qualquer impostor

 

Que este livro seja sempre um livro

A luz nos teus olhos

Que este livro seja a bala

Que rompe pela madrugada

E cai na cama de um coitado magala

 

Que este livro além de ser gente

Seja a gente

Que lê este livro

Que limpa o cu às folhas deste livro

Sem o arraial prazer do simplificado parafuso de pressão…

Morreu enfartado com chocolates

Escreveu este livro

E escondia sarna nos tomates

 

E o seu pequenino testamento

Tudo o que tenho

Todos os meus livros

São para alimentar este livro

Onde se esconde a Vénus do Fogo

E todas as putas-flores que não gosto

 

Não gosto deste livro

Mas escrevo este livro

Detesto cebola e alho

E como arroz com letras arroz com palavras arroz com arroz nas mentes…

Desdentadas

Escrevo este livro

Acordo

Aos poucos, este livro

Este pequenino livro

Que escrevo

Onde se esconde a Vénus do Fogo

A fogueira da minha aldeia

E uma candeia com azeite…

 

Liberta-se deste livro

Aquele que é feliz e escreve o outro livro

Porque este livro

Não me pertence

Não me pertence

Escrevo este pequeno livro

Sofrido

Pequenino

Com sono

Às vezes

Este pobre menino

 

Neste livro

Que finge orgasmos na madrugada

Que bate o pé

E abre a janela

E lança-se da janela

E voou e voa

Sobre o mar

E sobre ti

Deste livro

No livro que senti

O peso do papel

O motor a estibordo

Lançando fumo para a cabine do Comandante

Sobre a ponte

Um morto e três feridos graves

 

Deste neste livro

Que livro que dia em livro no desenhado livro

Foi-se

Morreu

E acordou três dias depois

Mais bêbado do que quando tinha adormecido…

Sofrido

Sorrindo a corações de areia

A janela coitada

Deixou pendurada a cabeça

E foi até à varanda fumar um pobre cigarro de sono

Sentou-se finalmente este livro

Finalmente em frente ao altar da vergonha

Onde reza este livro

Onde grita este livro

Sofre este pobre livro…

 

E sente ronha deste livro

Escrevo este livro

Dou vida a este livro

Papel engomado com o ferro de engomar

Vincos nas calças

Camisa do avesso

Por causa das bruxas

E lá vem este livro

Que ainda à pouco

O foi

E o será

Vadio

Sem nome

Mergulhado naquele rio

 

Despeça-se do menino

Se faz favor

Olhe que nunca mais vai ver o menino

Escreva que dia é hoje

Sábado

À lareira do sono

Sábado minguante enrolado numa lua luz

Abraçado a uma lua luz

Que bate à porta

Truz

Truz truz

Truz truz truz

Caiu-lhe a porta sobre o pé

Descreveu um círculo de luz com olhos verdes…

E zás

Hoje é o Comandante deste Navio apelidado de LIVRO.

 

 

30/09/2023


30.09.23

Em pó me transformarei

Do pó nasci e me criei

Poeira

Grãos de areia que fogem da peneira

Pedaços de nada

Que se vestem de madrugada

Sem eira nem beira

 

Nem nada na algibeira

Em pó serei

Do pó acordei

Sem saber o preço do luar

Ou quanto custa um shot de noite

No pó inventei

Poemas que sonhei

Poeira… envelhecida poeira

 

Na poeira que serei

Serei pó

Serei húmus com sabor a ausência

Da ciência

Em viver antes de ser pó

Antes de ser poeira

E estar só

 

Em pó me transformarei

Do pó nasci e me criei

Poeira

Sem saber o preço da morte

Que está pelos olhos da morte

Do pó à poeira

Eu serei

Areia

Mar e poeira

 

 

30/09/2023


20.09.23

Éramos o tojo

Nas mãos de Deus

Calejadas pelo silêncio de uma qualquer madrugada

Quando o poema desenha o seu orgasmo

Numa pequenina folha em papel

Fez-se luz

Acorda o dia

Abre a janela

Puxa de um cigarro

E pensa,

 

Fuma um dos pedacinhos do pensamento.

Éramos o tojo

A silva agreste nas mãos do agricultor

A fome e o frio

As vidraças todas partidas

Todas

E eles

Eram felizes

Com Deus o é.

 

Éramos o tojo nas mãos de Deus

Criador do Céu e da Terra

Da mulher e do homem

Das árvores e dos pássaros

Que voam

Sobre ti

Numa noite de Inverno

Junto ao rio

Debaixo do rio

O segredo imensurável da ausência.

 

Perdidos.

Eles.

Naquela triste escuridão

Dentro daquele malcheiroso quarto

Horrível

A janela para um jardim pobrezinho

Que nem pássaros tinha,

 

Perdidos

Perdidos de algibeira na mão

Perdidos no pão

E perdidos

Mesmo de louco-perdidos

Ou perdidos de louco

Sem saberem que a loucura é a saliva de Deus

E Deus…

Não o sei!

 

 

20/09/2023


20.09.23

Não sei se me perdoarás de todas as merdas que te fiz

Mas era difícil ser diferente

Sempre fui diferente

Para ti

Não

(a merda de um filho nunca cheira mal…, disseste-me tantas vezes…)

Não e talvez sim

Quem sabe

Um dia

Eu voarei,

Sobre o teu cabelo ausente

No esplendor branco invisível

Que quando nascia o sol

Brilhava como uma rocha de mármore cinzento…

 

Depois…

Depois contávamos estórias de mentira

Eu, prometia-te

Tu, que estavas muito bem

Eu, mentia-te e que estava tudo bem

Tu, mentias-me que estava tudo bem

Quando

Nada

Nada estava bem.

 

Ausente sempre o fui

De mim

De ti

De todos

De toas as coisas visíveis e invisíveis…

Aí está

DEUS…

O teu deus

Pequenino

Mesquinho

Arrogante

Sim

Sim

Quando chovia… corríamos em direcção ao capim.

 

E éramos felizes

Felizes

(e falta-te aquele toque feminino da beleza)

O capim

Morreu com o estilhaço de uma granada

Tu

Estás no teu altar-mor e que não passas de uma foto

Nada mais do que isso

E eu

Procuro aquela cidade

A cidade do encanto

Do cheiro

Da terra quando cheirava a terra…

 

Queimada.

Não sei se me perdoarás

E tão pouco estou preocupado

Se perdoaste ou não perdoaste

De toda as merdas que te fiz

Quero lá saber de Santa Apolónia

Do Cais do Sodré

(e agora marchava)

Em direcção ao nada

À cidade perdida

No espaço

Na algibeira de um transeunte

Ausente

Sem ninguém…

E no entanto

Tudo perdoaste.

 

Tudo.

Coitado do magala

Escreve lágrimas em cartas sem remetente

Fotografa com o olhar todos os barcos que entram e saem da barra

E fuma compulsivamente qualquer coisa esquisita

E sabes?

Não interessa

Tu sabes tudo,

 

Um dia

Eu voarei,

Sobre o teu cabelo ausente

No esplendor branco invisível

Que quando nascia o sol

Brilhava como uma rocha de mármore cinzento…

 

 

 

20/09/2023

Luís


24.07.23

A cidade come-me

A cidade se alimenta de mim

A cidade inventa outra cidade

Com outro nome

Com outra idade

E outro jardim

 

A cidade mata-me

A cidade crava no meu peito o punhal da ausência

A cidade inventa

A cidade lamenta

A outra cidade da minha infância

 

A cidade come-me

A cidade se alimenta de mim

A cidade dorme

A cidade tem fome

Da cidade sem jardim

 

 

 

24/07/2023


20.04.23

Da janela ouvem-se os passos apressados dos transeuntes que acabam de regressar da ribeira da paixão, uma cesta com flores dorme suavemente junto ao parapeito, sobre uma pequena mesa de insónia, pego na tua mão, olho-te, tu olhas-me, e acabamos de construir duas estátuas de sono, suspensas pelo olhar,

Amar-te-ei, dizes-me

Amar-te como se amam as palavras quando o poeta as semeia numa pequena e simples folha em papel,

Depois,

Da janela, da minha janela, onde passo as tardes a contabilizar a entrada e a saída de todos os barcos rumo ao desconhecido,

Amas-me?

Perguntas-me enquanto pego na tua mão e na ausência de um crucifixo suspenso nesta parede em gesso e olhos de saudade,

Saudade,

O que é saudade, meu amor?

De ti,

Oiço-te quando se ergue a manhã na alvorada do cansaço, podia escrever-te quando esta começa, mas prefiro deitar a cabeça no teu peito, cerrar os olhos… e inventar um pequeno sorriso nos teus seios.

Alguém se esqueceu de mim, ouvia-se-lhe daquela boca semiaberta mais parecendo o porão de um velho petroleiro, que durante os fins-de-semana deambula pelo corredor da casa.

Não temos vidros nas janelas. A porta de entrada, de tão velha e rabugenta, agora começa a padecer do maldito reumático e outras coisas mais,

As coisas que eles inventam, quando se trata de reconhecer a verdade de um sorriso e o silêncio de um olhar.

Podia.

Mas não quero.

E claro que podia,

Podia escrever-te quando se ergue o dia, podia deixar as minhas últimas palavras sobre a fronha da almofada, podia encharcar-me de shots e voar sobre o mar, podia vestir-me de palhaço e de terra em terra… fazer fortuna.

Vê lá, menina do mar… até podia ser uma abelha e de flor em flor, tal como o palhaço, fazer fortuna. Mas fortuna não é comigo.

Não nasci para ser rico. E de rico nada tenho.

Não sou rico em peso.

Não sou rico nas palavras.

Perguntas-me o que fazer à cesta com as flores; deixá-las dormir ou acordá-las…

Tanto faz.

Daqui a alguns dias, nem flores são.

São uma sombra de beijos junto às amuradas e que nas mãos transportam a solidão.

Porquê eu, perguntas-me…

Porquê ele?

Vou desenhar-te,

Como assim, desenhar-me?

Tanto faz,

Sabendo que da minha janela oiço o silêncio travestido de Diabo e que Deus anda a brincar com as minhas mãos, podia, claro que podia

Mas não o faço.

Alegre-te meu rapaz!

Olha, perdeste o comboio para Belém.

Porque choravam as acácias nunca me respondeu ele.

Mas também o meu pai era um pouco estranho…

Como tu?

Eu, eu estranho?

Vestem-se de cinzento e vão todas as manhãs de sábado para a feira do Relógio vender quadros pintados à mão, desenhos desenhados com o olhar… e poemas pincelados com os lábios

Os beijos?

Magoados beijos de alecrim.

Mais tarde, depois do almoço, visitava-nos o senhor Alfredo, um charlatão de um gato e um gato em penhoras de ausência

Amas-me?

Da rua contígua ouvem-se os passos apressados dos exilados poéticos, que por razões de paixão tiveram de abandonar a cidade,

Até que um dia o relógio de parede nunca mais se ouviu;

Morreu de saudade, conclui o médico legista depois de efectuar a referida autópsia.

Coitado do velho relógio,

Coitado dele.

Primeiro as pessoas,

Depois as pessoas,

Mais tarde,

O sino encerra a palestra dos tristes dias em poesia.

Desenho nos teus lábios o beijo, escrevo no teu peito o mais belo poema de amor, como se apenas os poemas de amor fossem belos, quando tu sabes que…

Me amas?

Quando tu sabes que a beleza existe até nas palavras mais ruins…

O que entendes por palavras ruis, meu amor?

Palavras.

Tristes palavras do teu olhar.

E enquanto acaricio o teu corpo, uma lâmina de chuva de estrelas brinca na tua mão, tenho a certeza que quando pego nela, que quando aprisiono a tua mão, o meu corpo se traveste de paixão e apenas acorda quando um pedacinho do mar dos teus lábios poisa nos meus lábios,

E do mel dos teus lábios,

As abelhas,

Em flor,

Da tua mão,

Meu amor.

O mar está revolto, as minhas mãos trémulas seguram este copo de uísque, na outra mão o maldito cigarro que não se cansa de mim nem eu me canso dele,

Ainda fuma, senhor Francisco?

Olhe para ela…

Pois olho, doutora, pois olho…

Ela nunca fumou!

E morreu.

Deito-me.

Abraço-te no silêncio da noite enquanto sei que um qualquer poeta/jardineiro tratará do teu belo jardim, como se os jardins fossem eles todos belos, como são belos os poemas de amor.

Do teu cabelo, a minha mão de mamífero desengonçado,

Milhafre negro,

Olho encarnado.

Mais tarde, quando acordávamos, um fio de sémen escondia-se sobre o rendado lençol da manhã na companhia de outros fluidos,

Da mecânica,

Escondias nos seios a equação de Bernoulli, da tua mão, meu amor,

Tarde demais.

Um dia serei.

Ontem fui.

Não quero mais esta esta ausência de silêncios e de fotografias sobre a secretária,

Imagina-me sentado em frente ao mar…

Imagina-me poisando a cabeça no teu peito, e com os meus lábios, desenhar o mais belo pôr-do-sol,

Consegues imaginar, meu amor?

Claro que não,

Claro,

Não consigo.

Peso-me. Cinquenta e nove quilos, e com mais olhos de que barriga

Fui.

Parti em direcção ao nada.

A ausência.

A primeira palavra dita; filho da puta

O senhor prior não queria acreditar,

O meu avô Francisco a ser baptizado com dois anos e quando o senhor sacerdote o lança à água

Filho da puta.

Tal pai, tal filho

Onde me esperas, meu amor?

Escrevo-te sem saber que te escrevo.

Mato-me todas as noites

Ainda não morri.

Da janela ouvem tiros, berros e…

Deus queira, ajuda-me meus Deus

E Deus não a ajudou.

Nem a ele nem a ela.

(que se foda, que me desculpem aqueles que…)

Martírio destino, jardim dos enforcados.

Depois,

Beijo-te loucamente na presença do raioso Sol de Primavera.

Amar-me-ás?

Sei-te lá,

Ouvia manhosamente na parada em plena formatura,

Esquerda,

Direita,

Destroçar; viva o amor e o silêncio daqueles que se amam em silêncio.

Destroçar do dia,

Destroçar da noite,

Apenas destroçar.

Eles vão morrendo, eles vão ficando loucos, e percebo que os pássaros da minha infância já não existem.

Que tragédia, menina.

Que tragédia…

Matou-se porquê?

Sabes, meu amor?

Não.

Diz.

Ninguém me vai afastar das tuas palavras.

Depois,

Beijo-te loucamente na presença do raioso Sol de Primavera.

Amar-me-ás?

Sei-te lá,

Até que um dia os meus poemas sejam as inscrições das lápides daqueles que ainda vão nascer.

E de menino dos calções

Hoje

Nada.

Nada.

Hoje.

Amas-me, meu amor?

Até que o vento me venha buscar.

 

 

 

Alijó, 20/04/2023

Francisco


26.03.23

Habito neste corpo sem espaço,

Deste corpo ensanguentado

Quando a Primavera promete um abraço…

Neste corpo ausentado.

 

Habito dentro deste mar

Que transporto na minha mão,

Habito em todas as noites de luar,

Das noites onde procuro o pão.

 

Habito neste corpo sem nome,

Deste corpo sem identidade…

Habito dentro deste corpo em fome…

 

Da fome das palavras que deixarei de escrever.

Habito nesta ausência que traz a saudade…

Na saudade de morrer.

 

 

 

Alijó, 26/03/2023

Francisco

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