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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


10.01.22

Somos instantes

Palavras esquecidas na lápide da vida,

Somos poema,

Somos canção,

Somos instantes

Até no acto da despedida,

 

Somos destino,

Somos equação,

Somos palavras esquecidas

No uivo do foguetão,

Somos instantes,

Somos palavras perdidas.

 

Somos instantes,

Maré em revolução,

Somos palavra,

Somos equação,

Somos instantes,

Instantes da nação.

 

Somos verso.

Somos instantes na equação da vida.

Somos escada, alvorada,

Somos instantes

Na boca da madrugada;

Somos instantes do pequeno nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/01/2022


07.11.21

Abraço-te, sentindo que da lentidão das coisas,

Acordam na tua mão as rosas floridas,

Abraço-te, sabendo que na lentidão das coisas,

Vivem todas as palavras sofridas.

Abraço-te, sabendo que nos braços da lentidão das coisas,

Escrevem-se livros de poesia e, desenhos de viver,

Escrevem-se também, as palavras que ela sentia,

Nas palavras de morrer.

E de dizer.

Abraço-te, abraçando-me à lentidão das coisas,

Um perfume envenenado,

Talvez, como das outras vezes,

Um corpo ensanguentado,

Ou uma donzela em translação,

Talvez um corpo queimado,

Talvez, talvez uma enorme ferida no coração;

E, mesmo assim, houve uma vez,

Onde senti a neblina cansada da escuridão.

Abraço-te, quando na lentidão das coisas,

Regressa a noite bem vestida,

Se senta na esplanada da vida,

Grita,

Grita para a alvorada,

E ouve da enxada maldita,

O silêncio das abelhas em gargalhada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 07/11/2021


08.05.20

És as asas dos meus sonhos.

Os lábios pincelados da minha janela,

És a canção do meu sorriso,

Poema sem jeito, barco, barcaça, caravela,

És o silêncio da minha cidade,

Palavras semeadas na minha aldeia,

És o Sol sem juízo,

Nas noites de Primavera.

És a voz trémula dos sinos em descanso,

O mar calcetado pela esperança,

És o Rossio em demanda,

Passeando na calçada,

És gaivota,

Madrugada.

És a fala amestrada

Das noites choradas,

Beijo na despedida,

És o corpo ausente

Das varandas envenenadas

Pelas abelhas do nada.

Pelas abelhas da Ira.

És o oiro,

Verso em construção,

És o mar salgada da insónia,

Quando absorve o teu corpo na alvorada.

És rochedo,

Medo,

Palavra brava…

És a janela,

A porta,

Da cidade sem nome,

Que privilegia as flores do cansaço.

És rio,

Riacho,

És o calendário da insónia,

Nome,

Morada,

Das ruas em ebulição.

És o vento em aflição,

Bandeja de esplanada,

És tudo.

Não és nada.

És beijo e desejada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/05/2020


30.11.19

O sono traz o sonho.


O sonho, o meu, alimenta-se das teias de aranha da madrugada.


O sonho, encarcerado.


Menino.


Drogado.


O sono dentro de um cubo de vidro.


Quando o sonho, da parte de fora, fode o xisto cansado da viagem.


O sonho é um travesti.


Travestido de sono.


Deita-se na calçada.


Come cigarros de vento.


O sono é um veneno.


Como o sonho.


Um engano.


O sono traz o sonho.


O sonho, meu amigo, é o prazer das prostitutas em delírio…


Zangam-se.


Comem-se.


E nada faz querer que a noite tenha culpa da constipação dos proxenetas da alvorada.


O sono.


No sonho.


O relógio das pedras enamoradas.


Cansadas.


Das tuas garras.


O sonho encarcerado.


Dentro da casa abandonada.


Fria.


Cansada.


O sono é um filho da puta.


Às vezes, aparece.


Outras,


Muitas,


De mim se esquece.


Não o si.


Quando sonho, quando avida, se aquece.


O sonho, no sono, embriagada mulher.


A tristeza, do sono, quando o sonho, emagrece.


Pum. morre o sonho.


Morre a saudade.


De sonhar.


Da vaidade.


Da verdade.


De cansar.


O sonho.


O sono.


Dentro de quarto incompleto.


Entre lágrimas.


Entre linhas.


Entre ossos.


Esqueletos vendidos na feira.


O sonho.


O sono.


Não regressam além-fronteira.


Triste, aquele que sonha.


Alegre, aquele, que desiste.


De dormir.


De se vestir.


E resiste.


Ao temporal do sonho.


Não ao sonho.


Sim ao sono.


Sim ao sono.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


30/11/2019

Sou


12.06.19

Sou,


Sou tudo aquilo que tu não querias que eu fosse,


Sou a escuridão,


Pássaro,


Avião,


Sou,


Sou a pétala de rosa que trazes nos lábios,


O poema cansado que beijam os teus seios…


Sou,


Sou pedreiro,


Carpinteiro,


E coveiro dos textos imperfeitos.


Sou,


Sou os socalcos que iluminam o teu olhar,


Sou a penumbra madrugada quando vais trabalhar,


Sou,


Sou a esperança de viver,


E deitar-me na tua mão esfomeada.


Sou a roseira do teu quintal,


Sou a melodia do teu corpo,


Quando iluminado pelo Sol…


Sou,


Sou tudo aquilo que tu não queres que eu fosse.


Sou,


Sou o amanhecer,


O charco embriagado da tua boca,


Sou,


Sou o poeta do inferno,


O camuflado sem-abrigo,


Apaixonado,


Sem trigo.


Sou…


Sou tudo aquilo que eu quero ser;


Um sonhador,


Lenhador…


Poeta candado…


Das noites em flor!


 


 


 


Alijó, 12-06-2019


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29.03.19

Não posso, desisto.


Não posso, finjo, caminhar em tua direcção,


Descalço,


Não posso,


Fingir que te amo.


Se te amasse, amava-te,


Se te escreve, escrevia-te,


Mas, não, não posso,


Fingir,


Escrever,


Se pudesse, lia-te, todas as palavras começadas por A…


Não posso,


Fingir,


Que te lia todas as palavras começadas por A.


Amar.


Começar,


Caminhar,


Não posso.


Fingir.


Que sou o mar.


Lanço no poço da saudade o beijo desenhado,


Na alvorada,


Na eira,


O beijo embalsamado,


Fingido,


Doente,


Caminhando, caminhar,


O fogo do prazer,


Quando o teu corpo adormece,


Arde,


Tudo arde,


Mesmo o entardecer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/03/2019


05.05.18

Sentia-me obtuso com a tua simplicidade dos jardins adormecidos; uma flor poisa ruidosamente no teu rosto. O acordar!


Sentia-me confuso com o silêncio dos teus lábios, flácidos, cansados das minhas pobres mãos,


O sono.


Sentia-me perdido na seara da solidão,


Quando os pássaros escreviam palavras na eira, era Verão, e a candeia perdia-se sobre a mesa do esquecimento,


Me levanto,


E pego no Sol.


Me levanto,


E pego no silêncio que traz o Sol,


Sentia-me uma pomba quando o teu corpo desleixado aterrava no meu olhar,


Uma réstia de alegria,


Uma sinfonia para brincar…


E ouvia desenfreadamente os sons da alvorada.


Como eu queria ser criança…


 


 


 


Alijó, 5 de Maio de 2018


Francisco Luís Fontinha


04.02.18

Semeei o teu corpo numa jangada de vidro,


Vi partir o teu corpo em direcção ao mar,


Levavas os livros, levavas as memórias das noites perdidas,


E os sonhos vividos,


Semeei o teu corpo pensando que um dia adormecerias em mim…


E da tua partida,


Pela madrugada,


Algumas nuvens brincando na alvorada,


Palavras imensas, palavras dispersas em ti como um grito de alegria,


Hoje pertences às sombras do infinito,


Argamassadas no sombreado jardim de pedra,


E, no entanto, meia-hora depois, sentia o teu rosto na minha mão.


Ninguém apareceu à minha partida, fui só, apenas eu…


Como nas noites junto ao rio,


Perdidamente angustiado na solidão dos dias,


Escrevia no chão a revolta da doença,


Lançava lágrimas na escuridão,


Pobre, sem-abrigo, neste corredor de lume,


A lareira também ela, doente, infeliz e triste,


A cinza, o silêncio das fotografias, que poisavam no teu olhar.


As mãos trémulas, as mãos cansadas como pedras…


Fundeadas nos teus cabelos.


A noite, meu amor, a noite mergulhada na madrugada,


O metro entre curvas e pingos de luz, deixando a terra, caminhando para o horário nocturno das sanzalas de ninguém,


Em foco, as luzes que te incendeiam os lábios, em cada beijo,


Uma cansada palavra.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 4 de Fevereiro de 2018


14.01.18

Lívido sacrifício das noites indomáveis,


Os livros da despedida esquecidos no espaço,


Viagem sem regresso,


Habito neste pobre musseque,


Que deambula pela madrugada do meu sono,


Os esqueletos teus no vidro meu,


Uma cabeça de xisto suspensa na alvorada,


E as dores que assolam o teu corpo, e as dores que dormem na tua cabeça…


Despedidas madrugadas sem dormir,


Pensando em ti,


Como uma jangada livremente sobre as nuvens…


Tenho em mim o sono da morte,


E o desejo do abismo,


Os cartazes escondidos no meu quarto,


Caras, rostos desfocados, simplesmente abandonados,


E deixo na tua mão o silêncio do rio,


Que entre montanhas,


Corre nas tuas veias…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 14 de Janeiro de 2018


30.07.17

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Um raio de luz desce e poisa-lhe na mão amachucada pela alvorada,


O silêncio frio da despedida…


Quando o Tejo se esconde na madrugada,


Os barcos da solidão, cansados de esperar pela partida,


Uma casa abandonada, recheada de flores adormecidas,


Canções de amor, palavras esquecidas…


Não mão do escritor,


Sempre tive sonhos,


Viver sobre o mar da esperança,


Levantar bem alto o levante sofrido da escuridão…


Quando criança,


Pegava num pedaço de papel…


E escrevia-te, não percebendo que não existias…


Amanhã nova caminhada,


Amanhã nova estória…


Ensanguentada,


Liberta da memória,


E dos pilares de areia da saudade,


Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Vive-se vivendo na tentativa de partir…


E nada deixar sobre a mesa… sobre a mesa sofrida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Julho de 2017

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