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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.06.17

Neste cansaço dia


Sinto o abraço da alegria,


Sou um homem desajeitado


E sem sono,


Sou uma pedra imperfeita,


Sou uma nuvem desfeita…


E este corpo ancorado,


E este corpo cruxificado ao teu olhar madrugada,


O feitiço de amar,


Na planície magoada


Pela bela trovoada…


Sou um homem desiludido com a cidade dos Deuses Tristes de Morrer…


Uma amêndoa apodrecida jaz sobre a minha mão de escrever,


Sempre me recordam as cinzas do teu silêncio amanhecer,


Neste cansaço dia


Sinto o abraço sem perceber o que sentia,


As albufeiras da solidão


Descem a montanha até ao meu coração,


Irritado,


Sou uma pedra de granito


E grito…


E sinto sem sentir…


A alegria de sorrir,


Na tristeza do grito.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Junho de 2017


11.06.17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,


Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,


Entre livros e papelada,


Entre copos e corpos sofridos na madrugada,


Tenho nas veias o teu nome,


E na algibeira as réstias da fome…


Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,


O Domingo termina na sanzala…


No capim brincam as minhas mãos de fada…


Que um papagaio de papel inventou na alvorada,


Sinto neste meu corpo desajustado da realidade


O vício sintético da falsidade…


O orvalho clandestino,


O sorriso do menino…


Na praia do Mussulo,


Só e abandonado,


Só e amedrontado,


Só nos rochedos pincelados de palavras mortas


Pela caneta do poeta,


Fracassado,


Pateta…


O delírio fantasma


Dos arraiais da felicidade,


Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,


Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…


Sangrando as avenidas


Desta cidade perdida,


Um diário disperso, um livro desassossegado,


O vazio buraco negro do desgraçado…


Mendigo da multidão,


Haja alegria e pão na eira,


Que no corpo da feiticeira


Argamassam os lábios da solidão,


Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…


E passo a horas a desenhar,


No teu corpo, meu amor,


O delírio fantasma da paixão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Junho de 2017


02.01.17

O sentido proibido da vida


no sonâmbulo silêncio da agonia


a cidade evapora-se na solidão nocturna do sofrimento


como uma lamparina acesa


esquecida junto ao mar


o corpo levita


o corpo exerce o seu esplendor no sexo lunar da Via Láctea


e eu sinto o regresso da dor


misturada com as amêndoas


e todas as rochas da madrugada


habito neste cubículo ensanguentado de ferrugem


que abraça os meus ossos pergaminhos


os famintos dias


nas famintas tristezas


pergunto onde está neste momento a alegria


o sorriso que iluminava o meu viver


sem saber


sem perceber…


os candeeiros do desejo


acredito nos horários primos e primas das constelações incendiadas pelo orgasmo…


e nada é mais complexo do que a vida


em sentido proibido


como a minha.


 


Desalinhadamente só.


 


 


Francisco Luís Fontinha


02/01/17


11.05.16

A vida é construída de pequenos retalhos,


Corpos em geada


E orvalhos,


Farrapos entre velharias


E trapos,


A vida pertence ao luar,


Quando de um suspiro


Grita em mim o mar,


E num sorriso


Tu sentias


O sabor do madrugar,


Que a vida, construída de pequenos retalhos… consegue abraçar,


 


Cansado, não respiro,


E insisto na vida sem despertar,


 


Os livros,


As palavras esmagadas no silêncio da alvorada,


O corpo cessa de respirar,


Levita


Madruga


E inventa barcos de brincar,


 


A vida é construída de pequenos retalhos,


Corpos em geada


E orvalhos,


Gente simples dormindo na calçada,


Meninos de sombra que desenham na mão o sol,


Aldeias sós, homens confundidos com aldeias sós…


A vida atrapalha,


Esmaga a penumbra madrugada,


E a canalha


Toca com os lábios


O rio entre rochedos


E brinquedos,


 


Cansado, não respiro,


E insisto na vida sem despertar…


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 11 de Maio de 2016


08.04.16

ela partiu numa manhã de neblina


levava na bagagem a solidão dos dias e das noites acorrentada à minha mão


olhou-me pela última vez


(alguma vez te disseram que tens o coiso grande?)


Disse-me adeus


E quando alguém nos diz adeus é para sempre


Aos poucos desapareceu na neblina


Sentei-me num banco de pedra


Cruzei os braços


Puxei de um cigarro na esperança que alguém me oferecesse lume…


Pequei num livro que ela me tinha oferecido no dos outros encontros furtivos


Sempre em esconderijos


E vi o mar deitado a meus pés


Que mais eu poderia querer?


neblina


sentado


um livro


e uma ausência programada


a falsa partida


o dia mais feliz da minha vida


saltava


dançava de alegria


esta finalmente livre…


e foi a manhã mais linda de Lisboa


num qualquer Novembro cinzento e escuro


as gaivotas poisaram sobre mim


transeuntes sorriam-me e eu sorria-lhes


a felicidade era tanta que tinha medo de ser mentira


felizmente


não o era


tinha-me libertado da menina mimada


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 8 de Abril de 2016


07.12.15

A morte desliga-se do corpo


Interrupção da vida entre momentos e obscuros silêncios


Oiço a tua voz poisada no espelho do guarda-fatos


Sentes no cabelo a tempestade dos órfãos parágrafos


Apenas palavras, meu amor, palavras sem nexo


Para pessoas sem nexo


Como tu


Como eu


Sempre no esquecimento de viver sem perceber o significado da vida


Uma passagem


Uma pequena passagem…


Para o húmus


A terra incendiada pelos teus gemidos


O borrão da caneta de pinta permanente sobre as sanzalas da tua adolescência


Foste feliz, meu amor,


O homem mais feliz de todos os homens felizes


Que eu conheci


Tinhas um crocodilo em pão-preto


Algumas fotografias a preto e branco


Um carrossel de cartão


E eu era feliz nos teus braços


A morte desliga-se


Foge


Covardemente


Foge


Sem deixar rasto


Endereço


Número de polícia


Rua ou calçada


Tanto faz


Não existes


Deixaste de pertencer às manhãs televisivas


Sentavas-te no sofá


Incrédulo


Rabugento


Nas finíssimas lágrimas da tristeza


Que o teu rosto transportava


O engano


A mentira


O sofrimento do Adeus quando a presença é desconhecida


De mim


De ti


De nós…


Às vezes acreditava que conseguias voar


Mas logo percebi que era impossível voares…


Apenas os pássaros o sabem fazer tão bem


Que


Que sempre duvidei que o conseguirias


Felizmente


Não o conseguiste


Eu não o consegui


Que


Amanhã perceba porque não o consegui


Escrevo-te sem saber porque o faço


Não me importa a solidão


E as noites sem ninguém


Não me importo com o amor


A paixão


E a ressurreição dos panos de linho


Não me importo, meu amor, não me importo com as coisas simples da vida


Os livros


Sentado numa esplanada com sabor a Tejo


Uma cerveja, um prato de caracóis, e nada mais…


Amava a tua alegria


Amava os teus braços na minha face…


E nunca me disseste que ias partir!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015


29.11.15

Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


Sento-me e espero o regresso do teu olhar


Que vem do outro lado do Oceano


Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados


Trazes-me a voz e o desejo


E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim


Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade


Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados


Espera-te junto a um portão imaginário


Entras


Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face


 


Não tenhas medo do mar


Nem dos barcos invisíveis


Não tenhas medo das árvores


Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras


Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria


Depois vais conhecer o amor


E a paixão de amar


E a solidão do amanhecer


Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…


Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


07.08.15

Sinto as garras dos teus ossos no pano encarnado da minha solidão,


Quero fugir do teu olhar,


Sem sorrir, nunca sorrir…


Partir,


Em direcção ao mar,


Descalço,


Bandido…


Anexo perdido sobre uma secretária de vidro,


Hoje,


Partir,


Sentir dentro de mim a alegria do luar,


Quero,


 


Sem sorrir…


Partir,


Fugir dos teus lábios,


 


Afogar-me nas tuas coxas rochosas,


 


Quero,


 


Sentir,


 


Partir…


 


Fugir…


 


E sinto,


E minto,


 


Às amoreiras em flor


E às pedras chorosas,


 


E sinto, meu amor,


Que a terra é uma lápide de lágrimas,


De dor,


E pedras preciosas encharcadas…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 7 de Agosto de 2015


11.02.15

Desenho_A1_16.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Hoje há festa


nas paredes da minha biblioteca oiço baixinho os sorrisos invisíveis da alegria


pela primeira vez ouvi o metro do Porto como se fosse uma orquestra


... imaginava-o uma lagarta


feia


triste...


e hoje


tão belo


e hoje


tinha poesia


e canções


e... e alegria.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015


 


09.07.14

Esta pedra de sentar,


o sonho quando se apaga e voa sem que ninguém o consiga alcançar,


esta poeira cristalina sem encontrar o mar,


este verso prisioneiro da maré, pontapeando a sombra do sono,


uma cama me grita, e eu, eu obedeço,


me deito, adormeço,


esta pedra de sentar,


alucinada como os botões de rosa de odor a madrugada,


este meu corpo acorrentado ao velho Cacilheiro,


correndo, andando, estropiando o Tejo envergonhado,


este meu olhar cerrado,


como nuvens de papel, como algodão doce na mão de uma criança...


 


Pedra de sentar,


 


Esta pedra de sentar,


disfarçada...


disfarçada de amar,


 


A morte alicerça-se-lhe e ele acredita na pedra de sentar,


vai à janela... sem se levantar,


das árvores que observa, há uma que lhe acena, e o cumprimenta,


come uma sopa, e... e ela, o alimenta,


ele acredita que no próximo amanhecer, uma gaivota o vai visitar,


então, ele, fica esperando na pedra de sentar,


como um rio, ou... ou como um mendigo saboreando a noite,


vai às putas, e esquece-se de regressar...


 


Esta pedra de sentar...


deprimente sobre a pele encaracolada da tempestade,


ele, ele não sabe que do outro lado do rio, há uma cidade,


ele, ele não sabe que do outro lado da cidade, há um esconderijo,


um jardim empedrado, e que na lapela usa um lenço colorido,


detesta todas as gravatas,


detesta todos os lençóis com o aroma a cansaço,


detesta um simples abraço,


esta pedra de sentar,


irrita-me, e até parece um esqueleto com pernas de chocolate,


com olhos de solidão...


esperando, esperando... esperando a alegria acordar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

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