Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.09.23

Podia esconder-me de ti

Podia vestir-me de noite…

E correr

E andar…

Por aí,

 

Podia ser o vento

Podia

Podia ser a tempestade

Disfarçada de vento

Claro que podia,

 

Podia esconder-me de ti

E em ti

E esconder-me dos teus lábios

E esconder-me…

Na tua boca

Podia,

 

Podia ser aquele silêncio que poisa na tua mão

Podia ser o poema

Podia

Podia ser a alegria

E as palavras do dia

Podia

Podia esconder-me em ti…

 

 

 

Alijó, 02/09/2023

Francisco Luís Fontinha


26.07.22

Tínhamos duzentas mil palavras sem razão

E uma espingardada de desejo,

Tínhamos a voz incendiada da madrugada

No cortinado beijo,

Tínhamos na mão a triste enxada

No grito de uma canção,

 

Tínhamos o silenciado

Cansaço dos socalcos ao Douro mergulhado,

Tínhamos a luz em demanda tristeza

Correndo montanha abaixo,

Tínhamos o rio crucificado

Na paisagem beleza,

 

Da paisagem alimento.

Tínhamos a uva invisível amanhecer

Que entre mãos emagrecia,

Tínhamos as palavras de escrever,

Tínhamos a alegria…

Tínhamos duzentas mil palavras sem razão

 

Nos seios teu maldizer,

Tínhamos poesia,

Tínhamos as flores em papel cremado

Nas cinzas que ele sentia…

Tínhamos as duzentas mil palavras de viver,

No viver encarcerado,

 

Do viver adormecido.

Tínhamos o vinho lunar

No poema desamado,

Tínhamos no corpo escondido

A lâmina triste mar…

Deste vinho embriagado.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26/07/2022


24.06.17

Neste cansaço dia


Sinto o abraço da alegria,


Sou um homem desajeitado


E sem sono,


Sou uma pedra imperfeita,


Sou uma nuvem desfeita…


E este corpo ancorado,


E este corpo cruxificado ao teu olhar madrugada,


O feitiço de amar,


Na planície magoada


Pela bela trovoada…


Sou um homem desiludido com a cidade dos Deuses Tristes de Morrer…


Uma amêndoa apodrecida jaz sobre a minha mão de escrever,


Sempre me recordam as cinzas do teu silêncio amanhecer,


Neste cansaço dia


Sinto o abraço sem perceber o que sentia,


As albufeiras da solidão


Descem a montanha até ao meu coração,


Irritado,


Sou uma pedra de granito


E grito…


E sinto sem sentir…


A alegria de sorrir,


Na tristeza do grito.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Junho de 2017


11.06.17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,


Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,


Entre livros e papelada,


Entre copos e corpos sofridos na madrugada,


Tenho nas veias o teu nome,


E na algibeira as réstias da fome…


Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,


O Domingo termina na sanzala…


No capim brincam as minhas mãos de fada…


Que um papagaio de papel inventou na alvorada,


Sinto neste meu corpo desajustado da realidade


O vício sintético da falsidade…


O orvalho clandestino,


O sorriso do menino…


Na praia do Mussulo,


Só e abandonado,


Só e amedrontado,


Só nos rochedos pincelados de palavras mortas


Pela caneta do poeta,


Fracassado,


Pateta…


O delírio fantasma


Dos arraiais da felicidade,


Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,


Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…


Sangrando as avenidas


Desta cidade perdida,


Um diário disperso, um livro desassossegado,


O vazio buraco negro do desgraçado…


Mendigo da multidão,


Haja alegria e pão na eira,


Que no corpo da feiticeira


Argamassam os lábios da solidão,


Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…


E passo a horas a desenhar,


No teu corpo, meu amor,


O delírio fantasma da paixão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Junho de 2017


02.01.17

O sentido proibido da vida


no sonâmbulo silêncio da agonia


a cidade evapora-se na solidão nocturna do sofrimento


como uma lamparina acesa


esquecida junto ao mar


o corpo levita


o corpo exerce o seu esplendor no sexo lunar da Via Láctea


e eu sinto o regresso da dor


misturada com as amêndoas


e todas as rochas da madrugada


habito neste cubículo ensanguentado de ferrugem


que abraça os meus ossos pergaminhos


os famintos dias


nas famintas tristezas


pergunto onde está neste momento a alegria


o sorriso que iluminava o meu viver


sem saber


sem perceber…


os candeeiros do desejo


acredito nos horários primos e primas das constelações incendiadas pelo orgasmo…


e nada é mais complexo do que a vida


em sentido proibido


como a minha.


 


Desalinhadamente só.


 


 


Francisco Luís Fontinha


02/01/17


11.05.16

A vida é construída de pequenos retalhos,


Corpos em geada


E orvalhos,


Farrapos entre velharias


E trapos,


A vida pertence ao luar,


Quando de um suspiro


Grita em mim o mar,


E num sorriso


Tu sentias


O sabor do madrugar,


Que a vida, construída de pequenos retalhos… consegue abraçar,


 


Cansado, não respiro,


E insisto na vida sem despertar,


 


Os livros,


As palavras esmagadas no silêncio da alvorada,


O corpo cessa de respirar,


Levita


Madruga


E inventa barcos de brincar,


 


A vida é construída de pequenos retalhos,


Corpos em geada


E orvalhos,


Gente simples dormindo na calçada,


Meninos de sombra que desenham na mão o sol,


Aldeias sós, homens confundidos com aldeias sós…


A vida atrapalha,


Esmaga a penumbra madrugada,


E a canalha


Toca com os lábios


O rio entre rochedos


E brinquedos,


 


Cansado, não respiro,


E insisto na vida sem despertar…


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 11 de Maio de 2016


08.04.16

ela partiu numa manhã de neblina


levava na bagagem a solidão dos dias e das noites acorrentada à minha mão


olhou-me pela última vez


(alguma vez te disseram que tens o coiso grande?)


Disse-me adeus


E quando alguém nos diz adeus é para sempre


Aos poucos desapareceu na neblina


Sentei-me num banco de pedra


Cruzei os braços


Puxei de um cigarro na esperança que alguém me oferecesse lume…


Pequei num livro que ela me tinha oferecido no dos outros encontros furtivos


Sempre em esconderijos


E vi o mar deitado a meus pés


Que mais eu poderia querer?


neblina


sentado


um livro


e uma ausência programada


a falsa partida


o dia mais feliz da minha vida


saltava


dançava de alegria


esta finalmente livre…


e foi a manhã mais linda de Lisboa


num qualquer Novembro cinzento e escuro


as gaivotas poisaram sobre mim


transeuntes sorriam-me e eu sorria-lhes


a felicidade era tanta que tinha medo de ser mentira


felizmente


não o era


tinha-me libertado da menina mimada


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 8 de Abril de 2016

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub