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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.12.22

Não tive tempo

De mostrar-te como crescem como brincam e amam

Os lírios do campo.

Não tive tempo

De ensinar-te as primeiras letras

Os primeiros números

Não tive tempo

De fazermos os primeiros rabiscos

Nas paredes de uma sala.

 

Não tive tempo

De levar-te a olhar os barcos

De veres o mar

Não tive tempo

Para as tuas primeiras brincadeiras

Não tive tempo

Para subir às árvores

E olharmos os pássaros e os ninhos.

 

Não tive tempo

De ouvir-te as primeiras palavras

Não tive tempo

De fazermos papagaios em papel

E voarmos sobre a minha aldeia.

 

Não tive tempo

De mostrar-te a minha aldeia

O rio da minha aldeia.

 

Não tive tempo.

 

Hoje

Sou um homem sem tempo

Sentado numa cadeira sem tempo

Que fuma e bebe e ouve poesia sem tempo

E juntos

Eu e a cadeira

Esperamos que o tempo

Nos leve

Nos leve para um sítio onde tenhamos tempo.

 

 

 

 

Alijó, 01/12/2022

Francisco Luís Fontinha


21.03.20

Conheci a puta de uma laranja assassina.


O gesto de coçar os testículos,


Quando o Rossio entre orgasmos e gemidos,


Traz o cansaço,


Os berros,


E, os cubículos.


O restaurante, encerrado.


As putas em delírio,


Sem clientes,


Passam fome,


Deveras,


Quando a aldeia acorda.


E eu, aqui sentado,


Fumando cigarros de haxixe, toco clarinete,


Bombo,


Punhetas a grilos,


E, afins.


Se te podes revoltar, revolta-te,


Come tremoços,


Mija contra os postes de electricidade,


Vem-te,


Vai-te,


E fode-te,


Ao pequeno almoço.


As laranjas assassinas,


Na marmita do tesão,


O foda-se,


Então?


Ai Senhor,


As putas em delírio,


O cansaço delas,


Nas mãos calejadas do centro de massa…


A equação do caralho,


Lacrimejado,


Entre paredes,


E dias de desassossego.


Por isso não esqueço,


A maldade,


O sumo da laranja,


Quando assassina o sexo.


Morre o tesão;


Fodam, fodam, que agora é de graça,


E não digam a ninguém,


Contra os rochedos,


Marchar, marchar…


E, depois,


Não se esqueçam de encerrar a janela,


A fechadura,


Porque às vezes, parece,


Mas não o é,


Sempre, às escuras.


Faltou a luz,


Esqueci-me de pagar a electricidade,


Foda-se,


Vou mijar contra o poste,


E se não gostarem,


Acabou.


Fim.


Fodi-me.


Fui assassinado por uma laranja.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


21/03/2020


06.04.16

sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


escondo nas mãos o luar nocturno da solidão


dos tristes pássaros do meu jardim


escrevo-lhes e converso com eles


a minha presença incomoda-os


e pareço uma imagem aprisionada num hipercubo de sombras


sonhos


rios infindáveis


palavras esquecidas no vento


correndo nas minhas veias de vidro martelado


o opaco desejo nas madrugadas embriagadas pelas andorinhas


o silêncio abraçado a uma árvore


sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


aos poucos vejo o teu olhar sentado sobre o meu peito doente


como se existissem roldanas de cartão


na pele que me alimenta


sou um aldeão sem aldeia


mas das montanhas


regressam os homens do coração granítico


que trazem a noite


e me roubam as palavras


depois a tua boca entrelaçava-se na minha


um fino sorriso de nylon brincava na janela virada para o mar


os barcos encalhados nas tuas coxas


em pequenos apitos sonâmbulos


uma casa em chamas


dois corpos em chamas dentro da casa em chamas


o farol lá longe


guiando-nos até ao infinito


a morte


a paixão laminada pelos orifícios do deserto


sinto-me um prisioneiro esquecido num qualquer porto de mar


cordas


correntes de luz dificultando-me a mobilidade das palavras


os livros também em chamas


na casa em chamas


com dois corpos em chamas


o inferno inventando o suor do teu corpo


as asas que te levam para o Céu


também elas em chamas


a fogueira dos nossos cadáveres sobrevoando o horizonte


descemos a calçada


sentamo-nos junto ao rio


dois condenados ao amor impossível


às cartas nunca escritas


o amanhecer quase a chegar


nos teus lábios as pedras preciosas da saudade


há tanto tempo com esta enxada rosada na mão calejada pelas pálpebras do incenso


há tanto tempo


aqui


sem ninguém


 


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 6 de Abril de 2016


08.03.16

A aldeia deserta


Tenho no corpo o peso da saudade


Que desertou dos jardins suspensos dos teus lábios


A tempestade alicerçou-se às tuas mãos


Como se alicerçaram as sombras nos meus cabelos


A aldeia deserta


E eu, e eu recheado de sonambulismo,


Sonhos


E saudade…


De regressar à aldeia deserta


Onde habitam os meus ossos


E as minhas cartas de amor!


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 8 de Março de 2016


19.03.15

Viajo no teu olhar


disfarçado de flor


há nos teus lábios um jardim


com coração de pétala adormecida


uma criança brinca nos teus cabelos


baloiça na tua boca


sempre a sorrir


antes da minha despedida


viagem


ao fundo do poço da paixão


desço


despedida,


 


desço até encontrar o chão


lamacento


com odor a Primavera


a poesia é uma aldeia


sem palavras


sem livros


sem... sem casas


baloiça na tua boca


sempre a sorrir


a criança que existe em mim


mergulhada nos sonhos


quando o sono é uma prisão,


 


com grades de luar


e janelas de açúcar...


imagino o teu silêncio


quando te embrulhas no espelho da saudade...


saudade...


grades


janelas


uma aldeia


sem palavras


sem... sem... pessoas


e a criança invisível


grita... quando percebe a minha partida...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 19 de Março de 2015


10.05.14

O dia esconde-se entre os teus dedos e a sombra do veleiro com asas de papel,


do silêncio vento acordam as mangueiras de um quintal em pedaços de saudade,


e há corpos farrapos numa tela pastel,


 


Os teus lábios são cerejas voando sobre um Oceano de neblina,


parecem o rio quando se cansa de acordar,


os teus lábios são gritos de liberdade,


os teus lábios são os sonhos de uma menina,


 


O dia esconde-se nos teus dedos e há candeeiros de xisto saltitando na calçada,


sei que há palavras envergonhadas nos meus cabelos frangalhos, tristes... e velhos calendários,


o dia termina, o dia deixa de ser dia e procura a madrugada,


 


Há no teu olhar uma mágica fechadura com janelas de cortinado envelhecer,


uma mão poisa no teu rosto varanda onde sentado um menino,


brinca com bonecas de porcelana,


brinca... brinca com o término do dia, brinca... brinca com a imaginária cama,


e eu, eu espero que acordem os teus braços com pulseiras de amanhecer,


e tudo acaba com o toque do sino,


 


A aldeia cresce na montanha,


e tu desapareces como nuvens de encanto tapando o Sol poesia,


o dia,


o dia já ninguém o apanha...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 10 de Maio de 2014


02.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sinto-me ausente como os barcos da minha infância


oiço os loucos apitos das orgias nocturnas dos pássaros anónimos em mim


finjo escrever no corpo da alma


acredito voar se saltar a varanda e passear sobre os telhados de Alfama


os bares em Cais do Sodré


o rio... o rio que me chama... e eu... e eu não vou


pronto


não quero


porque não me apetece olhar o mar


sinto-me transeunte como as formigas empanturradas em açúcar e compota de abóbora...


não quero conversar com ninguém


prefiro a ausência,


 


A minha santa ignorância... sou um Réu sentado em cima das rochas de espuma


sou um corpo deitado sobre outro corpo


mórbidos nós... até que a morte nos separe... penso em ti


e nunca sei quem és


como te devo apelidar...


se


ou


sinto-me ausente como as serpentes e os barcos da minha infância,


 


Além habitam os charcos lamacentos das bibliotecas em flor


aqui... nada que preste


aqui apenas a minha sombra espetada num farrapo junto a um espigueiro...


o telhado chora


e range


as ripas fazem amor com os pregos enferrujados...


gritam


uivam


e lá dentro


pedaços de nós em pequenas espigas de milho adormecidas no cansaço da morte


não sei... ainda não sei o teu nome


como te despes... como... qual é a tua relação com o espelho do desejo?


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014



22.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Eras mármore gratinado nas doces tristes algas da solidão, havíamos de terminar a noite entre resmas de papel, cinzeiro recheado de beatas, neblina ensurdecedora que os cigarros vomitavam sobre a mesa decorada com objectos insignificantes, eras mármore sobre um piano coberto por um cobertor de areia, regressavam no final do dia...


Pombas, gaivotas e barcos enjoados devido à forte ondulação que as horas incompletas e mortas, pelas finas espumas que os marinheiros traziam no pulmão alcatroado por um empreiteiro de algibeiras encurraladas das tempestades que o medo, de vez em quando, deixava cair sobre o silêncio, os olhos, os olhos


Fingiam que nada viam, adormeciam como embriagados homens de cabelo comprido,


Cumprido o teu desejo sublime, desfazem-se as pétalas em sorrisos amargurados, oiço-os


Aos olhos?


Os olhos dormem,


Comprido como a fome, as andorinhas regressavam ao local do crime, e as janelas de cristal sempre lá, suspensas nas árvores com ventoinhas eléctricas, do tecto, a chuva do teu cheiro, a catinga mergulhava na sombra nocturna do cinzento púbis que embebia a madrugada em despedidas ao Verão, regressado de longe, vêem-se as superfícies lisas das coloridas faces com lábios de amanhecer, ao longe


Aos olhos?


Vêem-se-lhe as pernas arqueadas e poisadas sobre o parapeito virado para as traseiras onde brincava um robusto quintal, velho, barbudo, atulhado de lixo, lixo... e aqui e além


O cheiro a catinga,


Os caixotes de lixos até não aguentarem mais alimento, vomitavam-se e sujavam as laminadas passadeiras em pura lã virgem, o pastor reclamava o preço a que lhe pagavam a lã, as ovelhas gritavam


Gatunos, gatunos...


O preço da água é um roubo,


Gatunos, gatunos... e o coitado do chibo endiabrado, correndo de leira em leira... até encontrar um rio com peixes voadores, até encontrar a mulher mais bela do cinzeiro onde ardiam algumas das beatas... e o lacrimante púbis enjoado devido às difíceis encostas cobertas por placas de xisto, e mármore gratinado nas doces tristes algas da solidão, havíamos de terminar a noite entre resmas de papel, cinzeiro recheado de beatas, neblina ensurdecedora que os cigarros vomitavam sobre a mesa decorada com objectos insignificantes, eras mármore sobre um piano coberto por um cobertor de areia, regressavam no final do dia...


Gatunos, gatunos...


O preço da água é um roubo,


Aos olhos?


A catinga absorvia o ranger


Oiço-os... meu querido


O quê?


A catinga absorvia o ranger que ela ouvia dos cornos em migalhas, depois do desgraçado do chibo, tombar como uma borboleta sobre a lápide do amor, recordava-se ainda do fumo embrulhado em fina prata de alumínio, e fingiam que nada viam, adormeciam como embriagados homens de cabelo comprido,


Cumprido o teu desejo sublime, desfazem-se as pétalas em sorrisos amargurados, oiço-os


Aos olhos?


Os olhos dormem,


E choram as tuas lágrimas


Fingiam que nada viam, adormeciam como embriagados homens de cabelo comprido,


Cumprido o teu desejo sublime, desfazem-se as pétalas em sorrisos amargurados, oiço-os


Aos olhos?


Os olhos dormem,


Dormem... e dormem... e dormem... e ele gritava


“Povo desta aldeia... andastes quarenta e oito anos a dormir... e agora, agora comei do sono”


Aos olhos?


Os olhos dormem,


Dormem... e dormem... e dormem...


E onde está a lã das minhas ovelhas?


Ouvíamos-o chorando como uma criança empoleirada em calções e sandálias de couro, sentava-se no triciclo...


E dormem,


E onde está a lã das minhas ovelhas?


Dormem...


 


(Não revisto – Ficção)


@Francisco Luís Fontinha - Alijó


Domingo, 22 de Setembro de 2013



22.01.13

E se um dia eu te oferecer flores?


Dir-te-ei que enlouqueceste como enlouquecem as serras depois das tempestades de neve, assim, ficar-me-ás nas entranhas mãos que o perfume dos silêncios mares deixam ficar nas pálpebras tristes dos corpos imperfeitos das cidades vazias, dir-te-ia apenas que o amor é uma coisa, fria, compacta, estranhamente estranha, infeliz, as palavras sobre a aldeia onde nasci, vazia


E se um dia eu te oferecer flores? Provavelmente não será amor, acredito que seja o meu velório, e possivelmente não o será, provavelmente seja um casamento, o teu baptizado, talvez, um dia, percebas os meus poemas que escrevi, e deixei


De escrever?


Sobre a aldeia vazia, perdidamente entre duas distâncias, um ponto insignificante algures no Rossio, ou uma recta paralela ao rio tal como os carris que te levavam para Belém, ou talvez


O que me dizes das flores?


De escrever, ou talvez sobeja um ponto final para colocar no paragrafo em suspenso, à espera que regresses do outro lado da circunferência amarela, os círculos de luz, abelhas envenenadas pelas garras ciumentas da tua boca carnívora, enfeitada com cigarros de enrolar e pedacinhos de pétalas de papel,


Ou talvez


De escrever, desesperar até que a morte nos separe, acredites, não acredites, eu vou partir, oiro, marfim, ou talvez, dir-te-ei que enlouqueceste como enlouquecem as serras depois das tempestades de neve, assim, ficar-me-ás nas entranhas mãos que o perfume dos silêncios mares deixam ficar nas pálpebras tristes dos corpos imperfeitos das cidades vazias, dir-te-ia apenas que o amor é uma coisa, fria, compacta, estranhamente estranha, infeliz,


Ou


Dir-te-ia que os telhados são como as flores que tenciono oferecer-te, ou talvez não, ou


Infeliz,


Ou


Dir-te-ia que os telegramas (telegramas?) dir-te-ia que os telhados de papel sobre a aldeia onde nascia arderam, tal como as flores, tal como os poemas do Inverno de écharpe na cabeça à lareira da sonolência à espera que o livro poisado na mão acordasse e se transformasse em simples criança desenhando sonhos nas paredes escuras, nas paredes frias, dos vidros que guardam as janelas


Do amor


Ou,


E se um dia eu te oferecer flores?


Dir-te-ei que enlouqueceste como enlouquecem as serras depois das tempestades de neve, dos vidros que guardam as janelas das palavras que morreram e não servem para os poemas de amor,


Porque


Ou


Do amor,


Nem todas as palavras servem...


 


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


 


23.12.12

Nasci numa aldeia cinzenta, e todas as pessoas traziam na cabeça uma flor de lótus, uma pequena ribeira caminhava sem destino entre os canaviais e os choupos velhos e caducos que viviam em comunhão de bens, felizes no casamento, tinham três filhos, duas raparigas, e eu


 


eu continuo sem saber o que sou,


 


as raparigas desde muito cedo começaram a fazer desenhos nas paredes da casa, um rés-do-chão enfaixado nas amoreiras e silvais que depois de cair a noite desapareciam como desaparecia o fumo dos cigarros do meu irmão, sisudo, chato, um travesti de trinta e dois anos, bancário, regressava a casa depois de um longo dia de trabalho, apanhava o eléctrico, contava as pombas até chegar à porta de entrada do prédio, entrava, começava a subir as escadas tranquilamente, no patamar do primeiro andar ainda era o Carlos, subia, subia, e quando chegava ao quinto andar,


 


agora sei o meu nome,


 


Maria Feliz, entrava em casa, descalçava os sapatos altíssimos e colocava as pernas sobre a mesa de mármore que jazia no centro da sala de estar, pegava no comando da aparelhagem sonora, carregava no PLAY e sempre o mesmo CD no seu interior


 


agora sei o meu nome,


 


Wordsong (AL Berto)


 


e ele,


 


ela,


 


tinham saudades dos tempos da infância quando apenas tinham como memória uma aldeia cinzenta, apodrecida, a madeira das traves e dos barrotes, de vez em quando, pingava um líquido sujo e espesso, e quando lhe passava o dedo e levava-o à boca


 


ela percebia que eram lágrimas com mel,


 


chovia dentro de casa, tínhamos um cão a que dávamos o nome de REX, e quase sempre o gajo desobedecia-nos, traquina, as raparigas desde muito cedo começaram a fazer desenhos nas paredes da casa, um rés-do-chão enfaixado nas amoreiras e silvais que depois de cair a noite desapareciam como desaparecia o fumo dos cigarros do meu irmão, e nós deliciávamos-nos com os poemas


 


eu continuo sem saber o que sou,


 


ele


 


sisudo,


 


ela


 


levantava-se do sofá, acabava de despir-se, e quando se olhava no espelho e percebia que não tinha sobre si outra qualquer roupa, nem vestígios dele, corria até à casa de banho, abria a torneira da água quente, deixava-a borbulhar como uma panela ao lume com estrelas e pedaços de néon, e aos poucos e silenciosos sonhos do mar, começava numa carícia intensiva, até se cansar, até perceber que ela era ela, até


 


ele


 


sisudo,


 


ela


 


ela percebia que eram lágrimas com mel que o seu corpo derramava como se fossem a seiva envenenada das árvores de papel, sisudo, e pendurava no armário o Carlos, e a lua apoderava-se dela, e a lua escrevia no corpo dela,


 


viste o Carlos?


 


ele


 


sisudo,


 


ele


 


chato,


 


ele, que todos os dias se levantava de madrugada, Maria Feliz ia ao guarda-fato, tirava o Carlos, vestia-se, raramente tomava o pequeno-almoço, deixa-a sobre a cama até que o cair da noite se agarrava às janelas do quinto andar,


 


sisudo,


 


agora sei o meu nome, agora percebo a cor da aldeia onde nasci, vivi, cresci..., e quase


 


morri,


 


ela


 


viste o Carlos?


 


chato, sisudo, as árvores que nem os malditos pássaros encarnados queriam sentar-se sobre elas, é triste, era triste a solidão dos dias, e percebia que as minhas irmãs


 


não gostam de mim, sempre me odiaram, viste o Carlos? Apenas palavras para os poucos transeuntes ouvirem, porque nas minhas costas


 


o Carlos é um chato, e sisudo, e


 


as ruas deixavam de pertencerem-me, e


 


ela


 


viste o Carlos?


 


e elas sempre souberam que nunca existiu nenhum Carlos, e elas


 


as raparigas desde muito cedo começaram a fazer desenhos nas paredes da casa, um rés-do-chão enfaixado


 


numa rua de Cais do Sodré, e quase


 


morri.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó

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