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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.12.19

Sinto-te nesta casa fria e escura.


Neste casebre abandonado,


Sinto-te nas paredes cansadas desta espelunca,


Na sombra de um qualquer coitado; eu.


Sinto-te em perfeita brancura,


Das palavras que escrevo e pronuncio…


Que nunca,


Vou desenhar uma gaivota em cio.


 


Sinto-te como se fosses uma pomba.


Sinto-te como se fosses uma bomba,


Esquecida no mar,


Esquecida de rebentar.


 


Sinto-te e não te vejo.


Pareces invisível neste labirinto.


Pareço o Tejo.


Voando baixinho, quando não minto.


 


Sinto.


Sinto tudo isto enquanto não consigo adormecer.


Sinto a calçada chorar.


Sinto o meu corpo sofrer…


Com medo de morrer.


Com medo de acordar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/12/2019


26.05.14

acordar sobre o titânio amanhecer


pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem


agarrar o mar


se possível


esconder o mar na tua algibeira de cartão


 


sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim


acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado


descansar sobre o teu peito


beijar-te


simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 26 de Maio de 2014


07.05.11

Vejo no espelho excrementos


Que são a minha imagem reflectida na noite


Eu dançando no fundo da sanita


Engasgado pelo silêncio da casa de banho


 


Tento aos poucos emergir da merda


Mas a água do autoclismo puxa-me


Agarro-me às paredes


Escorrego… começa a afundar-se


 


A minha imagem dentro de uma conduta


Entro no vácuo


E caminho por um tubo de cento e dez milímetros de diâmetro


Percebo de estou debaixo da rua


 


Percebo que a rua cansada de mim


Farta da minha imagem de excremento


E eu feliz


E eu em direcção ao mar…


 


Vejo no espelho excrementos


Que são a minha imagem reflectida na noite


Eu dançando no fundo da sanita


Eu sufocado no desejo


 


Deitado de barriga ao ar


E tudo tinha peninha da minha imagem de excremento


Dançando na madrugada


E infelizmente eu não gaivota


 


Brincando dentro de uma conduta


Em direcção ao mar


À procura do amanhecer…


À espera de adormecer


 


E morrer.


 


 


Luís Fontinha


7 de Maio de 2011


Alijó

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