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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Acreditava que o sonho se vestia de branco


que em todos os jardins existiam esqueletos de aço com coração de veludo


e que em todas as palavras pronunciadas...


escritas


e apaixonadas... habitavam as mãos do delírio sono extinto das noites circunflexas


tínhamos no sono a ânsia de viver dentro dos poços das amoreiras em flor...


crescíamos


e vivíamos...


e éramos vultos comestíveis como as folhas dos plátanos adormecidos


queríamos a paixão e vinha até nós a solidão


desejávamos o prazer


e acordava em ti a desilusão de deambular sobre os coqueiros em papel...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Janeiro de 2014



03.11.13



Foto de: A&M ART and Photos


 


acreditava que eras em pedra maciça e que tinhas no cabelo uma seara de trigo


havia nuvens de poeira que envolviam o teu olhar


e sempre que chovia


uma janela acordava no teu peito


acreditava que não choravas porque as flores não choram


e eu


acreditava


que eras em pedra maciça


e eu


acreditava


que eras uma flor


com perfume de desejo


 


acreditava que pertencias às gaivotas de asas em papel


que vivias no mastro dos barcos doentes


e que amavas os homens como eu


esqueletos vadios


rolando as calçadas em direcção ao Tejo


acreditava que tu eras diferente


e que a escuridão da tua pele sangrava espinhos de chocolate...


doces desenhos no suor cuticular da vaidade solar


e tinhas na boca as palavras de vento que vomitavam bandeiras brancas em dias de tristeza...


acreditava


que eras uma flor


acreditava


 


que eras... um desejo


um corpo


um beijo de sílabas enlouquecidas numa tarde de Sábado


e no entanto


a tua escura pele adormeceu nos agrestes desenhos do Baleizão


que eras uma flor


lábios pintados de encarnado


beijos doirados


acreditava


e tudo parecia a mão da Inquisição sobre o púbis da saudade


havia ruas da cidade submersas em ti


como cordas de nylon aprisionando pêssegos carcomidos dos pássaros pretos


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 3 de Novembro de 2013



16.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Como acreditar... como confiar... como? Apenas acreditando e confiando..., apenas navegando, apenas, sem mais, nada mais do que, como? Apenas, e muito, os livros e as personagens dos livros, os livros e as estórias dos livros, os livros, as mulheres, as mulheres e o corpo das mulheres, sós, apenas, como?


Como ser feliz quando não se é feliz, como, como acreditar... como confiar... como?


Sendo,


E apenas, voando como as nuvens de chocolate na boca das crianças, como, sendo, as proibidas manhãs com Sábados invisíveis, acreditando?


Sendo, parecendo ser e não o ser, esperar, esperar, só, sentado, numa banco em pedra, frio e húmido, de esqueleto quebrado, os ossos acabados de submergir das profundezas vozes sem as ditas


Palavras?


As loucas palavras?


Sendo, eu sei, voando, se eu soubesse, voava dentro de ti, teu corpo de magnólia com perfume a desejo, e ficando, e deixando


As loucas palavras?


Como retirara venda dos olhos, se ela, se ela é de aço maciço, como cordas de sisal suspensas dos céu, servindo, como acreditando, apenas para acolher com doçura as velhas e cansadas árvores, as alegres e as tristes, como nós, e apenas, voando, e sendo, como tu, sofrendo como tu, apenas, assim... como as algibeiras da noite rompendo a madrugada e pintando o sobejante com acrílicos em cadáveres, quase a serem enterrados vivos na fogueira, sendo, acreditando e


Palavras?


As loucas palavras?


Sofrendo, e ardendo em ti quando transportas contigo a fogueira inventada numa noite de Inverno, quando sentados, nós, desenhávamos o fogo nas paredes do escritório, como acreditar?


Acreditando,


E


E como confiar?


Confiando,


Não o sei, apagando esse fogo, ouvindo a música das plantas, simplesmente... ouvindo e sonhando e


Acreditando?


E acreditando...


Acreditar? Brincando como palavras sós, desejosas de serem desejadas, brincando, brincando sós, nós, entre árvores e rios, e socalcos como telas envelhecidas das paredes novas do amor, acreditando?


Acreditar... que, talvez, o amor, viva como vivem os homens e as mulheres, brincando, e sofrendo, e acreditando... confiando, vendo e sendo, uma noite vestida com pregos e tábuas finas, e as lâminas de água, e os barcos envenenados com saudade e o silêncio,


Confiando?


Como confiar se amanhã pode não ser Sábado?


Sendo,


E apenas, voando como as nuvens de chocolate na boca das crianças, como, sendo, as proibidas manhãs com Sábados invisíveis, acreditando? Acreditar, sim, sim sendo, sentados como ontem, sentados a ver o mar, a regressar de longe, apenas e sós, sendo, eles,


Acreditando,


Acreditando?


Acreditando que assim sendo, amanhã, amanhã regressará para nós, os ditos sonhos, que vimos fugir, que vimos partir... como um tornado correndo montanha abaixo, sós, nós


Acreditando?


E em acreditar... eu... sofrendo, sofri, não dizendo que... amanhã poderá não ser Sábado,


Quem o garante?


Ele?


Ela?


Ou... vós, vós que sois cortinados de uma janela à beira do precipício...


Esperando


Acreditando que acreditar,


Não,


Não somos o vento, porque se o fossemos... tínhamos nãos mãos asas... e temos dedos, dedos de acariciar corpos sofrendo, corpos desejando, corpos... acreditando.


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 16 de Agosto de 2013



19.06.13



foto; A&M ART and Photos


 


Via a terra desaparecer dos meus olhos, sentia-a em pedaços de vapor a todo o comprimento do meu corpo, e pensei


É o fim, o eterno fim,


As nuvens tristes, prontas a comerem-me, saborearem-se com a minha carne em cadáver, como o fazem os abutres (aves e humanos), das poucas gotas de chuvas que sobejavam dos lobos dispersos pela montanha, ainda coberta pela neve do Inverno, havia um que me chamou à atenção, e de tão distraído que sou, só depois de o observar, uma, duas, três... talvez quatro vezes, percebi que ele trazia na lapela uma folha de papel com um desenho ilegível, perguntei-lhe


Querido lobo, que desenho é esse?


Cerra os olhos, finge que eu sou uma pedra, um arbusto ou pior, que eu não existo, deu meia volta e desapareceu entre os outros companheiros, como quem foge do silêncio quando as palavras apenas servem para interromperem a noite, desviarem todas as estrelas dos espelhos côncavos das cidades sem rios, e


Querido lobo, que desenho é esse?


Se possível, mesmo antes de acordar a manhã, fazer com que todas as lâmpadas da cidade se apaguem, como os corpos putrefacto, dentro de um congelador gigante, numa qualquer morgue, onde existe sempre uma flor não identificada, à espera, que desespera a chegada de um abutre, e assim, aliviar todo o sofrimento dos corpos sem cabeça, sem braços, sem leme que seja possível prosseguir viagem,


Há uma lenda que alimenta desde os primórdios os mosquitos de asa tricolor, e sobre o fino prato de sopa, infelizmente, apenas só, em permanente solidão, que como o corpo putrefacto, espera e desespera pela chegada..., neste caso da dita sopa, não do abutre (ave ou homem), apetecia-me ouvir POP DEL ARTE, e como teimoso que ele é


Acredito,


Acreditar, porque não? Até prova em contrário, todo o réu é inocente, como assim?


Acredito, eu acredito,


E como teimoso que ele é, acredito que passe o resto da noite a ouvir POP DEL ARTE, depois, depois pegará num livro de poemas de AL Berto, entre um poema ou três no máximo, deliciar-se-á como um pássaro a atravessar o Oceano, lê os poemas, ouve a música, adormece suavemente como


“Vi a terra desaparecer dos meus olhos, sentia-a em pedaços de vapor a todo o comprimento do meu corpo, e pensei


É o fim, o eterno fim,”


Como se tudo em si fosse um misero sono dentro da cabeça de um mosquito com asas tricolores, dentro de um prato de sopa, sem sopa, como à janela da solidão, e o desgraçado do lobo, até hoje, nunca me saciou a curiosidade e me contou o significado do desenho ilegível que trazia na lapela...


É o fim?


Eu, acredito, acredito que não..., vi a terra desaparecer dos meus olhos, sentia-a em pedaços de vapor a todo o comprimento do meu corpo, e pensei


Vi o céu a desaparecer, e pensei


Vi, e pensei...


Hoje, POP DEL ARTE e AL Berto, porque não? Acreditar...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



31.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Acreditava no silêncio


e perguntava-me porque todos os ausentados


esqueciam as pequenas rochas às palavras acorrentadas em pedaços sofrimentos


entre aços veleiros e panos transparentes suspensos sobre a cidade das colmeias adormecidas,


 


Acreditava na madrugada


quando eu próprio mergulhava nas suas garras como um vampiro desalmado


triste


cansado,


 


E mesmo assim eu acreditava


no silêncio


nas palavras


e nos muros de vedação,


 


Acreditava no betão


e nos telhados de areia


nas nuvens e na chuva miudinha dos Sábados à tarde...


… acreditava que o teu corpo era uma fina folha em papel crepe,


 


Distante


fundida como as lâmpadas da sala de jantar com pratos embriagados


e talheres roubados


da mesa de um ricaço qualquer...


 


Acreditava como serpentes em madeira


correndo no corredor da vizinha


e do apartamento ao lado


eu acreditava nas imagens negras em sabão clarim...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



24.06.12

ao longe


longe muito longe


longínquo


vivem as palavras “acreditar” e “ter esperança”


ao longe


corro


corro desalmadamente


e não lhes consigo tocar


 


ao longe


longe na ardósia da saudade


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


 


ao longe muito muito longe


longe vivem as palavras


longe dormem as sílabas


de longe longínquo vai o meu corpo à fornalha da solidão


do dia e da noite


as luzes suicidam-se no precipício do oceano


 


ao longe


choro e chora e choro


e mingua e minguo e mingua a charada da vida


na cidade pobre


da cidade perdida


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


da solidariedade


 


(palavra filha da puta)


 


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


que um dia


acorde o sol dentro de mim


que um dia


seja sempre dia


debaixo dos plátanos do jardim


que um dia que um dia as estrelas sejam de papel.


31.05.12




eu não acreditava


que o mar era quadrado


que a terra chorava


eu


não


eu não acreditava


que o meu coração


palpitava


galgava


porque era quadrado


o mar


onde eu me banhava


 


eu


não acreditava


que onde eu me banhava


o mar


eu não sonhava


acreditava


o mar era quarta-feira


antes de me deitar


e eu e eu acordava


não sabendo que brincava


com uma abelha


na minha cama deitada


 


não


eu


não eu acreditava


 


que o mar


que o mar quadrado


que o mar quadrado apaixonado


não


eu


eu não


me cansava


de abraçar o vento cansado


 


não


eu


não eu acreditava


Eu não acreditava


que o mar era quadrado


que a terra chorava...


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