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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.01.22

Abraça-me,

Como se eu fosse uma pedra

Fundeada no mar.

Abraça-me,

Como se eu fosse uma ponte

Suspensa no ar.

Abraça-me,

Como se eu fosse uma janela

Para observares o luar.

Abraça-me,

Como se eu fosse um poema

Nos sonhos de sonhar.

Abraça-me,

Como se eu fosse uma flor

Nos teus lábios ao deitar.

 

Abraça-me,

Como se eu fosse uma pedra,

Ou uma pequena alma penada;

Porque deste corpo em guerra,

No final, não sobrará nada.

 

E de abraço em abraço,

De cidade em cidade,

Esqueço o cansaço,

Mas nunca, nunca esqueço a saudade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/01/2022


24.08.21

Quando a saudade habita na montanha do mar,

E o amar,

Desce pela escadaria do vento,

Esconde-se numa mão invisível,

Cresce,

Se liberta e,

Morre na maré da insónia.

Se eu pegar nesse cabelo,

Se eu abraçar a sua boca,

O poema se escreve,

Dança,

E se deita na calçada.

Serão todas as palavras que te escrevo

Pedacinhos do poema

Em formato de beijo?

Pergunto-me enquanto olho o vento

Embrulhado nos seus entrelaçados degraus,

Alvenaria de incenso,

Betão que dorme na tua mão;

Oiço.

Habito em ti

Como se fosse uma criança desenhada no sono da escuridão,

Um panfleto de sono

Suspenso nas paredes da madrugada.

Chamo pelo silêncio,

Pego docemente na esferográfica da alegria e,

Escrevo.

Escrevo-te

Todas as palavras da laranja.

Sei que lá fora uma página obscura

De um livro obeso

Se suicida na tarde junto ao mar;

Amar.

Canso-me das ruelas desta cidade

Prateada,

Pincelada de cigarros e,

Marmelada.

O orvalho;

Palavras, sílabas, páginas doentes…

Deste livro sem nome.

Amanhã,

(Quando a saudade habitar na montanha do mar,

E o amar,

Descer pela escadaria do vento,

Esconder-se-á numa mão invisível,

Crescerá,

Se libertará e,

Morrerá na maré da insónia).

Todos somos esqueletos de vento

Na sombra do silêncio.

vi.

vivi.

Ontem, era uma pedra.

Hoje,

Algures,

Sou um pedaço de rosa,

Deitada sobre a mesa-de-cabeceira da insónia.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/08/2021


15.05.20

Sem ti, sou um pequeno ponto de luz nos braços da solidão.

Uma simples folha em papel,

Sem ti, sou um pedaço de terra, calcada pela desilusão,

Uma labareda de nada, entre sorrisos e abraços.

Sem ti, sou a cidade em combustão,

Crianças que guerreiam por um pedaço de chão.

Sem ti, os peixes cintilam dentro do aquário,

No leito cansado do pensamento.

Sem ti, sou um pequeno achado,

Palavra emagrecida, esplanada só, sem ninguém,

Sem ti,

Sou,

Aquele abraço aborrecido,

Dormindo na tarde.

Dormindo na esperança,

De um dia, sem ti,

Escrever nos teus lábios.

Sem ti, sou a personagem secreta da noite,

Sou lua enganada,

Sou luar das plantas inanimadas,

Sem ti, sou o jardim junto à calçada.

Sem ti, não sou nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/05/2020


13.03.16

Recordo o sono levado nos teus braços


Quando a manhã terminava de acordar


Recordo o cansaço


E a sinfonia do Adeus


Que escondeste no mar…


Recordo-te sem me recordar


O teu nome


Recordo-me sem me recordar


O teu sorriso


Do amar


Do amor


Enraizado no esplendor altar


As abóbodas do silêncio


Quando prisioneiras dos teus lábios


E um pedacinho de Paz


Leva o teu corpo para o abismo


Entre rochedos de medo


E beijos de nada


Recordo


O sono


Levado


Os teus braços nas trincheiras amarguradas…


Sem tempo para me abraçar


Ou uma fingida despedida.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 13 de Março de 2016


19.10.15

(Liberdade para Luaty Beirão e seus companheiros)


 


O amor encastrado nos teus lábios,


Os olhos vomitando lágrimas nos rochedos cansados,


O triste olhar das madrugadas,


Que só as gaivotas conseguem perceber,


As tuas minhas palavras,


Sem vontade de as escrever,


Sentido,


Sonhando,


Não saber


Sabendo


Que o teu corpo mergulha na cânfora manha acorrentada,


Uma lápide,


Sem nome


Sem nada…


Não quero a textura do aço


Quando sou chamado à noite sem razão,


Grito,


Sofro,


E abraço


A ténue solidão…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 19 de Outubro de 2015


15.06.15

Sinto a poeira dos teus ossos


No meu cansaço,


Sinto a sombra da eira


Nos meus ombros pincelados de Primavera,


Sinto a noite geométrica da saudade


Nos versos tristes embainhados,


Os soldados,


Nunca desistem de lutar,


Mas o mar fica tão longe…


Mas o mar… mas o mar deixou de pertencer à cidade,


E a cidade,


Hoje… é um amontoado de rochedos ensanguentados…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 15 de Junho de 2015


30.11.14

Sinto as tuas mãos


meu marinheiro iletrado


ensanguentadas


poisadas nos meus ombros de xisto


o rio se entranha nas minhas veias


no meu peito socalcos se embriagam


e sentem


o peso da despedida,


 


a lentidão da esperança


mergulhada no lixo poético do meu cansaço


e há mulheres tão lindas... esperando um abraço,


 


e há mulheres tão lindas... esperando um beijo


e sinto


as tuas mãos meu marinheiro iletrado


quando as candeias da saudade acordam


e fingem


que hoje é dia dos tentáculos de sal


das palavras enxertadas de insónia


e meu querido...


as minhas palavras são a febre que alimentam as hélices do corpo em cio


e do clitóris da estória...


sinto as tuas mãos...


meu querido!


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 30 de Novembro de 2014


04.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Rosa bravia como castelos de areia envenenados pela chuva da madrugada


silêncios de nada quando das mãos sobejam as porcelanas poéticas lágrimas nocturnas


rosa bravia como tu quando acorda a noite e dás-te conta que ficaste sentada


sobre uma cadeira imaginária


tempos infinitos


tempos... tempos sisudos,


 


Dizias-me que eras tua e que vivias no meu jardim


tínhamos um lago invisível com peixes de brincar


tínhamos flores, muitas flores...


mas rosas, como tu, nenhuma, nenhuma no meu jardim


construído apenas para te acolher


e embrulhar-te num lençol de água doce,


 


Despias-te


e brincava com as tuas pétalas de vinil voando sobre as melancólicas avenidas


que uma cidade louca


(louco és tu, talvez o penses em baixinha voz)


que uma cidade louca inventava para nós


e ias à janela do Adeus e lembravas-te da saudade e dos amigos loucos poetas,


 


Rosa bravia tu


comestível e amarfanhada entre os dedos da paixão


aos sons melódicos da tua respiração


ouvia-te os sussurros de mim


atirando-me as palavras sisudas


que as abelhas em cio deixavam sobre a tua pauta poeirenta e adormecida pelo cansaço de ti...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó



07.10.12

Não haverá abraços de Primavera


e beijos da Lua


papeis submersos na claridade da insónia


e lábios


de luz


da Lua quando a noite cai sobre a cidade das amoreiras


com imensas ruas de acácias


e janelas de porcelana


 


não haverá abraços


e beijos da Lua


tua boca adormecida


 


e eu cambaleio dentro do silêncio do desejo


 


não


não haverá abraços


e beijos da Lua


e eu


e eu canso-me de procurar a sombra lilás dos teus seios


que o rio evapora ao pequeno-almoço


 


e eu cambaleio dentro do silêncio do desejo.


 


(poema não revisto)


06.06.12

O espesso cansaço


que desperta nas cores de uma tela


a infinita despedida


sem apreço


nem abraço


o espesso cansaço


na hora da partida


no interior de um janela


 


o espesso cansaço


no espelho magoado


à imponente despedida


 


o espesso embriagado


cansaço enforcado


numa rua sem saída.

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