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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.01.20

Jazem na minha mão as palavras da saudade.


O mar alicerça-se no quadriculado caderno da madrugada,


Sílabas loucas,


Corações abandonados, numa esplanada de areia,


Esqueletos vadios,


Cansados de viver,


A luz traz as amoreiras em flor,


Mártir silêncio dos poemas adormecidos,


A paixão dos mortos,


Quando um barco se perde no Oceano,


O marinheiro afoga-se no poema,


Lê em voz alta, para todos ouvirem, os mandamentos das gaivotas,


E, sem regressar, procura o sexo na escuridão.


Salta da maré um pequeno veleiro adormecido,


De lágrimas nos olhos, grita pelas almas que partiram,


Ninguém o ouve; a luz.


Todas as manhãs, antes de acordar, o marinheiro chora pelos que partiram,


Ao longe, uma bandeira em demanda,


Sofre, grita,


Mas… não adianta.


Pelos vistos, os mortos não regressam nunca ao local de partida.


O corpo escurece,


Derrete nas pálidas madrugadas, quando do silêncio, uma criança brinca no convés do navio,


Todos os barcos, loucos,


Internados em Psiquiatria,


Enfermaria azul, cama vinte e cinco,


Drageias para todos os navios,


Não dormem,


Mas… sofrem.


Sofrem de quê?


Do silêncio,


Da solidão que provoca o silêncio.


O amor nasce entre os cortinados do camarote,


Na enfermaria, um dos barcos internado, grita pelo enfermeiro;


SOCORRO!


E, ninguém. Ninguém o ouve.


Apenas o comandante está autorizado nas visitas, poucos minutos, servem para acariciar-lhe as âncoras da tristeza,


QUERO SAIR DAQUI.


Todos o queremos.


Uns, mais, outros, menos.


Mas os barcos são teimosos, e, firmemente, alegremente, fogem…


E, só a paixão dos mortos consegue sobreviver ao destino.


Sofre. Grita.


Zurra nas amêndoas em flor, descendo socalcos,


Subindo rochedos,


E outros demais silêncios.


A loucura pertence aos pássaros,


E, aos barcos.


Torna-se na viagem mais inclinada do Universo,


Quando todos sabemos, que o mar, os pássaros e, os barcos,


Morrem.


Morrem nas clandestinas sanzalas do silêncio.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/01/2020


17.12.17

Conheci-te na plenitude da vida,


Eras uma árvore sem destino,


Cansada de habitar o meu jardim,


Parti e ficaste suspensa no cacimbo, e, até hoje, vives na clandestina noite,


Ausente,


Permanentemente sofrida com os corpos que abraçaste,


Longínqua tarde de despedida,


Nada a fazer, meu amor,


A saudade alicerça-se ao olhar dos flamingos,


Saltitando na tua sombra,


A morte, a sofrida morte entre parêntesis,


Numa pequena folha de papel…


 


Conheci-te era eu criança, menino sem destino,


Brincava nos teus braços,


Como se fosse uma andorinha na Primavera,


Alegre, agachava-me debaixo de ti, meu amor,


E, alegremente sonhava com os teus frutos,


As mangas, as folhas caiam derradeiramente sobre o meu cabelo,


E dos calções, as primeiras palavras escritas no teu tronco,


 


Amo-te!


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 17 de Dezembro de 2017


01.08.17

Uma janela com vista para o mar,


O barco da despedida espera-me, e brevemente estarei nos teus braços,


Um livro recheado de imagens a preto-e-branco,


Renasce na tua mão. Posso manuseá-lo, mas perco os desenhos imaginados pelo louco autor das searas imaginárias,


Enquanto o trigo se despede da planície…


 


Eu brinco com o teu olhar escondido na sombra das árvores.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Agosto de 2017


24.02.15

Desenho_A1_056.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


quando as palavras semeadas no papel envelhecido


morrem


aquele que as escreve


despede-se


entre lágrimas e falsos sorrisos


um desenho insignificante


poisa docemente no vulcão da madrugada


sem mágoa


ou... ou paixão


abraça-se à noite dos tristes aconchegos


grita pelos sonhos


e... e em vão...


 


percebe que a vida é um triângulo de luz


voando nas ruas húmidas do desejo


tenho medo do silêncio


e do cansaço dos dias junto ao rio...


aquele que as escreve


despede-se


e parece um vadio


esmiuçando ossos e cigarros


ou... ou talvez não...


porque tem no corpo um vazio


um buraco negro recheado de insónias e imagens sem nome


como têm os pássaros nos prismas imaginados por uma árvore doente...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015


 


28.10.14

Os relógios enferrujados


encolhidos nas tristes alvenarias


as janelas escondidas...


no olhar da serpente


 


as estilhas adormecidas


nos pregos dentados


os relógios... os relógios encalhados


em rochedos rendilhados


 


o pólen de um olhar


semeado na escuridão


e os relógios sem fôlego


e os relógios... e os relógios sem pão


 


e a paixão?


matriculada nas putas avenidas


correndo


saltando... os muros embriagados dos ossos embalsamados


 


os relógios...


escrevendo na pele da solidão


horários enlouquecidos...


sem vontade de sonhar


 


sonhar a paixão?


há cadáveres perdidos


na eira da infância...


colchas de linho... suspensas nas árvores tombadas no chão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 28 de Outubro de 2014


14.08.14

Uma casinha habitada por pequeníssimas lâminas de papel,


um coração de cacimbo voando sobre as sanzalas com telhados de insónia,


um homem, um poeta..., e a amante do poeta,


um corpo pendurado na preia-mar,


que espera o regresso do sonâmbulo cansaço da madrugada,


o silêncio disfarçado de mendigo passeando-se pelas ruas da cidade,


uma janela que nunca, que nunca se abre,


um poema nas mãos da clarabóia com braços de luar,


uma casinha,


e lâminas de papel,


um sorriso, um desejo... e três círculos de luz nos lábios do pôr-do-sol,


o sonho...


 


As paisagens pigmentadas nas paredes da casinha,


as palavras acorrentadas no estendal poético,


uma eira deserta, uma eira de vinil girando na noite...


e o sonho,


e o lugar que me falta alcançar antes de morrer,


a escola morta, a escola um amontoado de escombros,


cadernos apodrecidos,


quadriculados momentos que ficaram sob a árvore de sisal,


um menino brincando com um velho “chapelhudo”...


e um triciclo com o assento em madeira,


o mar, o mar do Mussulo em tracejadas rotações de amar,


no sonho, no sonho de voar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014


17.07.14

Não me perguntes onde vivem as cidades com coração de pedra,


porque a noite é escura, porque a noite é bela, e sombreada...


não me perguntes de quantos desejos estou à espera,


porque não espero desejos,


porque não existem desejos nas cidades com coração de pedra,


 


Não me perguntes a cor do meu olhar,


não,


sim, sim... eu tenho olhar,


mas... mas não desconheço as cores,


mas... nunca vi o mar, o amor, e as flores,


 


Não me perguntes...


porque há em mim uma lâmina em betão armado,


triste,


triste e cansado,


não,


não me perguntes pelas árvores do meu quintal,


não, e nunca... e nunca tive um quintal,


e nunca, até ver... fui... fui degolado,


posso ser parvo,


e louco,


mas... mas não conheço as cores,


mas... mãos não sei o significado de “amores”,


 


Tudo para mim é pouco,


e perguntarem-me pela madrugada é como se me tirassem os livros, e o luar,


e a insónia, e todos os sonhos de criança...


 


Não me perguntes onde vivem as cidades com coração de pedra,


não me digas que amanhã os beijos são de papel,


não, não o suportaria...


que um dia,


que um dia me perguntasses como são os meus lábios enquanto dormem...!


 


Porque,


Porque os meus lábios nunca, nunca, porque os meus lábios nunca dormem.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 17 de Julho de 2014


04.05.14

esta casa sem mãos


esta casa com paredes de papel


esta casa sem janelas


porta de entrada


sem música


ou... palavras,


 


esta casa disfarçada de corpo


o teu corpo vestido de granito


esta casa


este grito,


 


esta casa sem amor


nem luz


nem... nem flores


esta casa vadia


escondida nas árvores do quintal imaginário


coitada desta casa apaixonada


que sofre


que vive...


esta casa


uma casa embrulhada em poesia


esta casa sem paixão...


esta casa... uma casa sem coração.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 4 de Maio de 2014


18.04.14

quatro bancos em madeira


um jardim em desassossego


três árvores


… duas belas mulheres


uma Primavera


com plátanos de brincar


quatro bancos em madeira


dois corpos em translação


quatro seios em rotação


… e duas belas mulheres


duas mulheres em solidão


quatro bancos em madeira e uma gaivota em papel


 


um barco com pálpebras de chocolate


um marinheiro vestido de vampiro


duas belas mulheres


e quatro bancos em madeira


percebem na insónia a sinfonia dos candeeiros com braços de prata


um jardim em desassossego


um Oceano desgostoso


triste...


tão triste como os fios de nylon que aprisionam o sexo dos pássaros


uma Primavera inventada pelo poeta dos farrapos amanhecer


senta-se nos quatro bancos em madeira...


… acaricia as duas belas mulheres e as três árvores


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 18 de Abril de 2014


29.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Ele tinha um coração em pedra, daquela pedra ínfima que alimenta os beijos nocturnos dos pássaros,


vinha a chuva, e viam-se-lhe as perdidas chapas de zinco nos pobres telhados da madrugada,


hoje, ele, hoje ele dispensa o significado da palavra “AMOR”, porque onde a tinha escrito, na folha caduca da árvore tombada, essa, essa... morreu, morreu a palavra... morreu a árvore tombada,


fingiam-se amantes abraçados aos pinheiros mansos no recreio da escola, e sempre, e sempre havia uma janela em ruínas, pedaços de lágrimas que sobejavam do sino da Igreja,


ao longe sentiam-se os feirantes que tudo vendiam, e de nada servia gritarem... “Vendem-se Beijos Embalsamados”, porque de beijos, nada, nem o vento, nem o triste amanhecer na boca dela,


 


Desenhei-lhe os lábios na esplanada do falso diamante,


escrevi nos seus seios “AMAVA-TE”..., hoje escrevo, não, hoje nada lhe escrevo, porque o amor desaparece e aparece como as sombras dos barcos em movimento,


recordo o púbis coloidal do imaginado olho de vidro, fundeado na minha mão,


a mesma que depois de suicidada, acariciava-te os esconderijos do néon vaginal,


e assim, ele tinha um coração em pedra, e assim... ele dorme sobre as candeias do luar.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Março de 2014


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