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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

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19.04.16

A ponte desesperada.


O silêncio amargurado das velhas esplanadas


Caindo do Céu como serpentes de aço


Voando sobre o cansaço


Das velhas madrugadas,


Morro de medo que apareça a tua mão no meu peito,


Fico sem jeito


E deixo de sentir a alvorada,


A ponte desesperada,


A ponte enigmática sobre o rio da solidão,


O peito na mão


Sem mão,


Esperada vaidade dos alicerces da cidade,


A ponte, desesperada; a infinita sombra do sufoco,


A chuva dos dias envergonhada pelas cintilações do medo,


E eu, e eu vou partir.


Vou deixar este caderno e esta esferográfica de carvão…


O meu testamento,


A minha vontade,


A garganta desafinada


Quando desce sobre mim a brisa do amanhecer,


Sinto o frio da saudade,


Sinto o calor do desejo


Na espuma dos dias ambíguos,


Ausentes de mim.


Atravesso o desassossego.


Morro enquanto lêem o poema da tristeza


Que atravessa a ponte


Dos transeuntes embriagados,


Sinto o fumo do teu corpo


Neste velho sótão sem nome,


Ao longe vejo a ponte desesperada,


E tal como eu, em frente ao espelho, também um desesperado apaixonado,


Um velho caixão de sombra


Descendo a calçada da morte,


Então a ponte está desesperada?


Ponte. O desespero da carnificina dos cadáveres cerâmicos,


Cacos, pedacinhos de algodão


Rompendo pelo sótão adentro.


A ponte desesperada,


O silêncio na ponte


Enquanto o meu corpo sente…


O desespero da ponte.


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 19 de Abril de 2016

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