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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.07.23

O comboio

Com destino a Santa Apolónia…

Dará entrada na linha dois dentro de momentos,

Uma Donzela

De cabelo pincelado de vento

Pergunta-me se tenho isqueiro…

Digo-lhe que não fumo

Que nunca fumei…

Nem fumarei

Coisas estranhas,

 

Ela diz-me que para ter isqueiro

Não preciso de fumar

Porque posso transportar na algibeira uma esferográfica…

E nem saber escrever,

(pensei: ela é muito inteligente)

 

Passeio-me pela rua Augusta

Com um par de asas…

E que nem voar sei,

Pergunta-me ela…

O que são as pirâmides da insónia…

Respondo-lhe que nem sei o que são pirâmides…

Quanto mais essas coisas da insónia,

 

Claro que não

Voar dá muito trabalho.

 

Um gato aproxima-se

Dá-me um beijo na face esquerda

E segreda-me que está loucamente apaixonado por mim

(e eu que odeio gatos e os gatos também me odeiam)

Mulheres vendem o corpo a retalho

Por catálogo

Bebem uísque de Sacavém…

E dizem-se felizes

E dizem-se…

Tanto como eu…

 

Junto ao rio há um barco em apuros

Os meus cigarros parecem lareiras depois da meia-noite

E do livro que poisa na minha secretária…

Oiço a voz do silêncio,

 

Senhores passageiros

O comboio com destino a Santa Apolónia

Dará entrada na linha dois…

E partirá

Se chegar a partir…

Às dezanove horas e dois minutos,

 

Hesito

Ela hesita

Fico na dúvida se sigo destino

Ou se eu e ela desertamos…

E vamos apanhar o comboio

Com destino a uma pensão barata…

Que nas paredes em gesso

Tem frestas e um pequeno crucifixo,

 

E eu detesto

Odeio

Escrever o mais lindo poema de amor

No corpo de uma desconhecida

E ter Cristo suspenso num pedaço em madeira…

A olhar-me,

 

Fico sem jeito.

É como estar a fazer amor com a vizinha…

E o marido a olhar-me,

Poisei a esferográfica

Peguei num lenço em papel…

E aprisionei os olhos de Cristo,

 

Na tarde seguinte

O saudoso guarda Saraiva

Vai a minha casa

Vai a minha casa e pergunta à minha mãe se eu estou…

Claro que não

Senhor Saraiva…

Ele nem sabe voar…

Ele foi para a tropa!

O saudoso guarda Saraiva

Um pouco comovido

Diz à minha mãe que eu ainda não tinha aparecido no quartel…

Ela fica aflita

Depois mais calma…

E responde-lhe…

Talvez ele fosse voar nos braços de alguém…

 

Talvez ele esteja a rezar

A Cristo…

Ou a escrever um poema nos lábios da noite

Numa qualquer parede

De uma pensão de merda

Onde só pernoitam putas

E gajos a vender o corpo,

 

Do Tejo

E da Calçada da Ajuda

Muitas más notícias…

Ficaria de castigo duas semanas

Ausente de casa,

 

Fiquei feliz,

Muito feliz…

 

Entro no carro

Coloco o sinto de segurança…

E logo após este começar em marcha lenta

De Cais do Sodré… para Santa Apolónia

Começo a sentir a mão do oficial graduado…

A acariciar-me

E repentinamente

Fiquei na dúvida

Se lhe partia os cornos

Ou abria a porta do carro

E me lançava contra o Tejo…

 

E que dia de merda

Pensava eu

Junto ao Tejo…

 

As doze badalas nascem no quinto esquerdo

São duas da madrugada no rés-do-chão direito

A temperatura está agradável…

O comboio com destino a Santa Apolónia está quase de partida…

Na linha dois

E no duzentos e doze

Cristo consegue finalmente libertar uma das mãos

Retira o lenço em papel que lhe aprisionava o olhar

E em gritos histéricos…

TENS UM ERRO DE ORTOGRAFIA NA MAMA ESQUERDA DA TUA DESCONHECIDA…

Fiquei sem jeito

Um pouco envergonhado

E cuidadosamente pego na minha mão direita com a ajuda da minha mão esquerda…

E que sim…

Em vez de escrever desejo-te

Escrevi “desejou-te”

Ainda mais envergonhado fiquei,

 

Enquanto o comboio

Aos pucos

Despede-se de nós…

E quando acorda a manhã…

Estava só…

A desconhecida tinha ido apanhar o comboio das oito da manhã…

Para Santa Apolónia.

 

 

 

02/07/2023

Francisco Luís Fontinha

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