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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.01.13

Ouviam-se os petardos anárquicos misturados nas palavras amargas, às vezes, um fino fio de mar corria pela casa, e entre a sala de jantar e a cozinha, flores, tínhamos flores em recipientes cerâmicos, de várias cores, pintavas-os com os restos de tinta acrílica dos meus tubos que ias buscar ao meu atelier, metias as mãozinhas no bibe, e de cabelo balançando dentro do vento que acabara de sair da caixa de madeira, dizias-me


Pai, porque não há pássaros hoje, e perdia-me em explicações complexas, porque estava frio, porque já era quase noite, e porque dentro de casa não há pássaros,


Mas pai, podia vê-los através da janela, ou não,


Não sei, sei, não, sempre tive dificuldade em conversar com miúdos, sempre, e sentia que tinha à minha frente um miúdo com seis anos a perguntar ao pai


Porque voam as mangueiras quando desce a noite, pai?


Porque amanhã é sábado, respondia-lhe ele,


E pai,


Sim filho,


Os barcos pai


Que têm os barcos Francisco?


Os barcos voam?


Não, não voam,


Porquê?


Mas pai, podia vê-los através da janela, ou não,


Não sei, sei, não, sempre tive dificuldade em conversar com os pássaros e com as flores e com a sombra das mangueiras, e


Pai, quando chegarmos a sábado os barcos vão voar?


E


E pai,


Sim filho,


Os barcos pai


Que têm os barcos Francisco?


Não, não vão voar. os barcos não voam, as mangueiras não voam, e o mar


Os barcos pai,


E o mar em finos fios a correr pela casa, ouviam-se os petardos anárquicos misturados nas palavras amargas, às vezes, trazias nos olhos lágrimas de prata, tinhas asas de vidro, e quando te perguntava


Matilde, mexeste nas minhas tintas?


Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir


Não, não mexi, pai


Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir


Pai?


Sim, Matilde!


A mãe?


Que tem a mãe?


Onde está?


Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir, e tínhamos flores em recipientes cerâmicos, de várias cores, pintavas-os com os restos de tinta acrílica dos meus tubos que ias buscar ao meu atelier, metias as mãozinhas no bibe, e de cabelo balançando dentro do vento que acabara de sair da caixa de madeira, aos poucos aproximava-se da grande cidade o paquete com ventos lilases e folhas de árvore empobrecidas pelo sal e devido ao calor, transpiravam os carros junto a Belém


Não sei, Matilde, nunca soube onde está a tua mãe,


E os carros arfavam, e tu sorrias, e eu empoleirado nas grades ouvia os pedaços de fumo do cigarro de um magala que pelo fardamento devia andar nos lanceiro, na Ajuda, sentado e de pernas cruzadas, sobre as coxas via um caderno com uma capa que tinha desenhos de flores, via também um livro “O Doutor Jivago” de Boris Pasternak, e ao longe, nos jardins de Belém dois amantes provavelmente separavam-se eternamente para o todo e sempre, ouvias-lhe


Sim, Matilde!


A mãe?


Que tem a mãe?


Onde está?


Ouvias-lhe as lágrimas de prata e tu, com asas de vidro, sorrias, ouvias-lhe os silêncios entre as árvores e os arbustos,


Tenho de ir


Porquê pai?


Já alguém te disse que tens o coiso grande?


Não sei, Matilde, nunca soube onde está a tua mãe,


E aos poucos Lisboa entrava dentro de mim, e aos poucos sentia a paixão da cidade a entranhar-se nos meus frágeis ossos, de galinha de aviário, e perguntei ao meu pai


Pai, vamos para onde?


Olhou-me, lançou o cigarro ao Tejo, a sorrir e a abanar as asas, sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir, Pai?


Vamos para Alijó.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó

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