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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

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09.12.15

Entranhei as mãos no teu corpo de porcelana


Parecíamos dois pontos de luz em direcção à morte


Sem passaporte


Clandestinos destinos


Das madrugadas infelizes


Tínhamos no sorriso todas as fotografias da infância


Ai… ai meu amor


A tua partida


O abismo das tardes sem ouvir a tua voz


Que a janela da biblioteca absorvia


As coisas parvas que recordávamos


Sítios


Costumes


E palavras não ditas


Suspirava quando te via


Estranhava a palpitação do meu coração


Uma máquina absorta


Nas montras da velha cidade


Os apitos dos teus seios


Chamando-me para o desembarque


Os marinheiros aflitos


Embriagados


Sonolentos


Quando nos teus lábios acordavam beijos


E lamentos


Entranhei as mãos


Na caneta de tinta permanente


Escrevi no teu corpo todos os poemas da noite


(sempre te amei na noite)


Escrevia no teu corpo como se brincasse nas planícies do sofrimento


Deixei de estar presente no teu ventre


Desenhei pássaros na tua face rosada


E bebíamos como se o amanhã não existisse mais


Amava-te


Como amo as sombras desta casa


A lareira embriagada nos trilhos das montanhas da paixão


Novamente o abismo da escrita


O sexo suspenso na clarabóia do luar


Os gemidos invisíveis das noites com geada


Os términos suspiros das alvoradas


Amava-te


E tinha medo do teu cabelo


Como ainda hoje tenho medo do teu cabelo


Veio o sonho


Trouxe a morte


E acordaram todos os vampiros da madrugada


As motorizadas dos caquécticos transeuntes


Contra o medo dos dias


Tinha-me esquecido de acordar


Tinha no quarto uma fenda no espelho


Eu parecia um monstro


Uma ribeira em direcção ao púbis do Rio


Depois acordava o mar


Depois acordava o amor


A paixão


E a desilusão de não te amar


Os lençóis quase em brasa


O suor acorrentado à tua pele de cereja


Ai… ai meu amor


Que inveja


Que saudade


São dóceis as brincadeiras do teu olhar


São dóceis os sofridos orgasmos das tuas lágrimas


E tão longe


O mar


E tão longe


O mar de papel que habita nas tuas coxas…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015

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