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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

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12.04.15

Ouves-me


Meu amor?


Os pássaros e as flores


Têm sonhos…


Amam


São amados


Brincam nas calçadas de luz


Recheadas de flores


E promessas


A vida parece-me um cadáver


Ensanguentado


Tão frio


Meu amor


Tão frio…


O teu corpo imaginado


Que só o espelho do meu quarto


Consegue projectar


No teu olhar


Flácidas manhãs


Meu amor


Canções de cansaço


Descendo a Calçada da Ajuda


Tropeçava em ti


Meu amor


E caia junto ao rio


Completamente


Meu amor


Embriagado pelas palavras do teu silêncio


Adormecido


Tristes


Ausências


Sem


O destino


O menino


Dos calções


Galgando marés de inferno


Ao pequeno-almoço


Torradas


Leite


Café


O barco


Cambaleando na solidão do vazio


Demoradas veias de argamassa


As construções erguiam-se até a Céu


Sentia todas as manhãs


O cheiro das palavras


Tão frias


Como o teu corpo


Meu amor


Do mármore cancerígeno


O teu sorriso vestido de esperança


O dia estava tórrido


E


Tombava no pavimento das lágrimas


A parada


Uma velha espingarda


Meu amor


Os pássaros e as flores


Sonham?


Amam?


Se apaixonam


Como


Nós


Meu amor?


Como sei se me amas


Se ouves todos os dias os meus poemas


Embalsamados nas ruelas da Ajuda


O frio


Teu


Corpo


Em viagem


Em gravitação


Os lençóis impregnados de desejos


Rodas dentadas


E parafusos


Os moldes


E as equações


Embrulhadas no cemitério da vaidade


Meu amor


A vida


Depois


Da morte


A vida depois da morte?


Acreditas?


Meu amor…


Os guindastes das dores de cabeça


As guitarras brincando numa eira


Longe


De ti


Que


Não


Sei


Se


Existes


Existes


Meu amor?


Como será a alvorada em Marte


Meu amor!


Descia


Descia


E


Tu


Subias


Subias


Descia


Acordava em Cais do Sodré


Trazia uma lápide de sono


Na testa


Amo-te


Ouvia-se dos paralelepípedos da razão


Os uivos do cão


Havia sempre um gajo pronto a engatar


E outro


Meu amor


E outro sempre pronto para ser engatado


Os beijos


Meu amor


Subíamos a Calçada até às cinco da madrugada


Descíamos até ao Tejo


Tu


Suicidavas-te


Depois


Eu


A olhar-te


Como hoje


Sem ninguém…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 12 de Abril de 2015

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