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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.05.23

Dormíamos na copa das árvores.

Regressava a noite,

O Alfredo, sonolento, encostava-se ao interruptor do silêncio…

E segundos depois, acordavam todas as estrelas.

Meia-dúzia de putas…

Desciam a rua e encostavam-se a Cais do Sodré,

Regressava o vento lá dos lados do Tejo,

Depois, descíamos da copa das árvores,

Desenhávamos um abraço na doce manhã…

Fumávamos um cigarro,

E nada,

 

E nada vezes nada,

O zero medo quando os planetas machos procuram os planetas fêmeas,

Da varanda, a linda serpente embrulhada nos braços do Alfredo,

E tínhamos medo, e sempre que olhávamos o Tejo,

Um petroleiro com fome poisava em nós…

E acabava sempre, mas sempre, nas algibeiras da insónia.

Dias depois, o Alfredo…

PUM.

Dizem que por desgostos de amor,

Pegou no revolver…

E zás,

Um tiro nos cornos e dizem,

Dizem que ganhou um par de asas,

Asas,

Ou talvez cornos,

Já nem sei…

Passou tanto tempo, meu amor,

Tanto tempo escondido dentro daquele pedaço de silêncio,

E há tanto tempo que o Alfredo deu o tiro nos cornos…

Pedia-lhe perdão,

E ela,

Nada,

Zero vezes zero…

O zero primeiro milagre dos tristes embondeiros,

 

Ouvíamos os mabecos esfomeados em busca de sexo,

Num dos bolsos da gabardine,

O isqueiro,

E no outro…

A pedra e o livro das mortalhas,

E sabíamos, e sabíamos que brevemente,

Estávamos nos braços de um do outro,

 

Erguia-se da cadeira, olhava cada livro estacionado na biblioteca…

Depois, depois segredava-me…

Não gosto de ti.

Que se foda, pensava eu, e pensava bem,

E pensam bem todos aqueles que pensam.

Porque pensam.

Porque estão bem,

E quando tudo está bem…

Não se muda uma palavra ao poema.

Eu lia-lhe AL Berto no sorriso de um pedacinho de sémen,

E ela gostava tanto dos poemas de AL Berto…

Que eu, rapaz nada ciumento,

Sentia os meus primeiros capítulos de ciúme;

Os poemas de AL Berto.

 

Regressava a noite nos lábios da coruja,

Ele nunca soube o significado de ser amado…

Ele nunca soube o significado de ser desejado…

E, no entanto, ele amava todos os barcos do oceano,

E, no entanto, ele morreu, sem que todos os barcos do Oceano soubessem.

Despia-a na lentidão de Milan Kundera,

Acariciava-lhe os lábios entre os pequenos destinos de luar,

Começava a escrever no seu corpo todas as palavras que tinha recolhido durante a noite…

Mas como sempre, ela, horas depois, evaporava-se e depois de entrar na neblina sobre o Tejo…

Coitado do Alfredo,

Coitado,

Um tiro nos cornos…

E um par de asas em camurça.

 

Eu desenhava nas frestas da parede em gesso, junto a um crucifixo,

Todos os seus gemidos,

Todos os seus beijos,

Desenhava nas frestas da parede em gesso,

A paixão e o amor,

E enquanto fodíamos,

Cada um de nós pertencia ao sorriso da lua,

Ela dizia que queria ser bióloga,

Eu…

Quanto a mim,

Nada.

Quero lá eu ser isto e aquilo ou aqueloutro…

Para que quero eu um carro com tantos cavalos?

Nem tenho terreno onde os deixar durante a noite a pastar…

 

O relógio tinha-se esquecido de nós,

O marido dela estava de regresso do outro lado da rua,

E eu,

E eu tinha de apanhar o cacilheiro para o primeiro beliche que encontrasse,

Corria, corria e pensava como poderia um dia desenhar nas nuvens a primeira lágrima da manhã,

Mas como sempre, não o consegui; decididamente não sei desenhar lágrimas,

Não sei o que é uma nuvem…

E o relógio, sorria-me.

 

Amanhã é sábado, meu amor.

E depois?

O que me interessa a mim,

A mim,

Se amanhã é sábado,

Se ontem foi quinta-feira…

Ou se daqui a uns dias será terça-feira,

Se estamos em Janeiro ou em Outubro…

Ou no Natal.

Mas amanhã é sábado, meu amor,

Pois,

Pois,

E o Alfredo que se foda,

Pensas que vou deixá-lo sozinho com uma bala nos cornos?

Amanhã é sábado, meu amor…

Não. Os meus amigos são os meus amigos. E tive-os bons…

 

E eu vou começar a escrever-te cartas.

Olha, cartas de amor,

Com as palavras de um transeunte das noites de Alcântara…

Terra à vista,

Barcos na algibeira,

O comboio não pegou hoje,

Deve estar constipado, meu amor,

Só pode estar constipado.

 

Tantas flores, meu amor,

Tantas flores que lançámos da janela,

E hoje tratam-nos como dois viciados da poesia de AL Berto…

Dos jardins de Belém,

Quando da noite…

Regressavam os Mercedes Topo de Gama,

(CD),

E eu, meu amor,

E eu apontava num pequeno caderninho…

Todas as matrículas do sono.

 

Dias antes de o meu pai morrer,

Enquanto retirávamos a documentação para posteriormente entregar à agência funerária…

Eu, acreditas meu amor,

Eu estava lá; eu e a minha avó Valentina.

Que coisa estranha, meu amor…

Quantos anos eu andei dentro daquela carteira.

Quantos anos…

Quantas noites...

Quantos dias e horas e minutos e segundos e milésimos de segundo…

E eu, meu amor,

E eu nem carteira uso…

E eu, e eu nem um filho tenho para deixar o seu retracto dentro de uma carteira que não uso,

Que não tenho,

Que nunca tive

E que nunca terei.

 

Abraçava-te sabendo que depois de percorreres a ponte…

Te lançarias para o rio.

Mas eu, o covarde de sempre…

Nada,

Eu, nada.

Deixei-te morrer.

Deixei morrer os teus poemas e as palavras dos teus poemas…

 

Hoje, meu amor,

Hoje sou um velho sentado numa pedra cinzenta,

Fumo os cigarros da angustia e da puta que os pariu…

Desenho barcos na areia das tuas coxas…

Escrevo poema no sorriso dos teus seios…

E sei que um dia,

Qualquer dia,

Dentro do dia,

Depois de ser dia…

Morrerei…

E vão dizer,

Sim, meu amor,

Vão dizer que naquela pedra cinzenta,

Naquela pedra de ninguém…

Era a pedra onde se sentava o poeta dos sonhos.

 

 

 

Alijó, 03/05/2023

Francisco Luís Fontinha

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