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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


18.04.15

O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração


É o pedestal sem estátua


O amor é a lágrima da solidão


Descendo docemente o teu corpo


Enrola-se nos teus seios


Poisa pausadamente nas tuas coxas


E dorme no teu ventre


Crescem dentro de ti as palavras


E os Oceanos de Luz


Corre o rio da insónia


Que a noite leva


E come


Nas cidades sem pálpebras


O sangue


O teu


Voando em todas as Primaveras


Do calendário da paixão


Alicerça-se à tua boca


Como sargaços de aço


Em morte lenta


Junto ao barco do destino


A madrugada incendiada


Pelos teus lábios de inocência


Como os livros que nunca vou escrever


Uma noite


É o amor nocturno sem vagar para abrir as comportas dos líquidos sonoros do teu púbis


A janela sem cortinado


Lá fora


As miúdas de palha de patins em linha


Danças


Sobre a cama


Suspendes-te no tecto da saudade


Sem ter tempo para a saudade


Uma noite


O amor


Não tem saudade


É o volátil cansaço dos jardins em flor


Os tentáculos de marfim


Nos dentes de um crocodilo


Velho


Uma noite


Alicerça-se à tua boca


Como sargaços de aço


Em morte lenta


Os tristes poemas da amargura


O cais em engate


Como às cordas do silêncio


No pescoço da alvorada


No teu corpo


O corpo


Do cacimbo embriagado


Na tua mão


A enxada da poesia


E o medo toma conta de nós


Não percebo os segredos proibidos


Das clarabóias do infinito


Vejo no teu corpo


A lua recheada de poeira


Ao centro


Sobre a mesa


O teu corpo


Despido das pétalas em cartolina colorida


A sombra do teu cabelo deitada na almofada


O primeiro beijo antes da primeira palavra


(O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração


É o pedestal sem estátua


O amor é a lágrima da solidão


Descendo docemente o teu corpo


Enrola-se nos teus seios


Poisa pausadamente nas tuas coxas


E dorme no teu ventre)


A primeira palavra


Antes do primeiro orgasmo


A sílaba no teu primeiro poema


Escrito no meu corpo


Ensanguentado de veludo


E de fotografias de mortos


Aleatoriamente dormindo na montanha da melancolia


A ardósia tarde partindo em direcção ao mar


Leva-te


Leva-te como são levadas todas as manhãs da minha secretária


O teu corpo


No meu corpo


Invisíveis marés de espuma


O sémen desenhando círculos no teu olhar


E dizem-nos que o impossível


É possível


É comestível


E no entanto


O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 18 de Abril de 2015

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