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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

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20.10.21

Corríamos abraçados ao tempestuoso silêncio dos peixes, sob a lâmina gélida de água envenenada pelas palavras insignificantes do poema, uma pequeníssima sílaba de fome mergulhava na mão do poeta,

Preza-me informá-lo que acabaram de zarpar,

Todas as palavras do livro.

Enquanto a pequeníssima sílaba de fome mergulhava na mão esquerda do poeta, apanhado sol e banhos, brincava na mão direita do mesmo um pedacinho de desejo, olhos verdes, dentes desenrascados e escurecidos, devido às manhãs de orvalho que se faziam sentir junto ao rio e, em finíssimos fios de luz, o desejo sentia-se cada vez mais acorrentado ao infinito colorido beijo que, poucas vezes era visto, se fazia passear pelas planícies de amendoeiras em flor,

Do livro, no primeiro paragrafo, saltitava a abelha brincalhona, tricolor, que quando transportava na língua o enfeitado beijo, semeava pelos campos enflorados das montanhas sem nome, depois, dizia-se que o velho pastor, apoiado a uma bengala de sombra, descia os íngremes lábios da tela ensonada que poisava desde a infância numa das paredes do casebre,

Móveis, quase nada, papeis e livros, aos magotes e, assim viviam, pastor, livros, móveis nenhuns e cadáveres de cigarro,

Todas as palavras do livro,

Preza-me informá-lo que acabaram de zarpar, deixou as cabras e as ovelhas prisioneiras à orfandade, esqueceu-se da bengala de sombra junto ao marmeleiro, depois

Amendoeiras em flor e afins.

Depois, após longos segundos de espera, que no relógio da abelha apenas representavam poucos minutos, mas o pastor não sabia transformar segundos em minutos, isso era apenas prazer das abelhas tricolores, depois, como comecei no pressuposto que o beijo pertencia ao cemitério das laranjeiras, onde semeavam cálices de porto e xicaras de café com natas, verificava-se que no bolso esquerdo do pastor, onde habitava uma pequena côdea de pão paralelepípedo granítica, devido aos dias e anos de convivência, existia o testamento do pastor,

Assim dizia:

 

Após a minha morte, deixo todos os meus bens, materiais e imateriais ao meu filho.

 

Assinado

 

O pastor.

 

As cabras e as ovelhas, todas e todos, mais as saudosas abelhas tricolores, ficaram atónitos, pois sabiam que o pastor tinha muitos papeis e livros, moveis nenhuns e, e quanto ao filho, bom

Faz-se frio junto ao rio.

Numa noite de Inverno, há muitos anos, enquanto brincava junto à lareira com o seu rebanho de sonhos, o pastor desenhou na lápide da cozinha, um pequeno filho invisível, daqueles que só existe dentro de nós, nessa altura, uma das três abelhas tricolores, perguntou-lhe como se apelidava ele, ao que lhe respondeu

Silêncio.

Anos depois, passados milhões de segundos entre os ponteiros do relógio, tanto cabras como ovelhas não sabiam, caso o pastor morresse um dia, como avisar esse filho invisível, mas caso acontecesse, tinham de o fazer.

O lobo, indiferente a testamentos e filhos, porque filhos tinha muitos e bens materiais e imateriais, nenhuns, sentado na pedra da saudade, puxou de um cigarro e,

Querem ver que o gajo já é Doutor!

E,

Circundava com o olhar as cabras, as ovelhas e as abelhas, porque em caso de fome, até as abelhas marchavam.

Uma flor de néon brincava na areia fina do Mussulo, o pequenote desenhava círculos verdes com olhos trapezoidais, ao longe, talvez do outro lado, junto à baía, passeavam-se os longos e transeuntes apitos dos petroleiros em fúria e,

O pequenote, entre soluços, chorava

 

Assim dizia:

 

Após a minha morte, deixo todos os meus bens, materiais e imateriais ao meu filho.

 

Assinado

 

O pastor.

 

As cabras e as ovelhas tinham andado na escola, aprenderam cálculo e álgebra e geometria, quanto às abelhas, essas

Eu sou mais bolos,

Essas tinham envergado pela poesia.

Chorava sem perceber, que um dia, lá longe, o pai, pastor, lhe deixaria todo o seu espólio, mias umas quantas cabras e umas quantas ovelhas e umas quantas abelhas.

Dizem, que o pastor ainda vive nas montanhas e quanto ao filho

Chora. Sentado no areal do Mussulo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/10/2021

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