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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


29.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos vidros da pequena janela


Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,


Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza, e confesso que


Não gosto, e detesto,


Que entre em mim a noite mendiga, travestida, enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que


Não gosto, e detesto,


Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os espelhos me olhem e me ordenem


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos da rua contígua que agora utilizam como cobertores


Cantigas, lérias... olha agora cobertores...


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


Não, não gosto, e detesto,


(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo)


Lembras-te de mim, miúda?


Provavelmente já não te lembras do pintor que trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do muro da solidão, eras tão nova, que


Não, não gosto,


Que confesso,


Que


Lembras?


Que foi a última vez que tive na mão o beijo da cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei


Ainda gostas de mim?


Gostar, o que é gostar?


Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou


Cantigas, lérias... olha agora cobertores...


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


… ou


É triste


É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...


Ou...


Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves prestações... e sem juros.


 


 


(Não revisto . Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013


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