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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


no rochedo da saudade vive o teu meu coração repatriado


escondíamos-nos do amanhecer quando todas as estrelas cessavam de brilhar


quando sentia o teu sorriso no espelho da paixão


comestíveis beijos insufláveis desciam das árvores em solidão


no rochedo da saudade


vivia


amava


e comestíveis beijos com esqueletos de prata


 


no rochedo da saudade vive o teu meu cansaço


quando tínhamos noites intermináveis sentados num banco de jardim


conversávamos sobre tudo e sobre nada


e sentia o brilho do teu olhar


como uma donzela tela


pincelada com acrílicas cores


depois tínhamos a sombra dos plátanos


de livro na mão


 


liam-nos poemas


escrevíamos-lhes poemas


sentados num banco de jardim...


e imaginávamos à nossa frente o palpitar do rio furioso por ter perdido o mar


víamos veleiros pintados na claridade da aurora boreal em comestíveis chamas de suor


liam-nos poemas


escondidos caracteres minúsculos sobejavam das rosas de papel


e diziam-nos que a lua amava o silêncio


 


como nós


um piano vadio brincava no soalho da biblioteca


e tínhamos acabado de regressar das montanhas alicerçadas às gaivotas desgovernadas


sentadas


como nós


num simples banco em madeira


e liam-nos poemas


e escrevíamos-lhes poemas como se fossem migalhas de pão depois do pequeno-almoço...


 


não acordávamos porque a noite embriagava-nos com palavras


textos


e comestíveis beijos


e poemas


por comestíveis pinceladas acrílicas saborosas que os teus lábios iluminavam


e víamos o rochedo da saudade


chorar


e pigmentos sólidos de vento balançavam nos teus cabelos de limalha incandescente...


 


não sabíamos que existia a teoria da relatividade


e desconhecíamos a trigonometria


pensávamos que os círculos eram mulheres deitadas


nuas


sobre a geométrica cama com lençóis de porcelana


e lá


no teu peito


os rochedos da saudade vomitando cinza de velhos cigarros como poemas envenenados pelo ciume...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013



31.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


espero-te como se fosses a noite e me trouxesses as listras encarnadas da solidão


como se fosses a janela dos meus sonhos


e me trouxesses


a fantasia


e a paixão


revestida


negra


a fome


depois de acordar a madrugada


depois de cessar este empobrecido coração


espero-te


espero-te eu porquê?


 


depois...


depois o quê?


que não dormes


e que sonhas comigo?


espero-te na esquina da insónia


e tu não és de carne e osso...


como os humanos que aprendi a distinguir e a amar e a odiar...


às vezes


depois


tenho-te medo


que vagueis em mim como os tristes ângulos dos teus lábios


entre senos e cossenos magoados


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Agosto de 2013



29.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


tento perceber as equações do teu empobrecido coração


geometricamente


não consigo determinar a posição do teu corpo no espaço tridimensional...


e tudo parece tão simples


normal


imagino a integral dos teus seios pintados de encarnado


e reflectidos no prisma que se esconde na teoria das cores


dos cheiros


e sabores


imagino a equação diferencial das tuas alegres coxas


quando se despedem da tarde as gaivotas triangulares


 


imagino o silêncio vestido de negro


caminhando sobre o arame da solidão


lá em baixo o público enfurecido olha-te como se fosses um cartaz perdido no vento


balançando


dormindo


chorando


e imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


os círculos trigonométricos do teu púbis amargurado


cansado de mim


talvez... apaixonado por mim


talvez


porque tridimensionalmente... não consigo determinar-te no espaço só e vazio


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013



25.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Um círculo de espuma


no centro sombrio de uma tela mergulhada em insónia


junto à fronteira que separa a noite do dia


o mar rasurado misturando-se em lágrimas e pequenos silêncios de papel...


e de um sofá submerso em sonhos pincelados de sal... ouve-se o gato “Orlando” em gemidos de sono,


 


Ele inventa a madrugada sobre os telhados de Lisboa


e pinta nas manhãs de neblina a paisagem invisível do rio envergonhado


atravessado por uma ponte rabugenta


enferrujada pelo vento das nortadas entre despedidas e desejadas barcaças


derramando a solicitude em palavras abstractas e insignificantes,


 


O desejo em tua felina pele voando sobre as árvores do Tejo


confunde-te com gaivotas e pernaltas em pétalas de açúcar


barcos apaixonados


e astronautas


e no final do dia dizes-me que no Sábado vais ficar ausente de mim,


 


Habituei-me às tuas garras sobre o meu peito em papel-cartão


marinheiro tu saboreando sorvetes de chocolate como broches na lapela do mendigo artista


dormindo sobre a calçada e desenhando nos teus tornozelos as equações trigonométricas da paixão


e procurando ângulos no negro quadro separando a parte real da parte imaginária


os números complexos em ti descendo o corpo do círculo de espuma,


 


Estás nua


geada de sémen em migalhas de areia


correndo esquinas e travessas em madeira


pilares e vigas


e sorriso algum emerge dos teus lábios de cidade adormecida... vadia e prostituta.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



24.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Sombras de ti dentro do espelho cansado em mim


saboreando livros invisíveis com odor a melancolia


um espaço vazio sombrio e escuro


entranha-se-te fazendo em ti a escultura linear da insónia


pedes-me “silêncio” e eu escrevo “silêncio” nos teus lábios de noite vaiada pela lua imaginária,


 


Pedes-me “amor”


e eu não sei escrever “amor” no teu corpo tridimensional vagueando pelo espaço-tempo


e buracos de minhoca


invento-te nas paredes do fazedor de versos


um transeunte doente com palavras apodrecidas,


 


Malcriado inocente nas bocas verticais de um triângulo rectângulo


pedes-me para escrever “hipotenusa” nos olhos do tua tangente


perco-me de ti


e não escrevo “hipotenusa” junto ao cateto das tuas coxas de cristal


escrevo-a no seno da tua saudade...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



19.05.12





Os ângulos rectos do amanhecer


junto à hipotenusa da tua boca


em delírio


uma ilha de cristal


acena-me e sou levado pelo vento


como uma abelha louca


em martírio


antes da morte


 


o seno das tuas mamas


tangentes ao limite das ruas paralelas da cidade


um rio em revolta


dando força aos teus braços


que me sufocam


em círculos


triângulos


rectos do amanhecer


 


trigonometria


geometria


poesia


ruas e calçadas


madrugadas


cansadas


Os ângulos rectos do amanhecer


sem palavras para eu escrever.



31.03.11

Dentro de um círculo gigante


Com infinito de diâmetro


Esconde-se uma flor


- Minha prisioneira; amante.


E na trigonometria


Habita o triângulo


Rectângulo


Que na porcaria


Sabedoria


Dentro de um círculo gigante


Nasce um eterno amor…


- Dentro de um círculo gigante


Com infinito de diâmetro


Esconde-se uma flor


Minha prisioneira; amante.


Para a esquerda


Senos e co-senos,


Para a direita


Tangentes e co-tangentes,


E não esquecendo a fórmula fundamental da trigonometria,


(o seno ao quadrado de teta mais o co-seno ao quadrado de teta é igual a um)


É igual ao arroz de letria,


É uma porcaria…


 


 


 


Luís Fontinha


Alijó

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