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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.02.22

Quando o corpo se deita na tela, uma voz em pequenos murmúrios e gemidos abraça-se às pinceladas manhãs de Primavera. A tinta, as tintas, o pincel, todos são o coração ensonado da imagem sombreada das lâminas do desejo. A fotografia ergue-se como se erguem todas as crianças quando ouvem a voz da mãe; o filho perfeito, esse espaço entre a noite e o dia, não existe. As cores são a saudade, quando a mão do artista acaricia esse corpo de luz e sombra, quando o artista os olha

E nada como um pequeno beijo junto ao mar.

Todos os barcos, todas as cores, dançam agora sobre a tela inanimada, quase a desfalecer; a morte ocorre quando o artista dá por concluída a sua obra; mas será que a obra fica assim, tão simplesmente, concluída? A obra é como um filho, só fica concluído quando morrer e, transforma-se em pó.

As mãos, alicerçam-se aos lábios da tela, o cavalete espreita pela janela e percebe que a tempestade se aproxima, que os barcos estão a regressar rapidamente a terra, neste caso, à tela. O artista, chora. O corpo, suspenso na tela, vacila e, percebe-se que existem pequeníssimas gotículas de suor; a pele absorve as cores primárias, cerras os olhos e liberta um uivo de silêncio.

Assim, a tela entre pequenos gemidos e outros tantos sons inaudíveis, encosta-se às mãos do artista, rodopia em sentido anti-horário e, desce até às profundezas do abraço. Alguém me sabe dizer o que fazem as mãos do artista quando a obra termina? Nada. São os olhos da arte.

Sentem-se as fugazes candeias, quando dentro do atelier uma parcela de luar ilumina o corpo terminado, pronto a ser vendido. O artista constrói corpos para venda e, quem comprar os corpos construídos pelo artista, através das mãos, olha-os. O submundo das profundezas mais esguias, carrega no peito o cansaço do dia, carrega nas mãos, os olhos do amanhecer, quando ainda todos dormem, mesmo os corpos mais preguiçosos deitados na tela.

A tela é um monstro que se alimenta do corpo, pequenas cores misturadas numa tarde de Inverno e, sabendo que todos os corpos são desprovidos de lábios, aqui podemos dizer que o beijo é proibido. O sagrado desejo, quando a mão, um dos olhos da tela, desliza até encontrar as coxas envenenadas numa tarde de silêncio, assim, percebe-se que os dias, que as noites, que tudo, que nada, fazem sentido nesta tela imaginária que é a vida.

Se a vida são cores em movimento numa tela nua, branca, suspensa num cavalete, o exercito de pinceis e espátulas são o criador Deus quando acordou ao terceiro dia. Os mandarins da insónia poisam sobre a minha sombra desejada por uma sombra de medo, ao fundo, lá longe, um pequeno cardume de peixes em papel colorido, aproximam-se e, todos, devoram-me, restando depois, uma tela nua e vazia.

Como sempre, existe dentro de nós uma tela nua, vazia, recheada de medo. E este pedaço de mundo submerso, alimenta-se das palavras que o poeta vomita sobre os corpos deitados na tela; ninguém percebe o desejo do artista, quando com um punhado de pinceis e algumas espátulas, transforma o branco em corpos, com asas, que voam em direcção ao mar, e o mar nunca será um filho de Deus.

As mais belas canções de uma infância entre lápis de cor e bolas de plasticina, e depois do lanche, um papagaio colorido mergulhava no cacimbo solidão de mais uma tarde junto às mangueiras.

E este pedaço de mundo submerso, ergue-se entre os rochedos e os corpos pincelados na tela.

 

 

 

Alijó, 05/02/2022

Francisco Luís Fontinha


04.02.22

Dentro de ti, a silenciada espada do amanhecer, os solstícios do desejo, quando acorda o luar e, sem o perceberes, lança-te às estonteantes palavras que semeio na alvorada. Uma das portas de entrada, aquela em que é visível a madrugada, voa sobre o infinito céu um pedacinho de nada, do outro lado do quintal, nas traseiras junto ao muro, habita o poço desprovido de luz, apenas mais um buraco, como tantos outros; negro.

O poço negro acorda. Ergue-se e, depois da sua higiene diária, toma o pequeno-almoço nas sombras da tela pintada na noite anterior. Do pincelado negro, observa-se na tela um pedacinho de saudade, não muita, mas percebe-se que está lá; assim seja, como todos os poemas excluídos do grande livro, como todas as abelhas, extintas na neblina.

Dentro de ti, as paisagens imaginadas numa noite sem sono, dentro de ti, todas as alvoradas que estão para nascer, que vão nascer, como se fossem mais um filho, como se fossem mais uma desculpa para adormecer.

E, no silêncio desejo, acorda o abraço. O ingreme corpo, que te pertence, saltitando entre a pilha de livros, junto à janela, e a árvore feiticeira, aquela onde brincam, durante a noite, os teus gemidos.

Desce sobre nós o infinito e, de régua e esquadro, o homem de bata branca traça pequenos triângulos, rectângulos e círculos de luz.

Um dia, um dia percebi que tinha sobre mim um círculo com olhos verdes; porquê verdes? Porque sim, apenas.

Era um calmeirão de um círculo, trazia na algibeira uma pequena caixa de fósforos e um cinzeiro, depois, muito mais tarde, percebi que ele era eu; hoje.

Vivíamos junto ao aeroporto. Logo que abri os olhos, depois de estar em casa, habituei-me a olhar os pássaros que logo em seguida poisavam numa pista inventada pelo sono: porque choras!

Dentro de ti, as pequenas parcelas sombreadas de um velho espantalho, sentado no meio do trigo e, quando vinham os pássaros, estes mesmos homens de trapos, vacilavam; não percebiam se deveriam disparar a espingarda do sono, ou correr em direcção a eles. Quase sempre, ou sempre, desistiam de viver.

Como desistem os gemidos que habitam na árvore feiticeira.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 04/02/2022


03.02.22

Uma sílaba de silêncio desce a calçada, do outro lado da rua, em frente ao mar, dorme a saudade abraçada aos peixes inventados por um miúdo, apenas retractei os descosidos calções, porque quanto à restante vestimenta, nada mais a acrescentar, talvez uns sapatos rotos ou uma camisa descolorida, que para quem como eu, não sabe as cores, é indiferente.

Quando eu tinha a idade deste miúdo, construí um pássaro em cartão prensado. Passei três dias e três noites debaixo de uma mangueira, árduo trabalho para uma criança da minha idade e, depois de pronto, libertei-o; ao contrário de Ícaro, a minha obra de arte nem sequer conseguiu atravessar o musseque, despenhando-se junto a um pequeno charco de saudade. Mais tarde, percebi que precisava de aulas de Física, Matemática e Aerodinâmica.

Hoje, passo os dias a desenhar pássaros num pequeno caderno adquirido em Paris, no Louvre. Os pássaros são poemas envenenados pela tempestade, são pequenos silêncios na madrugada, mesmo assim, sabendo que após os ter desenhado eles levantam-se e vão para muito longe, é um dos meus prazeres; dar vida a rabiscos.

Deitava-me sobre a terra húmida. Olhava as estrelas e não percebia que o Universo é infinito, ou talvez não o seja, ou talvez quase finito, mas sabia que os pássaros que hoje desenho e as estrelas que olhava em menino, dormiam juntos.

Da terra, aos poucos, começaram a emergir pequenas bolas de fogo. Os meus pássaros, os primeiros que desenhei, começaram a voar em direcção ao mar. Fui ao galinheiro e libertei todas as pombas e galinhas, acabando por salvá-los da fogueira enviada por Deus: os pássaros, esses, arderam um pouco mais tarde. Cinzas que ainda hoje brincam nas ruas de uma cidade morta, desejosa por que acorde a madrugada.

Um dia acordará a madrugada e os meus pássaros serão livres como as flores que a minha mãe tinha no jardim. Como todos nós, deveríamos ser livres.

Ao pássaro que acabei de desenhar, vou apelidá-lo de “menino dos calções”.

 

 

 

Alijó, 03/02/2022

Francisco Luís Fontinha


16.01.22

Manuseia-se na cidade

Em busca das palavras perdidas,

Ouve a voz da saudade

Nas palavras esquecidas.

 

Caminha até ao mar

Vestido de petroleiro,

Perde-se na cidade amar

Nas mãos de um marinheiro.

 

Nas mãos de uma flor desencantada

Passeia-se destemido,

Corre, corre, corre até à esplanada,

 

Corre fingindo que está vivo.

Mas ele é apenas um cadáver perdido,

Perdido sem motivo.

 

 

Do silêncio, às vezes fingido, regressavam as palavras de amar, outras vezes, pensando que estava perdido, tinha na mão a luz camuflada da paixão.

Um dia, ao final da tarde, resolveu emparedar todas as janelas que davam para o mar, mesmo aquela em que ele tinha a oportunidade de fugir; mas para que queria ele fugir, se todos os dias acordava, se todos os dias vivia, vivia fingindo que acreditava, acreditando no que fazia.

Corria fingindo que estava vivo; ninguém acreditava se ele não o dissesse, pois transportava nas mãos o desejo de voar, sabendo que apenas o poderia fazer quando regressasse a noite.

Manuseava-se na cidade em busca de equações de sono e correias e engrenagens, no fundo, procurava as rodas dentadas da vida.

Acreditava, talvez já não acredite, que a vida é uma enorme roda dentada, e que os seus dentes são a saudade; a saudade de tudo e, de nada.

- Corre até ao mar!

Para quê, perguntava ele; se o mar fica tão longe e, a saudade de nada, dorme na solidão da madrugada. Ouviam-se os gemidos da feiticeira, entre rezas e sermões, desenhava nas estrelas buracos negros e, com alguns iões, sabia que amanhã choveria, pois, os iões estavam excitados e, pobre deles, porque ninguém fazia prever que estes acabariam sós, dentro de quatro paredes.

E eis que ouviu a voz da saudade. E eis que a saudade lhe segredou que regressaria todas as noites, antes de ele adormecer; mas será que ele queria mesmo ouvir a voz da saudade?

- Diz-me tu, rapazinho…

Digo que: “uma correia é um elemento mecânico flexível para transmissão de potência”. E como sempre, nada está perdido. Tudo se apanha quando o homem acorda dentro de quatro lençóis de sono, ao cair a tarde.

Rapazinho era ele, quando o sentaram numa velha esplanada e o mar o levou para um Domingo, num mês de Janeiro, precisamente às sete e trinta da manhã; até hoje, alimenta-se de pequenas aparas, algumas brocas e defeituosos parafusos.

A vida poderia ser um parafuso, alguém se dá ao trabalho de o enroscar até ao apero final: a morte.

E a morte é apenas uma equação que quando igualada a zero, obtêm-se o único resultado possível; a saudade.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16/01/2022


15.01.22

Imagino-te o centro do meu sistema solar. Oiço-te dançando na praia à procura das minhas palavras, o incêndio silêncio da tua presença às conversas suspensas na alvorada, levantavas-te da cama, acendes um cigarro e, sob o sol solidão de mais um dia, acorda a primeira Primavera; assim sendo, elimino todas as janelas desta casa sem comandante, navegando na brisa madrugada.

Temos flores lápides voando dentro de nós, padecemos dos uivos gritos da coruja que na noite inferno, quase sempre, transforma todas as sílabas em pequeninas migalhas de pão, caso contrário, levanta-se o uivo grito da insónia, como sempre, que atravessa as portadas onde nos escondemos até aparecer em nós o mar.

Os barcos regressavam a mim todos os santos Domingos, puxava-o pela mão como quem puxa um pequeno brinquedo, e ele, feliz, corria para me acompanhar;

- Tão grande, pai!

Os barcos eram construídos em cartolina a fingir e cheiravam a nafta.

- Senti esse cheiro durante dozes dias e doze noites, sem dormir.

E eu tinha de erguer o pescoço até ao Céu para escrever com o olhar as lágrimas de um qualquer soldado perdido entre o capim e os mabecos; diziam que durante a noite se vestia de mulher e era visto e observado num qualquer bar da cidade.

Descia o cacimbo sobre nós. Prendia-lhe a mão com a minha mão, e como sempre, ele sentia a alegria e a felicidade porque eu começava a desenhar barcos na areia do Mussulo; horas depois, erguia-me entre a fina areia e mergulhava na sombra do medo, quando o medo ainda habitava dentro de mim.

- Tão grande, pai!

Oiço-te dançando na praia à procura das minhas palavras, o incêndio silêncio da tua presença às conversas suspensas na alvorada, levantavas-te da cama, acendes um cigarro e, sob o sol solidão de mais um dia, pareço o Tejo em pequenos vómitos.

Disseram-me que morreu no silêncio, como sempre, morre-se no silêncio daqueles que amamos. Trazia na algibeira as palavras da despedida e, sem dizer nada, virou a cabeça em direcção ao mar e, partiu.

Voou até ao infinito.

- Morre-se de quê, pai?

Da saudade ao cabaré eram apenas dois quarteirões de metros lineares, que de vez em quando, dançavam como dançam as sombras que me acompanham; voou até ao infinito como voam todos os pássaros cansados. Diziam que ele tinha nascido dentro de um cubo de vidro, onde juntamente com ele, outros cubos de vidro brincavam às escondidas, como brincam as sombras que me acompanham.

Como morrem as sombras que me acompanham.

Imagino-te o centro do meu sistema solar. Oiço-te dançando na praia à procura das minhas palavras, como procuram todas as sombras que me acompanham.

- Vive-se de quê, pai?

Da saudade ao cabaré eram apenas dois quarteirões de metros lineares e, percebo agora que só morrem os pássaros cansados, como vão morrer todas as sombras que me acompanham. Sós.

- Tão grande, pai!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/01/2022


27.12.21

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado.

O desejo sente-se, apalpa-se como um seio seminu dançando sobre o mar, o desejo escreve-se, ergue-se cedo, o desejo suicida-se, por vezes, num leito adormecido, o desejo percebe as sombras nocturnas de um outro desejo, o desejo é desejar, é correr, é amar, o desejo espelha-se na madrugada, vai à janela e, fuma o seu primeiro cigarro.

O desejo é livro de poesia, é mulher sentada, de perna cruzada, o desejo pinta-se, o desejo afoga-se, às vezes, na boca de um beijo. O desejo é maldito, o desejo é sacerdote, é religião, é engenheiro, é poeta, o desejo vê-se quando chove, porque os pássaros também são o desejo; o desejo de voar.

O desejo sobe a montanha, procura o primeiro abrigo e, deita-se. Fuma o primeiro charro, escreve no chão o poema envenenado que ficou em cima da mesinha-de-cabeceira, era ontem, hoje, hoje não desejo

Desejar que ele ou ela o deseje.

Ouvem-se as manhãs embalsamadas junto ao rio, os barcos veleiros procuram o desejo, o vento que os leve para a cama do desejo, há canções de revolta, há silêncios presidiários nas mãos do desejado e, as coxas fluem como brasas suspensas na fogueira, há um pequeno gemido, um pequeno latido e,

O mar entra dentro dela, absorve-a, come-a.

E de tantos desejados, há um poema livre, revoltado, há um poema em cada milímetro de espuma do teu corpo, sabendo que o teu corpo desejado, apenas pertence ao teu desejo. Desejas que te desejem; antes de adormecer, três pequenas drageias de sono, dois gramas de uivos, três pilhas e um cobertor,

Há mais desejo, amanhã, porque hoje a noite é de tempestade.

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado, o desejo é uma pobre canção, melodia da madrugada, o desejo é opção, é palavra cansada, o desejo, às vezes, perde-se no leito da alvorada.

O desejo, sempre que desejado, é uma equação de sono, é pássaro, é flor que voa sobre o chão; sobre o chão desejado.

 

 

 

 

Alijó, 27/12/2021

Francisco Luís Fontinha

...


30.11.21

A orgia dos pássaros. Definem-se as palavras nos lábios do poeta. Escorregam das mãos do poeta, as lâminas do desejo, quando do poeta, apenas crescem as mandibulas envenenadas do silêncio. Amar-te, não chega, escrevia ele na ardósia da noite, quando lá fora, na ruela da escuridão, uma flor se perdia de amores por uma abelha.

Suicidou-se, o parvalhão.

Diziam que se rezasse, regressariam as palavras ao poema; ele rezava e, o poema continuava incompleto, triste e amorfo. Das luzes da alvorada, cresciam beijos na boca do poeta e, da boca do poeta, renasciam as sílabas estonteantes da noite.

Eu, acredito que sim.

O feitiço tomava conta da madrugada, silenciavam-se todas as palavras em delírio, como se silenciam os beijos na boca perfumada do Inverno.

Tenho medo de morrer.

Odeio o cancro.

Odeio a decadência humana.

Libertavam-se, aos poucos, os gemidos atónitos da manhã, quando era de esperar que lá fora já fosse noite, noite cerrada, moribunda, esquizofrénica como todas as palavras.

Suicidou-se por nada, como se suicidam todos os poetas.

Levava-a nos braços em direcção ao mar, acariciava-lhe os lábios, mas o desejo pertencia à equação dos pobres, pouco a pouco, libertava-se das garras do medo.

A morte deixou de pertencer ao destino, partiu e fugiu para longe. Eis, a eterna manhã enublada de hoje.

Sentia nos braços o peso da idade, a carne pertencia-lhe, entre duzentos e seis ossos desgovernados junto ao rio, mas depois, percebia que das suas palavras, muito pobre em crómio, os silêncios se travestiam de gargalhadas; hoje faço anos, segredava-lhe ao ouvido.

Anos?

Sim, faz anos que adormeci no banco de jardim, debaixo das mangueiras, em Luanda.

Um papagaio desgovernado, alicerçava-se-lhe nos doentios braços de menino traquina, como uma viagem sem retorno, à volta da ilha da saudade.

Todos nós, somos pássaros embalsamados nas mãos do destino.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/11/2021


28.11.21

Sentamo-nos. Rezamos.

Dormia dentro dos lençóis desesperados da madrugada, sentia-se perfumado pelas palavras encontradas, noite adentro, quando da saída abrupta dela; magoavam-no, aquelas palavras poisadas em cima da mesa-de-cabeceira e, entre adeus parciais, eis o último, numa pensão caquéctica numa rua sem nome, na cidade dos mortos.

Abraçava-o, beijava-o, sabendo que seria o último beijo, sabendo que seria o último abraço.

Horas antes, tinha-lhe feito um poema num bar esquecido junto ao rio. O cheiro a sexo dos petroleiros em delírio, avizinhavam que pouco a pouca a saudade regressaria como regressam os soldados vindos da guerra; até aqui, só tinha pegado na espingarda sombria do desejo, como se de dentro das palavras, algumas ocas, habitassem pássaros e flores em papel adormecido.

Sentamo-nos e rezamos; percebia-se pelo cheiro dos petroleiros, que brevemente as palavras fluiriam como água salgada na ferida em revolução numa qualquer parte do corpo envenenado pelos cigarros embebidos em uísque barato e silêncios que falavam ao acordar.

Até ele, tinham chegado as canetas de tinta permanente pertencentes ao padrinho, avô e pai, com elas desenhou um coração em forma triangular, calculou a hipotenusa, obtendo a equação do desejo e, pela duração do beijo, percebeu que este, seria certamente o seu último encontro. As equações também morrem, como morrem todos os seres vivos.

Erguia-se a luz nos cortinados da manhã. Descerrando o olhar entre pedacinhos de suor, percebeu que ela já tinha partido há muito e, provavelmente até nunca tenha estado presente na sua vida. Ficou triste, deixou de comer as palavras que todas as manhãs o entretinham até à entrada do pequeno-almoço e, dizem, dizem que nunca mais foi o mesmo.

Agradecia-se pela liberdade alcançada, sentia-se pássaro com cabeça de poeta e na mão, passou a transportar um ramo de flores.

Sentamo-nos. Rezamos.

Dormia dentro dos lençóis desesperados da madrugada, sentia-se perfumado pelas palavras encontradas, noite adentro, na espelunca desarrumada onde habitava desde criança. Trazia na algibeira o manuscrito que ela tinha deixado sobre a mesinha-de-cabeceira, junto à máquina de escrever, também tinha deixado uma fotografia onde se podia ler: eternamente tua.

Na noite seguinte, decidiram por unanimidade, suicidarem o amor numa cidade sem nome, numa ponte sem nome, que sobrevoava um rio sem nome; hoje, sentamo-nos e rezamos.

E sentados ficaram para sempre.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/11/2021


21.11.21

Era um sábado triste; ela tinha morrido.

Quando me perguntaram o que era a ausência e a saudade, respondi que ambas são uma equação matemática sem resolução.

Não gosto de conversar com psicólogos, respondi-lhe.

Aos poucos, a manhã levanta-se de um sono hibrido, parecendo um buraco nego esquecido no Universo. Entrei, sentei-me e, pedi um café. Enquanto saboreava o primeiro café de muitos, percebi que na TV falavam de uma imbecil qualquer, que eu desconhecia, por ignorância e, que tinha arrasado com um determinado vestido, numa determinada gala. Confesso; nada percebo de vestidos. Na percebo de galas.

Cansei-me da TV e apenas oiço rádio e tenho como companhia a TSF.

Era um sábado triste. Aos pouco percebi que todas as flores do meu jardim se preparavam para o passeio matinal de um sábado triste. Indiferente, puxei de um cigarro e sentei-me junto a elas. Comecei a desenhar no chão uns riscos estranhos, que só me lembro de os ter feito quando do falecimento do meu pai.

Esses riscos, esses desenhos, acompanham-me diariamente e, quando me perguntam o que é a ausência e a saudade, respondo que são uma equação matemática sem resolução; e claro, não gosto de conversar com psicólogos.

Despedia-se de mim o sono e todos os sonhos da minha infância. Estar vivo, era sem dúvida um presente de Deus; dizia-o a minha mãe, vezes sem conta e, acredito que ela tinha razão.

Imaginem, por hipótese, que Deus não é nada mais do que uma complexa equação matemática que vive, brinca e, dorme nas nossas mãos.

Imaginem, que essa mesma equação, um dia, vai ser descoberta e resolvida.

Parece que estou a ver essa equação, dormindo na minha secretária.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/11/2021


21.11.21

A manhã parecia a palavra acabada de suicidar o poeta que dormia sentado num seixo junto ao mar, junto ao mar ele escrevia, desenhava os números na sombra do sonho, porque ele sonhava, dormia pensando que voava, todas as tardes, sobre o mar,

Porque ele amava.

Amava as pedras, os seixos, onde o poeta dormia sestas intermináveis, tão longas como os  Invernos em Trás-os-Montes, infindáveis, azedos, dolorosos, até, quanto mais para uma criança.

Criança essa que acreditava que os sonhos eram pequíssimos cubos de vidro, que um adulto puxava com um pedaço de corda. Esticava a corda, por vezes partia e, o miúdo lá acordava acreditando que brincava com pássaros em papel.

A tarde em lágrimas, para logo depois sorrir e de tanta gargalhada, vomitar lágrimas de fogo, mais parecendo às vezes, o inferno pincelado de medo. Pequenos charcos se formavam no pavimento térreo da infância, um boneco estúpido saltitava de contente, tinha acabado de tomar banho e, com o calor que se fazia sentir, sempre estava mais refrescado. Eram assim os sonhos das manhãs que agora mesmo, acabam de suicidar o poeta.

Poeta suicidado, poema eterno.

O miúdo fazia-se transportar dentro de uns calções floridos, sandálias em couro e, umas vezes sim, outras vezes não, sobre os ombros uma camiseta em papel pardo. Nas traseiras da casa, junto ao galinheiro, habitava uma mangueira com mãos de flor e, todas as manhãs, a mangueira agarrava pela mão do menino e iam passear junto aos Coqueiros; os treinos de hóquei fascinavam-no, como fascinavam os pássaros em papel e, as árvores em algodão e, os aviões e, todos os barcos.

E de todos os barcos, um dia, com o mais pequeno deles, atravessou o Tejo e fugiu para a Calçada da Ajuda, sentou-se junto à margem e, começou a desenhar pequenos pares de sandálias para calçar todos os meninos, que como ele, sonhavam todas as noites, dentro do cubo de vidro, dentro do sonho dos adultos.

Certo dia, foi obrigado a trocar os calções por um par de calças, lavam-se durante a noite e secavam durante a noite, para manhã cedo rumar a uma escola velha e caquéctica, também foi obrigado a trocar as sandálias de couro por uma botas pesadíssimas que chiavam quando chovia; e nessa altura desconhecia o significado de peso, massa, gravidade. Mas eram pesadas.

O peso é uma coisa e, amassa, uma outra coisa e, quando lhe perguntavam se pesava mais um quilograma de feno ou um quilograma de ferro acabado de falecer, ele respondia que não sabia.

De todos os meninos que brincaram com o menino dos calções, apenas ele e os calções, habitam esta cidade que acaba de adormecer; da noite, todos os beijos são flores em papel, que tal como o menino dos calções, brincam a escrever cartas a todos os meninos que brincaram com ele.

 

 

 

 

Alijó, 21/11/2021

Francisco Luís Fontinha

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