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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.08.14

Olhaste os vinhedos da saudade,


percebeste que dentro deles, eu, eu deambulava como um sorriso de vento,


chamaste aos meus olhos, olhos de desgovernar,


e às minhas pálpebras, e às minhas pálpebras apelidaste-as de cansaços do mar,


não tinha mãos para te acariciar,


não tinha braços... não tinha braços para te abraçar...


nem cores para te pintar,


olhaste os vinhedos da saudade, e percebeste que eu era um rio sem nome,


 


Uma cidade sem coração,


uma tempestade,


 


Olhaste os vinhedos da saudade,


escreveste na ardósia da tarde os versos de amar,


percebeste que dentro deles, eu, eu habitava como uma flor carnívora,


que te absorvia entre os horários nocturnos do desejo,


sem lábios para te beijar...


uma cidade sem coração,


uma tempestade,


um homem vivendo no corrimão com vontade de caminhar...


 


Uma cidade sem coração,


uma tempestade,


olhaste os vinhedos da saudade,


e percebeste que o amor são socalcos olhando um rio,


o mesmo rio sem nome,


que um dia decidiste que eu seria até morrer...


um rio encurvado entre os seios das montanhas madrugadas,


um rio..., um rio apressado no corpo de uma enxada.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 2 de Agosto de 2014


26.06.14

Porque teimas em silenciar-me,


se amanhã não existo...


 


Porque não percebes que o meu corpo são pedacinhos de xisto,


milímetros de muro com sorriso para o rio,


porque dizes que as minhas palavras são cadáveres em movimento,


cabelos enrolados no vento,


esperando o acordar da madrugada,


espelhos esmigalhados com mãos de amar, espelhos... espelhos apodrecidos na calçada,


 


Espelhos desventrados,


esperando que a janela da insónia se abra,


e... e entre a claridade nos teus lábios,


 


Porque teimas em silenciar-me,


se amanhã não existo...


 


Se amanhã sou espuma,


cansaço,


e... e mar,


porque amanhã os pedacinhos de xisto que habitam no meu corpo...


são... migalhas,


pó,


 


Nada...


agulhas,


 


E... e não me esperes mais,


porque os muros... porque os muros depois de morrerem...


jamais renascerão para o teu desejo de me cansar,


 


Nada...


agulhas,


 


Se amanhã sou espuma,


cansaço,


e... e mar,


 


Se amanhã sou... se amanhã sou o teu amante disfarçado de luar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Junho de 2014


04.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e cansas-te, e murmuras...,


e murmuras os ínfimos castigos da cidade em construção,


tens medo dos holofotes que a madrugada desenha na tua vidraça, choras?


das gravuras que deixaram no teu olhar sinto a voz do silêncio,


observo as árvores que balançam, e quebram...


choras?


sentes o vento nas acácias manhãs de Inverno,


tempestuosas,


tormentosas...


como as mentiras dos carrinhos de choque na feira da alegria,


há sempre uma palavra no teu sorriso,


há sempre um sorriso meu... nas palavras tuas,


 


Sentes, choras, sentes os orifícios das conchas perdidas,


ouves o mar, e sabes que dentro dele eu, eu... eu brinco nas invisíveis ondas de espuma,


desço às profundas mágoas que a tempestade transporta,


há uma porta de entrada vazia, chorosa... ranhosa..., uma porta com dentes de carvão,


sentes e choras, e brincamos como crianças nas tristes ardósias junto ao rio,


há socalcos dentro de socalcos,


há ruas perdidas dentro da tua algibeira...


sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e sabes, e sabes que hoje tive uma bandeira na minha mão,


cresceu uma flor no meu cabelo,


e diz-me o espelho nocturno dos milagres incompreendidos que... que amanhã...


que amanhã não choras, que amanhã não sentes,


que amanhã melhoras.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 4 de Janeiro de 2014



24.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


ouvíamos os mabecos embrulhados na insónia do amanhecer


e tínhamos sobre o imaginário silêncio


as palavras pergaminho de sons invisíveis que as árvores desenhavam nos teus lábios de gaivota apaixonada


tombavam como enxadas derramando suor e lágrimas nos socalcos do desejo


descendo o teu corpo


e mergulhando no rio como pequenos delírios de luz


 


ouvíamos os cubos de gelo gorgolando na tua garganta de caverna madrugada


e ao longe


o vento trazia-nos a flor embalsamada com pequenos colarinhos em prata


e uma mão desalmada


entranhava-se nas tuas coxas de xisto


o muro da solidão tombava


a árvore tombou


e as tuas mãos de porcelana


partiram-se enquanto a noite sorria à janela do cinzento cobertor da dor


como um longínquo fôlego caminhando nos carris da tristeza


ouvíamos


e ao longe a andorinha desassossego morria em pedaços de saudade e melancolia


 


ouvíamos...


chovia


a cansada abelha dos triângulos de chocolate


e ouvíamos


e chorávamos


as palavras sem palavras dos cigarros adormecidos em palavras semeadas


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 24 de Setembro de 2013



23.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


há tanto silêncio nos lábios de um rio


há dor insignificante nos braços de um drogado


há pétalas cansadas nos guindastes dos teus olhos


pérfidas madrugadas


poemas e velhas canções


há janelas de onde nada consegue sobreviver como as ratazanas de esgoto


escadas sem corrimão de acesso ao sótão da insónia


há poetas e aprendizes de poetas


e eu


eu nem uma porta de entrada consigo ser


nem uma simples fechadura consigo abrir


e este coração é louco entre palavras e sensações


 


memórias


histórias


canções perdidas nos teus seios de capim...


há tanto silêncio nos lábios de um rio


que sinto medo de morrer


partir


morrer e não saber como são os socalcos depois de a chuva cair


partir


sem o saber


livremente voando sobre ti em desenhos quadrados de um colorido beijo


há tanto silêncio


sobre o caixão invisível que embrulha a minha paixão de esferovite...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013



15.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Excelente título para qualquer coisa com palavras...


O que pensas da paixão em dias de chuva, meu querido?


Excelente, divinal sorriso em silêncios brancos, os lenços de linho e bordados pelas tardes infindáveis das suas mãos de pergaminho, sentava-se no meu colo e abraçava-me, pedia-me


Posso beijá-lo?


Respondia timidamente que


Sim... talvez... silêncios brancos, lenços em linho, e nos lábios seda pura como lágrimas de Outono nas videiras nocturna dos socalcos virados para o rio, tudo parece existir, não existindo, as janelas de xisto


Abriam-se nas clandestinas jangadas com velas aos braços cansados nos Domingos depois do jantar, sabia-a apetecível... mas a senhora dona sobre mim absorvia todas as cores do arco-íris, comia-me a madrugada, e eu, nem com o amanhecer conseguia brincar, acariciar, nada, como se ele fosse um corpo desejado e intocável


Posso beijá-lo?


E havias as janelas de xisto suspensas nos cabelos da montanha, e havia as perdizes voando sobre os cachos ensanguentados pelo suor de quem os apanha, carrega-os, e


As janelas de xisto


E


As janelas de xisto


E


Posso beijá-lo?


E ele beijava-o e víamos o amanhecer pregado aos lábios da manhã...


E


Posso beijá-lo?


Perguntávamos-lhes se os beijos tinham açúcar, e perguntávamos-lhes se o amanhecer tinha desejos como os homens, como os homens, e como as mulheres, e as mulheres em outras mulheres, depois e os tristes homens em outros homens,


Posso beijá-lo?


E depois


As janelas de xisto


Vinham as sombras da noite anterior, entravam-nos e levavam-nos


Como crianças pela mão?


Como xistos em janelas de correr, guilhotinas simplificadas,


Quer factura?


Guilhotinas transparentes entre rochas e ruelas mergulhando a aldeia num frenesim de loucos, aviadores esqueléticos, aviadores sobrevoando imagens a preto-e-branco do teu corpo amargurado, absorvido pelo sémen nocturno dos esteios em palavras cansadas que a mão dele deixavam ficar nos lábios de outro ele, amavam-se


Amo-o, dizia-lhe entre sorrisos brancos, e no entanto hoje procura moedas de cêntimo na Calçada da Ajuda, ouve os apitos de um barco que partiu há vinte e cinco anos, para onde?


As janelas de xisto?


Beija-me,


E ele beijou,


Abraça-me...


E ele... timidamente... não abraçou... e desapareceu dentro do cacimbo como se houvesse um túnel secreto no peito dele, onde supostamente


As janelas de xisto?


Posso beijá-lo?


Que supostamente


E ele... timidamente... não acordou, e desapareceu... que supostamente lhe tinham cortado com a tesoura da dor...


O quê, o quê?


A vontade de amar, de amar como se amam as paixões envenenadas em suicídios de amêndoa...


 


(Não revisto – Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Setembro de 2013



27.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Sabia que te escondias na sombra de uma locomotiva louca


entre carris imaginários


e praias de incenso sobre tingidas nuvens amarguradas


sabia e não fazia nada


deixava-te sombrear nas planícies rebeldes da solidão,


 


Inconstante este amor que os comboios deixam nos socalcos ao rio doirado


milagrosamente só como sandálias de couro e pingos de espuma


e o mar transpirava


e quase me levava até à pedra onde te sentavas


só como eu só nas locomotivas loucas,


 


Sabia que te escondias... louca


entre cartas invisíveis nas palavras famintas


sabia-o e nada fazia para te resgatar da ausência que a saudade constrói nos sorrisos de amendoeira


e olhava-te como uma louca locomotiva em movimento


procurando sombras que o rio Douro vomitava...


 


Tínhamos um mala simples com objectos simples com destinos diferentes


eu sabias que me transportava para Sul


e tu


tu fingias transportares-te para Sul obliquamente sabendo-o que irias para Norte


opostamente de mim como uma serpente envenenada,


 


Hoje somos apenas dois cadáveres de areia que o tempo


semeia sobre a água salgada onde se escondem os teus seios de cereja


e brincam as tuas coxas como livros em poesia depois de lidos relidos e transcritos


pela louca locomotiva


de uma imagem a preto-e-branco...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



08.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Das tuas tristes mãos, as pérfidas melodias de ti para me contentares como se eu fosse contentável, como o são, os outros, os esqueletos, compostos de massa xistosa com algumas fendas devido ao cansaço, suor, e como escrevinha o povo, e lágrimas, ou, como o pão que o diabo amassou, e se não existir o diabo, e se existir, ele, sabe-se lá, for um péssimo amassador de farinha, água, fermento e sal... e algum esforço físico,


ficamos sem pão


Confesso que nunca vi, ouvi, ou... de perto, convivi com a ilustre personagem que apelidaram de diabo, e que como quase tudo, é o culpado das coisas más, porque das boas, essas, encarrega-se deus, como antigamente, quando acontecia alguma coisa má, em muitas das nossas aldeias, vilas e cidades, claro... a culpa era sempre dos ciganos,


comprávamos heroína, e logo alguém nos dizia – Se fores apanhado dizes que compraste a um cigano! - talvez porque exista uma fisionomia entre eles, ou porque realmente alguns por infelicidade tornaram-se culpados sem o saberem, culpados, como eu, vagueando entre cidades como uma carruagem de metal enferrujado, e de porto em porto, sobre os carris travestidos de tristeza, ando, andam, caminham-se-me porta adentro, cortinados vazios, simplicidades obscuras que acordavam nas poucas esquinas com venda de pequenos bens não essenciais, um rolo de papel alumínio, uma nota de vinte escudos, de preferência de quinhentos escudos, e quinta-feira, sempre à quinta-feira, o carro enfeitado com luzinhas quadricolores, e de seguida, sem o saberem, acordavam as madrugadas de dor de costas, de diarreia, de enjoos, e afins como a insónia, o corpo transformava-se em cilindro, rodava sobre um eixo imaginário, e quando vinha a mim a madrugada, perguntava-me – Quantas Francisco, quantas voltas hoje em torno de ti mesmo? - e nunca percebia até descobrir nas tuas tristes mãos, finíssimas, e de dedos também eles finíssimos e compridos, que


Tinhas dentro de ti, sem eu o saber, uma escada secreta, com cobertores e espelhos, ambos, em madeira de primeira categoria, gosto, muito, - Sabes? - do Mogno ou do Carvalho Francês,


(Antena 3 – Alijó – 101.5 MHz)


Quando chovia, sentia-te desaparecer dentro das sombras que viviam connosco na casa de Favarrel, e só mais tarde, quase quando começaram as demolições da dita, que eu descobri que existia uma escada, até então secreta, tua, só tua, que subias, e a meio caminho, sentavas-te, como uma prisioneira à espera que lhe encerrassem a cela fictícia, uma cela de ficção como os testos dos escritores, que para não se chatearem com esta ou aquela pessoa, escrevem


(texto de ficção, não revisto)


não revisto, vá lá que não vá, - Agora... de ficção? - Não... nãoooo...


(País de ficção, qualquer coincidência com a fantasia é pura realidade)


E tudo em ti é ficção, são-o as tuas doces mãos e tristes palavras, quando acordam no centro da galáxia, os teus olhos, também eles, pura ficção, são-o os teus seios, as tuas coxas de socalco esquecido junto ao Douro, e também é de ficção o teu púbis envergonhado nas eternas geadas de Janeiro, aqui, porque lá, era verão, porque lá, lá tudo, também, como tu, tudo de ficção,


(texto de ficção, não revisto)


Amo-te, meu amor,


Cinco cêntimos de melancolia


Libertava-me de ti e das tuas sombras penumbras que o vento comia


e deixava sobre uma mesa redonda


os cansados uivos que o prazer recheava o prato de sopa mergulhado em tonturas e febres desgovernadas


tristes


cansadas


era eu o teu guardião das madrugadas fingidas pelos teus orgasmos de cera


que ardiam no altar da tua cama virada para o mar,


 


Não eras de pedra


aço


não minha e nunca o serás


e deixo-o arder entre clareiras como flores pintadas com verniz,


 


É-o no medo corrompido sabendo-o esquecido pela infinita mão


de ficção


em cinco cêntimos de melancolia


e três dias depois


evaporou-se como se evaporam as minhas palavras para ti...





Mata-me se puderes, mas


(ficção)


Deixa-me ficar os teus lábios para eu recordar, um dia, e nunca o esquecer...


esquecer o que são lábios, os teus, de pura ficção,


… de mera fantasia.


 


(Amo-te, meu amor)


@Francisco Luís Fontinha



22.03.13




A&M ART and Photos


Chegavas a casa, quando chegavas, e quantas noites desesperaste por mim, quando eu desfilava pelos passeios ornamentais com pedrinhas coloridas, um passeio artístico, com candeeiros de cartolina, junto a ele, as casas de madeira com corações de manteiga, algumas delas, com mais do que um andar, e poucas, com um sótão inclinado, onde, sabias-me perdido entre ondas de chocolate das paredes verdes que alimentavam as teias de aranha das tuas finíssimas mãos, tinhas medo do escuro, e tínhamos começado a construir durante as noites as famosas Rainhas da Rua Dona Grande Solidão, uma rua estreita, Débora, onde a pouca luz desaparecia como desapareciam as poucas moedas de escudo dos fundos bolsos das minhas calças de ganga, filha única, lavava-as à noite e manhã cedo voltava a vesti-las como se elas fossem calças de ganga


Mágicas,


Felizes elas que pensavam em mim,


E não tinham medo de adormecer debaixo da mesa, suspensas no cordel que eu utilizava durante as tardes para segurar o meu papagaio, e saboreando o calor da braseira, elas felizes, elas


Gosto muito delas, Fingia para com os meu amigos quando me confrontavam


Andas sempre com as mesmas calças, não tens outras?


Encolhia os ombros, e esperava que chegasses a casa, quando chegavas, e quantas noites desesperaste por mim, quando dentro da mochila apenas um par de calças de ganga, únicas, verdadeiras peças de arte, e já na altura


Mágicas,


Na altura felizes elas que pensavam em mim, felizes ás árvores de veludo, que de mão dada com os candeeiros de cartolina, e como eu amava a Rua Dona Grande Solidão, as alergias, das drageias, à água-de-colónia que ele trazia da feira da ladra, na altura, as ruas eram de areia pisada por pincéis de arame e guarda-fato com espelhos rabugentos, e quando olhávamos o mar, eles, transmitiam-nos apenas rochedos em decomposição física, e restavam-lhes apenas o espírito melancólico de uma noite sentado no gonzo esquerdo da maré de Maio, e Mágicas


Claro que Mágicas,


Muito elegantes até que eu entrasse vagarosamente nelas, depois, depois abria as asas, abanava-as e em pequenos movimentos ascendentes e descendentes, lembro-me


Lembras-te meu querido,


A levitar até chegar à janela do sótão, e ela, desesperava por mim, e dentro da mochila, farrapos, pedaços de papel, às vezes entrava em casa com o orvalho sobre os ombros, às vezes entrava em casa com os restos de cartolina dos candeeiros, da Rua


Eu amava a Rua Dona Grande Solidão, Lembras-te, meu querido, das paixões dos cubos de vidro onde nos sentávamos depois de...


Não percebi, desculpa?


Mágicas? O quê Mágicas? Não, Não me recordo de nada parecido com magia, espera, espera


Talvez mágico só as tuas coxas de xisto que o Douro engole quando os socalcos vomitam fragrâncias hélices de sons e cheiros,


Só, apenas essas magias que a tua mãe às vezes trazia para casa,


(tou, amor? Tou bem, cheguei bem, onde tou? Na biblioteca, e tu, também tou bem meu amor, e a menina, tá bem, minha querida), e de vez em quando ouvia-te pequenos gemidos a renascerem do teu interior mais secreto, mais escondido, mais impuro, agora deixou de existir a Rua Dona Grande Solidão, agora os poste de iluminação já não são de cartolina como naquela época, os passeios onde havia postes de iluminação as pedrinhas são apenas de uma cor, as casas deixaram de ser em madeira, sem sótãos, e as calçadas já não são de areia calcada pelos pesadíssimos embriagados homens da mochila cinzenta, onde lá dentro


Tinham, diziam, porque nunca vimos, pedras, papeis, restos de livros e


Dizem, porque nunca vimos


Traziam um par de calças de ganga, dizem eles que


O que diziam eles?


Que metiam a mão direita no bolso esquerdo e segundos depois aparecia a mesma mão direita no bolso direito, Pode lá ser!


A sério!


Dizem, dizem que eram calças Mágicas,


(amo-te)


(também eu meu amor)


(tou, amor? Tou bem, cheguei bem, onde tou? Na biblioteca, e tu, também tou bem meu amor, e a menina, tá bem, minha querida, tem saudades tuas, eu também, dá-lhe um beijo por mim), ele acredita em tudo que lhe digo


Até que tinhas umas calças que metias a mão direita no bolso esquerdo e segundos depois aparecia a mesma mão direita no bolso direito, formidáveis essas calças de ganga, meu amor, pois são meu querido, pois são...


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



16.01.13

Inventava-te histórias enquanto dormias dentro de uma agenda recheada de espaços vazios, passavam os dias, alimentavam-se as semanas das semanas hipoteticamente, também elas, vazias, sôfregas flores à espera da doce Primavera, doce


As horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua


Doce tua,


Inventava-te histórias


Não verdadeiras,


Histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente amadas pelas mãos dos homens que corriam a trás de ti, e tu, sabia-lo, tinhas consciência das cartas escritas sobre os velhos joelhos de rocha, que todas as noite, o mar embalava e atirava para as garras da saudade,


Não verdadeiras as histórias que me inventavas, todas as mentiras quando regressavas a casa, desculpas, reuniões, jantares com clientes, e de súbito abria-te a agenda, e percebia que


Vazia, histórias enquanto dormias,


Não verdadeiras doce tua,


E percebia que inventar-te também dava trabalho, muito, cansava-me com as sombras do teu corpo projectadas nas árvores pobres da cidade, o sono tombava-as e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, inventava-te histórias de açúcar, e um fio límpido de chuva descia pelo teu rosto, contornava o teu pescoço esguio e preguiçoso, e poisava-se nos teus ombros, descansava um pouco, continuava em andamento e em aspirais de pêssego rodopiava em círculos à volta dos teus seios que a areia do Mussulo esculpira na melancolia das tarde de Sábado, quando eu percebia que


Vazia, histórias enquanto dormias,


Não verdadeiras doce tua,


E percebia que inventar-te também dava trabalho, e que o fio límpido de chuva ia descendo teu corpo abaixo até esconder-se no púbis húmido das palmeiras que a Baía guardava como se fossem o maior tesouro de Luanda, e sentava-se


Sentava-me numa simples cadeira de pedra a olhar o mar nas suas histórias de amor que o açúcar desenhava nos corpos cobertos de espuma, havia pássaros com flores de papel no bico, havia parafusos de aço nas ligações do arco-íris e que faziam com que as cores andassem sempre de mão dada, havia


Não verdadeiras doce tua,


Havia barcos de esferovite com velhos motores de carrinhos a pilhas, havia alegria, vida, havia silêncios sem sabor a solidão, histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas


Havia a lua,


Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho, falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas


Nas horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua


Doce tua,


Inventava-te histórias


Não verdadeiras,


Histórias de crianças que nasceram em Luanda, histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros da paixão


(e confesso que detesto conversar e inventar histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e confesso, que detesto)


Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão


(e confesso)


Que detesto os lábios, a boca, os olhos


(e confesso)


Que todas as histórias que te inventei não verdadeiras, falsas, que detesto


(e confesso)


Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e entranhava-se no Douro, e chorei


(e confesso)


A primeira vez que vi socalcos.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó

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