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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


22.06.15

A paixão do homem


No homem camuflado,


Salto os muros da infância,


Perco-me nas arcadas dos alicerces cinzentos,


Sei que hoje o meu destino,


É saltar,


Voar sobre os fios de seda dos teus lábios,


Tenho beijos na palma da mão,


Sou um clandestino silêncio à procura do amanhecer,


Palpita no meu peito


O cansaço dos sonhos adormecidos num qualquer Oceano,


Aqui,


Não sou ninguém,


Pareço as ruínas de um edifício de ossos,


O pó poisa nos meus ombros em cartolina solitária,


Como um lápis de carvão,


Deitado na eira…


Os dedos enterrados no chocolate teu corpo,


Os comboios imaginários entranhados nas tuas coxas de marfim,


A paixão do homem…


No homem…


O camuflado cinzeiro das noites sem dormir,


No homem,


O homem,


Sempre na esperança de partir…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 22 de Junho de 2015


26.12.14

Adoro esta vida de marinheiro,


sem porto para aportar...


nem coração para ancorar,


adoro esta noite,


apenas esta,


porque a solidão se entranha em mim como um vicio...


ou uma jangada de saudade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem pouso,


sem... sem Oceanos para sonhar,


sem as amarras das palavras,


sem as ruas da cidade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem glória,


sem vaidade para oferecer,


adoro


esta


vida


… de marinheiro...


com medo de sofrer,


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014


25.12.14

Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, todos eles eram providos de rosto, voz... e esqueleto, sentia a cada desperdício de cerveja o regresso do Oceano meu coração, ouvíamos alguns sons melódicos que o Rui tinha adquirido em cinco suaves prestações, e a Madalena saciava-se com um livro de poemas,


Amo-te sem saber porquê...


Os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, ou de um orgasmo em despedida,


Amanhã vou caminhar depois do jantar, olhar as estrelas amantes da trigonometria, desenhar círculos de papel nas clarabóias da inocência..., e olhar-te, e olhar-te como se existisses, como se fosses um texto de ficção dentro da fogueira,


A lareira sonolenta abraçava-se aos teus seios,


Amo-te sem saber porquê...


E eu sabia que nos teus seios apenas habitavam as minhas mãos de porcelana,


A morte em pequenos assobios,


As horas em agonia num relógio de parede,


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


Em quadriculas, os números agoniados e agachados junto ao capim do quintal, nunca tinha olhado o Sol depois das cinco da tarde,


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


E mesmo assim, deitado debaixo das mangueiras... imaginava petroleiros a entrarem dentro de mim,


tive medo, senti o primeiro beijo, a primeira carícia, o primeiro e derradeiro contacto, os lábios deixaram-se apelidar de Amor,


Amas-me?


O amor, os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, um orgasmo em despedida, os gemidos dos poemas inseminados nas páginas abandonadas de uma velha folha de papel, a caneta de tinta permanente... pesadíssima, as correntes do teu olhar acorrentavam-me, deixei de sentir os braços, as pernas, o... o amor,


Amas-me?


Deixaram-se apelidar de Amor,


Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, os fusíveis dos meus sentimentos... ardiam, e percebi que nunca mais conseguiria perceber o Amor,


Amas-me?


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


Não revisto, não lido, não...


Não percebo as palavras que escrevi na tua pele de marginal semeada de palmeiras, barcos encalhados e... e gaivotas.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2014


28.11.14

Os teus olhos pincelados de verniz


camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia


a tarde sem destino


e o menino...


embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz


que só o luar consegue apagar


e destruir


o barco vai partir


sem conhecer a direcção...


ou... ou o cais para ancorar


e há uma corda suspensa nos lábios da solidão


que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,


o desengano


do desassossego vestido de beijo enfeitiçado


a menina dança?


os teus olhos que só os pássaros percebem


o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...


um grito de revolta


alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas


a embriaguez estonteante das madrugadas


quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado


e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...


… morre lentamente na fogueira da paixão


como a perdiz


nas garras do amanhecer


e nesta vida de viver...


os teus olhos são cerejas de sofrer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014


06.11.14

Sombreados lábios


no pincelado amanhecer


tristes searas de incenso


sem vontade de crescer


imenso Oceano mergulhado na minha mão


concubina solidão vagueando na ruela sem saída


é esta a minha vida?


duzentos e seis ossos sem comida,


oiço os teus seios na escuridão do meu silêncio


brinco sob as mangueiras de um País distante


cheiro o orgasmo do poema vencido


é esta a minha vida?


um emaranhado farrapo esquecido na espingarda do soldado...


um... um cigarro apagado...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014


02.11.14

Os corpos incandescentes vivem na caverna espelhada


o amor cessa


porque um olhar se acorrenta às arcadas nocturnas da insónia


os corpos transparentes voam


e não regressam mais...


 


O difícil é partir


sem regressar


esconder-se nos claustros invisíveis do amanhecer


deixar sobre a mesa-de-cabeceira um simples bilhete...


parto e nunca mais regressarei,


 


Regressar porquê?


se ninguém notará a minha ausência...!


o amor cessa


e das palavras regressarão os abismos de um Oceano habitado por cadáveres


e em cada cadáver uma flor na lapela...


 


Os corpos...


fogem das ruas inanimadas com odor a Primavera


o amor cessa


como cessaram todas as andorinhas


e todas as gaivotas que conheci...


 


A caverna espelhada transpira solidão e embriaguez alicerçada aos barcos de papel


o menino de calções desenha nas sombras do entardecer


corações e triângulos que um adulto qualquer vai fotografar


e mais tarde...


queimar na fogueira do desejo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 2 de Novembro de 2014


13.10.14

Porque dormem no meu olhar


os traços coloridos de silêncio?


 


Porque existe um veleiro desgovernado


no Oceano meu sofrimento,


se o vento,


se o vento deixou de correr junto às palmeiras...


 


Porque vagueiam na minha mão


as palavras nocturnas da dor,


quando o livro poisado na minha mesa-de-cabeceira...


ardeu,


morreu,


e hoje é apenas cinza como os traços coloridos de silêncio...


 


Porque dormem no meu olhar


os traços coloridos de silêncio?


 


Se nas tuas pálpebras crescem andorinhas sem asas!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

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