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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.05.14

não queiras ser como eu


não o desejes sabendo que o desejar não existe


é um fantasma vestido de saudade


é uma estrela embrulhada em madrugadas de azoto


como os nossos braços


abraçados à árvore do desgosto


 


não tenhas medo do vazio


dos buracos negros que existem no teu corpo


não o queiras


desiste


viaja para o cimo da montanha


e acredita no Luar


 


não chores


não adormeças...


não queiras ser como eu


um baobá esquecido no cacimbo


um cigarro imaginário em pedaços de suor sobre a tua pele de cortinado amanhecer


não não queiras ser como eu... um desejo com sabor a envelhecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 1 de Maio de 2014


15.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


a minha cidade despede-se do teu corpo em decomposição


um putrefacto sorriso acorda nos lábios da solidão


a minha cidade vive


como serpentes dentro de um aquário


a minha cidade é um corredor sem saída...


a minha cidade vive


e escreve nas paredes do medo


o silêncio prometido


 


a minha cidade és tu


nua despida em pedaços de leito das avenidas perdidas


a minha cidade dança


tem mãos de seda


e seios de indefinidos sons com abraços de musicalidade em palavras vãs


vãos de escada em sofrimento desejando o trono da fortuna


nua


tua mão singular no meu peito plural


 


o pronome avança contra o néon de sémen


e os telhados da minha cidade


ardem


como loiros cabelos suspensos nos arames do suicídio...


a minha cidade é uma puta com edifícios escumalha em lãs madrugadas


ovelhas


cabras...


e... e pequenos nadas.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Dezembro de 2013



08.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Tinhas na mão as palavras minhas


em ausências mergulhadas nos carris da insónia


trazias-me ao jantar os sabores do mar


com pequenas algas e pedaços de luar


tinhas nas mão as palavras minhas


dementes como esqueletos ósseos suspensos no estendal da noite


como acontecia aos orgasmos nocturnos nas miseras coxas em granito


tínhamos corações de xisto


e janelas com imagens encarnadas entre flores e pétalas às pálpebras quebradas


dos vidros restou nada


e da casa com cortinados de papel...


sobraram saudosos beijos embrulhados em simples abraços,


 


Tinhas na mão a pele silenciosa da madrugada


como pingos de chuva


em cansados versos por mim declamados


tínhamos os rios e as pontes e gaivotas embriagadas


nos confins voos em siderais mistelas de açúcar e canela


e demais minhas desérticas palavras


por ti


e de mim


abandonadas


tinhas


na mão minhas


corpos dispersos teu desejo travestido entre plumas e rosas de amor.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



07.11.12

O doce frio


emagrece o corpo embrulhado em desejo


fingindo-se de morto


e evapora-se nas frestas do olhar esverdeado


que o rio abraçado à janela


pinta nos lábios do poema,


 


é isto o amor


dois corpos


mergulhados no oceano de livros


é isto amar


caminhar sobre as nuvens


e sonhar,


 


amar a tua pele de cravo que Abril semeou


nas mãos de uma criança


quando dormia a cidade


amar o amor em doce frio


que o desejo consome dentro das estrelas azuis


e papeis ornamentais nas paredes do sofrimento,


 


acorda o cansaço


o doce frio


o abraço


que dos lábios crescem as noites infinitamente desencontradas


abraço-te


e desenho no teu doce frio corpo os uivos das madrugadas,


 


às vezes


as lágrimas de ti desaguam no meu rio inventado


não dou importância aos barcos sem motor


nem às flores sem cor


às vezes


às vezes disfarço-me de esqueleto com duzentos e seis ossos,


 


e fingindo-me de vivo


beijo-te loucamente sempre que posso


porque poucas vezes


às vezes fingindo-me de poema


deito a minha cabeça nos teus olhos


e adormeço entre sílabas e palavras e silêncios madrugadas...


 


(poema não revisto)


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 07-11-2012


14.08.12

madrugada


hoje


sem encontro marcado


com a alvorada transparente


 


hoje


eternamente só dentro dos silêncios da noite


 


madrugada


hoje


sem flores na algibeira


o néon agoniado pelo balançar da calçada


a maré cresce


e leva todos os corpos para longe


 


gaivotas com asas de beijos


mergulham nos púbis felizes dos poemas entre mãos


madrugada


hoje


entre mãos


e os dias que desapareceram do calendário suspenso na parede do amor


 


viagem


hoje


eternamente só dentro dos silêncios da noite


 


madrugadas


de papel


entre mãos


e flores queimadas sobre o soalho da tristeza


vem a solidão


vem o mar sem espuma


e leva todos os corpos filhos da madrugada


hoje.

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