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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.05.15

“Mãe, as pedras falam?


Um dia, um dia… meu filho!”


 


O silêncio adormecia em ti


Como adormecem todas as tristezas


Dos dias insignificantes


Entre poesia


E viagens ao desconhecido


Tínhamos todas as imagens do sono


Habitava em nós o cansaço


E a solidão da noite


Ouvíamos o ranger da janela


Em pérfidos orgasmos de prata


O silêncio das coisas inacessíveis


O sexo desacreditado


Numa cama de um qualquer hospital


As lágrimas


Nas janelas


Para…


O mar, mãe?


Um dia, um dia… meu filho!


No poço da penumbra


Os teus braços engasgados no medo


O amor


Quando inventado na madrugada de papel


E deixamos perder o luar


Amanhã, mãe, amanhã as pedras falam?


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 1 de Maio de 2015


30.04.15

O significado da paixão


De todas as noites



Encerrado entre cinco paredes


Um pavimento


E tecto


Aluga-se


Meu amor


Barato


Farto das palavras


E do sindicato


Todos os Domingos


Feriados…


E… Domingos


Lembro-me de ti


Meu amor


Da carroça de bois


Penhorada ao silêncio


Das ervas


E


Dos cheiros


A morte alimenta-me


Sinto-a perto de mim


Como sentia o cheiro a “puta”


Quando…


Lisboa


Cais do Sodré


Fome


Não fome


E literatura


Farto-me


De ti


De mim


E deles


O significado da paixão


Pintado na parede da solidão


As palavras reduzias ao pó da insónia


Cresce


A


Noite


Em ti


Meu amor


Das palavras


E palavras


Limitada


Angola à vista


Apenas no mapa da infância


Meu amor


As sílabas apaixonadas do teu corpo


No meu corpo


O inferno


A chuva


Outra vez…


A paixão


O ódio das tristes tardes no jardim


Outra vez o jardim


E o beijo


Outra vez a vida


E o desejo


Em ti


Das minhas tristes palavras…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Abril de 2015


18.04.15

Hoje


Conversei com a noite


Como estás?


Há tanto tempo que não te via…


Estou


Aqui


Estou bem


Obrigado


Percebo que o amor


É um poema de “merda”


Amar é sofrer


Preferia resolver


 


Equações complexas


Davam-me mais prazer


E não tinha medo de perder…


Aquilo que nunca tive


Regressar a ti


Aos teus braços de constelação apaixonada


A essência dos delírios em Cais do Sodré


Não é


Meu amor


O passado


Uma fotografia do futuro?


O amor é orgasmo


 


(li hoje num poema de uma amiga)


O amor é orgasmo


É silêncio


Na boca da esperança


Perdia-a


Perdi-me


Nas tuas avenidas


De luz


Com pontes


As matrizes


Deambulando nos teus seios


Os dardos do sofrimento


 


Todos


Eles


No meu peito de granito


Perdi as lágrimas


E o futuro


Vivo


Acreditando que não vivo


Escrevo


Mas sei que não escrevo


Tenho medo


Daquilo que os outros pensam


É maluquinho…


 


Poemas de amor…


Já ninguém os escreve


Há nas ruas da minha solidão


O fantasma da velhice


Acordar


E


Deitar


Só…


Os alfinetes da saudade


Imaginados


Nas nádegas dos orgasmos invisíveis…


Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


 


Os cortinados envenenados pela paixão


Meu amor


Nas nádegas o sorriso da censura


Nada espero de ti


Porque nunca esperei nada


De nada


Apenas dos orgasmos meu amor


Das palavras


Entre palavras


Dois corpos de palavras


O amor


Os solitários


 


Os beijos desenhados nas cancelas da madrugada


Não encontra o número do cubículo


Procura na algibeira as chaves do púbis enganado


Ele


Desempregado


Das palavras


Entre palavras


Gemidos


Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


E a vida termina…


Numa ruela


Sem… sem saída.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 18 de Abril de 2015


05.04.15

Não sei a quem pertencem os teus olhos


Esboçando sombreadas canções nos meus braços


A luz incendeia a noite em despedida


Não sei a quem pertencem


Os olhos


As cidades


E os distantes lugares


Dos teus lábios


Lábios


Em chamas


Sinto as nuvens nos meus ombros


E tenho nas pálpebras


As húmidas manhãs de Primavera


Os olhos


Não sei


Como às palavras roubadas


Enquanto os pigmentos da paixão


Alicerçavam as cordas da prisão


O cais


O teu corpo fundeado em mim


Respirando as sílabas do primeiro encontro


O cruzamento


A estrada da vida congestionada


E os olhos


E as palavras


Lábios


Em chamas


Esboçando…


Clarabóias de medo


Nas frestas do silêncio


O amor


A solidão vestida de amor


Lá fora


Os olhos


Numa fotografia de família


Os pais


Os irmãos


E


E os olhos


Lá fora


Nas palavras


Sempre as palavras dos teus seios


Nas rodas dentadas do desejo


A claridade das tuas coxas


Os olhos


A boca


O sémen estampado numa tela


Branca


Negra


A noite


Vens


Desces os socalcos do prazer


Despes-te e danças para o espelho da melancolia


E o amor


Vens


Despes-te


Nos olhos


Dos olhos


O poema brincando na tua pele de madrugada


Acabada de nascer


Apagam-se as personagens dos versos


Ficam na tua roupa


Como cadáveres de espuma


Fingindo orgasmos


E Domingos num parque infantil


Brincando


Nos olhos


Os olhos


Nas palavras


E nos destinos mais escondidos da tua mão…


As cidades respiram


Meu amor?


As cidades sentem no corpo


As melódicas canções do poema


Meu amor?


O papel inanimado sobre a secretária do pensamento


Os fósforos pontapeando pedaços de lágrimas


Contra o copo de uísque


Sem nome


O corpo da cidade


Dói-lhe


Menina?


Os livros acorrentados ao teu cabelo


E as serpentes do luar


Dentro de quatro paredes


As janelas onde poisas o queixo


No meu colo


A tua cabeça de diamante


Não lapidado


O sorriso


O sorriso apaixonado de uma vogal


E da cidade


As tristes âncoras da morte


És


Meu amor…


O triste silêncio das âncoras de prata…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 5 de Abril de 2015

...


26.03.15

(Para a minha mãe, feliz aniversário / IPO - Porto, 26 de Março de 2015)


 


“Descascando a cebola” como Gunter Grass me ensina, mergulho no parapeito da fotografia com vista para o jardim, ao meu lado, sombras, terraços de chocolate, homens, mulheres e crianças.


Perdi a paciência, diz ele em tom de prosador,


Deus olha-me, penso eu, não encontro no corpo o prazer do sossego, quando as palavras morrem, e a morte é a viagem para a literatura,


A espingarda, finjo, tenho na algibeira meia dúzia de balas, de xisto, como o Douro Vinhateiro, o rio


E as crianças, a cebola liquefeita nas mãos da cozinheira,


Mãe o que é hoje o jantar?


Poemas de “Al Berto”,


Gosto, adoro, amo…


Amar, desenhar na cebola os lábios da inocência (telefone toca) quando amanhece no teu sorriso, a espingarda


Minha querida!


E a espingarda escrevendo poemas em cada camada da desassossegada cebola…


 


(Ficção)


Francisco Luís Fontinha . Alijó


Quinta-feira, 26 de Março de 2015

...


03.03.15

Acrílico 50x60.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Mãe, como é o mar?


Lençóis de espuma, meu filho, silêncios de sombras poisadas numa tela virgem, aos poucos reaparecem as palavras e os riscos, a arte de amar e de navegar num beijo invisível, sem imagens, sem noite para chorar, as ruas completamente indiferentes às minhas tristezas, as cintilações dos versos descendo os socalcos imaginados pelas tuas brincadeira de menino,


Fui menino, mãe?


Cansei-me das palavras,


Escrita... nunca,


Mais


Amanhã restará uma única sílaba ao acordar, o espelho


Mais nada a acrescentar aos teus desejos, meu filho...


Cansei-me das palavras, mãe, das flores, dos sonhos e das cidade de vinil, cansei-me das mãos de porcelana da madrugada, sem janelas


O cubículo?


Morreu,


As janelas e o espelho completamente envergonhados pela partida do monstro das quatro cabeças, nada mais do que isso, literatura ao jantar, poesia ao pequeno-almoço, e


Morreu,


E alguns gladíolos apaixonados pelo jardim dos arciprestes, sabes? Falamos sobre isso, lembras-te?


Não, não...


Morreu.


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 3 de Março de 2015


 

...


20.02.15

Desenho_A1_050.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


E a doença sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,


Sinto-me... um suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata, e sapatos de ponta delgada,


Faltam-me as tuas mãos, mãe,


Café?


Viajo na tua saia e percebo que não temos regresso, regressar é um suicídio sem palavras, uma carta escrita, os motivos da tua ausência, as faltas da tua presença na Igreja, sinto-me quando abres a janela do quarto e tenho a certeza que estou vivo,


Bom dia, mãe...


Meu querido filho!


O livro cresce nas ardósias cinzentas da memória,


Que és enigmático, meu filho...


Que sim, minha mãe,


Que sim,


Telefonaram da Rua dos Mendigos?


Para mim, mãe?


A cidade embriagada nas sandálias do pescador, o mar, sempre o apaixonado mar, a paixão azul, do azul literário e poético...,sabes com é, mãe,


Pois,


Sei que semore sonhaste comigo,


Eu?


Sim, tu, mãe,


Quando dizias que aos três anos de idade já voava...


 


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015


26.01.15

O frio entranhava-se-lhe nos ossos fictícios de pequenas partículas de desejo, António inventava fogueiras no olhar, esfregava as mãos como se de um reza se tratasse, mas não, a rua deserta deixava-lhe suspenso nos ombros um fino silêncio de noite, imaginava vãos de escada em cada esquina, desenhava na geada pequenos quadrados, depois, de pé ente pé saltitava como a queda de uma folha,


Um cigarro adormecia-me a alma, reclamava ele quando dois adolescentes se abraçaram a ele


E ele?


Incrédulo,


Vocês. Aqui?


Sim, pá, nós aqui,


António florescia, António corria calçada abaixo até ao rio, sorria... e regressava,


Não,


Não acredito que os meus irmãos estejam aqui, comigo, só nós,


Não,


Um cigarro, tem lume? Que não, que não,


Vocês aqui...


Meus Deus, tanta solidão, frio, fome...,


Foste tu que quiseste, ou não?


E António fulminava o irmão Miguel com as pálpebras inchadas,


Eu é que quis...!


Quase como lâminas afiadas, depois, o acordar da cidade, os primeiros automóveis do dia, depois os últimos bêbados da noite, e depois


Não, não acredito,


Os Primeiros cheiros de Lisboa,


O fumo argamassou todas as palavras... Meus Deus, vocês aqui...


 


 


(…)


 


 


(Texto ficção)


25/01/2015


Francisco Luís Fontinha – Alijó


25.01.15

Desenho_A1_17.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Trazíamos no corpo as feridas da luz,


havia silêncio nos teus olhos


e na pedra fulminante da paixão,


tínhamos nas estrelas o cansaço das palavras


roubadas do jardim sem coração,


desenhávamos o amor na areia fria da insónia,


como se houvessem lençóis de prata nos teus ombros...


equações,


geometria invisível galgando a ardósia da tarde,


e sabíamos que o suicídio do amor


aconteceria um dia,


como acorrentadas mãos a uma caneta,


uma corda em lágrimas imaginada pelo abstracto objecto das arcadas envergonhadas,


as rochas frias que alimentavam o desassossego do poema,


e nos teus braços...


as sílabas que sentiam as tristes pontes metálicas


e os animais enraivecidos,


trazíamos no corpo as feridas da luz,


o poço da morte iluminado pela tua pele em pedaços de suor...


o desejo de ti quando lá fora alguém gritava pela alvorada,


e não tínhamos horário para navegar nas ondas secretas do mar,


vadiávamos a cidade,


comíamos sombras de nada...


e amávamos a literatura.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 25 de Janeiro de 2015


15.01.15

Pintura_62_A1_Nova.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Que faço a estas flores...


se tu, se tu já não existes,


voaste em direcção ao Tejo,


suicidaste-te na Calçada da Ajuda,


sem ajuda nenhuma,


sem perceberes que habita na noite o amor,


a literatura, a poesia,


e a pintura...


que faço, meu amor,


a estas flores de névoa, a estes silêncios sem horário,


que faço a estas flores...


diz-me...


diz-me por favor,


e a pintura,


se tu, se tu já não existes,


e agora, e agora és uma flor sem leitura...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015


 

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