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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


22.11.22

Trazes nos olhos

O doce mel do mar

Que em teus lábios de fina madrugada

Dançam as andorinhas da adornada Primavera

Que na tua boca inventam o beijo,

 

Que no teu corpo

Menina em marítima lágrima de sono

As minhas mãos escrevem

O poema em construção

Do desejado Deus em oração,

 

As flores que transportas nas mãos

Do silenciado sorriso do centeio

Às pobres pedras da calçada

Onde danças

E brincas menina cansada,

 

E sorris à alegria janela

Que a manhã semeia e levita

Nas árvores envenenadas da paixão

E as nuvens poéticas em pérfidos luares

Poisam nas tuas coxas de ribeira acoitada,

 

É a tua voz que se liberta desta lareira

E em cada pedacinho de insónia

Diz-me ao ouvido

Que o doce mel que trazes do mar

São os sonhos que escreves no meu peito.

 

 

 

 

Alijó, 22/11/2022

Francisco


13.11.22

Visitas-me enquanto ardem na lareira os pequenos pedaços de sono, na parede da sala, as minhas mãos envenenadas pelo mar salgado da infância, olham-te, e percebo que me morres a cada mínimo cansaço da manhã,

Curiosamente,

O vento leva-te de mim à velocidade de um simples olhar,

E olho-me no espelho silenciado das palavras que sobejam das janelas entreabertas e que nos transportam para as noites de paixão.

Define-me paixão.

Uma pedra preciosa nas mãos de Deus.

Não percebi, mas acredito que o mar começa a correr para as montanhas e que os pássaros que poisam sobre as árvores são apenas sombras em papel.

Um olho de vidro, come-nos, como nos comeu a serpente que todas as manhãs de Primavera entrava em nós e nos libertava da escuridão,

A escuridão dos teus lindos olhos de pequenino incenso,

Abro-te e beijo-te, enquanto me aprisiono às cortinas de espuma que o mar trouxe e que voaram sobre o teu cabelo,

Sou omnipotente,

Enquanto me mato desta janela de vidro,

Oiço-te,

E beijas-me.

Então, sabendo que sou um crucifixo de medo, que transporto nos braços as algemas da timidez, beijo-te, e dos meus olhos pincelados de mar, transformo-me num barco que beija, transformo-me num barco que ama, transformo-me num barco que arde nos teus lábios,

Como assim, barco?

Um barco que foge da multidão,

Sentindo o medo de que esta lareira em paixão se extinga, e que sendo um barco, a luz diáfana da madrugada me embriague e me leve para ti, como esse pedaço de só que suspendes na parede nua de uma sala nua de uma madrugada nua de um corpo nu,

O teu corpo, mergulhado nos meus dedos.

Beijo-te.

Beijas-me e foges,

Enquanto tenho na algibeira a pobreza e a melhor das riquezas,

Os meus olhos, meu querido?

E pergunto-me,

O que têm os teus olhos que os meus olhos não têm?

A paixão,

E que Deus nos perdoe,

Como dizem que perdoou,

Enquanto os meus lábios mapearam cada milímetro quadrado do teu corpo travestido de seda púrpura e lantejoulas envergonhadas,

Em que pensas, meu adorado barco de insónia?

Nas metades da laranja dos primeiros dias da semana,

E o fogo inventa em ti as pobres migalhas que o pão deixou sobre a mesa, a mesma mesa onde descobriste que as minhas mãos eram apenas poemas incendiados numa qualquer lareira que traziam os teus braços ao meu pescoço, e

Como assim, barcos de ninguém?

Sem nome, sem identidade, sem palavras e sem destino

O sonho?

Porque são frias as manhãs dos teus lábios, meu amor?

E porque choram, sim, e porque choram as nuvens do teu cabelo?

Uma avenida engalanada sempre que chove e sempre que chove,

Sem destino,

Este pobre menino de porcelana falsificada pelas mãos do artesão que traz no peito os cigarros da noite anterior e que tal como o barco

Arderam em ti como camuflados cinzentos que o orvalho deixa nas escadas de acesso ao sótão.

Visitas-me enquanto ardem na lareira os pequenos pedaços de sono, na parede da sala, as minhas mãos envenenadas pelo mar salgado da infância, olham-te, e percebo que me morres a cada mínimo cansaço da manhã,

Curiosamente,

Olho-me nessa parede de sono,

E acredito,

E sei;

Sou apenas eu, o tímido e envergonhado marinheiro de uma Lisboa mergulhada no falso oiro, nas falsas palavras, nos falsos apitos em triste tesão

Como um cacilheiro de cigarro na boca à procura de engate,

Entre os parêntesis dos teus seios,

As minhas mãos erguidas para Deus.

Oiço-te.

Porquê?

 

 

 

 

 

Alijó, 13/11/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


02.11.22

Oiço esta lareira em desejo

E sei que aos poucos

Ela morre

Tal como morrem

Todas as palavras que escrevo

 

Oiço esta lareira que sofre

Quando um pedaço de madeira

Invisível

Brinca

E espera que eu a acaricie

 

E quando coloco a minha mão

Sobre o seu cabelo

Esta lareira onde ardem as minhas palavras

Cerra os olhos

E olho-a enquanto se extingue na noite de ninguém

 

 

 

 

Alijó, 02/11/2022

Francisco Luís Fontinha


15.10.22

São estas as palavras que te vou deixar,

São estas as cinzas das palavras incendiadas

Que te vou deixar, quando partir.

Também te vou enviar

As cinzas dos quadros que vou queimar,

E depois de encaixotar,

Enviar,

Ao destinatário,

 

São estas as palavras que te vou deixar,

Depois de lhes retirar o veneno,

São estas as palavras,

As minhas palavras…

São estas as palavras de matar,

Matar o fogo que se liberta destas mãos,

Que escrevem,

As palavras que te vou deixar,

 

E enviar.

São estas as palavras que te vou deixar,

E semear,

Na terra que nunca foi minha,

Que nunca será minha. São estas as palavras,

As minhas tristes palavras,

Em pedacinhos de cinza,

E orar; amém.

 

 

 

Alijó, 15/10/2022

Francisco Luís Fontinha


19.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Os últimos cacos de ti desaparecem nas amoreiras virgens dos telhados de colmo


a dor inseminada que sentiam as tuas dúcteis veias habitam hoje nas janelas de mármore


e durante a noite


a mão solitária da insónia rouba o mar que se ouvia das janelas de mármore...


sinto-te neste momento em finas placas de poeira


inventas o vento para que os teus despojos sejam selvaticamente levados para a montanha


uma ribeira alegremente chora


e no teu rosto de cacos


as pequenas lágrimas de cianeto que invadem o teu doce sofrimento


hei-de ser uma lareira acesa na tua mão de porcelana


um livro em forma de chocolate...


hei-de ser um dos últimos cacos de ti.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 19 de Janeiro de 2014



15.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perceber o fogo do corpo em suspenso


aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas


escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo


não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda


perceber que o homem arde


fervilha


e dorme no colo de outro homem...


ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel


vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem


e fervilhas


como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...


porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.


 


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014



25.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada


o livro da colegial dorme como uma criança cansada


o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo


e este


às vezes como um poço sem fundo


também como a colegial


sem nome


voa sobre as praças com candeeiros de prata,


 


Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada


e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva


dos orgasmos fingidos


que a colegial também esconde


não na madrugada


não no corredor da morte...


mas... mas esconde-os na alma do Diabo


como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,


 


A colegial é transparente


é imóvel


saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou


ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer


despe-se para o espelho...


a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco


perplexa


descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013


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