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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.05.11

Pela janela vejo uma rosa amarela que sobre a água imaginária do rio dança na espuma do fim de tarde, diz-me adeus, e dos seus lábios crescem nuvens cansadas e quase a desfazerem-se em lágrimas, um carro aborrecido no parque de estacionamento espera e desespera, e deita fumo pela boca, e a rosa amarela aos poucos levada pela corrente do vento, dentro de mim, dentro de mim o cortinado mistura-se com as dezanove horas e quero que o relógio adormeça, e fique suspenso no fim de tarde, mas o relógio não me obedece, e caminha loucamente em direcção à noite.


 


Ele no fim de tarde corria no campo de centeio junto à casa, escondia-se na sombra de um casebre abandonado, e deitado junto aos alicerces envelhecidos pegava numa pedra e começava a escavar na terra húmida, acabava de chover, e na terra as camadas de silêncio começavam a transpirar, tinham febre, tossiam, e da boca escorria uma substância mucosa, mais parecendo palavras emergidas em água, ele às voltas da estátua da Maria da Fonte, e hoje, hoje dizem que um centro comercial se ergue até à lua, como ela está diferente, a cidade


 


- e a cidade em vogais desconexas chama-me e grita-me, e quero ir, e eu vou, eu vou à procura do meu triciclo que dorme no meu quintal, eu vou, eu vou pegar no cordel que deixei preso no portão do meu quintal, e lá bem alto, lá bem alto o meu papagaio de papel à minha espera, e tenho medo que ele já não se recorde de mim e me tenha esquecido, eu era tão miúdo, eu era tão menino…


 


Pela janela vejo uma rosa amarela que sobre a água imaginária do rio dança na espuma do fim de tarde, a claridade do dia começa a fundir-se no espelho do meu quarto, e dentro do guarda-fatos procuro as minhas mãos, e sem elas não consigo pegar na rosa amarela, tocar-lhe na boca, e não as minhas mãos, as minhas mãos em cima da mesa-de-cabeceira à minha espera,


 


- eu era tão miúdo, eu era tão menino, e tenho medo que a cidade me tenha esquecido enquanto eu envelheço ao som da neblina, ela à minha espera,


 


à minha espera a contar os carros que correm em direcção ao Grafanil, perco-me na contagem, eu era tão miúdo, eu era tão menino, e eu mal sabia contar…


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


20 de Maio de 2011


Alijó


18.05.11

Em mim não amanhã, não a certeza se chegarei a logo e olhar o fim de tarde junto aos barcos, sentar-me no silêncio e esperar…


Esperar o quê?


O que posso eu esperar do amanhã se nem a certeza tenho de conseguir ver o logo, e depois, e depois ainda tenho o tormento da noite.


Em mim não amanhã, não nada que me construa um sorriso, em mim apenas os meus braços enrolados aos cortinados do agora, olhar-me pela janela da solidão e esperar, esperar sentado junto aos barcos.


 


 


Luís Fontinha


18 de Maio de 2011


Alijó


17.05.11

O dia ainda a meio


E eu farto dele


Chove


Não chove


 


E sinto dentro de mim


O cansaço do dia


Que nunca mais termina


 


O dia ainda a meio


E nos meus braços silêncios


Os ossos em desassossego


Que esperam a noite


 


A noite longe


As horas suspensas na parede da sala


E na rua os pássaros contentes


Na rua chove


 


Não chove


Vai chovendo na minha janela


Sem vista para o mar…


E o mar tão longe


 


A noite longe


O dia ainda a meio


E eu farto dele


E eu pendurado na manhã ensopada


 


E eu sentado numa cadeira


A olhar o mar que espera por mim…


Sei que ele vem


Ele vem ter comigo quando a noite acordar.


 


 


Luís Fontinha


17 de Maio de 2011


Alijó


30.04.11

Dentro de mim crescem poemas


Como os silvados da montanha


Rio que corre apressadamente


Entre os socalcos de xisto


 


Na humidade da madrugada.


Os poemas em mim


Saltitando de fresta em fresta


Ou adormecidos no espelho do guarda-fatos


 


À espera que a minha mão


Lhes dêem vida


Nos meus cansados braços


Quando me sento no parapeito da janela


 


E sem forças para me lançar


Voar.


Dentro de mim crescem poemas


Como os silvados da montanha


 


Ou as gaivotas à beira mar


Com a cabeça enterrada na areia


De asas estendidas ao vento


Esperando a chegada da maré.


 


 


Luís Fontinha


30 de Abril de 2011


Alijó


29.04.11

Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, hoje não jantar, três ovos e uma alface, um copo de água e de sobremesa um poema de Cesariny, podia ser pior, ele triste e melancólico à janela a ver passear o mar entre os candeeiros da rua, e do jantar fica a saudade do Mário, o eterno louco, o apaixonado Mário Cesariny.


- Porque poisam as gaivotas na minha mão…


Porque poisam as gaivotas na minha mão se eu sem mão, eu apenas entalado entre três ovos e uma alface, coisa pouca, coisa nenhuma, um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros…, três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário pregado na parede ao lado de um crucifixo esquecido pela poeira da maré, quando sobre a janela poisa uma gaivota com cio, e a gaivota em gemidos abafados pela noite,


- porque poisam as gaivotas na minha mão.


Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, o relógio hoje encalhado nas oito horas, nem ata nem desata, tipo cordões de sapatos quando enrolados em beijos suspensos nos lábios, e os sapatos em corrida apressada rumo ao areal, o areal longe, o mar aqui, debaixo da minha janela, debaixo das gaivotas, à espera,


- porque poisam as gaivotas na minha mão,


E eu sem mão, ontem comi a minha mão, e ele e ela, ele sem jantar entalado entre três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário coitado, feliz, deitado, adormecido junto ao mar…


- Porque poisam as gaivotas na minha mão…


Um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros, e o mar à minha espera para me engolir durante a noite e eu à espera do mar para me encontrar com o Mário Cesariny.


 


 


(texto ficção)


Luís Fontinha


29 de Abril de 2011


Alijó


28.04.11

Amor que se encosta à janela


Nos cortinados de renda púrpura


Os lábios da manhã à espera


Da minha boca em secura


 


Numa árvore o meu corpo pendurado


E nos meus ossos a brancura


Que do meu coração cansado


Despede-se a manhã com ternura.


 


 


Luís Fontinha


28 de Abril de 2011


Alijó


21.04.11

O crucifixo pendurado na parede do quarto olha-me como se eu fosse um criminoso, malfeitor, impostor, olha-me como se eu fosse uma sombra pendurada na ombreira da porta virada para o mar, o meu corpo sobre a cama com suspensão das funções vitais, dois quadros olham-me e trocem o nariz à minha cara de parvo, à minha cara de incredulidade porque da janela via o mar, e das duas uma, ou a janela estava ao lado da porta, ou,


- ou eu estou a ficar louco


Ou o mar dá a volta à minha casa, a minha casa dentro do mar, e por essa ordem eu conseguiria ver o mar da janela e ver o mar da porta, e a janela e a aporta, em sítios distintos, opostas uma à outra, e


- O crucifixo pendurado na parede do quarto olha-me


E eu detesto, não gosto, e eu fico muito chateado com o olhar de um crucifixo que sempre me lembro de ver naquela posição e que desde miúdo está ali pendurado como se fosse um retrato de um falecido, quando o mar me rodeia eu fico em silêncio, chamo as gaivotas à minha mão e na minha mão poisam cansaços da noite, e da noite


- dois quadros olham-me e trocem o nariz à minha cara de parvo, dois quadros e um crucifixo, e finalmente percebo que não estou só dentro da casa rodeada pelo mar, eu na companhia de três fantasmas pendurados na parede,


Eu chamo as gaivotas à minha mão, e na minha mão começa a acordar o sono, viro-me para o lado, lentamente fecho os olhos e espero, espero que o sono tome conta de mim.


 


 


(texto de ficção)


FLRF


21 de Abril de 2011


Alijó


20.04.11

Hoje nas lágrimas das nuvens


Vi os teus olhos que me chamavam


E dos teus lábios em silêncio


O sol espreitava-me


 


Como se eu fosse uma janela


Suspensa na fachada do meu corpo


Entreaberta sonâmbula na noite…


 


(Hoje nas lágrimas das nuvens


Vi os teus olhos adormecidos no meu peito)


 


Entreaberta e virada para o mar


As lágrimas das nuvens que me irritam


O sol quer brilhar…


Os pássaros nas amoreiras gritam


 


E as lágrimas das nuvens vieram para ficar.


 


 


FLRF


20 de Abril de 2011


Alijó


18.04.11

Que faço eu neste espaço exíguo e sem janela


Longe do mar


Que faço eu nesta terra


Sem flores para amar


 


Dos meus braços em angústia


Adormecerem-me as mãos convexas


Pintam-se-me os olhos na madrugada


À espera da manhã primavera


 


Que faço eu sem janela


Neste quarto angustiado


Sem vista para o mar


Cansado do silêncio da maré…


 


Que faço eu neste espaço exíguo e sem janela


Longe do mar


 


Longe da terra


 


Distante do meu jardim de malmequeres.


 


 


 


FLRF


18 de Abril de 2011


Alijó

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