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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.02.16

As quatro esferas de quartzo


Desalinhadas na estrada da insónia


A simplicidade do silêncio mergulhada no meu corpo


Até que ele cai no poço da alvorada


Não sinto nada


Sou indolor


Como as manhãs de Inverno


Recheadas pelo sono da madrugada


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016


16.02.16

Debruçávamo-nos sobre o poço da insónia junto ao quintal,


Sabíamos que tínhamos uma viagem para alimentarmos a alma,


E nenhum de nós se aventurou,


Olhávamos os sorrisos da morte…


E os pregos do inferno,


Estávamos acorrentados ao desejo


Como duas loucas gaivotas poisadas no mastro de um barco,


Flutuávamos no infinito da solidão


Sem percebermos que do outro lado do rio


Um cais nos esperava,


Cordas,


Âncoras de amanhecer com odor a nostalgia,


O silêncio das garças embainhado nos nossos corpos suados


Como bandeiras por hastear…


Baloiçando o amanhecer,


Comendo pedacinhos de sol e algumas flores adormecidas pelo frio,


Tínhamos na algibeira o rochedo dos sonhos


Que todas as manhãs nos acordava,


Tínhamos nas mãos as pétalas em papel dos lábios de uma cegonha,


Envergonhada às vezes,


Atrevida, outras,


Debruçávamo-nos sobre o poço da insónia junto ao quintal,


E assim ficávamos até voarmos em direcção à montanha…


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016


13.02.16

A noite desesperada


No labirinto da palavra


Todas as flores do teu jardim


Assassinadas pelo coração do poema


Absinto


O mínimo tempo consagrado aos insectos


Que poisam no teu olhar


Imaginávamos o silêncio


Nas treliças da saudade


Sempre em desespero


Neste labirinto de espuma


Camuflada pelas mandibulas do cansaço


O louco sorriso


Nas avenidas do sofrimento


Que absorvem a cidade do medo


O teu corpo disperso na escuridão


Descendo do luar


Até à minha mão


(A noite desesperada


No labirinto da palavra


Todas as flores do teu jardim)


Mortas


Trémulas segurando uma velha esferográfica


Escrevia em ti o sentido lapidar da timidez


Como um rochedo de insónia


Navegando no Oceano


A morte


Vivida a cada segundo de luz


A morte


Vivida a cada milímetro de tristeza


E voava nos teus braços


E voava nas tuas coxas


Até adormecer junto ao mar


A noite


O labirinto da palavra


Despedindo-se das uniformidades da sentença escrita


Morte


Até que as lágrimas se transformavam em flores assassinas


O dia inventado nas pequenas limalhas do desejo


Acordávamos sobre os lívidos secretos da angústia


E terminávamos nos limos do corpo


Desejado


Indesejado


Do corpo


No corpo


Do majorado envenenado


Observávamos as gaivotas construídas no papel pelas mãos do pôr-do-sol


E nada mais tínhamos nas veias


Apenas sangue sofrido


E pedacinhos de areia…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sábado, 13 de Fevereiro de 2016


08.12.15

O tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Converso com um invisível copo de uísque


Recordamos os momentos passados junto ao Tejo


O embriagado soldado


Subindo a Calçada da Ajuda


Com o Doutor Vijago debaixo do braço


Não sei se o tempo me quer


Ou se eu quero o tempo


Estou só


Aqui


Neste convés sem janelas


Neste mísero abraço


Aqui


Estou só


Converso com todos os fantasmas da noite


Reparo que um deles odeia-me


É tão fácil odiarem-me


Aqui


Olhando o sonífero luar nos términos da insónia


Sou pobre


Nada telho para te oferecer…


Apenas beijos e livros


Coisas insignificantes


Sem destino


Quando menino dormindo na sombra das mangueiras


O musseque fervilhava de paixão


Havia sexo


Orgias


Orgasmos


E gemidos


África é um Paraíso


Sem nome


Sem morada física


Como eu


Aqui


E só


Escrevendo parvoíces


Coisas que ninguém lê


Palavras


Palavras


Palavras do Diabo


Sem dono


Sem ser amado


A felicidade acorda nos teus lábios


Framboesa das manhãs sonolentas


Dos castiçais amedrontados do templo do amor


As aventuras das crianças pretas meus irmãos também


A morte regressava-lhes de vez em quando


E sorriam


Cantavam


Beijavam-me como se beijam os Coqueiros nas fotografias


E o tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Só…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 8 de Novembro de 2015


29.11.15

Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


Sento-me e espero o regresso do teu olhar


Que vem do outro lado do Oceano


Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados


Trazes-me a voz e o desejo


E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim


Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade


Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados


Espera-te junto a um portão imaginário


Entras


Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face


 


Não tenhas medo do mar


Nem dos barcos invisíveis


Não tenhas medo das árvores


Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras


Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria


Depois vais conhecer o amor


E a paixão de amar


E a solidão do amanhecer


Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…


Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


31.10.15

Diz que disse sem o dizer


Dizendo que eu era um monstruoso esqueleto com asas


Que voava enquanto todos dormiam


E que tinha uma cidade só minha


Diz que disse sem o dizer


Dizendo


Mas disse-o


Esquecendo


Que eu voava nas noites de insónia


Que era monstruoso


Que tinha alergia aos rochedos da solidão


Não o dizendo


Disse-o


Um dia


Nos meus lábios


Emagrecidos


Pobres


Descarnados pelo veneno da madrugada


Que só o Inverno consegue abraçar


Diz que disse sem o dizer


Dizendo


Que um dia


Qualquer dia


Eu


O esqueleto monstruoso com asas


Ia morrer


Sem o saber


Dizia-o


Que disse


Sem o dizer


Inventando-me sonhos que eu não queria


Nem dormia


Com medo das suas garras de chocolate…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Outubro de 2015


22.08.15

Pedido nesta avenida


Recheada de cacos e velharias,


Mendigando palavras,


Fumando cigarros imaginários,


Perdido,


Achado,


Escrevendo no teu rosto poemas envergonhados


Que só tu


Consegues perceber…


A vida parece um carrossel enferrujado,


O teu corpo fundeado no meu peito


Como se fosse uma serpente de tristeza,


Perdido,


Achado,


Na algibeira alguns sorrisos de riqueza…


Mas tu sabes que nunca quis ser rico,


Mas tu sabes que nunca quis ser nada…


Apenas me apete estar qui,


Sentado,


À tua espera…


Como um barco que regressa do Ultramar


Trazendo gaivotas


Caixotes poucos…


E recordações em pedaços de papel,


Perdido nesta avenida


Recheada de insónia


E sonhos inventados por uma criança,


Hoje, hoje aqui sentado…


Espero-te sem saber se vens


Ou se pertences às lápides da madrugada,


Não me importo com as fotografias rasgadas


E deixadas nos braços do vento…


Perdido,


Achado,


Aqui… como um rochedo sem coração.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 22 de Agosto de 2015


24.07.15

Não tenhas medo, meu querido,


Do túnel das amoreiras,


Da paixão da noite,


Dos pássaros da alvorada,


Das madrugadas sem janela,


Amo-te como amam todos os rios as pontes invisíveis,


Como amei a montanha do corpo sem destino,


Ao entardecer,


A insónia mergulhada nos teus ossos,


Desapareces das velhas fotografias,


Como o vento desaparece na solidão…


E os veleiros sem nome… dormem no profundo sono das cidades geométricas.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/07/2015


10.06.15

Saberei quem és


Meu amor hipnotizado?


 


As flechas de desejo


Que arremessaste contra o meu peito,


Os dias e as noites e as noites e os dias…


Esperando que acordasses da insónia,


Sem jeito de me amar,


Deitava-me no mar


E dançava na sombra do teu olhar,


Castanho engano,


As tuas mãos desfocadas no meu rosto,


 


Saberei quem és


Meu amor hipnotizado?


 


Pára de me escutar


E me de lançares pedras de nada


Contra o meu coração infinito,


Perdão meu amor…


Faminto,


Delirante cansaço nos teus beijos desnorteados,


A janela sangrando os beijos do cais da solidão,


Abutres mentes,


Abruptos momentos sobre o teu corpo de papel,


Meu amor…


 


Saberei quem és


Meu amor hipnotizado?


 


A inocência,


Em ti,


De ti,


 


Dormes em mim,


 


Assim…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 10 de Junho de 2015


04.04.15

A barca desgraçada


Recusa-se a regressar


Inventa palavras


Desenha gemidos nas pedras


Vãs


E cansadas


A barca


Não


Sabe


O horário da morte


Finge dormir debaixo de uma lápide


De espuma


Canta a cidade


Os húmidos sorrisos da madrugada


A barca


Desgraçada


Recusa-se


Regressar


Aos teus braços


Ao teu corpo


Noite


Cama


A janela enclausurada nas tuas mãos


Mão


De veludo


As cabeças dos ventrículos de vidro


Nas fretas da insónia


Há sonhos


Há… há um esconderijo no teu peito


Os olhos te prendem


E não consegues liberta o sofrimento


Adeus


Ontem


A mão


De veludo


Recusa-se


A beijar-me


O vício curvilíneo dos telhados de zinco


As crianças lançando bolas de farrapos


Em chamas


Balas


A espingarda do silêncio


PUM…


Nas camufladas salas de jantar


O cadeirão sem pressa para descansar


Cerra os prateados ombros


Deita-se


Deita-se nas linhas transversais do infinito


Não


Espero


Nada


Teu


Olhos


Mãos


Mão


Não



Suicídio nas tuas coxas


A claridade dilui-se docemente na tua boca


Finas


Cores


Da tela em supérfluas marés de medo


O sono


E a alma de não ter alma


Desamadas


As flores do jardim do último beijo


A última carícia do teu perfume


As calças de ganga


Sentadas no cadeirão em fuga


E depois de terminarem os cigarros


Nada


Hoje


Finjo e fujo


Saltando o muro dos teus lábios…


E nos teus lábios


STOP


O vermelho semáforo envenenado na tua pele


Os pregos


Os sítios obscuros do teu corpo


Dançam e cantam


Hoje


Não


Mão


Mãos…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 4 de Abril de 2015

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